Zeh Gustavo: NO BEIJO DE UMA ASSOMBRAÇÃO: a nebulosa encruza da finitude com a dobra-sobra do eterno

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


“Permita, amor, que eu viaje às suas mãos…” — Hart Crane dá o tom inefável do último RelevO. Não intentaria um impresso, ou um livro, ou um coração partido, empreender senão uma mesma e repetidamente inédita, e necessária, viagem de afirmação da vontade de alcançar o belo, o que nos deveria governar e do qual deixamos, sorrateiros desistentes, de falar? Ou há perdida essa capacidade demasiado humana de entrever, no precário instantâneo do existir corrente, aquilo que sugere permanência, assim como jazem, perdidos no tempo do Onça (um detestável governador do Rio Império, nos 1700!), os luares amplos que a cidade engoliu com seus faróis ceguetas?

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A diferença da viagem de fruição do jornal impresso para a do amor é que, embora absolutamente datados, diria, em tese, ultrapassados pelos atropelos do tempo da afetividade não afetável, o primeiro ainda se deixa pegar pela mão pouco antes de servir ao pipi do pet, enquanto, do outro, mal se nota o indisfarçável aceno de um adeus, rumo ao Bumble ou mesmo à adesão intelectualoide a alguma bobagem da vez.

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Ambientação, a sacada do Enclave para elucubrar sobre por que certos filmes nos pegam e outros não, diz também de por que tomamos tanto remedinho e nos sentimos tão sós, neste hodierno. Ambientar(-se) dá uma obra danada. E que merda! — exige reconhecimento do outro como complexo enérgico de tipo vário ao seu. O outro é nosso negativo fundamental, por excelência, para que haja nós.

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Anda faltoso, para com a gente, o tal de eterno. Ou nós para com ele, dá na mesma. Ainda que se trate, em tom viniciano, de um eterno enquanto dure.

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No Apocalipse Imbecil de Toninho Pirassununga e Robert Esponja, “filmes supostamente adultos para histórias supostamente infantis vieram para ficar”. Se esse roteiro também é seu, se apresse para buscar seus royalties! Pois, do influencer de comida de rua ao turista profissional, a idiotia disfarçada de erudição é o melhor cobertor para a falta de assunto e propósito na vida. Logo, a concorrência é grande, pense bem.

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Não se tocam trombetas, nem mesmo musiquinha de celular, na beira da hora que fica. O tempo passa, o tempo voa — sobretudo pra você que ainda lembra dessa peça publicitária.

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Canta Silvio Rodriguez, em dada canção-pintura (Óleo de una mujer con sombrero), que vislumbramos uma luz que vacila e que promete nos deixar às escuras, se é perdida esta bela loucura — a nossa forma de amar. Na encruza de qual ela seja, essa forma, tomamos decisões. Devemos topar determinado trabalho ou viagem? Ir ou permanecer, donde estamos? E ao lado de quem? Na nossa balança de juízos, fechamos com o opressor gentil, em sua empáfia histórica ao comprar os direitos de nossa alma; ou com o suprimido que, mesmo sangrante, nos oferece — e também dá, de bandeja — sua não ociosa mão calejada?

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Ao contrário de mim — ou a favor, dependendo do ângulo — e talvez das evidên$ias, o Editorial nos afirmou haver, em curso, uma revolução silenciosa do impresso — e, por extensão poético-licenciosa minha, das velhas boas coisas imprestáveis, que jamais deveríamos deixar de cultuar.

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Sobre a citada luz — mesmo que vacile, ela está lá. Ou seja, aí. E ainda Crane: “Luz se atracando sem descanso, lá, com luz, / Estrelas se beijando, onda a onda, até / O embalo do seu corpo!”.

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A eternidade, ela pode nos escapar entre os dedos, sem meu pé me dói, como diziam os antigos; e sem sequer mais que um lastro no mar, se é perdida a cara forma do verbo — intransitivo, como nos ensinou Mario de Andrade — que nos é mais precioso.

*

Pode até parecer chato, mas olhe melhor: a razão do eterno é bem sexy!

Queremos ser a Bladnoch (antes da venda ou depois também)

Editorial extraído da edição de novembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A Bladnoch, da região de Lowland, na Escócia, é uma pequena destilaria localizada perto de uma aldeia (e rio) de mesmo nome nos arredores de Wigtown, cidade a umas três horas de Edimburgo, famosa pelas suas livrarias, que olham de frente para a Irlanda do Norte. É a destilaria mais ao sul da Escócia. A população estimada de Wigtown é de 1.000 pessoas, um pouco menos que o número de assinantes do RelevO.

A destilaria surgiu em 1817. Ficou nas mãos da família que a fundou até 1938, indo parar, então, numa prateleira baixa da United Distillers, atual Diageo, conglomerado de marcas que engloba a Johnnie Walker (e o Red Label…), a vodca Smirnoff, o gin Tanqueray e a cachaça brasileira Ypióca. A Bladnoch foi fechada em 1993. A partir daí, houve um interessante ponto de virada.

Em 1994, o topógrafo e desenvolvedor de propriedades Raymond Armstrong, nascido na Irlanda da Norte, comprou a propriedade com vaca, carneiro, destilaria desativada e tudo. Originalmente, ele buscava apenas uma casa de férias. Pois faremos uma coloração narrativa e presumiremos que os deuses do uísque tocaram o coração de Armstrong, que não tinha relações com a indústria de destilados até então.

Assim como Truman Capote intuiu os pensamentos do assassino de A Sangue Frio, entendemos que Armstrong passou a compreender o que a destilaria significava para a comunidade local, reconsiderou seus planos originais e passou a trabalhar na reforma do espaço para reativar a marca. Essa atitude – pois veja – incomodou a Diageo, que havia enterrado quase 200 anos de história pelo fato de a destilaria não ser lucrativa para o grupo.

Após divergências entre a antiga firma e o novo proprietário, estabeleceu-se que a destilaria poderia retornar com um teto baixo de produção, o que, para a estrutura histórica, não foi exatamente um problema. E assim a destilaria retornou ao mercado, pequena e aparentemente desimportante para a história do mundo, mas certamente não para o povoado de Bladnoch. Trata-se de um uísque especialmente agradável, recomendado até para beber com sobremesa.

Mas não paramos por aí. Um desentendimento entre Armstrong e seu irmão sobre a venda da destilaria acabou levando-a à liquidação em março de 2014. Em agosto de 2015, o empresário australiano David Prior comprou a destilaria, os armazéns e o charmoso centro de visitantes, bem como os estoques produzidos entre 2000 e 2009 por uma quantia não revelada, criando uma nova empresa, a Bladnoch Distillery Ltd., que mantém o mesmo espírito da destilaria. Ela se orgulha de ser a “menor” destilaria da Escócia, título que a Edradour também disputa. A empresa continua tecnicamente pequena, mas agora conta com uma rede de distribuição maior e um portfólio mais amplo de produtos.

O que a Bladnoch teria a dizer sobre a “indústria” de jornais impressos de literatura a partir de sua tumultuada história de vendas e aquisições? E qual seria o benefício de disputar para ser reconhecido como o menor em tempos de aquisições, holdings, fusões, filiais e franquias? A Bladnoch talvez nos sugerisse que, para manter algo genuíno e de valor, é preciso resistir às lógicas de mercado que achatam a cultura em favor da padronização e da rentabilidade. O uísque artesanal, envelhecido e restaurado por um certo amor à tradição e ao saber local, torna-se uma imagem para a sobrevivência da literatura independente e do Jornalismo cultural. Porém, não sabemos ao certo se resistir ao mercado é exatamente o que queremos enquanto RelevO. Talvez almejemos existir neste mercado.

Cada um desses universos lida com a pressão de se expandir, diversificar, aumentar produção e seguidores, contudo, no fim, o que realmente os torna únicos não é o tamanho da operação, e sim a profundidade da experiência que oferecem – e aqui também ficamos na dúvida se utilizamos o termo “experiência”, tão gasto pelas majors na atualidade.

Tal como Armstrong, que, ao perceber a importância da destilaria para o vilarejo, decidiu investir no projeto com mais dedicação que qualquer acionista distante poderia ter, o RelevO reconhece seu papel na comunidade de leitores que alimenta. E o RelevO também bebe. Ainda que pequeno, por escolha e necessidade, a decisão de ser “menor” é, em grande parte, uma resposta às engrenagens de um sistema que nem sempre reconhece o valor do peculiar e do pessoal, transformando tudo em opacidade linear.

Não há garantias, é claro; os altos e baixos, as vendas e recomeços são parte do processo. Mas a missão de preservar a identidade, mesmo quando isso não se traduz em expansão, é um propósito difícil de defender e explicar quando nos deparamos com os números frios. Com seu produto, a Bladnoch oferece sua interpretação de Lowland; nós, no RelevO, almejamos oferecer um lugar que não sabemos bem qual é, em edições limitadas e longe das grandes prateleiras. Sobretudo distante do Red Label.

Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: ANGÚSTIA, BOSTALGIA, INFETAÇÃO: tudo, mas não necessariamente nesta (des)ordem!

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


eu também tomo café
em uma sala em chamas
só que não é café
é rum eu espero

Matheus Hotz

I
desde as cartas
é que se instaura uma certa primazia
do sistema digestório
na quase ainda possível
comunicação:
abdômen-ritornelo
a gerar um chiado
& pá
& poom
& pés
& zooms!

II
de uma bet
que dela não se reporte
o seu vício fundador
mas a elegância
do patrocínio negado
que subjaz no exercício
de uma das parcas soberanias
que elegemos para levar
as horas
no comércio hodierno
em que nos enfiaram
até a bacia das almas
(inclusos os corpos)

III
uma boa revolução
se faz é com menos quinhentão
na conta
e um sorriso na cabeça

no bolso
uma bússola
desregrada
& um mapa
de alcançar
corações danados
como os nossos

IV
nos dias seguintes
aos tantos poemas relegados
à indiferença presidenta
do conselho do mundo
regido por big techs
é que o ombudsman
rasga o jornal
em rebeldia cega
ele
vocês sabem
adora fazer merda
porque contínuo

contínuo do baixio do palavreado
e de solfejadas sofrências de amor
(contínuo! – gritaria
o pai-empresário escroque
da Bonitinha mas ordinária
aquele que não é solidário
nem no câncer!)

V
um
bando
de
bunda-suja

nunca
seremos
um

rolo

um

rolo

nem
mesmo
de
um
reles
papel
higiênico

VI
parede
ou porta:
qualquer sólido
será esquecido
ao vento
que o levará
ao mar poluído
antes que o que seja
mera performance
possa se tornar
até mesmo
um aviso sequer
de permanência

desde já
esteja proibido
algo que seja
do terreno
da passagem
porventura
se fixar

VII
a pergunta
aos mortos
precisa ser
dirigida
– e digerida –
pelos vivos

porque os mortos
eles não têm
necessidade
de pergunta
não porque já saibam
toda resposta
mas porque já sabem
toda ausência

VIII
o neomoralismo pimpão
é transfronteiriço:
propagandeia
suas bandeirolas
com superioridade
voraz

o neomoralismo pimpão
é chato pra cacete
como a palavra
transfronteiriço
e ai de quem zombeteie
de sua falso-desleixada
mania de nobreza

o neomoralismo pimpão
contém tantas
amarras
quanto a propaganda
de um carro
de um sabão em pó
ou do amor livre
na boca de professor
universitário
em busca de likes
pro lattes

o neomoralismo pimpão
confunde geral
se espalha como brasa
(brasa líquida, claro)
a flertar com o
uso e descarte
de tudo

o neomoralismo pimpão
é o estado da arte
oculto
de quem beija a mão
do opressor
e senta a pua
no suprimido

o neomoralismo pimpão
odeia o que chama de
samba de raiz
amor romântico
escrita elitista
letra difícil
filosofia de botequim
o que pense
política & estética & existência
o que sinta
demais & intenso & visceral

ou seja
o neomoralismo pimpão
odeia toda utopia
que nos possa levar
adiante
sem esse gosto
de rivotril
na boca

IX
para dar bug é preciso
operar o sistema
desde os seus ossos

para dar bug é preciso
jogar não só uma cadeira
mas alguma alma
e em alguém
que tanto a mereça
que viciou em descrer
nessa oferta de tanto

para dar bug é preciso
se jogar na alma arremessada
reconhecer nela
não o alvo
mas o destino
e puxá-la
para dentro
de si

Na falta de um francês melhor, ser guache na vida

Editorial extraído da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


No editorial de setembro, mencionamos a revolução silenciosa do impresso em tempos digitais. Temos alguns motivos para acreditar em uma espécie de reposicionamento do impresso em tempos de adoecimento pelo uso excessivo de telas.

Ao mesmo tempo, tal qual o time pequeno que perde inúmeros gols fora de casa e sai derrotado por 1×0 no final em um lance isolado, fomos punidos pelos deuses do papel-jornal por arriscar tamanho otimismo: tivemos, no mês passado, um dos mais difíceis períodos de arrecadação para o custeio geral da nossa operação.

Diferentemente do impresso, em que sintetizamos um período a partir de textos e entregamos números finais, nossa presença digital acompanha um tanto das oscilações de caixa, do espírito do tempo mais curto, essa coisa do dia a dia mais repetitivo, necessário e desinteressante. Chegamos, e sabemos disso, a exagerar na passada de chapéu —que falta nos faz um sobrenome melhor… E cada novo assinante representa mais um voto de confiança, o que soa ao mesmo tempo simbólico e efetivo. O assinante é quem paga a conta.

Nas edições de julho e agosto, atingimos aproximadamente 95% da meta de arrecadação. Um prejuízo aceitável, do jogo e das oscilações da vida financeira de um negócio de pequeno porte. Então, veio setembro… E o resultado é perceptível na página 2, com o balanço geral da edição. Aliás, no Brasil, somos o único jornal impresso que apresenta publicamente as próprias contas.

E quanto custa, afinal e mensalmente, a operação RelevO? Em torno de R$ 10 mil, puxados, sobretudo, pelo custo de gráfica e de distribuição. O custo de pagamento de autores, além da equipe editorial, não pesa tanto porque, enfim, não remuneramos bem, embora não exista alguém não remunerado nos processos internos do periódico, dos autores aos empacotadores.

Por coisas que poderiam ser explicadas, quem sabe, pela projeção de signo, o editor acumula as funções de curadoria e pagador de boleto — em inglês soa mais imponente: publisher. Ou seja, seleciona textos, com o auxílio do editor-assistente e criador-culpado pelos textos da Enclave; encaminha dúvidas ao Conselho Editorial; conversa com possíveis ilustradores; questiona a resolução das imagens com a gráfica, o corte das páginas, “segue foto em anexo”. Essa é a parte realmente divertida.

E para lidar com tantas oscilações de nascimento & desenvolvimento, o lado B de gerirmos um pequeno negócio para seguir gerando divertimento, contamos com o senso de comunidade do RelevO, essa coisa que, ao longo do tempo, fomos criando, um certo jeito de se relacionar com as coisas que envolvem a escrita, a leitura e a discussão literária. Em suma, nosso senso de comunidade se constrói a partir de um ecossistema de trocas, apoio mútuo e pertencimento em torno de uma palavra ligada na outra, pagando contas e virando páginas.

Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: FAÇA AMOR! FAÇA ARTE! E pode fazer suas merdas também!

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Calma lá, não baixei de coach, ainda sou alguém. E este título se inspira noutro, do Fausto Wolff, de crônica de junho de 1981, n’O Pasquim: “Você não é um merda!”. Nela, Fausto ataca o “complô maquinado (…) para que vocês esqueçam o fim que dá significado à existência de vocês. Um plano para transformá-los em mortos-vivos, sem vontade própria (…).” Em outro momento, incita o leitor a entender que pensava; que sentia; que, afinal, vivia – não era um telefone! E Fausto escreve numa era pré-smartphone…

*

“O silêncio é uma ética.” Anda difícil o ombudsman não citar nossos Editoriais. “As nossas vidas são permeadas por um constante fluxo [tagarela, como o define Adauto Novaes] de informações, notificações e alertas que competem por nossa atenção, fragmentando nosso foco e nos empurrando para hábitos de hamster.”

A tecnologia atual é contrarrevolucionária, reativo-positiva, no sentido de que cria mais e melhor de um mesmo que nos joga para trás. Somos instados a nos superarmos em troca de uma espécie de pseudoeus (inter/super)ativos que nos ocupam o tempo inteiro, sem pausa para o silêncio premente à produção real de sentimento e reflexão.

*

Mas não renunciaremos de todo a nós, certo? As “Nuvens não querem se separar das montanhas. / Vivem assim: em luta eterna para conciliar seus desejos.” O Hino à sedução do tudo, de Adonis, é dos vários pontos altos da última edição. Outro verso, de “Divisórias”: “Você, coisa incompleta, / inicia a perfeição.”

*

Trauma da contemporaneidade: o consenso em torno de uma autovivência condicionada, extenuante, fármaco-dopada, individualoide e precarizada.

*

Outro: o neomoralismo. Camaradagem, toda bundinha já esteve e estará um dia suja. Não se rebaixe à canalhice do lugar-comum de frases como “Não passo pano para…”, porque você passa sim, geral passa pano, toda hora, porque se não passar não tem vida em sociedade. Vivemos de passar pano. A novidade é a escalada preocupante do cancelamento, fantasma onipresente, que habita o mundo do juízo deserto de qualquer razoabilidade, que não dá a menor pelota ao contraditório e ao perdão do erro, que visa a punir sem prazo e muitas vezes nem lei.

*

Que duo formoso a obra plástica de Oli Maia, em que a gente nota cores mosaiculosas num singelo preto e branco; com o “Costume” de Anderson Almeida Nogueira, p. 22-23 (volta lá no mês passado para seguirmos juntos adiante). E aí a gente vira a página e tá lá estampada a letra de um genuíno samba ensinado por Zé Keti e Elton Medeiros: aquilo que “Não fala, meus amigos, de ninguém / Simplificando a história / Não fala de mim também”. RelevO, definitivamente, não é qualquer parede.

***

Isto, obviamente: tal de defender a profundidade, prioridade, preciosidade que é existir, não se trata de o indivíduo se pôr a babar asneira academicuzona ou namastê-afetiva na internet, recomendando (aff!) leveza no relacionamento (ficou demodê falar no seu correlato mais fodão, que seria amor, como trocam fácil arte por diversão numa programação dita cultural) e outras bobageiras graciosas.

Sabe o que é leve? Merda. Sempre boia, no mar. Em suma: faça das suas, mas corra de sê-las.

*

No meu último escrito que talvez tu leias, (re)luto ante teu medo e incidente confusão; ainda e sempre, nos insisto. E, já que urge a vida, que é esta, como a temos e não como gostáramos numa visada de novela ou partida tensa de fuga de rebaixamento boleiro, te grito: mergulha! Que oceano é coisa nossa de não perder de vista, para além. Mergulha logo. Que, no início, a gente bate perna; uma hora até aprende a nadar.

A revolução silenciosa do impresso ou 14 anos da primeira edição

Editorial extraído da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2 de setembro de 2010, o RelevO saiu com a sua primeira edição impressa, oito páginas, preto & branco, formato tabloide, 1000 exemplares de tiragem. A fatura da gráfica: R$ 200. A arrecadação do mês: R$ 200. Gastamos entre R$ 30 e R$ 60 com distribuição, concentrada em Curitiba e Araucária, cidade da RMC que foi a sede logística do nosso periódico por quase 12 anos. Pouco tempo depois da edição #1, adotamos o slogan “Não tem fins lucrativos — porque não consegue”, logo depois destituído em prol do elevado “Qualquer coisa, a culpa é do revisor”.

Na época, observávamos três movimentos regulares no mercado de jornais de papel: (1) o fechamento da versão impressa de diversos jornalões, (2) o aumento de custos de papel e de materiais de papelaria e (3) a migração de leitores para as novas mídias — fenômeno que veio a se alastrar com ainda mais força a partir da portabilidade de internet em celulares. Nosso primeiro anunciante, um proprietário de uma loja de calçados, inclusive, já na terceira edição, perguntou-nos se não era o caso de se tornar digital ou abrir um blog ou um portal de literatura.

14 anos depois, aqui estamos em um cenário que não é exatamente animador, mas se distancia com folga do clima de terra arrasada e de destruição dos produtos analógicos. Inclusive, a terra do eldorado digital passa por sérias problematizações e/ou necessidades de regulação, sobretudo por parte dos pais, que lidam hoje com crianças e adolescentes viciados em celular, com problemas visuais, claras limitações de interação física e local, desconstrução dos vínculos afetivos com a família, além do comprometimento da saúde física e psicológica, de estresse à ansiedade. Não estamos sendo saudosistas: apenas conhecemos as salas de aula.

Mas veja bem: não que isso tudo – que hoje vemos como pontos de atenção em relação às tecnologias – não existisse antes em um grau menor ou atrelado às mídias ditas tradicionais, como rádio e televisão. Apenas constatamos que a primeira década de internet ilimitada trouxe uma geração nova de distúrbios, que, parece, podem ser minimizados com comportamentos… analógicos — o famoso axioma do Filho de Steve Jobs, famoso por não deixar seus rebentos usarem dispositivos eletrônicos sem mediação.

Há uma sutil e silenciosa revolução acontecendo no interior dos negócios de comunicação, mais especificamente no que tange aos periódicos de nicho: “— podemos chamar isso de ascensão vitoriosa dos leitores relaxados que estão cansados de ler nas pequenas telas de seus celulares — e essa revolução tem a mídia impressa como protagonista”, na definição do professor em cibercultura Mario A. García (não confundir com Márcio Garcia).

Quem acompanha o dia a dia do mercado de feiras e festivais, além dos lançamentos de edições premium de clássicos repaginados, sabe que os produtos analógicos exercem poder de sedução, mesmo que os números do mercado livreiro tradicional não sejam dos mais promissores.

Entre os periódicos de literatura que orbitam tal ecossistema com certa desenvoltura, observamos uma recente onda de revistas independentes de pequenos lotes, com propostas que atravessam da curadoria de literatura, como o próprio RelevO, até revistas de invenção como a Caça & Pesca, além da novíssima revista Júlia, da Livraria e Editora Arte & Letra, que já se encaminha para a segunda edição.

Editoras ainda partem para clubes de livros personalizados, ao passo que a TAG (não confundir com Transtorno de Ansiedade Generalizada) Livros acaba de completar 10 anos, lidando com as perdas ocasionadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul. Em paralelo, García ainda reforça o caráter de individualização do impresso, com embalagens que retornam ao prazer do tato, exploram as possibilidades de formato, resgatando a beleza de juntar palavras e imagens de um jeito próprio, aquilo que convencionamos chamar de experiência.

[as revistas] têm um preço premium, às vezes excedendo US$ 25 por edição, e são destinadas tanto para exibição em mesas de centro quanto para leitura. Seu conteúdo normalmente não está disponível online, reforçando sua natureza exclusiva e colecionável. Essas revistas atendem a interesses específicos, como escalada, surfe, esqui e corrida, enfatizando conteúdo de qualidade com publicidade mínima. Elas são projetadas para serem itens colecionáveis em vez de leituras descartáveis.

O RelevO não custa nem 25 dólares ao ano. Longe disso. Em quase 200 edições de papel, sem pular sequer um mês, seguimos em conflito com os custos operacionais da vida, mas convictos de que as mídias analógicas continuarão com o seu espaço — também desconfiando que a saída dos grandes jornais da mídia impressa é mais uma ação de diminuir o acesso das pessoas à informação do que estratégia democrática.

Ao nosso modo, entregamos também uma estratégia, um jeito analógico de existir no mundo. E já vimos crises suficientes para dizer que seguiremos como um impresso — enquanto tivermos leitores e leitoras dispostos a questionar a hipertrofia do mundo.
Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: DE COMO OUTRAR É PRECISO e a máquina de triturar autores (e seus livrinhos)

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Naturalizou-se a disgrama: a literatura-literatura (alô, Odvan! abraço, Luxa!) depender de autores venderem seus livrinhos aos amigos e parentela; livrinhos esses fabricados por editoras cujos clientes são os próprios autores, por sinal vistos como menos que clientes, algo como uma gente chata, que não entende o processo.

*

Vivemos do descontão de 30% de que falei de passagem na última coluna, concedido para comprarmos e doarmos ou revendermos, de mão em mão, nossas próprias obras. Não se fala mais em remuneração dos autores. Não se fala mais em distribuição. E faz é tempo! O livro (não) é vendido no site da editora. Não há estratégia de lançamento, cuja organização igualmente recai nos ombros dos autores. Aí vem as feiras — para as quais você se desloca com os seus próprios recursos, se delas a editora participa. Carece sim dizer: não está bom, não está justo.

*

Não, não meti atestado. E sei o que li no jornal passado. Por exemplo, a espécie de autoalta que Diana Joucovski se deu para contar que “alguns já nascem como a noite: demasiados, indomáveis, criaturas horrendas passionais, tão humanas que beiram à desumanidade”. Laura Redfern Navarro, por sua vez, nos apresentou ao termo aotubiografia: escrita do si no tu. Com todo o respeito, é claro!

*

F. Da Costa ilustrou com traço peculiar e manchadiço uma edição de diagramação redondíssima. Nem sempre atentamos à forma, adictos que ficamos em conteúdo. Largados na ilha, desprezamos o continente, inscrevemos em nossa fala diária que queremos ir ao mar, seja como for: “mas nada dos rudimentos / passa em branco”, nem mesmo aquela “faísca alada / que saltita pela casa/ inundada de noite / e anseios quebrados”, como verseja Nadja Rodrigues.

*

Há que notarmos, ainda, a inquietação com que o RelevO aborda o tempo. Não, não é sacanagem: filosofia, que chama! Em pleno e pelo impresso.

*

Enshittification e gamificação são duas fases do mesmo jogo de tornar as experiências da vida em unidades de um negócio pulsional absolutamente descartável.

*

Nós escribas aceitarmos de boníssima pagar pelo nosso trabalho deve-se à premência um tanto egoica mas também altruísta ou missionária que temos de continuar a produzir e lançar nossas coisas, fato. Contudo, o silenciamento a respeito das más condições em que isso se efetiva remete a uma autoimagem rebaixada a ponto de fazer corar o vira-latas complexado do Nelsão; e/ou à condição de pertença, de tantos, a uma classe mais remediada, outro fato. Mas, olho no lance (saudade, Silvio Luiz!): se sucumbimos diante das contingências como se elas fossem inescapáveis (coitada da editora, ela é pequena!), quem achamos que vamos enganar com isso, além dos nossos mais chegados, que já devem estar de saco cheio de, sozinhos, nos prestigiarem?

*

O eu é o centro e o alvo do descarte vital consentido. Outrar é preciso. Até para obrar.

*

Fechando o reclame do ombudsman: causam-me, até hoje, absoluta perplexidade o surgimento e a longevidade de (bons) prêmios que requerem a concorrência exclusiva de autores inéditos. Que raios de fetiche é esse de renovar o cabedal de futuros trabalhadores precários do meio (fodidos privilegiados, como dizia o saudoso Abujamra!) lhes dando uma oportunidade que não vai se repetir logo adiante?

*

A gente brinca porque ainda está num certo (falso) controle. Porém, os mad menx estão aí, na raça!, nos pedindo um soco na cara que nunca lhes damos. “O que você afinal faz no seu trampo? Ah, meu, eu sou um criativo!”. Não se engane: eles parecem fofos, mas merecem uma morte lenta e cruel.

“Como pensar o silêncio no meio de tão vasta explosão?”

Editorial extraído da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2017, em entrevista ao Diario de Sevilla, David Le Breton desenvolveu um ideário a favor da quietude, o silêncio como forma de resistência. “Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século 20 como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica”.

Na contemporaneidade, de fato, o silêncio tornou-se um luxo raro. Como definiu Eugênio Bucci, “Como pensar o silêncio no meio de tão vasta explosão? (Explosão, aliás, duradoura e persistente, que não é de hoje, que vem se intensificando pelo menos desde o final do século 19)”. O silêncio é uma ética. As nossas vidas são permeadas por um constante fluxo de informações , notificações e alertas que competem por nossa atenção, fragmentando nosso foco e nos empurrando para hábitos de hamster. A tecnologia, embora revolucionária em sua capacidade de conectar e facilitar — e não estamos aqui para defender luditas —, também nos joga a um ciclo incessante de estímulos sonoros e visuais, a uma certa prosa infinita do mundo, produzindo ruídos internos crônicos. Não é difícil observar a qualidade de nossas interações, envolvidos que somos por pastéis de vento emocionais.

O silêncio, para um jornal de literatura, por exemplo, não é apenas necessário, e sim a substância primeira de sua consolidação, uma forma de sobrevivência da experiência. Nesse sentido, torna-se uma forma analógica de resistência – termo cujo processo de banalização agora reforçamos. Resistir à tentação de estar constantemente conectado, resistir à pressão de responder imediatamente a cada notificação, resistir à cacofonia moderna que ameaça nossa capacidade de introspecção.

Hoje, a resistência ao ruído é, de certa forma, uma resistência ao próprio fluxo do tempo moderno. O pesquisador Adauto Novaes define a experiência de ser contemporâneo como fluxo tagarela: “Damos com muita facilidade e até certo desprezo um ‘adeus’ às palavras de maneira tão tirânica e tão natural que nem conseguimos colher imagens que ela nos propõe. Sem o tempo do pensamento, a simplicidade das palavras e a riqueza dos sentidos desaparecem no fluxo tagarela. Sem a experiência do silêncio não se entende o que se diz. Ora, conhecer uma coisa é experiência; conhecer o sentido da fala é experiência”. Seria verdade, então, que somente é capaz de silêncio um ser que pode falar que tem linguagem? Quem nunca diz nada, assim como quem nada tem a dizer, não consegue guardar silêncio?

Se pensarmos no Adonis de “Você, coisa incompleta, inicia a perfeição” como uma estratégia de definir um leitor, chegamos ao valor final absoluto: quem dá vida ao texto, transformando página em alguma coisa além de uma palavra colada na outra, é o leitor que se rebela contra o ruído, que, nas palavras de Frédéric Gros, faz do silêncio uma superfície isolante branca que serve de anteparo diante do ruído.

O caminho foi cantado há muito tempo pelos Secos & Molhados: “Eu não sei dizer / Nada por dizer / Então eu escuto (…) Eu só vou falar / Na hora de falar / Então eu escuto”.

Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: ESTÃO MATANDO TUDO SEMPRE mas a gente só morre amanhã

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Ao menos, em tese. E calma lá: informo que não sou doutorando em nada! De certo, certo, só temos que Não é dinheiro não! é o novo Me dá um trocado? e que empreender virou verbo intransitivo.

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Mas estão matando mesmo. O projeto é de precarização da existência: tornar o ser numa atividade inusual, ou prescindível, ou capenga; algo qual uma disparatada (dis)função cujo ímpeto, horizonte enquanto (meu revisor interior saiu pra comprar cigarro!) ação se pudesse superar, sem prejuízos, pelo consumir produtos, processar dados, lacrar na rede.

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Querem me sacanear? Façam por onde! E capricharam os autores de junho do Jornal — em que passo vergonha, mas mando aquele SOS diante do fim da arte, da revolução e do amor como utopias-guias pra gente aguentar o tranco. Com a palavra, o ex-supervisor de inteligência estratégica do excelente conto de Saul Neto, que abre o último RelevO: entregaram!

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Da provinha da aquarela de traços épica de Era uma vez no Contestado, romance-quadrinho-milonga do André Caliman, recém-lançado, à mochila carregada das falhas que negamos e que Catulo nos acusa termos sempre às costas; da gargalhável colagem do Informe Publicitário ao inspirado Editorial sobre a saga do impresso (“A nossa inadequação, quem sabe, seja a nossa fortaleza”); no poemário com, entre outros, Douglas Batalha — obrigado pelo verso com que abrimos este ombudsdito! — e Bruna Gonçalves (o Algoritmo é a unidade de afeto do desamor-livre): estupenda, a edição!

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Eu só nunca entendi o David Bowie, tampouco intento fazê-lo, e falo (não) só pra garantir os xingos da rodada. Juro!

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Ainda Saul Neto: se tenho um vício, é o de não dar muita pelota para texto literário de cuja leitura não se guarde mísero trecho, expressão, diálogo nas ideia (o revisor ainda não voltou!). Dramaturgo fascinado por Dostô, Nelsão Rodrigues foi o que foi por ser também um baita frasista. N’O teatro dos loucos, ele tasca que “A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz.” Para tanto, lidamos com coisas como “um ódio bem guardado dentro dos ossos capaz de desejar a aniquilação ou apenas o sumiço sumário” de desgraçados que “gostam de mostrar o pequeno poder que exercem sobre os outros os fazendo esperar”. Bravo, Saul (#somostodos sobreviventes do estilo)! Depois me manda seu livro, camará!

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A roda gira, gira a roda. Não é clichê, mesmo o sendo — é mantra para quem topa os segredos das matas invisíveis que nos rodeiam, do mar em que pouco(s) mergulhamos disponíveis a ouvir seus silêncios, do rio que passou em nossas vidas e o coração se deixou levar. Laiá, Paulinho: quantas vezes isso tanto nos doerá pelo caminho?

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Elogiar, elogiei. Mas bora de errata? No afã de cobrir o efervescente mercado de transferência de síndicos, a editoria marcou passo em relação ao próprio nome da lei-sonrisal que, economistas projetam, vai fazer o PIBão do papi Haddad subir uns 2 cm, ops, 2%. A lei é conhecida, afinal, como Novo Marco Síndico (o que já rendeu, por troca do lugar em que se bota o acento, com todo o respeito, é claro, piadinhas infames no colo da rampeira Jana). Síndico, e não sindical. Belezinha?

Obs.: o termo sindical remete a uma antiga tradição de reunir trabalhador (algo parecido com o atual colaborador) para reivindicar direitos, quase que suplantada pelas boas práticas inauguradas com o Plano para o Futuro do Pretérito do ex-golpista e agora vampiro, não necessariamente nessa ordem, Michel Fora Temer (mal aí pela lembrança!).

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Sempre volta a metáfora do zelador de Dias perfeitos: continuemos, a cada banheiro, lutando para que não aconteça, por irrazoável escrutínio ou inércia destrutiva, de depositá-la — a tal de vida — numa latrina.

A arte de perder não é nenhum mistério

Editorial extraído da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Quando Elizabeth Bishop escreveu que “Tantas coisas contêm em si o acidente / De perdê-las, que perder não é nada sério”, certamente não se referia ao escopo de escolhas de um jornal de literatura, muito menos do RelevO. Mas isso não nos desanima, tampouco nos impede de forçar a analogia.

Na média, recebemos 400 textos por mês – muito mais que a nossa capacidade de leitura – e estamos sempre em débito com as devolutivas aos autores recusados, o que nos gera espezinhadas regulares nas redes sociais. Para Alain, em Considerações sobre a Felicidade, ninguém tem escolha. “A arte de viver consiste, antes de mais nada, parece-me, em não brigar consigo mesmo sobre a decisão que se tomou ou o ofício que se exerce”.

Escolher o que publicar é um exercício de curadoria complexo. Isso de sermos condenados a ser livres, de abraçar a incerteza e a ambiguidade, já que envolve uma análise subjetiva a partir do gosto dos editores somado à busca por uma compreensão objetiva de textos soltos que possam gerar um conjunto interessante para uma única edição. Por outro lado, gostamos da capacidade simples e prazerosa de identificar novos talentos. Tentamos, assim, ser um espaço de mediação que conecta escritores e leitores, os quais muitas vezes estão nas duas frentes.

Não temos a ambição de orientar os leitores em meio à enxurrada de informações, destacando obras que merecem atenção pela sua qualidade, originalidade e pertinência. Ao selecionar textos de diferentes estilos, gêneros e perspectivas, não temos a pretensão de ser um farol literário que ilumina todos os caminhos da literatura – isso daria muito trabalho!

Nosso objetivo é mais modesto, porém não menos significativo: queremos ser um pequeno espaço de sensações em que cada leitor encontre algo que ressoe com suas próprias experiências – mais que um cardápio de um restaurante elegante, nos vemos como um honesto buffet por quilo.

Essa falta de pretensão não diminui nosso compromisso com a qualidade dos textos que publicamos. Não queremos ditar tendências ou definir padrões; somos apenas um ponto de encontro analógico, um café de domingo, um jeito de estar no mundo, mesmo para quem não selecionamos, afinal “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada”, como define Bishop.

Sabemos que ser recusado em um processo de seleção pode ser desanimador para os autores. Entretanto, essa decisão não diminui o valor ou o talento de quem escreve. A curadoria é um processo subjetivo e, muitas vezes, um texto pode não se encaixar no perfil ou na linha editorial que buscamos em um momento específico. Sequer precisamos entrar no mérito de grandes autores recusados ao longo da história.

Para os autores não selecionados, queremos dizer que o RelevO continua aberto e interessado em suas criações futuras. Encorajamos todos a persistirem, a explorarem diferentes estilos e temas e a continuarem submetendo seus trabalhos. Só não encorajamos a tentar trocar publicação por assinatura. Isso realmente nos ofende (o que é difícil…) e, para esses, desejamos um péssimo dia!

Para todos os outros, uma boa leitura.

Zeh Gustavo: DA ANESTÉSICA INDIFERENÇA DE UMA LONGA AGONIA

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O trânsito infecundo das horas e anos, as tragédias em série da (in)consequência do Antropoceno, a troglodice da extrema direita ultraliberal não ajudaram para uma mudança abrupta de visada, em que pese seguirmos fazendo nossas coisas e comprando nossos próprios livros (os que insistimos em escrever) com um descontão de 30%. Pois então: sabe aquela candura de poeta de sarau, olhos brilhosos, gestos expansivos? A coisa do “Porque a puesia (complete com o que quiser de bonitinho aí)…”? Pois é, nunca me convenceu! Sempre achei que, dentro ou fora daquela, desta bolha estávamos – e estamos – é muito fodidos.

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Não há muito o que comentar. Na boa: maio/2024 foi a pior edição do RelevO que já li. E não culpo o Conselho Editorial pelo meu drama pois curadoria trata-se de mera cambonagem: quem incorpora a literatura na nossa tendinha impressa é quem a escreve. Confere, produção?! Ou tava todo mundo mesmo de sacanagem e sobrou pra mim o bagaço da laranja?

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Ou devo eu tergiversar acerca do respeito que Cícero afirmou terem os juízes – os juízes! – pela voz dos poetas (!)? Rimbaud: após tanta humilhação, restaria alguma dignidade? Noutro vértice: Vitor Miranda de fato deixou – ou deixaria – de ser um canalha? Ou foi visto estacionando no Leblon com o Caetano? Henrique Pitt: tal de maturidade literária é de cumê? Ou é biricutico? Me conta: fica bom com o quê? No mais: siameses separados, mula-mulher sem cabeça que deu pro padre, cartas nunca enviadas a Deus (faltou o CEP?), o cosmobol da Serra Talhada, uma ode ao tomate na fruteira (!) e outra à apoptose (!!!), em dois poemas empolados…
Sono. Muito sono.

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A pior edição. Mas, e daí?

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Eis que a literatura se encontra enfiada em uma longa agonia, que se acelera. Porque a literatura não importa. Romances-vivências, contos com participação dos leitores no Kindle (engajem ou morram, seus fidumaputa!), poemas do tipo olha-o-que-andei-lendo-pro-meu-doutorado ou faço-valer-minha-identidade-oprimida o comprovam. Não importa a literatura se você praticou inclusão. Não importa a literatura se você não praticou inclusão. A literatura – como texto de ultrapassamento da linguagem, rasura-testemunho de uma época, jogo de luzes no breu dos debates comuns, fossa da linguagem em fissura –, a literatura, como tal, não mais importa.

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É essencialmente estético. E o estético é político. E define nossa existência perante o outro, no mundo. A vida precisa ser bela. E o belo, nesse caso, não é um ornamento, mas um princípio – alguma tentativa, forma ansiada do ser que verse sobre o único e plural, o singular e vário. Ao mesmíssimo (contra)tempo. Ainda que entre notificações do celular.

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Exceção única (o fumo que se fume: que nunca mais se use Campos de Carvalho de muleta!): a cobertura (isto aqui permanece um jornal!) que o Enclave deu ao filme Dias perfeitos. Com este vaticínio: “a beleza se encontra em dois opostos complementares: (1) a repetição consciente e (2) a quebra inesperada (…). Abraçar o primeiro ajuda a saborear o segundo.”

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A indiferença geral machuca, claro. Mas dói mais a indiferença manifesta em apatia e obra insossa, alheia tanto à consciência de se empreender uma repetição quanto à premência do se buscar o inesperado. Até quem normalmente já seria medíocre pode mais.

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Na textura dos silêncios, a gente apanha da reflexão, que é ulterior ao sentimento. Nasce, assim, o insight. Ao termo em inglês, a preferência da firma é por estalo. (Haverá tentativas de indefinição semântica desse termo, em breve ou nunca, neste periódico.) Depois disso, dá um trabalho danado, ainda.

“Por que não ser digital?”

Editorial extraído da edição de junho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


De tempos em tempos, fazemos um compilado de motivações para seguirmos impressos. O primeiro argumento é simples: gostamos dessa forma de existir. Depois, comumente citamos

  • a) a conexão física, a experiência sensorial em si de folhear um jornal;
  • b) o ritual de leitura, aquilo do jornal no café da manhã de domingo, abrir o malote para, então, ler de acordo com as próprias manias;
  • c) a experiência offline, com menos distrações, menos desvios de atenção: jornal impresso não tem pop-up nem notificação de tela;
  • d) o apelo visual, afinal, nos entendemos vulgarmente como um jornal de arte com uns textos dentro, e a cada edição procuramos entregar um produto de valor estético que não seja perfeitamente reproduzível em um… PDF (ou você se pega dizendo “que PDF bonito”?);
  • e) outros argumentos que envolvam materialidade para caixinhas de pet, hábitos tradicionalistas, tangibilidade, acessibilidade, curadoria, limite: imagine que podíamos ser uma edição com 893 melhores textos. A edição de junho entrega apenas 10 textos.

Também não negamos que oferecemos limitações visíveis ao consumo: jornal molha, rasga, gera ansiedade visível da não leitura, amassa, avoluma, amarela. Nem precisamos nos estender nisso porque o nosso entorno reforça tais déficits o tempo todo. Entretanto, reconhecemos ultimamente uma nova não vulnerabilidade, vista principalmente em nativos digitais e em seus apelos por rentabilidade (nós também fazemos apelos – não estamos julgando, apenas constatando).

Pois vejam: em um mundo cada vez mais dominado por algoritmos e por tráfego pago, o jornal impresso pretende se pagar já em sua materialidade, sem a necessidade direta do pedágio das redes. Paga-se – você paga – para receber 12 edições de papel.

Sabemos que jornal custa caro, da gráfica ao Correios, mas a operação é muito mais previsível que a dos meios de comunicação, cada vez mais dependentes de – e, portanto, vulneráveis a – qualquer ligeira mudança das plataformas contemporâneas. Os Correios podem fechar? Sim. As gráficas podem triplicar o preço da tiragem? Também. Porém, estes são elementos de jogo muito mais jogáveis, a nosso ver, que a disputa por atenção e o desespero com mudanças nas políticas de monetização nas redes.

Podemos observar essa resistência (ou teimosia) a partir da lógica do Efeito Lindy. Inicialmente, a constatação de seu criador, Albert Goldman, em 1964, foi: “a expectativa de futuro de carreira para um comediante de televisão é proporcional ao total de exposição no passado pela metade”. Então simplificamos para uma regra de bolso: se X existiu por Y anos, podemos presumir que existirá por mais Y (ou metade de Y, como propôs Goldman).

Assim, se o seu projeto artístico, negócio ou relacionamento depende de redes sociais criadas semana passada ou de algoritmos ajustados ontem, é muito mais provável que ele esteja vulnerável (e desapareça) a partir de mudanças nos algoritmos atualizados hoje ou redes sociais evaporadas semana que vem. A nossa inadequação, quem sabe, seja a nossa fortaleza. Por isso, impresso.

Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: O ALIMENTO do zelador sensível

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Acontece, já dizia Cartola [1], sem que a gente deva prescindir do conselho. Você está ali, distraídis… (Mussum é desinência neutra de raiz! [2]). E dá de cara com algo – aquele algo, que pode ser uma pessoa, uma coisa; uma paixão, um assaltante; um arco-íris, um tsunami. Chamam de destino, mas a gente podia aprender, um dia, a tratar a poesia pelo nome.

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Acontecimento é um achado que não se procura, logo adiante; tampouco num retrovisor, quer irradiado de ternura ou de indignação. O acontecimento é uma situação. Certo movimento tomou tino das duas noções e tratou o mundo a fim de reivindicá-lo outro: o situacionismo. Um de seus maiores expoentes, Guy Debord, sacou da tese da sociedade do espetáculo para destrinchar as manhas do fetiche da mercadoria, em sua associação com o estabelecimento da imagem visual como linguagem soberana de nosso tempo – isso na década de 1960! Direto ao ponto: a imagem visual sequestrou o instante – junto com o prazer do presente – e não pediu resgate. Até hoje.

*

Ah, Jaine Oster: “Assim como o fim do mundo, a epifania, essa palavra tão gasta, não vem de uma explosão, mas de um lamúrio – ou mesmo um bocejo.” Lamúrio é o que mais vocês têm de mim – dou o meu melhor, não? E aceito, em troca, um bocejo. Boom!

*

Desafio do mês: descubra a frase lapidar do editorial de abril e, com seu talento, a transforme em sabedoria de para-choque de caminhão. Dica: se você trocar o sujeito dessa frase por O samba ou A literatura ou A arte, juro que vai dar, o sentido, quase no mesmo.

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Arte é o banheiro invisível cujo zelador, tal de artista – também conhecido, no baixio, por alcunhas como Se Fosse Bom Estaria na Globo, Um Dia Ainda Vão Te Descobrir e Vagabundo da Rouanet –, limpa os dejetos de uma sociedade prisioneira de sua pouca afeição ao que de fato importa. E, no geral, ninguém lhe agradece por isso. Ah, a pandemia… Responderia o Pedro Pedreira, inesquecível personagem do ator e último vereador eleito pelo Partidão no Rio, Francisco Milani: “Não me venha com chorumelas!”.

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Bobos de criação (ainda Jaine!) não merecem sacos de pipoca. Merecem ser posto para fora do cinema (ou do parquinho). Pega a lógica, pelo rabo: Glauber Braga chutou foi pouco!

*

Enclave: vivemos imersos num, em meio à deprimência dos anúncios, à bestial virtualização e empobrecimento das experiências e ao surto de autodestruição financista. Apesar disso, e em vão, e não, (ainda) escrevemos.

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Ah, Anne Carson: “Nosso amor, esse incendiário meio doido, / corre uma vez ao redor da sala / chicoteando tudo / e se esconde de novo.”

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Instante é o fundamento do nosso devir transeunte; sopro de vida, sob ruídos de um antes, em rota de alguma ainda possível (re)inauguração.

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Ah, Maiakóvski: “Eu fico sozinho, como o último olho / de quem vai embora com uma pessoa cega!”.

*

Por outro, e mais um; o primeiro, o próximo, o último. A gente ainda o sente por perto, como que entrevisto na noite esconderijo a que se refere Menalton Braff. O instante insiste. E acontece.


  • [1] “Acontece” foi a música predileta do vate da Estação Primeira, para quem ninhos de amor no vazio consistiam em tema assaz angustiante. O Angenor era um baita dum zelador sensível das dores que perpassam todas as eras e esferas.
  • [2] Já subjaz evidente que lacrar exige uma seriedade, uma soberba, um ar suposto sóbrio, akademicuzinho ou zão, né? Então, pra que citar o Antônio Carlos, que ainda por cima era preto (não militante), músico e palhaço?! Por que aderir a um modo humano-humorado de lidar com traumas, dívidas, transvisões do passado? Madame Treta não gosta que ninguém sambe.

Ergonomia: eu quero uma pra viver

Editorial extraído da edição de maio de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O tempo, mais do que urgente, é constante. O RelevO é um jornal impresso de papel e de literatura que enfrenta o calendário a cada 30 dias. A cada edição em que retiramos os exemplares da gráfica, em que fazemos o mesmo caminho e vemos os mesmos rostos, completamos o atestado da nossa sina: ser impresso.

Dentro do exercício rotineiro de existir como um produto material, buscamos nos atualizar para fazer mais do mesmo. Melhor: para nos adaptarmos e, então, fazer melhor este mais-do-mesmo. Entregar um jornal que justifique a presença no tempo é o nosso objetivo, digamos, mais semântico. Funcionamento é o nosso jeito de praticar beleza. Assim, de certo modo, acreditamos em ergonomia.

A lógica é simples. Ao longo de nossa trajetória, que logo se encaminha para 15 anos de existência, aprendemos a 1) operar planilhas; 2) melhorar processos logísticos; 3) calcular custos de curto, médio e longo prazos; 4) prever algumas variáveis; 5) encontrar os melhores espaços de alavancagem de audiência; 6) estudar estratégias de presença física e digital; 7) reconhecer mudanças no perfil de consumo de conteúdo; 8) lidar com as nossas restrições técnicas e de orçamento. Enfim, somos um peculiar modelo de negócio que, para persistir, precisa se comportar como… um negócio, contando com riscos e acasos.

[Entendemos que, se um dia nós simples e inevitavelmente virarmos fósseis nos fundos de uma casa a dois anos sem alugar, não poderão dizer que ficamos acomodados fazendo tudo do mesmo jeito. Estamos sempre buscando alternativas para fazer mais com o que temos à disposição. Não se trata de trabalhar mais, e sim de modo mais inteligente.]

Recentemente, executamos três mudanças operacionais profundas. A primeira corresponde ao sistema de envio de textos para publicação. Acabaram-se os tempos hediondos de envios manuais ao editor, pois resolvemos uma enorme e longínqua dor de cabeça. Trouxemos uma solução elegante: um formulário próprio. Basta seguir as instruções e anexar os arquivos, tudo ainda no mesmo endereço (jornalrelevo.com/publique).

O segundo avanço corresponde à otimização do nosso sistema de assinaturas, cada vez mais automatizado e distante da lógica “acertando com o publisher”. É um meio simples, porém efetivo de garantir profissionalismo e transparência nos procedimentos. Alteramos a maneira com que as compras são catalogadas pelo MercadoPago, o que não muda nada para o assinante, mas nos ajuda um tanto.

A terceira novidade diz respeito à Latitudes. A newsletter mensal (e gratuita) é a nativa digital da casa, voltada para concursos literários, editais, feiras, festivais e cursos de literatura. As edições têm entre dez e 15 notas, as quais reúnem as principais informações sobre cada proposta cultural. Trata-se do nosso material com maior compartilhamento, impulsionado pela base qualificada de assinantes do Substack, cheia de escritores, jornalistas, editores, artistas e demais entusiastas desse negócio de uma-palavra-ligada-na-outra. Muitos assinantes, inclusive, migram da assinatura digital para a física, colaborando para o custeio de nossa operação.

Desde a edição de maio, temos espaços pagos dedicados a lançamentos de livros ou à divulgação de obras de editoras independentes e de autores autopublicados. Trazemos – com aviso de publieditorial – a capa, uma pequena sinopse e as informações de acesso ao conteúdo. Assim, buscamos ampliar o nosso fôlego financeiro e apresentar mais uma novidade dentro do escopo de possibilidades de um jornal impresso que se considera conectável.

Nosso intuito prático final, em todas as novidades, é conseguir viabilizar o Jornal. Em suma, pagar a gráfica → pagar os envios pelos Correios → pagar a nossa equipe que seleciona e produz conteúdos → seguir publicando. Nosso intuito mais difícil de mensurar, mas nem por isso menos fundamental, é melhorar a experiência do leitor, do assinante e do colaborador. Assim, nos esforçamos para entregar o melhor jornal possível dentro de uma jornada de 30 dias.
Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: ESSA CHUVA, MAIOR QUE NÓS: o náufrago pede desculpas… e se afoga

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Uma sombra
chega,
senta,
segura-me do braço.

“Escuta.” Escuto. “A lua existe”.

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira:
“Existe a lua, existe”.
E sábado e domingo:
“Existe a lua, existe.”

Antônio Fraga, Moinho e

Esta chuva não remete às águas de março, que não fecham mais o verão, porque do verão restarão desertos pipocando, aqui e acolá! (Voltarei às pipocas – à vida, à morte!) A água desceu foi do “Naufrágio” de Camila Ferrazzano: “as calhas despencaram / mágoa na casa toda”.

Tampouco falo de mágoas e sim de fato poético: há roupa (ora encharcada, um dia seca, noutro rota, também dizem — se rasga, toda — num dia há um farrapo; noutro, fantasia). Há roupa. Para toda uma existência: “essa chuva é maior que nós”.

*

Essa chuva, essa lua, na cidade escusa… Há um maior que nós, vê? Que quem não cuida assume o risco de contrair uma idiotia latente, que porventura se mantenha ali, à espreita, mesmo após um doutorado em Harvard ou um samba ganho no Salgueiro. E que é capaz manifestar-se em uma abjeta condição, que é a de alguém não se tocar da própria precariedade (e sua potência). Tá ligado? O maior que nós não está aqui de bobeira!

Ou você pensa que patriotários de caminhão que rezam pra pneu, burros ilustrados citadores de livro de autoajuda como se fosse Verissimo ou Clarice, influencers em geral surgiram assim do nada?

*

Também não estão de bobeira as galerinhas da Tovi — primeira torcida organizada declaradamente franciscana e antidinizista; e da Comissão do Orçamento Participativo da Invasão Extraterrestre — cujo mandato já começa eivado de malfeitos que vão além da disseminação proselitista da tese do monodimensionalismo ocupacional. Mas sigamos, prescreveu o Bolívar Escobar, a “transfigurar a estranheza” – quiçá o maior legado que um escrevente possa deixar aos seus não leitores.

*

Meus protestos ao conto do Fiorot: onde vamos parar? E se a moda pega? Investigar a ficha corrida de móveis e eletrodomésticos para se averiguar se um dia já foram gente, como parece insinuar, irresponsavelmente, o bardo escriba: vai ajudar o Fluminense a ser campeão, como dizia o filósofo (e eterno terceiro goleiro aposentado) Ricardo Berna? O que ele quer? Que coach também seja reconhecido como gente, ainda que num passado remoto?

*

A pipoca, na mitologia cristã, é associada, no seu modo estouro, à ressurreição do imenso Jesus, o de Nazaré, aquele mesmo — imigrante preto, comunista da Galileia, produtor artesanal de vinho. O precioso salgado obtido de sal, gordura e milho bole com vida e morte. Pros da curimba: o banho de pipocas é ritual de cura perante Obaluaê — também orixá da doença. A vida é CPX, pois. Paulinho da Viola, Portela-raiz, futuro orixá, quando compôs samba para a coirmã Mangueira, já o sabia: “que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais”.

*

Conhece-o, quão bem, a Rosana Batista Almeida: “A poeira ficou antes de nossos olhos nascerem, / das pernas apontarem nas ruas de computador.” E ela arremata: “A pele vive.”

*

Alguém tem, aí, ciência de quando sai o edital para livros de ficção e poesia censurados, para serem, ordinariamente, lidos? A censura é a nova crítica! E carece ser assumida como política pública! Adeus resenha, matéria em jornal… Mané premiozinho! E não reclame: a nova ordem das coisas facilita a vida de todo mundo — principalmente a do coitado do Algoritmo, que não aguenta mais tal de teixtaum e tem na treta sua unidade linguística — e de negócios.

*

Por estilo, e por isso tudo que dissemos — o acrobata cai, o náufrago se afoga. O nome disso é literatura.