Rafael Maieiro: —

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


A coluna do ombudsman Rafael Maieiro não foi enviada à redação até o fechamento desta edição. Preenchemos este espaço com uma importante menção ao jornal humorístico A Manha, de Aparício Torelli, mais conhecido como Barão de Itararé, que, aliás, sempre dizia: “Terão que passar por cima de nossos cadáveres, que não são poucos” e “O fígado faz muito mal à bebida”.

Duzentas formas de estar no mundo

Editorial extraído da edição de dezembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Duzentas edições. Às vezes, quando escrevemos um número assim, grafado com efeito e por extenso, tentamos ampliar seu corpo para que acomode tudo o que não cabe nos contornos de um algarismo. Outras vezes, preferimos nem olhar tão de perto: duas centenas de meses em que um jornal literário independente, de papel, insistente, teimoso, ocupante de espaço no mundo real, conseguiu atravessar o tempo sem interrupções. Em um país com índices de leitura desestimulantes, que cria obstáculos silenciosos e permanentes à formação de leitores, esse feito diz menos sobre a sobrevivência de um impresso e mais sobre a permanência de uma comunidade que insiste em sustentá-lo. Em setembro, o RelevO completou 15 anos: “O caminho é sempre maior que o caminhão”, dizia o Barão de Itararé.

Há quem acredite que números traduzem um trabalho. Não traduzem, mas servem como referência. Eles não revelam as madrugadas de edição, as revisões que se multiplicam, as discussões editoriais, as caixas de arquivo abarrotadas, as dobras de jornal feitas à mão, os improvisos logísticos, o cuidado quase doméstico que um projeto cultural independente exige. Os números não registram o silêncio de quem escreve, o alívio de quem encontra publicação, o entusiasmo de quem abre o envelope. Ainda assim, eles nos ajudam a perceber que algo continua mesmo quando os passos são curtos.

Não é uma conversa sobre estatística, de fato. Nunca foi. Tratamos de continuidade, uma das formas mais exigentes de estar no mundo. Exige um tipo de atenção invisível: a diária, artesanal. Em 15 anos, atravessamos crises culturais, cortes de verba, mudanças de governo, rupturas tecnológicas, cansaços invisíveis. Resistimos ao canto de sereia das plataformas digitais. Reconhecemos que há menos meses de abundância e mais meses de sobrevivência e, ainda assim, manter o gesto. Pouco se fala que a continuidade exige que outras ideias não saiam do terreno da imaginação, uma vez que continuidade exige foco. Novas ideias podem matar ideias anteriores por falta de energia.

Se chegamos à edição 200 é porque nunca estivemos sozinhos. O RelevO aprendeu a existir porque encontrou colaboradores que confiam, leitores que carregam exemplares para novos leitores, assinantes que financiam o projeto, apoiadores que acreditam na cultura antes dos resultados, voluntários que ajudam sem serem convocados, livreiros que nos acolhem e pessoas que descobrem o jornal nos espaços culturais e nos levam para casa como quem adota um hábito. A continuidade é o nosso manifesto… e a nossa prestação de contas.

O tempo, quando acumulado, não forma apenas um arquivo. Forma um corpo vivo. As 200 edições não são uma coleção de papéis. São um projeto que aprendeu a crescer ao lado das pessoas que o leem. Com o tempo, percebemos que cada edição funciona como uma espécie de parêntese no calendário. A rotina mensal é um eixo. Assim, manter um jornal de papel, mês após mês, é contrariar a lógica da velocidade. É confiar que ainda existem objetos que exigem demora, que pedem cuidado. Um jornal literário não muda o mundo, mas muda as formas de estar no mundo. Acreditamos que a lentidão também produz comunidade e que o encontro entre leitor e página ainda guarda algum segredo intraduzível em estatísticas. Por isso, continuamos e novamente sacamos o Barão de Itararé: “Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”.

Ao chegarmos à edição 200, reafirmamos nosso compromisso com esse modo de existir. Publicar textos que não caberiam em outro lugar, sustentar uma curadoria que desafia a pressa, cultivar uma leitura que pede fôlego, acolher formas de expressão que não se encaixam em algoritmos. Continuar, apesar do tempo, com o tempo, pelo tempo, é o que nos fortalece.

Obrigado por fazer parte dessas duzentas edições.

Uma boa leitura a todos.

Rafael Maieiro: “MOSTRAR MAIS”? (2) — Rafael Maieiro impudica

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


“e espero que eu jamais alcance / a impudente idade do bom-senso”

Versos de Maiakóvski que pegam bem só até uns 40? Ou a impudica idade do bom-senso corrói as entranhas da poesia nacional, inclusive, deste jornal? Sorriso maroto quase envergonhado, um café com o dedo em riste.

Apoio, incentivo, colaboração, micromecenato, fomento, investimento

Editorial extraído da edição de novembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há 15 anos, o RelevO é sustentado por uma convicção simples: a literatura e o jornal impresso podem existir com liberdade e continuidade. Todos os meses, centenas de leitores, espalhados por todos os estados do Brasil, recebem gratuitamente nossas edições. São 320 pontos, de Manaus a Erechim, que acolhem entre cinco e dez exemplares. Ainda não conseguimos pontos de distribuição no Acre e no Amapá, embora tenhamos leitores assíduos nesses estados. O corpo de pouco mais de 1000 assinantes e 15 anunciantes regulares sustenta a nossa operação e proporciona ao Jornal chegar sem custo em livrarias, sebos, cafeterias e bibliotecas comunitárias. É o nosso jeito de nos “espalhar” há quase 200 edições. Em dezembro, atingiremos a marca ducentésima sem nunca ter falhado um mês sequer.

80% do RelevO é mantido regularmente por assinantes. São pessoas que pagam, na média, entre R$ 5 por mês a R$ 160 ao ano e fazem a nossa logística girar. Todos os dias, o RelevO recebe no mínimo quatro horas de dedicação exclusiva; em certos dias, até inventamos horas para manter a logística funcionando, sobretudo porque acontece sim de termos reclamações, falhas de comunicação e problemas com prazos — principalmente nas devolutivas dos textos enviados, nosso cobertor mais curto.

Mas viver tudo isso por tanto tempo só faz sentido se tivermos grana para custear os gastos mensais e, por consequência, leitores que justificam a labuta. Um jornal literário independente, no Brasil, exige mais do que dedicação: exige persistência e o apoio consciente de quem acredita na importância de um projeto feito por pessoas e para pessoas que não estão no topo da pirâmide. Somos, sim, um produto e temos o compromisso ético de fazer com que ele chegue às mãos de quem o apoia, compra e acredita na sua continuidade.

Contudo, antes de qualquer coisa, somos uma iniciativa de circulação de ideias, de estímulo à leitura, de abertura para novas vozes e olhares. Cada edição nasce do encontro entre o trabalho artesanal da equipe e a colaboração da comunidade que nos sustenta. Apoiar um jornal independente é, portanto, investir na permanência de espaços de reflexão, experimentação e liberdade criativa — algo cada vez mais raro no cenário cultural brasileiro (e global?).

Assim como quem compra um livro apoia o autor que o escreveu, quem apoia o RelevO contribui diretamente para que escritores e artistas tenham seu trabalho em circulação. A biblioteca dos livros não lidos incomoda, assim como quem assina e não consegue acompanhar as edições do jornal fica ressabiado de seguir investindo. Mas podemos pensar que cada valor investido, por menor que pareça, é uma forma de apoio recorrente. É um gesto de confiança e incentivo à produção artística e intelectual que perdura fora dos grandes circuitos comerciais.

Não custa lembrar que somos um periódico fundado por um ex-entregador de jornal de Araucária, Região Metropolitana de Curitiba. Aliás, nem em Curitiba, onde o Jornal tem sede, o RelevO é chamado para As Grandes Festas da Literatura Local — também não é uma reclamação, pois sabemos de quais clubes não queremos ser sócios. Financiar, com qualquer quantia, um jornal de literatura é botar pra rodar um projeto que atinge aproximadamente 15 mil pessoas por mês. Mais do que muitas HerdeiroFest de escritores para escritores.

O RelevO não pertence a uma editora, empresa ou grupo econômico. Não temos um bom sobrenome. Não publicamos amigos, gente de ótimo networking ou quem pede permuta. Somos fruto de uma rede de colaboradores e leitores que compartilham a mesma crença: a de que a palavra escrita ainda tem alguma importância e deve ser democratizada, mesmo quando o patrocinador não consegue ler todas as edições. Para que possamos continuar imprimindo, distribuindo, pagando os custos e remunerando a equipe envolvida, precisamos da participação ativa de quem nos conhece e acredita neste projeto. E isso se trata, na maioria das vezes, de dinheiro, aquilo que alimenta um circuito inteiro — circuito que nada mais é que a soma de diversos planos pessoais.

Então por que apoiar?
Para garantir que o Jornal continue gratuito e acessível para quem não pode assinar ou não conhece o nosso trabalho;
Para fortalecer a literatura independente e o ecossistema dos produtos culturais;
Para manter viva uma iniciativa feita com cuidado, curadoria e propósito (teimosia autoral);
Para que novas vozes continuem tendo espaço para se expressar.

Se você já leu uma edição do nosso periódico, riu, se emocionou ou pensou diferente por causa de um texto nosso, considere transformar essa experiência em apoio financeiro. Muito obrigado por nos acompanhar, de coração, e boa leitura.

Rafael Maieiro: OMBUDSMAN, “MOSTRAR MAIS”? —

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Vanessa, te responderei por e-mail. Motivo? Espaços de economia. Aliás, eventuais interlocutores: escrevam para o RelevO. Em novembro, mando outro xis impresso por aqui. No último mês do meu mandato, dezembro de 25, faço um balanço com mais de 280 caracteres. Ainda estou ouvindo?

Nada de grande se fez sem entusiasmo, mas muita besteira também começou assim

Editorial extraído da edição de outubro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há quem diga que um impresso é como um filho. E pode ser que seja. Um impresso nasce pequeno, exige cuidado constante e, aos poucos, aprende a andar sozinho pelas ruas, pelas mãos de quem o lê. Vai deixando os comportamentos infantis para trás, amadurecendo e ganhando o mundo. Não estamos mais no controle de cada passo. Mas, assim como na vida — agora que o Jornal atingiu 15 anos e o editor, 40—, criar também significa perder. E precisamos falar um pouco disso que vamos deixando pelo caminho.

Neste baile em direção à maioridade, o RelevO trouxe alegrias intensas e inesperadas, mas também arrancou noites de sono, roubou horas de silêncio e ocupou espaços que poderiam ter sido partilhados de outra forma. É possível que o Jornal tenha afastado quem trabalha nele do convívio de pessoas que mereciam mais presença. Não sabemos se a recíproca seria verdadeira. O calendário editorial é implacável: um relógio de pulso fincado na rotina, que marca o tempo em edições. Em nossa parede, vemos os contornos do número 198. Em dezembro, chegaremos à edição 200.

Cada número entregue é também uma espécie de luto. É o texto que não coube, a ideia de humor que não vingou, a pressa que deixou cicatrizes e imprimiu imperfeições claras. Imprimir é também registrar erros, fixar no papel as marcas da urgência. É aceitar que, junto daquilo que se sonhou, fica também o que não deu tempo, o que não se pôde, o que se perdeu. E as perdas não param aí. Quantas férias evaporaram diante de uma edição que precisava nascer? Quantos domingos se dissolveram em revisões intermináveis? Quantas conversas foram interrompidas pelo fechamento que não espera? Um jornal dá, mas também tira. Ele cobra um preço invisível: o descanso, a espontaneidade, a leveza dos dias que poderiam ser livres. Com o tempo, aprendemos a nomear esses pequenos traumas — não como queixas, mas como cicatrizes de uma continuidade que insiste em existir.

No campo das finanças, a história não é diferente: sustentar um impresso independente é viver na corda bamba entre o sonho e a sobrevivência. O preço do papel, a oscilação dos apoios, a matemática que nunca fecha — tudo isso se grava no corpo, como tombos da infância que seguimos carregando. Mas negar o cansaço não elimina o outro lado: a vitalidade. Um impresso é, paradoxalmente, uma fonte de energia contínua. Cresce como os filhos crescem — entre dramas e conquistas, entre quedas e reerguimentos. Cada perda abre uma brecha para novos caminhos, cada falha ensina um modo novo de fazer. É no desgaste, muitas vezes, que surgem as melhores edições: aquelas em que fomos obrigados a inventar, a improvisar, a confiar na urgência como parte do método. A edição de outubro, especialmente com as partes íntimas apontadas pro céu, é um exemplo disso. Sempre achamos que, mais do que amor, paixão ou propósito, o que realmente move o mundo é entusiasmo — essa substância rara, feita da mistura de teimosia e luminosidade.

O RelevO completa 15 anos e segue lutando para não fechar no vermelho em sua vida ordinária. Em 2025, a balança tem oscilado mais pra lá do que pra cá: seis meses no vermelho, três no azul. Já não somos os mesmos do início, embora, sempre sem dinheiro, tenhamos a vantagem semelhante da feiúra: como nunca fomos bonitos, não sabemos o que é perder a beleza. A ingenuidade deu lugar à consciência de que o prejuízo, assim como o ganho, faz parte da nossa identidade. A dificuldade molda caráter, impede a acomodação, nos mantém atentos. E, no fim, permanece o privilégio: ver este filho seguir seu próprio rumo, deixando rastros de literatura, humor e rebeldia.
Entusiasmo não é ingenuidade. É, antes, a convicção calorosa de que cada página impressa é um jeito nosso de existir. É aceitar que não mudamos nada, mas podemos interferir em alguma parte, em algum instante. E isso já basta. Como canta BNegão, “a gente faz uma microparte para que uma microcoisa no mundo mude”.

Uma boa leitura a todos.

Rafael Maieiro: Mangrar

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Sobre editoriais, leitores e espaços em branco — sobretudo, uma menagem

Fui ao Dicionário analógico da Língua Portuguesa (Lexikon, 2010), de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, instrumento cult indispensável para candidatos ao Camões. Minha intenção? Encontrar um palavrório que servisse de título para o deleite dos nobilíssimos não leitores deste espaço.

Aliás, minto: agora temos uma leitora, Vanessa Fagundes. Ela enviou uma mensagem só para mim. Aplausos, vaias… e o silêncio de um tarja preta. Todo feliz, resumo as
exigências da assinante: menos autorreferência, mudanças na ergonomia do impresso (menos espaços em branco e ilustrações, mais textos) e a fusão (ou algo assim) entre esta coluna e o editorial.

Concordo com o primeiro e o último ponto. Aqui talvez seja o espaço mais egoico do jornal e, por isso, deva rodar pela água abaixo, rs. Será que peço demissão? Acho que não, rs. Prefiro ser demitido! Faço piquete, hein.

Agora, sobre o ponto dois, o projeto gráfico do jornal, discordo completamente da leitora. Diz Mário Quintana no Porta giratória (Globo, 2007): “Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.” Precisamos arejar o papel, Vanessa. Nesse sentido, exerço a pelegagem. Defendo o patrão, opa, o editor.

Por último, peço um brinde ao cartunista Jaguar — confesso que ainda bebo! —, e deixo um poema (ele vai ficar puto da vida, acho) dedicado a Fausto Wolff. O Lobo foi tomar um porre com Jesus Cristo no dia 5 de setembro de 2008 e nunca mais voltou.

*

p/ Fausto Wolff e ZH

não enlouquecer e nem lucrar com a loucura dos outros
dosou o Lobo aos que vivem à beira do abismo
aos poetas que rasgam a blusa
apontam para o mamilo esquerdo

[…] segura o cano do revólver, sente o frio do aço, o mamilo arrepia, a mão do verdugo
treme, tremula:

— Atira aqui, seu merda! — declama o poeta.

a vida só nos reconhece na fusão mais vulgar do ato fundamental da coragem com a
sanidade
que só será nomeado
como ato
como flor cortante em formato de alameda
se vencermos o abismo compulsório

ela quer a vida quer exercer a sua vontade de implodir este tempo já cansado

&

espiralar numa velocidade alucinante até num átimo
criar o ser quando momentaneamente desesperado
olhe para um arco um abraço uma ponte

e elas respondam

15 anos em 15 anos

Editorial extraído da edição de setembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em setembro de 2025, metade do século, o RelevO completará 15 anos de vida. Isso equivale a mais de 5 mil dias exatos de insistência, invenção, tropeços e recomeços dentro de formas diferentes de fazer. Para um jornal independente de literatura, cada dia é um pequeno dado jogado a um destino incerto: sobreviver em meio ao mercado editorial brasileiro, onde fazer literatura nunca foi tarefa simples, sobreviver em meio à indiferença que atravessa o ato de ler. Bem, um certo ato de teimosia.

E pensar que tudo começou com um jornal de oito páginas, mil exemplares e apenas três pontos de distribuição em Araucária e Curitiba, basicamente nos corredores da Universidade Positivo. O editor era estudante e queria ter um jornal para chamar de seu. Sabia diagramar um pouco e conhecia gente que escrevia. Era pouco, mas era o que tinha. Era, sobretudo, o que se podia fazer: juntar palavras, imprimir o que desse com 300 reais de orçamento, acreditar que alguém gostaria de ler. O RelevO foi um gesto nascido do desejo de imprimir literatura por quem gosta de ler para quem gosta de ler. As demais interpretações sempre flertam com o exagero. Hoje, olhando para trás, entendemos que aquela simplicidade não foi um acidente — foi a marca que nunca abandonaria nossa trajetória.

Afinal, o que segue como aquilo que chamamos de RelevO? Seguimos como um modesto jornal de papel com textos de literatura, um projeto simples que atravessou as transformações de diferentes ecossistemas da comunicação fazendo exatamente o que fez desde a primeira edição: publicar de maneira impressa. É a circulação de erros e acertos, de fracassos que ensinaram e de descobertas que nos deram fôlego. Já fomos chamados de velhos, já nos chamaram de anacrônicos, já nos mandaram ser digitais — e ainda mandam. Contudo, longe de nós aproveitar uma efeméride com qualquer indício de rancor.

Talvez a maior graça de tudo esteja justamente nisso: resistir à obviedade de dar errado. Sempre, ao nosso modo, duvidamos das fórmulas prontas dos novos arautos tecnológicos. Insistimos que o papel não morreu porque, enfim, o formato tem suas vantagens e desvantagens (como qualquer coisa na vida). Melhor ainda: insistimos que o papel pode ser uma alternativa, que ler pode ser uma alternativa, que pode ser uma companhia.

15 anos também são feitos de repetições. Um jornal só existe porque se repete. A cada mês, o ciclo recomeça: pensar, editar, revisar, imprimir, distribuir. Assim foram 15e anos, assim podemos definir nossos últimos 15 meses, os próximos 15 dias, os atuais 15 minutos. O RelevO é a continuidade de cada dia em que abrimos o e-mail; conferimos notificações nas redes sociais; verificamos quem mandou texto novo; atrasamos devolutivas de quem mandou texto novo, reenviamos exemplares que se perderam no caminho. Somos a soma em série de instantes cujo resultado é algo que compila o intervalo de 30 dias: o tempo lento da página impressa e o tempo rápido da leitura de quem a recebe. É ritmo, é repetição, é a mesma ação refeita 197 vezes com a mera diferença que somente a personalidade de cada mês sabe acrescentar.

Talvez essa seja a única lição de 15 anos: compreender que não há permanência sem repetição. Somos um jornal que insiste em existir de novo. Muito obrigado a todos que fizeram parte desta trajetória, aos assinantes atuais, aos projetos que anunciam conosco, aos ex-assinantes que, em algum momento dessa jornada, também estiveram conosco. A casa está sempre de portas abertas. A nossa ideia de infinito se cruza com o ato cotidiano de acordar.

Uma boa leitura a todos.

Rafael Maieiro: Panelinha furada

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Entrevista com Zeh Gustavo, o ex desta coluna

Meu irmãozin, seguinte: o RelevO é um pasquim muito necessário, né? O doido do editor faz o corre de editar um impresso independente, sobre literatura, em plena barbárie. Diga aí…
ZEH GUSTAVO (ZH) — Deixa de ser puxa-saco, cara! Não percebe que é tudo narcisismo do editor? Que se a terapia estivesse em dia, este jornal já tinha ido pro saco, ou pra internet? A gente embarca porque tá na mesma merda dessa inadequação de sermos uns desnaturados que nem se esforçam para malhar o intelecto no que realmente interessa, ou seja, publicar em revista padrão A1 na Sucupira, quiçá fazer aquele pós-doc sanduba e torcer pra depois não virar Uber.

Pois é… Tem aquele rapaz da paçoquinha que diz coisas bonitas sobre livros numa canção. Taca até um pela janela, lembra? Cult. O foda é receber um calhamaço no meio do cucuruco, do nada. Me diga: livros com asas ou um livro na cabeça desvoando de um edifício?
ZH — Muitas referências aí juntas, deixa eu processar (a-do-ro! estes terminhos sacanas da moda!). Não lido com amendoins em geral. Livro com asas, sempre. Livro-pombo. Que coma do lixo. Já os edifícios, eles também desabam, como diz a sambista Patativa (do Maranhão). Ela bem viu isso acontecer, e muito. Canto sobre, inclusive – mas você, como bom amigo, só vai ouvir uma vez meu disco e olhe lá!

Esta coluna é (ou seria) a Ouvidoria do jornal, o espaço do tal do ombudsman. Atualmente, eu. Tu já pegou esta tarefa. Mas acho que só dois leitores entenderam isso, conheço um, o tal do Jurupinga. O que é esse troço de ombudsman?
ZH — Momento emocionado (ó o narcisismo aí, gente!): pra mim, foi um sonho realizado. Mas é um fóssil, mesmo no RelevO. Ou quase isso. Eu tive somente uma coluna com boa repercussão dos leitores – porque, em sua maioria, são também autores, e nela abordei a temática da naturalização da figura do autor-pagador. Voltando ao fóssil: a comunicação real, ela quase acabou, neste mundico hiperconectado-hipossensível. Fica quase uma Ouvidoria sem reclamantes. Uma pena.

A vida é dura
perdura
mas dura
verde
podre
madura

Ainda, sim, sem cura
ela bate asas às lagartas
reinventa o ciclo vital das moscas
diariamente?
namora o sorriso do poste de luz
quase pisca sem parar no subúrbio dos corações

Um passeio pelo abismo da palavra sem fazer dele uma morada cinco estrelas
será um chamado para a canção?

Responda em versos, rs
ZH — Eu? Tô fora! Ando praticando o detox. E com aquele olhar vazio, nenhum sinal de emoção da música do Paulinho da Viola [Não quero você assim], então a coisa da poesia, aí ela emperra. Justo quando a vida emperrou, de fato. Deve ser da velha e antiquada dor de amor. Que hoje chamam luto. Luto pra lá, luto pra cá… Deve ser efeito do tal ciclo vital das moscas de que você falou.

Este poema é nosso ou do RelevO, já que ele não paga as nossas contas?
ZH — É teu! E na conta do editor. Nem te indiquei!

Arruma um BO com os leitores do RelevO por mim? Nossa amizade vale isso?
ZH — Só de tu me entrevistar pra deixar de falar dos textos da edição passada já não dá um beozinho não?!

Vamos comprar uma canoa furada?
Uai, não estamos, já, todos, aqui ao menos, nela?! E, paradoxalmente: sequer, mais, conseguimos afundar. Vamos boiando. E tentando, em geral inutilmente, desviar da pedraria posta no trajeto, enquanto vemos o mundo que nos forjou como tais – para o bem, para o mal – ir secando devagar.

Tirem os esqueletos da sala que está passando o maior impresso da nossa rua

Editorial extraído da edição de agosto de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


No fim de junho, anunciamos o aumento no valor das assinaturas — de R$ 70 para R$ 80 na categoria básica — e, para surpresa da equipe, a resposta foi extremamente positiva. Recebemos apoio, carinho e novas assinaturas, além de renovações antecipadas e mensagens incentivadoras dos leitores. Esse reforço financeiro garantiu o primeiro superávit de 2025, que foi revertido na ampliação da distribuição do Jornal. A nova edição traz, na página 23, o Mapa de Distribuição atualizado: o RelevO agora chega a quase 300 pontos de distribuição. A proposta é ampliar o acesso e convidar mais pessoas a participar dessa estranha, porém insistente, experiência impressa, à beira de completar 15 anos em setembro.

Aliás, também por conta disso e daquilo, temos novidades diagramantes.

De fato, o ofício da diagramação se descreve, em linhas gerais, como a aplicação de conhecimentos tipográficos na disposição de elementos textuais, pictóricos e esquemáticos em um suporte, seja ele destinado ao impresso ou ao digital. Tal afazer varia um tanto, em espírito, conforme a natureza do material a ser diagramado. Para o RelevO, a diagramação é uma negociação entre a quantidade de texto para cada página e os demais elementos que precisam dialogar com ele: as ilustrações dos artistas convidados, os anúncios e o que mais for surgindo de surpresa. O desafio do diagramador é tentar deixar cada elemento “respirar”: organizar tudo que se destina ao retangulóide de 28 por 32 centímetros, respeitando as margens e os espaços em branco que geram o equilíbrio que tanto agrada aos leitores (dizem).

Não há muito segredo em relação a esse aspecto. As estrelas do show serão sempre os textos, em seu conteúdo, e as ilustrações. São poucos os elementos gráficos que os acompanham pelas páginas. Um ou outro fio separador, alguma criatividade na hora de criar numerações de capítulos ou subtítulo e pronto. Na página 2, com a ajuda do Flourish, trazemos também alguns gráficos. Há poucos ícones, usados para representar as seções fixas do periódico. A caneca de café quente representa o editorial, embora um copo de uísque seria mais fidedigno. O guarda-chuva protege o ombudsman das possíveis bolinhas de papel arremessadas pelos leitores. O conselho editorial ganhou um ícone também: um óculos, porque eles precisam ler coisas e isso cansa as vistas.

Por muito tempo, usamos a fonte Bembo para compor o corpo de texto. Essa era a fonte que conferia materialidade aos contos, poemas e ensaios enviados pelos autores. Uma bela fonte de estilo renascentista: serifada, com leve angulação para a esquerda em seu eixo compositivo, com algarismos oldstyle obedecendo às linhas de ascendentes e descendentes do restante dos outros caracteres. Seu desenho contemporâneo foi elaborado pela fundição britânica Monotype nos anos 1920, buscando como inspiração os traços do tipógrafo renascentista Aldo Manúcio, que desenhou várias letras para sua oficina de impressos localizada na Veneza do século 16.

A versão da Bembo empregada pelo Jornal tinha apenas quatro variações: regular, itálico, negrito e itálico-negrito. A partir da edição de agosto, a Bembo dá lugar à fonte Newsreader, desenvolvida em 2021 pela equipe da fundição parisiense Production Type e distribuída a partir dos critérios da iniciativa Open Font License (v.1.1). Isso significa que o RelevO é livre para usar seus estilos em composições impressas e digitais gratuitamente. A Newsreader tem 3 famílias de fontes, com 14 estilos cada uma. Isso nos dá uma considerável liberdade para explorar composições, combinando itálicos e regulares com diferentes pesos, engrandecendo a diversidade visual dos textos dos nossos autores.

Os títulos dos textos, por outro lado, não tem uma fonte definida porque estamos já há algumas edições fazendo experimentos. Cada novo volume elege um ou mais estilos para personalizar os títulos. Um pequeno disclaimer na página 2 traz os créditos para os tipógrafos escolhidos. Acreditamos que isso dá a cada edição um tempero próprio.

O Jornal ainda conta com uma fonte auxiliar, usada para legendas, cabeçalhos, nomes de autores e demais informações que acompanham os textos. Até o momento, a face tipográfica Avenir era a escolhida para o papel. Desenhada nos anos 1980 pelo famoso designer Adrian Frutiger, essa fonte é uma releitura da Futura, uma letra popular desde o início do século 20 e de autoria de Paul Renner. A Futura trazia formas geométricas para suas letras, respeitando um estilo minimalista no qual a economia dos traços simbolizava uma busca por uma suposta eficiência comunicacional — um espírito da “forma que deve seguir a função” que ditou muitas das decisões dos designers modernistas que optaram por eliminar serifas e modulações de traços presentes nas letras que estavam desenhando. A Avenir tentava respeitar essa tradição ao mesmo tempo, em que resgatava a organicidade das letras humanistas que a precederam.

Agora, o RelevO substitui a Avenir por uma família de fontes chamada Work Sans, projetada pelo tipógrafo australiano Wei Huang em 2020. Wei Huang acredita que desenhar letras é uma forma de meditação. A grande vantagem da Work Sans é que, ao mesmo tempo em que mantém as características das fontes grotescas (o aspecto geométrico e a baixa modulação dos traços), ela faz uso da tecnologia das fontes variáveis. A maioria dos softwares de composição de layout, hoje em dia, permite manipular fontes variáveis a partir de comandos numéricos. Ou seja, a Work Sans é configurada em valores que vão de 100 a 900, representando diferentes pesos. Isso permite que a utilizemos de formas bastantes diversas, tornando-a extremamente versátil. A Work Sans também é disponibilizada por meio da Open Font License.

Essa padronização tipográfica, quando aplicada nas páginas do RelevO, obedece a um grid de 12 colunas, que se adapta para receber textos em duas, três ou quatro colunas, dependendo da sua densidade ou tamanho. O importante, nessas horas, é tentar manter uma identidade entre as páginas, para não deixar o leitor perdido achando que um texto está com alguma parte faltando ou que seu jornal veio incompleto. Não eliminamos a possibilidade disso acontecer, claro, mas é importante que, em termos de diagramação, não restem tais ambiguidades.

O último elemento que compõe o projeto gráfico do Jornal são as pequenas gravuras que aparecem acompanhando os números das páginas, no cabeçalho, ou também, muitas vezes, ilustrando os textos das páginas centrais. Trata-se de imagens de jornais, livros e revistas que caíram no domínio público e estão disponíveis em bibliotecas digitais gratuitamente. Após um rápido tratamento, elas estão aptas a compor as mensagens secretas que estou tentando enviar aos meus colegas foragidos por meio das páginas deste impresso.

Ufa! Tudo gira ao redor de esqueletos.

Uma boa leitura a todos.