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Carla Dias: Críticas são necessárias, ofensas são dispensáveis
Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Quando Whisner Fraga me indicou para substituí-lo no RelevO, eu ri sozinha, antes de entrar em pânico. Ele é dos meus escritores preferidos, amigo pelo qual tenho imenso carinho e respeito, a quem sempre consulto – e escuto – quando se trata dos meus próprios escritos. O RelevO é um jornal pelo qual tenho real apreço, ao qual credito legítima importância no cenário da literatura nacional atual.
A primeira coisa que perguntei foi se ele acreditava que eu daria conta. Não me levem a mal, trata-se do exercício de se questionar o desconhecido, temendo não saber como lidar com ele. E por mais autoanálise que já tenha feito para amenizar o hábito, ainda uso esse recurso com frequência.
Todos os motivos que citei para me desqualificar estavam diretamente ligados ao fato de eu não ser ele. Pois bem, eu não sou o Whisner, mas ele me garantiu que isso é bom. Então, aceitei o desafio.
O que posso dizer em meu favor é que farei o melhor para beneficiar o RelevO. Espaços como este são essenciais para que a literatura se mantenha plural e inspiradora. Para que as pessoas, escritores e leitores, encontrem-se na prosa e na poesia, e na crítica descubram uma forma de aprimorar a relação entre ambos, contando com o periódico como o condutor.
Crítica é uma forma interessante de se compreender o óbvio: nem sempre estamos certos. Autocrítica é a aceitação dessa obviedade, que nos leva a aproveitar, em nome do bem coletivo – ou mesmo daquele mais íntimo e definitivamente intransferível – a chance de aperfeiçoarmos o que julgávamos concluído, sem necessidade de qualquer retoque.
Tenho consciência de que nunca se defendeu ponto de vista tão fervorosamente como nos dias de hoje. A internet tem sido uma ferramenta poderosa durante esse processo de escancaro. Porém, confesso que aguardo pelo dia em que ofensas não tomarão o espaço das críticas, quando teremos aprendido que, ao tirarmos o respeito de cena, a vida desanda.
Lembro-me de uma mensagem que recebi de um leitor, sobre uma crônica que publiquei na internet há alguns anos. Ele começou dizendo que havia gostado da leitura, que a forma como eu escrevia lhe agradava, mas que, para o meu bem, melhor era eu encostar a barriga no fogão e servir ao meu marido. Eu pensei que fosse alguma brincadeira de mau gosto, mas a troca de mensagens me provou que não, ele era completamente avesso à literatura feita por mulheres, independente da qualidade da obra. Aquela era uma ofensa travestida de crítica. Não foi a primeira, tampouco a última vez que experimentei dela.
O ofensor é um personagem constante nas nossas vidas, e o preconceito, assim como a certeza absoluta e irretocável de ser o autor da opinião correta, conduzem a dele. Acho que ele deveria participar do 1º Campeonato RelevO de Modestos. Aprender a lidar com o elogio direcionado ao outro faz milagres.
Falando sobre a edição de fevereiro, posso dizer que o editorial se aproximou muito do que penso. Política de boa vizinhança – a diplomacia cotidiana – é necessária para que uma sociedade funcione, mas certamente prejudica quando o indivíduo deseja camuflar a aspereza original da sua verdadeira opinião. Precisamos aceitar que nem tudo o que dissermos nessa vida será palatável, principalmente quando remeter ao gosto, que nem sempre será o mesmo do vizinho.
Encantei-me pelos poemas de Alexandre Guarnieri. Depois de lê-los, não conseguia parar de pensar sobre as palavras que um corpo comporta. Desde sempre, as mãos, os olhos, a pele, e tantas outras partes do nosso corpo vêm inspirando a poesia de muitos. Porém, Guarnieri vai além, como se fosse um cirurgião curioso sobre o corpo que habita o espírito daquele que comete poesia.
Cláudia Lopes Bório expõe a insignificância de uma pessoa sendo contestada pela sua real importância. “Manorama” fala sobre uma mulher que mora à beira dos campos de arroz. Ela é responsável por cozinhar o arroz, diariamente, na hora certa, até o dia em que isso não acontece, o que resulta em sua morte. O ritmo que a autora impõe ao texto é de prosa poética, de delicadeza debruçada em melancolia.
Fiquei muito satisfeita com a publicação do “Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV – Diário de um Jovem Soropositivo”. Nós tendemos a nos classificarmos como conhecedores dos fatos, mas andamos cada vez menos esclarecidos a respeito do que importa. Talvez seja hora de lidarmos com o outro com mais de delicadeza. Basta nos informarmos, antes de decidirmos pelo pior cenário. Evitarmos os rótulos.
Mais interessante e produtivo é dialogarmos. Nem sempre será como nos bate-papos que temos com os amigos, nos almoços que oferecemos em nossas casas, nos finais de semana. Nem sempre será afável, que verdade seja dita, melhor, quando a verdade é dita, às vezes ela amarga. Particularmente, sinto-me à vontade com o contraponto, e espero fazer minha parte de maneira positiva ao RelevO e aos seus leitores.
Sendo assim, agradeço ao Whisner Fraga pela indicação, ao Daniel Zanella pela aceitação e ao periódico como um todo pelo espaço. Quem tiver interesse em me escrever, meu contato é laila.dias@gmail.com.
Edição de março de 2014
Osny Tavares: O aqui, agora
Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Passamos por um período de urgência e aspiramos a revolução. Enquanto isso, nossa literatura segue atavicamente progressista.
Nada mais opressivo ao escritor de ficção que a História com agá maiúsculo, que insiste em cobrar o seu quinhão de fidedignidade. Mas não é por isso que ando por aqui neste mês, embora deva falar um pouco sobre História e histórias ao longo dos parágrafos abaixo. Comentarei, porém, a relação do jovem escritor com o tempo em que vive e como absorver a consciência de época – popularmente chamada de zeitgeist – sem parecer datado ou antecipado. Fiquei às voltas com o assunto durante as semanas anteriores ao Carnaval, enquanto produzia uma reportagem sobre o impacto do golpe militar sobre a literatura brasileira do período. O material será publicado na edição de março do Cândido, que circulará paralelo a este RelevO. Fica desde já o convite à leitura do coirmão.
É um tempo interessante para ser jovem. Tudo parece aberto à refundação e cada pequeno setor da vida abriga um comitê repleto de delegados a discutir até as cláusulas pétreas da vida. O que era automático, uma imposição da cultura sobre a qual não se refletia, torna-se um ato político. De mastigar um bife a torcer pela seleção brasileira na Copa, o indivíduo é desafiado pelos significados sociais de seus atos. O que é ótimo, pois parece um caminho necessário à lucidez.
Penso que a literatura, e principalmente do tipo que fazemos aqui, tenha um papel importante em estabelecer um conhecimento mútuo entre os atores. Por dois motivos: primeiro, o imediatismo do periódico mensal dedicado ao texto curto permite uma reflexão quente, mas já com certo arrefecimento de ânimos. Por vezes, a contagem de dez segundos é insuficiente para recuperar a ponderação. Em um mês, entretanto, é possível contar até 2,6 milhões.
Não defendo, claro, que o jornal se torne refém de uma pauta de acontecimentos imediatos e se preocupe em caricaturar o real em pseudoliteratura. Mas é inegável que os fenômenos que presenciamos atualmente representarão parte significativa de nossa identidade de época. Os protestos de junho de 2013, por exemplo, têm potencial para se tornar nosso Woodstock — um evento que define a personalidade de uma geração. E perceba que a comparação é possível apenas porque o evento de 1969 foi sistematicamente esmiuçado pelo olhar artístico ao longo das últimas quatro décadas. As produções mais recentes tendem a ser mais maduras, porém os contemporâneos do festival foram responsáveis por tornarem-no icônico, enviando os primeiros sinais de “olhe para isso”.
No Brasil, presenciamos um despertar político da juventude após vinte anos de calmaria. A transferência de responsabilidade para “os políticos”, entendendo-os como representantes de uma classe autônoma, cobrou o seu preço. Mais do que serviços públicos de qualidade, os cartazes nas passeatas clamam por um projeto de vida adulta relativamente satisfatório. A geração nascida a partir dos anos 90 cresceu isenta das grandes utopias da modernidade, porém não encontrou nada para colocar no lugar. Batendo à porta de entrada para a vida adulta, tudo o que consegue vislumbrar como “o possível” é a reprodução de um projeto de felicidade individual que consiste em segurança material e estabilidade, algo instintivamente avesso aos impulsos orgânicos da juventude. A adesão em massa a “causas” surge como a tentativa de responder de forma altruísta à opressão do bem-estar, cujos efeitos negativos incluem alienação e solidão.
Agora, vamos contra-argumentar.
É próprio da literatura tentar escapar das armadilhas de seu tempo para tentar construir algo permanente. O próprio autor tende a ser identificado como um sujeito meio afastado das questões imediatas de sua vida, embora seja intelectualmente forjado por um processo coletivo no qual a data é um dos principais elementos definidores. O triunfo do artista ocorre quando, acorrentado ao hoje, consegue projetar o estético ou o existencial de amanhã. Mas a perenidade é uma ilusão. O descarte é bem-vindo para permitir que o novo surja e realizar a ambição humana de viver um pouco mais que uma única vida.
O RelevO flerta com o distante, o que é bom, mas permanece distante do próximo, o que não é tão bom. Ondas curtas não pegam no rádio do vizinho.
