Amanda Vital: Ombudswoman 11: “The Chocolate Agenda” — o que a grande mídia não quer que você saiba!

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

“Tabacaria”, Álvaro de Campos (sim, este é do Álvaro, maltinha, Álvaro que tem o mesmo focinho do Pessoa, mas nãaaao atribuam ao Pessoa, é Ál-va-ro, tá-se bem?)

Car_s leitor_s, a coluna desse mês vai ser totalmente voltada para denunciar o propagandismo da curadoria do RelevO da edição passada para a venda de seu novo produto, o Chocolate RelevO, lançado no mês passado. Tenho provas o suficiente para mostrar que todos — sim, absolutamente todos — os textos foram selecionados a dedo para incentivar a venda casada, que, aliás, é crime no Brasil. Fazendo um trabalho de trincheiras, busquei o que a grande mídia não mostra, o fio de cabelo em ovo, o conspirac-, quer dizer, os “olhos de ver”, acordados e muito bem acordados. Vamos a isso.

Começo por “Questão de vestibular”, literatura-múltipla-escolha de Marco Aurélio de Souza, pulando a seção de carta dos leitores, que é claro que não deixou de publicar uma quantidade absurda de comentários relacionados à venda do chocolate. O que múltipla escolha nos lembra? Enem, é claro. Vestibular, para ser mais precisa, e para ornar com o título atribuído ao texto. O que levamos para a prova de vestibular? Caneta preta, sim. RG, total. Uma garrafinha d’água? Convém. Mais mais do que isso: levamos chocolate. Há uma psicologia do consumidor (e do consumo — do chocolate, claro) atirada para os leitores logo à primeira vista, preparando o ambiente para o que mais vem por aí. Isso é jogada de mestre, vamos concordar, né? E começamos jovens, vestibulandos, acabadinhos de sair das fraldas. No começo do vício.

Depois entra “O amor”, de Maurício Porto. Ora, novamente a curadoria entra na mente de quem lê. O amor também pode ser f*dido. Com isso, recorremos a todas as benditas desgraças, para nos desgraçarmos ainda mais; entre elas, o álcool. E a menção a whiskies, que vão bem com chocolate, faz com que o leitor fique predisposto a buscar um acompanhamento rápido para um bom conto. Uma caixa de bombons com uma boa garrafa de destilado? Não há melhor. Na fossa, então…

A crônica da Maria Eugênia Moreira segue a mesma coisa: a autora traz à tona a questão dos supermercados da rede Oxxo, estilo Dia, que é onde costumamos fazer compras pequenas; dentre elas? Sim, o chocolate. A nossa mente vai quase de maneira automática no corredor dos doces e batatinhas, sentimos a mão alcançando, entre aquelas barras quebradas de chocolate barato e duvidoso, alguma que esteja minimamente inteira. O cenário trash da crônica descreve e ambienta super bem essa procura. E o estômago ronca, estranhamente ronca.

“Novíssimos paraísos artificiais” é a reportagem especial do RelevO do mês passado, que, é claro, como todo bom vendedor, veste-se da causa ambientalista apenas para fingir que o produto é sério e preocupado com os rumos que o planeta está tomando, deixando a publicidade bem nas entrelinhas. O “Novíssimos paraísos artificiais” é o blue money da imagem boazinha e limpa, anti-monstros-capitalistas, de quem acaba de lançar um chocolate ao mercado e não quer ser confundido com charlatães. Mas sendo.

E sobrou até para a própria Enclave, mãe do céu, uma coluna tão séria, tão perfeitamente bem escrita sempre… Precisava mesmo mencionar alguma parte do trabalho de Fischer na busca de João Gilberto, algum recorte que seja, voltado apenas para aguçar o apetite? E foi logo de um diálogo com Garrincha, garçom do restaurante preferido. Ora, o que se come depois de um bom prato? João Gilberto não pedia sobremesa, mas você pode pedir!

Agora, qual não é a minha surpresa quando viro a página e, tcharam!: além d’O Grito, mais um texto sobre supermercados… Pois é. Dessa vez maior e mais esmiuçado, com deliberações (bem interessantes) sobre a organização dos corredores e do carrinho de compras, chegando ao fim do jornal e fazendo aquela última tentativa de despertar o apetite e levar as mãos à carteira para comprar besteiras. Percebem a sutileza? É uma linearidade do mal essa. Do senhorzinho gordinho de suspensórios e bigodudo que te quer vender o seguro de um carro que você não tem!

Até a crônica tão leve de Rodrigo Madeira tem sua porção de culpa no cartório. Primeiro porque é um texto doce, docinho. Segundo, porque de tão leve, mas tão leve, cria pequenas perninhas de palitos de pirulito e vai caminhando pela cidade qual flâneur. E o leitor também cria suas perninhas e fica achando que está não só leve, mas doce, docinho. Acho que não preciso falar mais nada, né?

Mas sabem que com poesia a coisa fica um pouco mais complicada, que esses poetas são qualquer coisa de enigmáticos, hieroglíficos, ai, são tão pseudo! Mas consigo ver, no poema de Liana Timm, dois elementos: o sexo (que sim, pode exigir um chocolatinho em cima do travesseiro) e o pós-sexo (que sim, pode exigir um chocolatinho embaixo do travesseiro).

O mesmo com a tradução de Bernardo Antônio Beledeli Perin de “The woman who could not live with her faulty heart”, de Margaret Atwood. Ora, bate na minha cara com esse trecho: “Mas a maioria deles diz quero, quero, quero”. Vê se não cheira a propaganda. Tem cheiro de agenda. Tem ar de propaganda do Baton dos anos 80. Tem tom de letrinha miúda.

Por fim, logo o texto antes da página publicitária em si, a página final, que fecha todo esse grande complô, é um poema de Guímel Bilac. Não vou dizer da menção às cervejas, porque não combina, não. É da gana do leitor terminar querendo mais. E é claro que a venda casada se concretiza aí: o poema nos é apresentado como “que intrigante, quero ler mais dessa pessoa”, e pimba! Toma-lhe página publicitária do chocolate. Meu amigo. Se isso não é venda casada 101, eu não sei mais o que é.

E coitada da Ana C., que ficou na contracapa. “Costa com costa” com a propaganda e não tem nada a ver com isso.

Uma curiosidade, já agora no fim, que fui verificar: a palavra “chocolate” foi repetida 17 vezes no RelevO da edição passada. 17 ocorrências. Provavelmente, só nesse texto, também há 17 ocorrências. Mas isso não vem ao caso, ou vem?

Mas olha que essa coisa toda e eu não levava nada a mal que um certo editor mui nobremente me mandasse uma barrinha do chocolate novo. Na verdade, esse texto todo é só para pedir que me mande uma.

*

No mais, car_s leitor_s: comam chocolates, pequen_s, comam chocolates. Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates! Mas se não quiser, não precisa.

Fora do centro, fora do clube

Editorial extraído da edição de novembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Jacarezinho (PR) — O RelevO nunca foi um periódico curitibano. Nem araucariense, relembrando os anos todos do publisher nesta intrigante cidade da Região Metropolitana de Curitiba, pouco reconhecida por seus aparelhos culturais e mais lembrada por ter uma sede da Petrobras e por seus prefeitos, digamos, singulares. Não somos um jornal brasileiro, que defende a importância da literatura do País. Em suma, não existimos para exaltar uma cidade, um povo, um grupo, uma associação. Talvez o Totti.

Como você pode imaginar, não abraçar um clube tem suas vantagens, como independência editorial, falta de elogios públicos a autores medíocres, ausência em eventos aborrecedores apenas pela política de boa frequência entre pares. Por outro lado, também são evidentes as desvantagens. Nos eventos de representação do que é o meio literário local, como festivais e feiras, por exemplo, o RelevO não existe — não é chamado sequer para ser plateia. Não temos amigos no meio.

Tais constatações nos trazem certa serenidade ou alívio. Verificamos o nosso trabalho melhor fora da aldeia do que no nosso centro, pegando o referencial de o centro ser onde estamos, não necessariamente o que nos gera pertencimento. Em eventos fora de Curitiba, o RelevO se materializa mais como aquilo que realmente pretende ser: um periódico múltiplo, com um pezinho simbólico no anarquismo, descompromissado com os feirantes, ofensivo porém carinhoso. Fora de nosso habitat, somos quem almejamos ser.

Não é novidade intelectual que as avaliações entre pares são dadas à corrupção, e isso vale para honrarias diversas. Ganhar o prêmio de Filho do Ano por parte da própria mãe não é mais que obrigação. Ser lido e estudado em uma obscura universidade da Finlândia, por outro lado, é muito mais interessante porque podemos notar ali, quem sabe, a não existência de amarras dos jogos entre pares. Por que esses japoneses de Glasgow estão lendo a literatura negra brasileira do Cariri? Isso sim é elogio.

Evidentemente, não somos o Filho do Ano, tampouco fazemos boas viagens internacionais. Ninguém estuda o Jornal — provavelmente. Nosso mood é embarcar em ônibus às 23h55 de sexta-feira para chegar num Encontro de Editores às 7h de um sábado de fechamento de edição. E como isso impacta você, leitor ou escritor?

Por não fazermos parte de nenhuma seita, conluio de herdeiros ou vestiário masculino com sobrenomes imponentes, publicamos aquilo de que realmente gostamos. Não conhecemos pessoalmente 90% dos autores e autoras publicadas em nossas páginas e, via de regra, não temos esse interesse (das nossas orientações para publicação: “Não há necessidade de enviar minibiografias [ou biografias inteiras]. Queremos saber o mínimo possível sobre o autor e/ou suas titulações.”). Se você está em Jacarezinho (PR) ou São Paulo (SP) escrevendo uma crônica banal, o que importa para nós é como uma palavra está conectada à outra. Não nos interessa a alcunha do escritor local, e sim o indivíduo que escreve em seu local.

O RelevO tem, acredite, um DNA de oposição aos grupos. Nossa equipe – praticamente inalterada desde 2018 – não passa de seis pessoas. Gostamos de ser assim, da paz da solidão, de conhecer pessoas sem necessidades de contrapartidas. Portanto, escreva para nós, assine nosso periódico… antes que façamos uma edição especial Maravilhas de Quatro Barras (mas lá é bonito mesmo).

Uma boa leitura a todos.

Amanda Vital: Ombudswoman 10: otimismo

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


De: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Para: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Assunto: Um favorzinho de amiga! rs

Oi, Claudinhaaaaa! Tudo bem, meu amor?

Aqui é a Júlia, lembra de mim? A galera me chamava de “Julinha Melancia”, estudei com você no Ensino Médio! Eu gostava demais de você, sempre admirei muito sua inteligência e dedicação! Fiquei sabendo que você é editora de livros agora, muito chique, viu? Imagina só, a menina que nunca ia nos churras no Terceirão para ficar em casa estudando, floresceu e virou editora! Eu fiquei surpresa que você não virou diplomata, achei que ia ver minha amiga Claudinha em uma embaixada hoje em dia! Mas a vida tem dessas coisas, né? Fico feliz que você tenha se descoberto na sua área! Nada é por acaso!

Bom, agora vamos às minhas novidades: eu fui para o Direito mesmo, descobri que a advocacia é minha paixão! Trabalho no escritório do meu pai, você chegou a conhecer ele, né? Eu levava muitas meninas lá da sala pra casa depois da aula, certezaaaa que você tava nesse meio também!!! rsrsrs, segui os passos da família, tenho um legado para manter por ser filha única, né? Mas claro, sempre com muito suor e muuuito trabalho! Nunca foi fácil, sempre foi Deus, a gente sabe como é árdua a caminhada, né?

Claudinha, adivinha só… me descobri poetisa! Acredita que um amigo meu do escritório leu os textos de motivação que eu publico no meu Insta e me falou que eu dava jeito para a escrita também? Imagina, logo eu que odiava literatura e redação! rsrs Aí ele me encorajou a mandar algumas poesias para publicar e eu lembrei da minha amiga tão querida que trabalha na área! Tenho que comprar alguns livros da sua editora, eu li alguns livros, mas são mais best-seller mesmo, confesso que não sou grande leitora, você lembra, né? Mas agora que ele plantou essa sementinha na minha cabeça, eu preciso regar, né? Se não não floresce, você que é empreendedora acima de editora, sabe como é!

Linda, então eu estou te mandando o meu livro lindo, meu orgulho! Batizei o meu filhote de Flores da Julinha, achei o nome muito delicado! Minhas poesias são mais positivas, para dar um tom de otimismo entre os livros que eu vi que você tem publicado, que são um pouquinho mais pro sombrio e pro triste, né? Fiquei até um pouco preocupada e quis juntar o útil ao agradável, pensei que eu poderia trazer uma gotinha de felicidade e otimismo para minha querida amiga Claudinha! Pra trabalhar com um sorriso no rosto! Você vai gostar muito do meu livro!

Ah, aí entra a parte do favorzinho: eu tô totalmente lisaaaa no momento! rs Será que você pode cogitar a publicação gratuita? Sei que muitas editoras fazem isso, então por favoooor! Quebra essa pra gente? Vou ficar te aguardando!

Um beijo grandeee, minha flor, podíamos combinar alguma coisinha, né? Eu gosto muito de ir pro Villa Mix! Podíamos combinar uma baladinha um dia desses, imagina eu ver a minha amigona Claudinha de vestido e salto pela primeira vez! Hahaha, babadoooo!

Anexos:

original-floresdajulinha.docx

foto-eu-linda-na-praia.jpg

orelha-do-meu-unico-amigo-minimamente-intelectual.docx

imagem-horrenda-e-minúscula-toda-pixelizada-para-colocar-na-capa.jpg

Enviado do meu iPhone

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De: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Para: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Assunto: RE: Um favorzinho de amiga! Rs

Oi, Júlia, tudo bem?

Que surpresa em ter você escrevendo para mim, na verdade… Acho que a última recordação que eu tenho é de você sabotando o meu caderno. Mas bom saber que está tudo bem.

Peço imensas desculpas, mas depois de uma leitura cuidadosa e atenta, não vai ser possível publicar o seu original. Seu livro tem uma proposta diferente do que a gente costuma publicar e pode não funcionar com o nosso catálogo, com a nossa linha editorial e com o nosso círculo de leitores mais fieis.

Mas estou à disposição para sugerir outras editoras — ou até mesmo uma gráfica, para você fazer alguma edição do autor, se for da sua vontade.

Tudo de bom para você e para o seu livro.

Atenciosamente,

Cláudia

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De: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Para: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Assunto: RE: RE: Um favorzinho de amiga! rs

Nossa, Claudinha!!! Inacreditável a grosseria da sua resposta! Te escrevi uma mensagem toda atenciosa e você me veio com essa? Você se tornou uma pessoa muito amarga e tá puxando sua editora pro buraco junto com você, viu??? Grossa, mesmo!!!

Ah, querida!!! rs Sinto muito dizer, mas você perdeu uma excelente oportunidade de publicar uma poetisa promissora! Quando eu for internacionalmente conhecida (e vou ser, porque sou uma pessoa muito focada, e guardo rancor, viu? rsrs), você vai se arrepender de ter recusado meu livro por motivos pessoais que só existem na sua cabeça!!! Eu e as meninas éramos pessoas sempre super abertas para amizades, você é que se excluía quando a gente fazia uma piadinha ou outra totalmente inofensiva! Era divertido, você é que não ria com a gente!

Agora era só o que faltava! rs Deitar a lenha nas minhas poesias! Sabe quantos seguidores eu tenho no Insta??? Eu tava te fazendo um FAVOR, te proporcionando materiais ótimos para você publicar coisas mais bonitas nessa editorazinha mequetrefe que só publica autores que ninguém nunca ouviu falar, rs! E eu achando que eu é que estava te pedindo um favor, descobri que você publica os livros de graça! E a capa, poxa, eu mandei praticamente pronta para você, a imagem estava anexa, era só apagar a marca d’água, colocar na capa e mandar imprimir!!! Não tem trabalho mais fácil do que o seu!

Eu sou uma possível cliente que ia te dar livros novos todo o ano, ENORMES inclusive, e é assim que você me trata? Ridícula! Espero que vá a falência!

Enviado do meu iPhone __________________

De: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Para: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Assunto: RE: RE: RE: Um favorzinho de amiga! Rs Júlia, por favor, não me escreva novamente. Atenciosamente, Cláudia

Sonho de uma noite de cacau

Editorial extraído da edição de outubro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Conforme antecipamos a quem nos assina no Substack, estamos fazendo um chocolate. Entre tantas piadas, absurdos e asneiras já publicadas neste espaço, essa é seríssima.

“Fazer um chocolate”, na verdade, não é a descrição justa: estamos vendendo um chocolate. Obviamente, não temos a capacidade de fazer um chocolate, ou ao menos um que teríamos coragem de comercializar. Trata-se de um produto da Utopia Tropical, aqui de Curitiba, com a nossa embalagem. Uma bela embalagem, por sinal, desenhada pelo amigo Bolívar Escobar, num belíssimo chocolate (72% cacau, medalha de prata na International Chocolate Awards de 2023).

O lançamento culminará num evento aberto ao público, também em Curitiba. Teremos música, chopp, drinks, ecobags, carimbos, Edição de Colecionador, etc. Se você ler a tempo, está plenamente convidado, com ou sem chocolate. Os detalhes estão logo abaixo, e qualquer um pode reservar sua(s) barra(s) desde já.

Aos poucos, extrapolamos a esfera do papel para cavucar outros delírios. O chocolate e o evento serão um ótimo teste para entendermos os limites da nossa comunidade e da nossa capacidade de mobilizar nossos assinantes – aqueles que, mês após mês, ano após ano, permitem a existência do Jornal.

Trata-se de um desafio, de uma fuga da zona de conforto e, por isso mesmo, também uma oportunidade. Estamos animados e com algum frio na barriga. Gostaríamos de não fracassar (diante da nossa estimativa modesta de sucesso e fracasso) e temos pessoas muito competentes nos auxiliando.

Se você quiser apoiar este ou outros delírios, considere comprar nosso chocolate – que é, sem sombra de dúvidas, muito bom e muito bonito – e/ou comparecer à nossa festa. Queremos proporcionar uma tarde agradável e uma noite promissora. Para tanto, prometemos nos esforçar. Também nos assine ou siga nos assinando. Seguimos na sina de ser jornal e de papel, acompanhando um café da manhã, um tablete de chocolate na mesa.

Amanda Vital: Ombudswoman 9: nômades digitais

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


— E a menina trabalha?

— Trabalho sim senhor, todos os dias. Estou trabalhando agora mesmo.

— Mas no que trabalha?

— Eu sou assistente editorial em uma editora brasileira.

— Então está cá temporariamente?

— Não, eu moro aqui em Portugal, mesmo. Já vai fazer uns quatro anos.

— E como é que trabalha para uma editora brasileira?

— Por trabalho remoto. Faço tudo pelo computador.

— Ah! É como os nómadas digitais?

— Não, não é como os nômades digitais.

— Como não?!

— É que esse tipo de trabalho que eu faço sempre foi pelo computador. Quer dizer… pelo menos nos tempos digitais, informáticos.

— Pois então! É nómada digital.

— Mas eu não sou.

— Trabalha em outro país e pode fazer tudo pelo computador? É nómada digital, sim.

— Mas não sou. Eu não tenho o estilo de vida do nômade digital.

— Que estilo de vida?

— Sei lá. Supergentrificar países, comprar trocentas casas e terrenos ao preço da chuva e cobrar aluguéis caríssimos, não contribuir com a economia local?

— Mas o nómada digital não precisa necessariamente fazer isso. Até tenho um amigo britânico que…

— Foi só um exemplo.

— Ainda acho que a senhora é nómada digital.

— Não sou, não. Eu nem tenho o visto para nômades digitais!

— Mas muitos não têm! Esse meu amigo não tem.

— Ele pode pedir.

— E a menina, não?

— Não, eu não posso, porque eu não sou nômade digital.

— E o que é que a desqualifica enquanto nómada digital?

— Minha renda mensal é inferior à quantidade mínima de euros que os serviços pedem.

— Mas isso é o valor estimado. Acho que eles aceitam mesmo assim.

— Mas eu não sou nômade digital, senhor.

— Ainda acho que é nómada digital.

— Eu não trabalho no que os nômades digitais costumam trabalhar.

— E no que eles trabalham?

— Não sei bem ao certo, para falar a verdade. No que esse seu amigo trabalha?

— Ele explicou-me uma vez. Não me recordo.

— Pois então. Acho que há trabalho remoto que se qualifica como nômade digital e outros que não.

— Mas ele mexe com o computador assim como você.

— Mas há muito poucos assistentes editoriais, senhor. Não somos assim tantos. E ele pode mexer no computador com, sei lá, programação. Processamento de dados. Essas coisas.

— E o seu não é esse coiso?

— Não, não é.

— A menina está aí com planilha aberta, e-mail aberto… isso é tanga. Faz o mesmo que o meu amigo.

— Olha aqui um livro aberto em PDF. Ele abre livros no computador?

— Por acaso não.

— Então. São coisas diferentes.

— E esses livros aí são virtuais? E-book?

— Não, a maioria vai só para impressão. Esse aqui não vai ter e-book.

— E imprime cá?

— Não mando imprimir, eu só verifico tudo para ir para a gráfica. Eles é que imprimem lá no Brasil.

— Então seu trabalho é só virtual. Digital. É nómada digital, vê?!

— Mas que mania! Eu não sou nômade digital. Para ser “nômade” eu precisava morar em mais de um lugar. Eu só vim do Brasil para cá.

— A menina migrou. É nómada, é.

— Mas eu nem vim a trabalho, vim estudar! Eu só quis ficar aqui depois dos estudos, só! Acho que o nômade tem essa coisa de ter contrato para trabalhar nos lugares específicos, não?

— Não. Esse meu primo não tem isso, não.

— Afinal, ele é primo ou amigo?

— É os dois. A menina é nómada e ponto. E que há de mal nisso?

— Eu não sou neoliberal para ser nômade digital. Não quero ser confundida com um neoliberal.

— Mas que eu saiba não tem nada a ver com política. Vocês, também, a meter a política em tudo… — Tem razão. Me desculpe.

— Estrangeira, ainda por cima. É nómada, é.

— Eu sei lá, eu… olha, não tenho o Instagram de um nômade digital.

— E como é o Instagram de um nómada digital?

— Ah, tipo… cheio de fotos de viagem. Comida chique. Gente saradona.

— Nada, essas pessoas estão nos cafés a trabalhar. O meu vizinho não faz isso do Instagram.

— Mas ele não era seu…? Ah, deixa estar. Olha, pode ser, mas eu tenho que estar ativa para o trabalho o dia todo. Os nómadas têm metas e essas coisas.

— Mas se terminam cedo, podem usufruir dos momentos de lazer. Já vi a menina a fazer isso.

— É claro que eu faço. Mas eu não sou nômade! Eu não sou neoliberal!

— Não é sobre política!

— Tá bem, tá bem! Fogo!!!

— Ai, que disparate!

— O senhor não para de me encher o saco com isso.

— Por que é que está tão nervosa?

— Porque eu não sou nômade digital. E nem quero ser.

— Se a menina não queria ser chamada de nómada digital, era só dizer.

— E faria alguma diferença? Tiraria isso da cabeça?

— Não. Eu estaria a mentir para si.

— Olha, senhor, eu não sou responsável pelo aumento do preço da habitação de Lisboa. Eu moro de favor, inclusive. Não tenho um MacBook nem um iPhone. Essas coisas, sei lá.

— Mas nem todo nómada… até tenho um colega que…

— Ah, não. De novo, não.

14

Editorial extraído da edição de setembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A vida financeira do RelevO é dividida em quatro faixas. Por meio delas, estabelecemos metas de arrecadação, partindo do 1º dia do mês até a última semana – quando imprimimos o Jornal. Com este controle, conseguimos observar as quedas de arrecadação e os períodos de maior fluxo de caixa.

Ter um controle básico de entradas e saídas nos permite averiguar meses mais complicados e outros mais tranquilos, quando até podemos colocar contas em dia com antecedência ou planejar o aumento de tiragem. 2023 tem sido um ano mais complicado, apesar do cenário mais otimista previsto no início do ano.

Temos muitas especulações possíveis a respeito das dificuldades financeiras pelas quais passamos — e já falamos sobre isso diversas vezes, sob o risco reconhecido de sermos repetitivos. Contudo, queremos trazer um novo aspecto dessa faceta administrativa que tanto nos suga energia: a nossa falta de causa.

O RelevO, como alega nosso projeto editorial, não é financiado por nenhum partido, nenhum banco, nenhum coletivo literário ou grupo que resolveu ter um Jornal pra chamar de seu. Muito menos algum herdeiro entediado, infelizmente (se você é um, entre em contato conosco – não estamos brincando!).

Os motivos do nosso surgimento não são necessariamente nobres: vontade de ler; vontade de escrever (menos); vontade de encontrar diversão num mundo com tédio, mas sem herança. Será a falta de um propósito mais elevado a principal razão para causamos menos interesse quando estamos em dificuldades?

Seguindo a mesma lógica, mas pela rota contrária: será que as pessoas têm menos propensão a “ajudar” em comparação com participar de uma campanha vitoriosa? Isto é, se mascarássemos nossa contabilidade e concentrássemos nossas forças em parecer muito legais, um projeto mega impactante, será que conseguiríamos apelar para o “FOMO” de cada um? Quem quer financiar uma barca furada?

São perguntas honestas, não retóricas. Se tivéssemos as respostas, pouparíamos todos nós (como dito, não gostamos tanto assim de escrever). Sem muita paciência para estratégias, métricas, indicadores, buzz, conversão, leads, lead magnets, lides (“f*d*-se que a Britney Spears tá grávida de um cavalo”), metas, redes sociais em geral e, basicamente, qualquer coisa que permita alimentar a doença do crescimento na nossa realidade, seguimos assim. Isto é, com organização e disciplina, mas sempre meio à deriva. Os instrumentos são baratos e improvisados, mas familiares. Produzem melodia. Acompanhamos o baixista e nos viramos. Quando as luzes se apagarem e o bar fechar, não insistiremos. Ninguém vai se jogar no chão e espernear. Em 14 anos de existência, conseguimos evitar o proselitismo e a demagogia. Também conseguimos nos divertir. Parafraseando Paulo Leminski – o que, incrível e ironicamente, talvez nunca tenha acontecido nesse jornal de alma e CEP curitibanos –, isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar ao buraco. Uma boa leitura a todos.

Amanda Vital: Ombudswoman 8: pela liberdade de sermos “burrinh_s”

Coluna de ombudsman extraída da edição agosto de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Só a inocência e a ignorância são

Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?

Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,

Um lugar, nada mais.

“Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa.

(Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa). Lisboa: Ática, 1952

— Tudo o que eu vou fazer tá errado. Tudo o que eu faço tá errado (3x). Tudo o que eu penso tá errado. Tudo o que eu faço tá errado. Se eu faço isso, tá errado. Se eu faço aquilo, tá errado. Se eu converso com Fulano, tá errado. Se eu pego esse trem aqui, tá errado. Se eu fecho a porta, tá errado. Se eu converso com o outro, tá errado. Se eu converso com outra pessoa, tá errado. Tudo tá errado. Fala o que é que eu acertei até hoje? Nada. Nada.

— Inclusive esse momento agora, eu acho que você tá errado.

Caio e Rodolfo, BBB21

Car_s leitor_s, a literatura é uma coisa linda. É linda de verdade, agora é muito sério. Novas possibilidades se abrindo à frente dos olhos, universos em constante construção, transversalidades com outras áreas do conhecimento, os encontros e afetos, a profundidade, a cultura, a representatividade, as toadas de muitas bandeiras importantes. É mesmo bonito. Demais. Por isso mesmo, aproveitando para trazer novamente um texto sobre as pessoas que fazem esse campo — e dando nomes aos bois, às vezes; e denunciando, a todo o tempo — porque literatura já as próximas páginas vão trazer sempre, e sempre muito bem. E antes dele, faço um convite-sugestão que trago como lema pessoal e que pode servir para alguém: evitar ao máximo ser mais uma dessas tantas pessoas chatas para estragar tudo isso, que é tão bom e bonito, com (por falta — no momento — de outro nome em português) o famigerado gatekeeping. Também chamado de “se você não é X, não pode entrar”, “se você não leu Y, não pode entrar”, ou até “não pode se sentar conosco na hora da merenda”.

E o que seria o gatekeeping na literatura, afinal? E quem seriam os gatekeepers? No mundo dos jogos, por exemplo, ele vem na forma do nerd que dá resposta atravessada à mãe e não sabe fritar um ovo, por meio de falas como “se você não tem um computador com a placa gráfica da AMD mais recente — e carérrima — para jogar, você não é considerado um gamer de verdade”. “Se você não conseguiu zerar Yakuza 0 [adendo: gente, que série maravilhosa de jogos os de Yakuza, recomendo para todos os que não forem uns bananões que “blablablá joguinho é só pros xófens” enquanto ficam jogando paciência e jogo de trinca o dia todo; logo, sendo gamers tanto quanto Os Gamers ©] em modo difícil, nem venha aqui na live conversar com a gente”. No mundo da música, “se você não conhece todas as faixas de todos os álbuns dessa banda como eu te pedi para nomear, tá usando a camiseta dela por quê?” (geralmente é muito com mulher essa, né? Quanto sadismo…). E na literatura não é muito diferente, mas vem com outras demandas. Então é um tipo de comportamento muito específico, bem passivo-agressivo, bem pretensioso, de gente que ou quer te testar, ou quer se sentir superior acima da sua falta de conhecimento, das práticas que você tem ou do que você consome ou deixa de consumir, tem ou deixa de ter, é ou deixa de ser.

Há uns 15 anos, quando eu passava tardes inteiras escrevendo um ou outro textinho para criar coragem de publicar no Recanto das Letras (eventualmente rolou), achava que os escritores eram todos super gente boa. Que cumprimentavam o porteiro, agradeciam o carteiro, olhavam o pedreiro com admiração e não repulsa, não tinham preconceito, eram pessoas gentis e bem educadas. Todos. Até receber as primeiras críticas de marmanjos que tinham idade para ser meus avós e que não diziam nada a respeito do texto. Só que eu ainda tinha que “comer muito arroz com feijão para chamar esse textinho aí de crônica”, mas sem explicar o motivo; de gente me cobrando leituras, dizendo que eu não pertencia àquele lugar, que aqueles assuntos eram desinteressantes. Mas de uma maneira bem porca, arrogante, mesmo. Cobra criada de internet, não me abalava com essas coisas, não. E já achava que essa coragem seria só por causa da tela, do anonimato. Fui começando a conhecê-los pessoalmente, agora já adulta, e não mudou muita coisa, não, da desilusão que eu tive quando criança. Porque as cobranças agora se aprofundam — já que uma pessoa cresce e tem que seguir exatamente o caminho padrão que todo mundo seguiu, é claro — para leituras obrigatórias (e não só de livros literários, é dos acadêmicos também, e filosofia, sociologia, política, psicanálise, aromaterapia, tudo), que aparentemente todo mundo leu menos você; de não conhecer isso ou aquilo. E do BBB. Ai, caramba do BBB, das discussões ao redor do BBB todo ano… “Ai, eu tenho alergia, não vejo, coisa de gente burra, programa baixo, inculto, pobre e vulgar, da plebe, tenho mais o que fazer!” e vai lá passar horas no Face.

Pobre escritor que um dia resolve dizer que assistiu ao BBB da noite passada. Que não perde um episódio da novela das sete. Que chora com propaganda, ouve Biel do Furduncinho, fala “iorgute”. Não pode, não, uai. Onde é que já se viu alguém que quer ser escritor se prestar a esse serviço? Tem que assistir a filme difícil todo dia, ler 200 páginas/hora com um linguajar refinadíssimo. Ter tempo para isso e para ser dum azedume horroroso nas redes sociais. Essas pessoas adoram dizer que não perdem tempo com bobagens. E talvez não percam. Mas o que é bobagem, mesmo?

Bobagem é esse cansaço, que não teria razão de ser se as pessoas não se incomodassem tanto com coisa besta. Essa necessidade de dizer que o que é popular é burro ou de/para gente burra. Isso porque ainda não falei direito das obrigações de leitura, que é o que deu o mote ao título. Chega a um ponto em que a gente se sente tão sem graça de estar por fora das referências e citações da pessoa que a gente finge. “Conhece o Fulanóvski?”. “Ah, li sim, claro”. Depois do primeiro “mas ele é cineasta”, passei a dizer só que “conheço vagamente”. Já me calhou de ter fingido que conhecia tal coisa e a pessoa dizer que tinha acabado de inventar aquele nome. Pedi mil desculpas, mas que a cobrança e o climão pelo desconhecimento já davam tanto cabo de mim que passei a mentir sobre tudo o que é conversa intelectual. Depois disso, meio que vou dosando, só falando que li as coisas de que já ouvi falar, ao menos. E não precisaria mentir tanto se as pessoas ficassem de boa com o fato de você não conhecer todas as coisas. “Já leu o Fulanóvski?”. “Não, não conheço…”. “Como assim não conhece? Não deu na ementa do seu curso? Nossa, mas é leitura obrigatória!”. Com um ar assim de quem viu fantasma, sabe? Que constrangedor, gente. Parem com isso, que coisa desagradável… É só falar “ah, tudo bem” e dar um resumo bacana do que se trata aquilo. Apresentar, deixar a pessoa curiosa para ler. Simples, né? É tão gostoso apresentar coisas novas para as pessoas. Deveria ser uma experiência legal, de partilha, não de hierarquia. Ah, e já que adoram recomendar leituras, leiam o ambiente, também; porque se não despertou interesse, para que ficar dissertando sobre algo que não tá assim tão interessante para alguém?

E se as coisas de que mais pessoas gostam é sinônimo de burrice, que sejamos pessoas meio burrinhas. Sabe? Só um bocadinho. Ler na surdina sobre aquela briga de duas subcelebridades de que você nunca ouviu falar. Ligar na Globo na hora do reality (pode colocar baixinho pro marido professor acadêmico engomadinho não vir te encher o raio do saco). Fazer testes do Buzzfeed para saber sua idade baseado no que você gosta de comer no verão. E no meio de tudo isso, ler jornais, livros, ver filmes legais e de Alta Cultura ©, também. Que é libertador sorver um pouquinho de cada coisa.

Querid_s leitor_s, assistam a reality shows duvidosos depois de terminar de ler aquele calhamaço daquela obra completa. Vão aprender a dançar a música da sanfoninha da Anitta depois de voltar daquele evento maroto. Mas é o costume: se não quiser, também não precisa.

As vestes do paraíso

Editorial extraído da edição de agosto de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Na condição de reféns e adoradores dos ciclos de 30 dias em que vivemos, chegamos em agosto, delimitando, assim, a última edição do ano 13. Na condição de limpadores de calhas que somos, de tentar desentupi-las enquanto o tempo está firme, estamos na lida há quase uma década e meia. De fato, os nossos anos editoriais se encerram no mês 7 por conta da fundação do Jornal, em 3 de setembro de 2010, uma data um tanto convencional, pois não sabemos dizer com tanta precisão assim quando publicamos a primeira edição.

Como falamos muito de passado e de dificuldades do presente, o que esperar de nós para o futuro, além de seguir publicando e enfrentando ciclos? Pode parecer banal, mas, dentro da lógica dos hábitos que circundam um periódico de circulação mensal, surgem sempre novas ideias ou simplesmente novos jeitos de fazer (para evitarmos a monotonia). Esta edição que você tem em mãos é um exemplo visual disso e ilustra bem nossos propósitos.

Desde a primeira edição, o RelevO aposta em publicar artistas pouco óbvios e que possam ser adaptados à nossa plataforma, isto é, o papel-jornal – que tem suas especificidades e, vamos lá, suas manias. Gostamos muito de traços mais minimalistas, por exemplo, não porque seja a corrente que nos conecta com o Sublime…, e sim por motivos de impressão, que tende a escurecer os traços originais. Também não somos um jornal em p&b somente por acharmos bonito: o custo é consideravelmente menor.

Pela mesma via, fugimos da fotografia, ou melhor, usamos com parcimônia pelo potencial de desfoque, de apagamento e de perda de intensidade da imagem na mudança do digital para o analógico. Foram raras as edições em que ficamos realmente contentes com a migração de plataforma. Por outro lado, também recebemos pouco material fotográfico interessante, que atenda às nossas fugas da obviedade imagética. Em 2023, recebemos fotos de cachoeiras, um ensaio de pets, retratos de missa e alguns nudes que não eram nudes convencionais, pois classificados como intervenção sensorial-artística pelo performer.

Nesta edição, resolvemos voltar ao tempo que nos enovela e capturar alguns artistas de um período sem filtros tão potentes a partir de comandos direcionados. Perguntamos, procuramos, observamos, achamos imagens boas em alta resolução. Foi uma resposta à IA (não foi) auxiliada pela própria IA, que nos guiou. O resultado são pinturas que se conectam aos textos por intervalos de mais de 400 anos e conferiram ineditamente um peso singular ao nosso projeto. Elas têm como eixo o flamengo (não o do Rio). Talvez façamos mais vezes, mas sem regularidade definida. Se você for pintor, gravurista, quadrinista, entre outras modalidades possíveis de expressão pela imagem, nos encaminhe seu material, mesmo.

Por fim, quase de passagem, estamos, mês a mês, voltando à distribuição pré-pandemia do RelevO —para se ver o efeito do período em nossa logística. Em agosto, estamos novamente retornando para Santa Catarina, com a abertura (e reabertura) de 15 livrarias e pontos culturais, que distribuirão gratuitamente o nosso periódico. Quem banca isso? Você, assinante, que, com seu aporte acima da assinatura básica (R$ 70), permite que realoquemos recursos para outros espaços. A partir de uma parceria local, também começamos a distribuir exemplares para toda a rede de escolas municipais de Curitiba, com mais de 180 unidades. Em virtude disso tudo, subimos nossa tiragem para 4 mil exemplares, assimilando um prejuízo um pouco acima do nosso habitual.

Sonhamos, entre o nosso cobertor mensal de entradas e saídas e a nossa busca desvairada por tocar nas vestes do paraíso, com cinco direções:

  1. Mandar o RelevO para todas as bibliotecas públicas e comunitárias do Brasil.
  2. Enviar o Jornal para ao menos 15 pontos culturais de cada estado. Hoje, conseguimos fazer isso em apenas quatro.
  3. Participar mais ativamente do circuito de feiras para ampliar a distribuição direta do periódico.
  4. Ter apenas 1 (UM!) financiador que nos perguntasse “com este valor aqui vocês realmente conseguirão ser o jornal de literatura com maior distribuição do Brasil?”. Sim, acredite. E este valor não chega nem ao triplo do que gastamos hoje.
  5. Seguir publicando o que gostamos.

Uma boa leitura a todos.

Amanda Vital: Ombudswoman 7: como participar de eventos literários

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Olá! Somos a Panelinha Literária Inc., e agradecemos que tenha adquirido um de nossos produtos mais vendidos, a incrível skin de “Escritor Contemporâneo Padrãozinho”, esse último lançamento de grande sucesso entre os círculos literários. Aproveitamos para ofertar uma skin também disponível em versão NFT, bastando digitar o código “NuncaGanheiPrêmio” em nosso site para resgatá-la e ativá-la no metaverso.

Esta skin é composta por:

1. Um microfone com má sonoplastia predefinida, para ler seus poemas geniais (ainda que não eram, agora vão ser — geniais, surrealistas e subestimados!);

2. Cara de bunda (não modificável);

3. Três divórcios (de preferência com meses de distância entre cada um) e uma esposa-troféu (opcional);

4. Um widget chamado “Ego de Escritor Contemporâneo Padrãozinho”, que deve ser inserido pela extremidade final do intestino e inflado manualmente.

Sejam bem-vindos, portanto, ao manual de sua nova skin, que também coincide com o manual de como participar de eventos literários; afinal, o produto não terá efeito se seu primeiro teste não for em um evento.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES ANTES DO USO DO PRODUTO:

1. Para ativar o produto, basta dizer “Foucault, Derrida, Deleuze!”, 3 (três) vezes, com um leve sotaque bêbado e/ou senil. Se ainda não sabe fazer o sotaque organicamente, não se preocupe, basta adquirir a skin “Escritor Contemporâneo Bêbado”. Gesticulações excessivas — com as mãos colidindo em pessoas que estejam portando uma taça de vinho tinto — garantem uma ativação mais rápida do produto.

2. Para mais êxito do produto (sobretudo de seu widget), confira se tem presentes, na sua estante, ao menos 5 (cinco) livros de autores bielorrussos ou de alguma nacionalidade considerada “exótica” para o Brasil. É obrigatório que sejam originais. Se não souber ler em língua estrangeira, pedimos que adquira os livros em sebos, para dar o tom de que estão gastos porque você os leu.

3. A bateria de sua skin vai durar mais se você curtiu, na última hora, ao menos 15 (quinze) poemas no Facebook sem ter lido um único verso, a segundos de sua postagem. Vale também 3 (três) corações em fotos de perfil de autoras mulheres (postadas há meses, para comprovar o stalking e o não-ligar para o trabalho literário delas, é natural).

4. Também para maiores êxitos, é necessário que não tenha recebido nenhum (zero) prêmio literário e tenha escrito ao menos 1 (um) texto passivo-agressivo dizendo que não estava amargurado nem magoado, mas estava, muito. Bônus se tiver dito mal dos vencedores — direta ou indiretamente, mas preferimos indiretamente, com uma “codificação” que só você acha que deu certo — e chorado em posição fetal ao abrir a lista de finalistas.

5. O mestrado em alguma área de Letras é obrigatório. A famosa “carteirada”, como “você sabe com quem está falando?” e humilhações a estagiários(as), sobretudo envolvendo machismo e paternalismo, é um fator preferencial para garantir o bom trabalho de seu novo produto.

6. Esta é uma das perguntas mais frequentes: sim, é preciso que tenha publicado ao menos 1 (um) livro com arte de capa mediana em edição de autor, após longos conflitos com o(a) editor(a) e com o(a) designer de sua editora anterior para que saísse de acordo com a sua concepção estética bastante refinada e superior. Nós acreditamos nisso. Nós acreditamos em você.

PASSO-A-PASSO:

1. DATA. Antes de ativar o produto, tenha em mente — e em seu calendário — o próximo evento literário para participar e, enfim, fazer a estreia de sua skin. Saraus menores e slams não contam, são proporcionalmente muito pequenos e corre-se o risco de uma expulsão. Estamos almejando eventos maiores, como coquetéis de academias literárias, lançamentos de autores relativamente conhecidos e eventos culturais em cidades a mais de 100 (cem) quilômetros de distância de sua residência (excluem-se moradores do eixo Rio-São Paulo).

2. APARÊNCIA. Separe suas roupas mais pseudocult possíveis. Chapéus, sobretudos pretos e castanhos (bônus se o local for quente), mocassins, bolsas a tiracolo — mas em couro legítimo. Corte seu cabelo em franjinha, se for mulher. Óculos escuros, sempre, mesmo à noite. O objetivo é parecer o mais inacessível possível, evitando que plebeus (também chamados “leitores comuns, que não escrevem, só leem, mesmo”) se aproximem de você, frustrando a estreia do produto.

3. MATERIAL. É obrigatório trazer consigo ao menos 3 (três) livros autorais publicados, todos em sua mala de couro (ver tópico 2). Antologias também contam como livros, desde que tenha sua seção marcada com marcador de páginas. Leve seus poemas mais conceituais ou sua prosa poética incompreensível — textos que ninguém entende a não ser você, para poder usufruir da característica de “subestimado” de seu produto.

4. MATERIAL NÃO-FÍSICO. Na bagagem mental, é imprescindível trazer referências e citações — sobretudo citações — com você. Mas nada de literatura ou estudos de cultura. Deixe para trás o Pound, o Benjamin, o Barthes. Psicanálise e teatro é o que está na moda agora entre os literatos, ainda que poetas e estudiosos de poesia. Estamos pensando em Artaud, Lacan, Freud. Não precisa ter lido nenhum deles, não se preocupe.

5. TRANSPORTE. Alguns eventos maiores proporcionam transporte para o local do evento. Aceite sempre, mesmo que isso tire a vaga de alguém que não tenha dinheiro para ir até lá. Pobres? Fora. O transporte é o começo do networking, e isso é mais importante do que qualquer outra circunstância empática. Chegue algumas horas antes, ninguém tem paciência para atrasadinhos. Foda-se se você precisa tomar 3 (três) ônibus para chegar ali. Acorde às 4 (quatro) horas da manhã.

6. NETWORKING. Dizíamos que o transporte é o começo do networking —e é. Faça uma busca detalhada dos participantes do evento antes do dia, para saber a feição e o currículo de cada um. Procure sempre os editores (mas não nos independentes, esses fracassados; queremos de editora média-alta para cima) e os professores universitários, esses podem colocar estagiários para fazer pesquisas sobre seu trabalho literário (e creditar como se fossem deles, claro). Também pode arriscar um caso amoroso com alguma escritora jovem nesse trajeto. O próximo ponto tem uma informação crucial para isso.

7. VINHO. Deixe para trás toda a sua medicação de hipertireoidismo: eventos exigem que você fique bêbado (se esse passo for muito complicado, a skin “Escritor Contemporâneo Bêbado” é a ideal para você) para flertar — também chamado “assediar”, mas não gostamos dessa palavra — com as escritoras jovens e as estudantes universitárias que apareçam por lá. E para poder suportar aquele poeta chato mais velho que fica colando no seu pé toda vez.

8. LEITURAS MISTERIOSAS. Ensaie as suas leituras para o mais dramático possível. A partir do momento em que você pisa nesses eventos, você se transforma em um diseur de poesia. Atue, preferencialmente sem saber atuar. Não precisa decorar o texto; na verdade, as mãos trêmulas segurando o livro ou o papel, ainda após os ensaios, são um fator preferencial.

9. AFTER PARTY. Essa parte é mais importante do que o evento em si. Aqui você encontra o networking mais pesado de todos. É a parte que você consegue o WhatsApp daquele cara famoso que vai divulgar o seu livro. Daquela novinha com daddy issues que romantiza bastante a sua existência boêmia. Você é o diabinho no ombro direito.

10. A DESPEDIDA. Você agora está totalmente sem saco para os abraços e beijinhos de senhoras de meia idade, mas recomponha-se. É preciso ser mais simpático do que quando você chegou. Sorria sem culpa de não ter feito nada. A culpa é da skin.

POSSÍVEIS SEQUELAS APÓS O USO:

1. Uma intimação por assédio sexual (severa). 2. Um linchamento no Facebook (média). 3. Pedidos ignorados de divulgação e promoção de sua obra devido a insistência e chatice pós-bebedeira dos indivíduos que assim prometeram (branda). Faça uso de skins apenas sob indicação. Mas se não quiser, não precisa.

Naturalidades e artifícios

Editorial extraído da edição de julho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Prompt: Escrever sobre a importância dos leitores que divulgam presencialmente o Jornal, distribuem seus exemplares, presenteiam com assinaturas e nos marcam nas redes sociais, ampliando, assim, a nossa malha de contatos e de circulação.

Resultado: Um mundo de risadas e negócios florescentes: No universo dos clientes divulgadores, o exagero é a moeda corrente e a diversão é o objetivo final. Eles transformam o mundano em uma comédia desenfreada, inspirando outros a seguir seu exemplo. Enquanto empresas colhem os benefícios da divulgação entusiasmada, todos nós desfrutamos de risadas e momentos de leveza em um mundo que muitas vezes é excessivamente sério.

Prompt. Contar aos leitores sobre os nossos planos de aprender a programar (não fazer programa) para compreender melhor as possibilidades de expansão do mundo digital, além de, finalmente, ter uma presença nas redes sociais mais coerente com o potencial todo envolvido.

Resultado: A Importância da Programação de Tecnologia para Escritores: aprender programação de tecnologia pode trazer uma série de benefícios para escritores, ampliando suas habilidades e oportunidades no mundo literário. Além de oferecer uma compreensão mais profunda sobre o funcionamento dos dispositivos e sistemas digitais, a programação pode melhorar a produtividade, permitir a criação de projetos interativos e abrir portas para novas formas de contar histórias

Prompt: Combinar uma citação do Conde de Lautréamont [“Belo como o encontro fortuito entre uma máquina de costura e um guarda-chuva em uma mesa de dissecação”] com outra de André Breton [“O homem que não consegue visualizar um cavalo galopando sobre um tomate é um idiota”]; inserir uma camada do filme A vida de Brian.

Passamos, de fato, do meio do ano. Aqui estamos e permanecemos, entre a planilha e o delírio, movendo um jornal de papel que nada mais faz do que investir nas ligações diferentes de palavras e imagens. Orgânico ou sintético, quem sabe tudo não seja estímulo e resposta.

Uma boa leitura a todos.

Amanda Vital: Ombudswoman 6: estou farta do lirismo dos metidos

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o

cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Car_s leitor_s, vocês não estão exaust_s da vida burguesa que tem aparecido nos romances, nos poemas, nos contos? É tão estranho pegar num livro e se deparar com um jantar com comida flambada e espumante, a combinação de uma viagem pra Paris na mesma semana com umas amigas (como se não tivesse todo o rolê de ter que combinar com todo mundo, ver que dia fulana pode, marcar folga, fazer uma pesquisa de preço mais barato e marcar pra dali a uns 6 ou 7 meses, ou algo assim), uma corrida na orla da praia logo de manhã sem um sustinho— nem falo de assalto, poderia ser uma topada numa pedra, sabe? —, um galã chamado Pierre Albuquerque ou Brad Alcântara, do nada, no Brasil… Já é tão comum que chega a ser estranho. Porque é tudo falado com uma naturalidade, imagina! É normalíssimo a dona Cindy Bittencourt dar de presente uns bombons de licor de cereja da Indonésia oxidada e conservada a frio com chocolate suíço 70% cacau orgânico biológico e hidropônico para a sua mãe, “que ela gosta tanto, são seus favoritos”! Romance de vida de herdeiro (infelizmente — e sobretudo — de herdeirA), sem boleto pra pagar, sem mercado pra fazer, que não chora pela alta do preço dos tomates, que freta um jatinho em 5 minutos. Que não é fudido. O máximo que pode acontecer nessas histórias é talvez não ter pão integral para comer no lanche. Descobrir que um gostosão rico que a protagonista conheceu numa balada (de rico, novamente), cujo mapa astral suuuuper bate com o dela — inclusive, ela fez ali mesmo, no meio da boate, e o rapaz nem fugiu, vê só! —, tem uma ex que ele não supera. São uns problemas ridículos apresentados como se fossem problemões. Eu só consigo imaginar que quem escreve isso não precisa sair para trabalhar, mesmo. O romance de herdeiro não fica só no romance, é literalmente escrito por quem não precisa acordar às 5h40 pra pegar condução. Pede almoço e jantar pelo aplicativo. Paga “mocinho” para ir ao correio por si. Tem um gato bengal. Não dá bom dia para a faxineira do prédio. Engraçado é que a gente consegue “ler” isso nos personagens que a pessoa cria, porque também é tudo um bando de gente chata e entojada, com diálogo medíocre, que acha que a vida gira em torno do próprio umbigo. Não sei se cheguei a mencionar por aqui a classe do rico que paga pessoas (literalmente paga) para estar no meio literário, oferece jantares em restaurantes chiques, elabora eventos inteiros com um nome bem pseudocult para uma galera que ninguém conhece, faz seu networking safado para caber bem grandão na rodinha, suuuuper aclamado e respeitado em seu terninho feito sob medida, enquanto escreve, sei lá, num estilo meio Cesário Verde meets escritório do papai para o rapazinho no ócio leite com pera e iogurte dietético.

Acho que quase todos os textos do RelevO da edição anterior se ligam por essa linha mágica que é a vida real, a vida acontecendo. E isso não é necessariamente chato, vamos parar com essa teoriazinha, também, né? “Ah, não quero ler nada que me lembre a minha vida, que já é tão enfadonha”, poxa… O problema não é da literatura ser “do cotidiano”, é seu. Tem gente tão, mas tão chata que não aguenta ler um “asfalto”, um “cocô” num poema, costumam ser os mesmos que criticam poesia descritiva/narrativa porque “não é poesia, é prosa poética”; bando de gente que não superou que as caretices são minoria agora, a trupe dos agarradinhos ao mundo mágico do lirismo pretensioso dos que nunca lavaram um copo na vida porque a esposa faz tudo em casa. Nem tudo o que é distante da nossa vida cotidiana é legal; na verdade, acontece muito o contrário (e isso também pode ser lido por “nem toda literatura fantástica é legal”, muita não é, só imita o Tolkien e vem de uma galera que passa os dias no WattPad lendo adolescentes tristes e iludidos para pegar inspiração), a coisa ser tão desconexa da realidade que chega a ser um saco. E nem todos os cotidianos são os nossos. Porque também não é todo dia que a gente tromba, pessoalmente, com a poetinha arrogante de bairro que escreve uns poemas ridículos de tão senso comum que são — e com uma sacanagem merecida (olha o guilty pleasure e a sedezinha de vingança aí!) com ela —, com as clientes-sinhás-nossas-senhoras da manicure, com as vizinhas adúlteras de meia-idade se confessando ao padre, com o Alzheimer da dona Linda. Tem que vir alguém contar isso e mandar para o nosso querido jornal. Contar da perspectiva do fudido, mesmo. Nem toda literatura é para fugir, para salvar, para ir longe. Muita é pra geral ficar puto, sair com dor de cabeça, ler como se fosse o desabafo de alguém que tá farto, assim como quem a lê. “Mas até tem rico que sabe escrever”, é verdade. Ainda mais antigamente; eram os que mais publicavam, tinham o dinheiro e os contatos certos, e o talento — boas vezes — também; tinham a escolaridade certa, o tempo de leitura certo, o “modo de ver o(s) mundo(s) que não o seu próprio” também, e isso tem lá a sua graça. Atualmente também tem. Isso não é um manifesto contra os ricos, é contra os bestas, mesmo.

A edição passada foi muito, muito boa, apesar de ter pouca poesia originalmente em português, mais tradução, mas as traduções também estão excelentes. Tivemos o conto “A Poeta”, de João Alexandre (acredito que esse protagonista tenha vingado todos aqueles que gostariam de tentar mostrar alguma farsa por trás dos poemas curtinhos e suas autorias — eu estive em alguns grupos desses poetas dos “curtinhos” na minha adolescência e olha, o plágio, a apropriação de ditados amplamente conhecidos e populares para si, como se fossem de autoria del_s, com assinatura estilizada e tudo; a mania de superioridade d’A Poeta em questão são reais, bem reais, e agem como se estivessem escrevendo o suprassumo da literatura contemporânea, e são só coisas que ouviram na rua —, mas aqui deixo um adendo, porque vi alguns desses poetas crescerem, e apesar do início ter sido meio duvidoso, evoluíram bem em suas respectivas literaturas. Nem tudo é amargura, né?); “Maria do Rosário”, de Iara Sydenstricker (muito bom, fez um cruzamento bem legal entre denúncia e beleza, e teve um ótimo fechamento); Audre Lorde, traduzida por Rafael de Arruda Sobral (que traduz bem até a forma, ele é um ótimo tradutor; há trabalhos dele em revistas como Mallarmargens e Escamandro, pra quem quiser ler mais); “A beata”, de João Paulo de Barros (aquela dose genial de exposição da hipocrisia das beatas católicas, sempre bem vinda, e uma escrita boa, gostosa demais de ler); Friedrich Holderlin, esse querido atemporal que meu-deus-do-céu como o homem escrevia bem, traduzido por João Paulo Andrade; uma seleção de poemas de Ivan Junqueira por Lucas Silos (muito boa curadoria); e o conto (ou crônica, pode-se considerar, também) “Helena, sharmuta”, por Jennifer Cabral. Também contamos com o projeto gráfico muito bom do André, com ilustrações de um puta bom gosto.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora

de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário

do amante exemplar com cem modelos de cartas

e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

Porque não tem graça nenhuma o lirismo que não seja libertação, tem? Car_s leitor_s, nos vemos no próximo texto. Sejamos livres! Mas se não quiser, não precisa.

Dívidas, juros, dividendos, música

Editorial extraído da edição de junho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O Jornal RelevO, em um esforço quase acima de suas capacidades papelísticas, não mencionará, em seu texto-apertura de junho, as causas e os efeitos de nossas dificuldades financeiras. Falaremos de música.

Quando fundamos o Jornal, em agosto de 2010, desejávamos ser um periódico de cultura, sobretudo de literatura, principalmente pela relação (tóxica) do editor com a escrita, mas também queríamos publicar textos sobre música, cinema, teatro, ensaios, aleatoriedades (essa palavra boba…) divertidas para quem estivesse em busca de um texto saboroso.

Criando crônicas, perfis e obituários, o editor ocupava com regularidade um espaço que podia ser destinado a outros escritores e escritoras, usuários melhores da língua portuguesa. Felizmente, o hábito de preencher obrigatoriamente as páginas com o próprio nome foi abandonado com o tempo (ou com a maturidade). Aí já estávamos em 2014 e começamos a abrir espaço para o humor nas páginas centrais, sem precisar destacar quem escreveu, RG, CPF, se estudou na USP. Talvez tenha começado nesta época a nossa aversão a bios e a nossa busca por diversão sem pedigree.

Reparamos também, ao longo desses quase 13 anos, que sempre publicamos muitos textos com relação direta com a música, de relatos de festivais a trechos de canções na contracapa. Nunca assumimos essa faceta como um de nossos norteadores editoriais. Não sabemos dizer bem o porquê, mas sentimos que este é o momento de nos entendermos melhor com o passado e o futuro de nossos desejos, aprofundando nossa relação entre música e literatura.

A música sempre fez parte do Jornal como uma espécie de região sem fronteiras, aberta às experiências, uma ferramenta de conexão. Recentemente, em abril, publicamos um especial de quatro páginas sobre o Skank escrito pela Marceli Mengarda, responsável pela Burocrata Carimbos e projetista gráfica da página impressa da Enclave – que, aliás, trata de música com apuro (não confundir com apuração) e regularidade.

Queremos abrir, portanto, mais espaço em nossas páginas para relatos peculiares, quem sabe em um reencontro entre texto e ritmo. Notamos, ainda, uma notória falta de cobertura musical um pouco menos… como podemos dizer… caça-clique. (Não podemos esquecer o nosso peculiar projeto, o sensacional Brazilliance, descontinuado – por ora – para descanso do alemão.)

Nesta edição, trazemos um relato de quatro páginas sobre a nossa cobertura do C6 Fest, que aconteceu em São Paulo entre 19 e 21 de maio. O evento teve Kraftwerk e Underworld como os líderes da programação. De modo geral, gostamos muito de música, gostamos de música eletrônica e acreditamos que os relatos de quem estava lá podem proporcionar experiências interessantes para os nossos leitores. Esperamos que se divirtam.

Uma boa leitura a todos.

Amanda Vital: Ombudswoman 5: escrever como Fulan_ e o plágio que tem pressa

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Car_s leitor_s, vou aproveitar a coluna de hoje – e tentar esconder o fato de que não deu tempo de meditar sobre os textos da edição anterior do jornal (tive 30 dias mega conturbados), e a gente não deve falar de coisas que não leu, por honestidade intelectual, esse princípio tão pouco cumprido nos networkings atuais – para falar de duas pautas bem pouco importantes, por acaso, mas que também por acaso têm cercado alguns debates que tenho acompanhado muito (e participado nada, por não ter nenhum arcabouço pessoal a acrescentar, já que a vivência tem contado bastante para a propriedade de fala no debate contemporâneo; o que não é uma crítica, só um apontamento, mesmo). O título que utilizei para o texto é autoexplicativo: quero falar do problema da escrita que quer alcançar uma espécie de “nirvana de autor_s”, se é que posso chamar assim, escrita essa que em si é um problema, mas que seu público leitor também contribui bastante para essas comparações e a autenticidade não dá a cara nesse rolê; e ainda do “plágio de estilo”, o que está do outro lado dessa moeda, ou seja, d_ autor_ que sente que foi plagiad_ porque vê alguém escrevendo “em um estilo semelhante ao da escrita del_” depois de lidos uns três ou quatro versinhos (aí é que entra o “tem pressa”: para apontar o dedo) e tudo se torna uma grande e cíclica batalha de ego, frequentemente com ambos os lados fazendo as pazes no final, e seus exércitos partidários com uma cara de tacho ridícula uns aos outros. Isso quando não se enganam, a outra pessoa sai cancelada e ninguém mais fala nela. Vamos a essa doçura de papinho?

O problema da escrita que pretende alcançar autor_s – geralmente já consagrad_s, ou com alguma relevância maiorzinha – tende a ser por base apenas um, que pode se bifurcar e bifurcar as bifurcações, mas é esse: ela se esvazia. Se esvazia de todo o conteúdo que poderia ser trabalhado, com a vivência e o olhar ao mundo da própria pessoa, e é apenas forma; algum trabalho com a linguagem, sim, mas geralmente marcada pelo uso excessivo de repetições de palavras, de estilos de versos, de modos de dizer, de mancha gráfica diferentona. Enquanto leitora, me pergunto se realmente aconteceu um ímpeto para que aquela criação acontecesse, porque não me diz absolutamente nada (a gente parece que sabe, que sente quando vem de um lugar de “querer alcançar o outro”, lê-se a agonia, o desespero, a pressa em querer ser o/a X contemporâneo/a; e se X for ele/a mesmo/a contemporâneo/a, o/a X novíssimo/a ultra high tech premium version na versão 1.7.1.2023b). Se essa escrita teve alguma razão de ser, de existir, de vir ao universo literário que não a equiparação, seja ela intencional ou não. Se incomodou, chacoalhou, tirou a pessoa da cama, da reunião, do jantar em família; se ela teve de alcançar algum papelzinho para anotar a ideia quando veio o clique; se ela se sentou e discorreu a partir de uma coisa que bateu nela – que ela sinta que tenha batido nela, ainda que tenha ricocheteado em vári_s autor_s primeiro; se ela lapidou ou deixou cru (se isso foi importante para ela, porque é assim como ela escreve, ela não leu uma rotina de criação, um “Como eu escrevo” de Fulan_ de Tal para fazer igualzinho); se ela pediu opinião a colegas ou só publicou no Instagram com uma fotografia a preto e branco escolhida por ela; se ela fechou um livro às pressas e foi escrever, porque sim, porque precisava. Se escreveu porque precisou escrever. Porque se não tiver sido assim, não tem graça nenhuma, tem? Tem tanta graça assim ser um_ X contemporâne_? Ter a sua escrita na crítica apenas em forma comparada, não estudada de forma única, específica, focada? Ter leitor_s tecendo elogios puxados sempre, sempre, sempre para esse campo? Ter seu nome atrelado àquela pessoa durante toda a sua jornada literária? Essa questão é bastante similar a_s discípul_s de cert_s autor_s, protégées que vivem constantemente à sombra daquelas pessoas que “descobriram” sua literatura e decidiram batizá-la como uma extensão da sua. Mas nesse caso, é a própria pessoa se atirando aos leões. Ou seu público leitor fazendo isso por ela – e nesse caso, duvido muito que seja intencional, ao menos em um primeiro momento; pode ser algo a ser explorado depois que a pessoa viu o hype que dá ser como Fulan_, e os likes são tão gostosos… Será que é um caminho legal? Se sim, é legal porque a cópia geralmente incomoda? É proposital desde o primeiro verso? É consciente? (É ingênuo achar que não seja consciente?) É masoquista? A prática batiza uma nova escola literária? Ou é só um exercício, sempre um exercício de escrita, que nem deveria ser pauta nesse jornal?

No caso, a pessoa que pretende ser “o/a novo/a X” segue um caminho tortuoso, sim, mas ao menos tem a honestidade de não se apropriar e dizê-lo logo. Deixar a referência em cima da mesa e não tomar quase nada como seu (porque pouco é). Até porque existe o lado de quem “é plagiado”. (Mas será que é, mesmo?) Uma nova onda de autor_s que vêm apontando o que chamam de “plágio de estilo”. Há patentes de estilo em literatura e não se sabe: a prosa poética, o verso quebrado pseudoconcretista, a caixa de texto, o soneto em 2023 – e as formas fixas com oralidade bem definida por escrito, com marcas de fonética, coisa e tal –, os hífens, os temas da mulher, do urbano, do imigrante, a referência àquele poeta guatemalteco “que só eu conheço, poxa, como assim Fulan_ está referenciando ele na poesia também?”; em suma, tudo o que se produz e é visto também na escrita do outro é motivo para erguer o dedo do alto de seu privilégio – geralmente são branc_s de classe média, mesmo –, porque mamãe não me ensinou a dividir pipocas, para dizer: “isso é meu, ué. Eu escrevo assim, desse jeitinho aí. Tenho um poema quase igualzinho (adendo: mostra o poema e não tem nada de mais ali, é tudo do ego da pessoa). Eu criei esse estilo que você usa, para fazer esses versinhos seus aí”. E não criou patavina alguma, que a escrita é uma costura de um monte de outros discursos, de outras literaturas; se fosse assim, todo mundo plagia todo mundo. Melhor: todo mundo plagia O mundo. Não tem um cidadão inocente para contar história. O que cargas d’água é um plágio de estilo? Existe “patente” para uma forma de se escrever no universo literário contemporâneo? Patentes deveriam realmente existir em arte, em literatura, em cultura? Devemos pensar em abrir franquias para versos livres? Você, leitor_, tem domínio da sua escrita a ponto de saber quando alguém está “imitando seu estilo”? Eu uso tênis all star com meia soquete, aquelas que o tênis engole, e vejo várias pessoas assim na rua, será que devo me preocupar em ir atrás dessa gente toda?

E percebem como vira algo complexo, galerinha? Porque o primeiro caso também poderia ser tratado como um “plágio de estilo”, porque trata-se de uma pessoa escrevendo “como outra”. Mas acontece que, no primeiro caso, quando já não está clara a fonte bebida (geralmente está), essa outra pode não confirmar, mas não nega se inspirar em X. No segundo, quando você é o/a próprio/a X, é você acusando primeiro. Você lança a primeira pedra. Percebe o tom de “diva” da coisa, em acusar o outro que você nem sabe se conhece o que você produz ou não? Se conhece, como comprovar que sua criação é baseada em copiar você? Porque para justificar, você vai fazer uma listagem de um monte de coisas que um monte de outras pessoas também usa, também usou antes de você pensar em existir. Ficou confuso? Eu também. Mas acho que já expliquei o que queria pontuar e dar minha colherzinha de pitaco em tudo isso, porque é muito cansativo não ser aquela amiga que dá uma cutucadinha de leve na pessoa naquele evento maroto e dizer “amig_? Desapegue um pouquinho, vá?”. E as pessoas que têm essa oportunidade não usam e vão falar sobre isso só pelas costas. É mole?

Leiam jornais antes de escrever textos. Mas se não quiser, não precisa. Mas meio que precisa. Nesse caso, precisava, mesmo.

Procedimentos

Editorial extraído da edição de maio de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Desde o fim de outubro de 2022, o Jornal RelevO centralizou no Substack o envio de seus materiais digitais. Em linhas gerais, trata-se de uma plataforma que permite enviar textos por e-mails, armazená-los e catalogá-los em newsletters diferentes. Também permite cobrar por conteúdos exclusivos. No nosso caso, recebem os informativos nossos assinantes; antigos assinantes da Enclave e da Latitudes (então no Mailchimp) que não se descadastraram; quem se cadastrou por vontade própria pelo site [jornalrelevo.com]; e, provavelmente, amigos que não abrem a caixa de entrada há seis anos.

Para um periódico de papel e de literatura, o Substack é uma ferramenta espantosamente prática. Permite que dividamos os bastidores da nossa cozinha editorial, recuperemos conteúdos esquecidos no porão da nossa memória, informemos aos leitores as oportunidades do meio cultural (via Latitudes, voltada a concursos e afins) e sigamos na miscelânea divertida da Enclave, nossa newsletter de… nada específico. Sobretudo, facilita nossa regularidade, algo que já replicamos na edição impressa e que, acreditamos, estreita a relação com a nossa base de leitores.

Em pouco mais de seis meses, notamos um crescimento de seguidores digitais em todas as frentes, das redes sociais ao próprio cadastro disponibilizado pelo site. O que isso representa? Mais share, mais assinantes no jornal físico. Em suma: quanto mais o conteúdo anda, independentemente do caminho, mais assinantes conseguimos para o impresso, que é quem paga a conta, ao menos diante do que oferecemos hoje. Assim, interessa-nos – e muito – como encontrar o tom ideal entre conteúdo gratuito e remunerado. Basicamente, a proporção entre quem curte descompromissadamente o que produzimos e quem assina e anuncia conosco.

Ainda nessa direção, de tempos em tempos, estamos recebendo menos votos de extinção e de solidariedade. O famoso “por que não ser apenas digital?”. Notamos, com certa naturalidade, um cansaço progressivo com a experiência digital por parte de usuários. Bem, nos chamam de usuários. Cada vez mais, as pessoas estão buscando estratégias de melhor uso de seu tempo de qualidade, até para gastar menos com remédio e mais com vícios lúdicos, como bebida, aposta e jornal de literatura. Ao mesmo tempo, não aspiramos a um universo pré-internet. Pode surpreender a alguns, mas não somos saudosistas (che serà, serà).

Assim, pensamos em ferramentas que (1) facilitem nosso trabalho, pois ainda tratamos a existência digital como fardo; (2) aumentem a nossa base de leitores; (3) melhorem a comunicação com a base atual de assinantes e curiosos. Aos poucos, encontramos o nosso ritmo de forma a equilibrar constância com qualidade (ao menos a mesma qualidade destas páginas). O cansaço generalizado das redes sociais, que reinavam absolutas até pouco tempo, favorece o trabalho regular, repetitivo e pouco Pavloviano do RelevO. Também nos anima observar o nascimento de alternativas a esse sistema primal de estímulo e resposta com que nos acostumamos. O Substack – que não nos paga nada e, ao contrário, poderá receber de nós a partir do momento que estruturarmos conteúdos pagos lá – é uma delas, e reforçamos o convite para nos acompanharem por lá [jornalrelevo.substack.com].

Uma boa leitura a todos.

amanda vital: Ombudswoman 4: porque ficar nos bastidores faz parte

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Sim, car_s leitor_s, é difícil. Já virou clichê afirmar que o nosso tão querido e mui belicoso meio literário tem muitas panelinhas, muitos gatekeepings, muita curadoria de caráter duvidoso, muita crítica literária “do bem” pra puxar sardinha de amig_s, muita rodinha fechada, muito clubismo e coletivo falsamente aberto, mas que não aceita toda a gente que eles dizem aceitar, muita não-democratização da literatura, muito paternalismo, muita picaretagem, muita exaltação do medíocre e do mediano, muito oportunismo — em seus diversos artifícios, não apenas o que todo mundo culpa, esse “surfar na onda da representatividade”, sendo que há camadas muito mais graves e, vamos ser sinceros?, mais concretamente plausíveis e verdadeiras — facilmente comprável. E é frustrante. Eu sei, eu sei. A dificuldade na divulgação é real, a tristeza pela recusa é totalmente compreensível, a falta de oportunidade que algumas pessoas encontram para apresentar seu trabalho por não terem um networking bacanérrimo é concreta. E a gente precisa falar sobre isso e sobre seus muitos pontos de fuga também.

Eu comecei a rascunhar esta coluna pensando em ficar apenas em uma mesma ideia: a de que nem sempre os holofotes são possíveis e está tudo certo em ver outras pessoas brilharem sem necessariamente você também estar lá. Que o meio literário tem que ter vozes, sim, mas também ouvidos. Leitor_s. Pessoas para prestigiar, vaiar, aplaudir, jogar tomates; ler, enfim, mas ler de verdade, não só falar que leu. Que a literatura não precisa ser feita só de uma praça com um monte de gente berrando versos em megafones e ninguém ouvindo ninguém. Que _s escritor_s não precisam aparecer o tempo todo, e que uma recusa não significa a verdade universal de que você escreve mal, mas que os espaços que temos a nosso alcance não são capazes de abranger tudo ao mesmo tempo agora. Que há suportes e suportes, e o suporte que publica X não vai publicar Y tão cedo (ao menos não com esse corpo editorial, não com essa curadoria — e é preciso percebê-la direitinho para não se frustrar com uma recusa depois). Que, se calhar, seu texto só não foi publicado porque não foi enviado no formato certo, no tempo certo, com a “concorrência” (?) certa, com o refinamento certo, com o cuidado certo com o texto. E que nem sempre o espaço onde cabe um, cabe o outro. E é verdade.

Mas terminei o rascunho com algo na cabeça: esse recado precisava ser, sobretudo, uma mensagem de afeto para aquel_s que se vão realmente abaixo com a rejeição. Que ficam genuinamente tristes, com aquela sensação pesada de derrota. Que não sentem inveja d_ coleguinha que está sendo premiad_ (como muita gente fica, e ess_s têm um caminho de desapego de egocentrismo um bocado longo para trilhar, mas que temos que estar aqui por el_s também), que não queriam estar em lugares onde outras pessoas estão. Que não saem por aí inventando plágios que não existem. Que nem passa pela cabeça patentear um estilo de escrita que nem é patenteável, porque é costurado por muitos outros discursos, muitas outras literaturas e que a gente, que lê, até as visualiza em seus textos (quem plagiou quem, então, mesmo?). Pessoas que só querem apresentar seu trabalho, mais nada. Que não se sentem gênios (não estou falando de donos da bola que saem sapateando embirradinhos porque suas obras-primas foram rejeitadas), só escrevem. Que sofrem por não ocuparem cargos importantes na literatura e sentem que por isso não são ninguém por aqui. Que qualquer mão estendida “por caridade” já é uma oportunidade brutalíssima e não enxergam maldade nisso. Esse é um abraço para vocês. Para _s que engavetam livros inteiros (e ótimos, às vezes) por falta de comunicação, de retorno, de leitor_s, de oportunidade. Esse é um abraço forte com um incentivo para continuarem tentando. Para descobrirem espaços onde se encaixem melhor do que aqueles onde dão com a cara na porta toda vez, por alguma leitura equivocada de que poderiam estar lá, mas que produzem coisas que acabam não se encaixando por puro choque de curadoria de estilo, mesmo, e mais nada. Para que tenham iniciativas bem-sucedidas para alavancarem as suas próprias oportunidades de serem escutados, as que não foram estendidas durante tanto tempo por motivos banais, por boicotagem, sei lá por quê. Para perceberem o que foi rejeitado por boicotagem ou porque a linha editorial era outra. Para continuarem escrevendo e continuarem lendo muito. Escrevendo um pouco de tudo. E lendo muito de tudo.

E um pedido: que leiam tudo com carinho. Sem ranço de suportes porque não te publicaram. Leiam o RelevO com carinho: mês passado, teve um texto muito bom sobre a picaretagem da pseudociência e o perigo anticiência que tem sido a astrologia atualmente (que bom que finalmente estão falando sobre isso em literatura, tem gente que tá danando a saúde física e mental pra caramba por causa disso), do Bolívar Escobar, a quem parabenizo a escrita bastante acessível, dada a certa complexidade que o tema pede; um conto ótimo da Mônica Silva, “O eucalipto”, fazendo todo um ciclo da glória, da beleza e da utilidade de um eucalipto, passando pela tragédia de uma derrubada oportunista, até o papel querendo ser árvore novamente (esse resumo não alcança o que a escrita da Mônica atingiu, um conto muito bem escrito, com trabalho e com ternura); alguns poemas do Tesla, livro excelente do Alexandre Guarnieri pela Patuá (com uma poesia genial e inventiva que ele tem feito, misturando a forma do poema e a mancha gráfica ao conteúdo, desafiando o papel, discutindo com outros autores e outras literaturas, sempre com centelhas de futurismo, de Revolução Industrial; é um livraço, de fato, e a colagem que acompanha a seleção é uma das que estão presentes no livro também); a RelevO Drinks, minicrônicas que renderam muita risada gostosa, essa tiração de sarro de bebidinhas gourmetizadas que a gente adora (a tiração de sarro, não as bebidinhas); um ótimo trecho do livro de Jonathan Crary, nos lembrando da necessidade de reflexão sobre como o ultracapitalismo e o perigo do excesso da reprodutibilidade de tudo (não só arte) afeta nossa qualidade de vida e nossa percepção calma e atenta sobre o mundo; dialogando — ainda que indiretamente (e não-intencionalmente) — com o poema de Finuala Downling (creio que seja do arquivo Escamandro), que tece um looping e aponta o que, de verdade, permanece, no fim de tudo: a arte, o sensível, a Polonaise; o poema de Valentina Chakr faz um efeito cascata com looping também do final para o começo, com um paralelismo entre lhamas e a pressão estética que sofremos no cotidiano — quando na vida leríamos um poema fazendo um comparativo como esse?; o Yuri Araújo teve um texto bacana sobre os vários tipos de amores e desamores, bem leve e despretensioso, leitura bem gostosa para o final de um suplemento literário. Queria que o trecho do poema de Carmen Bruna, da contracapa, fosse com um recorte um bocadinho maior — vejo potência e beleza ali, mas o recorte não alcançou. Acho que em poesia, no geral, ficou um gostinho de “quero mais”.

E ao$ piore$ picareta$ da literatura (lembram quando falei dos casos graves?), aqueles de quem quase ninguém fala por medo, os ricaços que compram amigos no meio literário, que compram validação literária (e às vezes até aval de crítica), fazem mecenato com suas heranças e rendas duvidosas para eventos e antologias, e são aplaudidos efusivamente por “generosidade aos pobrezinhos” só por quererem comprar um lugar no céu, e continuam a escrever de modo mediano para medíocre, com uma literatura totalmente defasada da realidade e sem trabalho algum, mas que é aplaudida efusivamente por quem quer um tequinho de vocês: tô de olho nos senhores. Vocês é que deveriam estar na mira, não a moçada do que chamam “panfletário”, não os autores engajados, não os poetas de poesia descritiva hibridizada com prosa… enfim.

Sejamos céticos e sejamos afetuosos. Sempre. E quem não quiser um, tem o outro.