A Paixão de Joana D’Arc

Extraído da edição 8 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O filme A Paixão de Joana D’Arc (1928) – como você pode imaginar – conta a história do julgamento e condenação pela inquisição inglesa da francesa, sob acusação de heresia.

Usando os registros originais do processo, o diretor, Carl Theodor Dreyer, recria os últimos momentos da vida da jovem que ouvia vozes e inspirou seu exército a numerosas vitórias na Guerra dos Cem Anos com uma crueza perturbadora.

Primeiro porque as falas seguem os documentos do tribunal, o que confere um tom hiper-realista à composição, mas sobretudo pelos elementos cênicos e estéticos: reducionista, o cineasta dinamarquês se livra de diversas convenções e se limita ao essencial para contar a história. Seus close-ups são extremos, e seus ângulos, vertiginosos; o cenário e figurino são os mais simples quanto possível e os atores não usam maquiagem, algo inédito no cinema mudo.

A isso, soma-se a performance impecável – considerada uma das mais importantes e icônicas da história do cinema – de Renée Jeanne Falconetti, em seu primeiro e único papel nas películas.

Essa atuação intensa foi resultado de muito escrutínio do diretor, que regravava cenas numerosas vezes para conseguir exatamente as expressões que procurava na atriz. A expressividade de Falconetti é sinergicamente amplificada pelo enquadramento fechado e a mise-en-scène minimalista.

A influência de Dreyer no cinema pode ser vista até hoje em diversos cantos da sétima arte, mas quem mais diretamente bebeu de sua fonte foi o movimento Dogma 95, de Lars Von Trier e Thomas Vinterberg.

Fã confesso, Von Trier é adepto desse estilo autolimitador, visto pelas numerosas regras autoimpostas em seus filmes – notadamente em Dogville (2003), que, sem cenário, desenvolve muitos dos temas explorados primeiramente pelo dinamarquês.

Detetive Conan Doyle

Extraído da edição 8 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Conhecido por criar Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle acumula fatos curiosos para mais de uma vida. (Por sinal, “Doyle” é seu único sobrenome – “Conan” é apenas um nome do meio). Além de ter se envolvido com a popularização do ski e com a crença na existência de fadas, Sir Arthur também influenciou diretamente duas absolvições criminais de seu tempo.

Em uma delas, o advogado George Edalji foi condenado à prisão por supostamente mutilar animais – cavalos, especificamente. Cartas anônimas enviadas à polícia foram atribuídas a Edalji, que, contando com o empurrãozinho de preconceito alheio em relação à sua origem indiana, não teve escapatória quando um pônei foi encontrado em más condições no vilarejo de Great Wyrley, onde morava.

Perseguido desde a infância por cartas anônimas de ódio, não tardou para que Edalji conseguisse um mandato de sete anos de prisão, isso em 1904.

Houve, no entanto, uma campanha de apoio à absolvição de Edalji, e Conan Doyle foi um de seus maiores porta-vozes. O escritor chegou a visitar a cena do crime e estudar todos os depoimentos relacionados ao caso, emulando sua criação mais famosa.

George Edalji, segundo Conan Doyle, não teria condições de maltratar animais à noite e ainda fugir da polícia, dadas as suas claras limitações visuais (um argumento não utilizado por Edalji em sua defesa, tamanha a descrença de que ele seria de fato condenado).

As cartas e as mutilações a animais continuaram mesmo com o advogado já preso, o que contribuiu para a verificação do caso. Em 1907, Edalji foi solto. Essa narrativa inspirou o romance Arthur & George, de Julian Barnes, e uma subsequente série de televisão.

Utermohlen: representação do Alzheimer

Extraído da edição 7 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Durante sua vida, o artista William Utermohlen (1933-2007) não foi genial. Suas telas não estão nos maiores museus do mundo e seu nome não tem grande relevância para historiadores de arte. Há uma situação singular, no entanto, que fez com que ele produzisse alguns dos trabalhos mais chocantes da arte contemporânea.

Aos 61 anos, o americano foi diagnosticado com Doença de Alzheimer, a demência mais frequente em todo o mundo. Seu sintoma mais conhecido e precoce é a perda de memória. Com o agravamento da doença, porém, o paciente pode sofrer de alucinações visuais, agressividade, perda de coordenação motora, além do constante declínio cognitivo.

Certamente, não se trata de um prospecto agradável, mas infelizmente ainda não há cura ou tratamento efetivo para conter sua evolução. Diante do diagnóstico, o artista iniciou uma série de autorretratos que viriam a ser sua janela para o mundo, um insight da sua cada vez mais distante consciência.

O primeiro quadro da nova série, de 1995, mostra o pintor sentado, segurando firme a mesa à sua frente, como se tentasse se ancorar no meio do espaço vazio que o circunda. As obras seguintes se tornam gradativamente mais abstratas e sombrias, atestando a progressão de sua condição médica e nos levando a esse ambiente misterioso, efêmero, desconfortável e perturbador que é a demência.

O último autorretrato, já em 2000, é o mais devastador. No meio do vazio paira uma cabeça – ou o que era pra ser uma cabeça – sem olhos, orelha, boca ou nariz definidos; até mesmo o olhar, algo que estava sempre presente em suas telas encontra-se perdido. Não há sentido ou contato com o mundo externo.

Pouco tempo depois de realizar sua última obra, Utermohlen foi internado em um asilo, onde morreu em 2007.

Carla Dias: O fazer cultural e a apreciação de suas crias

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Espero que nesta edição estejam todos bem. Direitos garantidos, deveres em dia, percepção afiada e afinada com os fatos. O mundo anda meio complicado, mas vamos descomplicar o que for possível, que leveza nunca é demais e ainda colabora para que observemos a vida com mais cuidado e respeito.

Lendo o editorial da edição de março do RelevO, identifiquei-me com a posição de se fazer o que se faz bem, como este jornal, sem comprometer conteúdo. Tarefa árdua, porém gratificante.

Quem lida com o fazer cultural sabe: captação de recursos é trabalho hercúleo. E se o criador do projeto prezar pela sua originalidade, muito do que o torna singular pode se perder durante o processo de adequação à necessidade do mercado. Necessidade que nós mesmos criamos, ou seja, temos o poder de mudar o rumo dessa prosa, melhorar até mesmo o que nos parece impossível de ser melhorado.

Tem sido cada vez mais frequente que adaptações feitas para que projetos culturais se encaixem no perfil de seus patrocinadores acabem em devastadoras transformações, descaracterizando o que seria a essência do projeto. Para que aquele projeto que você ama sobreviva, é preciso amá-lo na prática. Compre os livros e os discos, vá aos shows e espetáculos teatrais, assine os jornais. Ame os projetos culturais que lhe apetecem. Somente assim é possível se manter a diversidade cultural e a originalidade do que resulta deles, seja um livro, um disco, um espetáculo teatral ou um jornal literário, entre outras tantas opções.

Antes de falar sobre a edição passada, quero dizer que há quem reivindique reportagens sobre literatura no periódico. Seria ótimo se elas fossem integradas ao jornal, mas não ao custo de termos menos páginas com obras literárias. Ler sobre literatura é importante, mas não tanto quanto ler literatura. Acho válido se forem incluídas páginas extras no RelevO para tal fim, mantendo o espaço atual para os escritores terem suas obras publicadas e os leitores aproveitarem a leitura.

Outra questão é a falta de material fotográfico. Particularmente, adoro pegar emprestadas obras de amigos fotógrafos e artistas plásticos para ilustrar os meus textos. Considerando não somente o meu gosto, mas o que de positivo isso pode trazer ao impresso, temos visto notáveis obras de artistas diversos ilustrando o jornal. Incluir material fotográfico me parece natural e, definitivamente, interessante.

Voltando à edição passada do RelevO, tenho de admitir que ela me surpreendeu muito e positivamente. Cristiano Castilho me ganhou com seu “Bogotá, dia 2”. O tom de diário de viagem, a crônica relatando a descoberta de lugares e pessoas, é sempre muito atraente, quando bem construída. “Amanhã farei um passeio de bicicleta com uma mexicana e uma ucraniana que moram na Alemanha.”

Em contrapartida à pluralidade do texto de Castilho, Aline Valek direciona suas palavras a um único lugar. Em “Minha Ex”, a autora acerta ao falar sobre Brasília – onde viveu e de onde partiu – como se a cidade fosse sua ex, dando às memórias geográficas o mesmo tom das memórias afetivas. “Uma timeline plana, uma vida de uma nota só.” A conversa que a autora trava com a cidade torna agradável a leitura sobre voltar a um lugar que se julgava conhecer, para então descobrir que não o conhecia tão bem assim. O tipo de armadilha na qual costumamos cair, frequentemente, quando se trata dos nossos relacionamentos pessoais.

“Entre as Coisas” é um apreciável texto de Juliana Cunha sobre espaços necessários entre assuntos, pessoas e coisas importantes a se fazer. O respiro, o lugar onde devemos gastar o tempo ao nosso gosto.

Daniel Zanella, agora terei de assistir ao “Koyaanisqatsi”. Seu texto me convenceu, e ainda me deixou pensando sobre “… chuva discreta, que começa a escorrer nos vidros” e a música de Philip Glass.

A poesia também teve destaque. Porém, antes da poesia em si, há aquela boa mistura de prosa e poesia. “Destinatário”, de Flora Rocha, tem cadência e essência. Remeteu-me à lindeza dessa combinação que permite a nossa imaginação preencher as lacunas da realidade. “Anoiteceu inverno. A ventania uivava e as cortinas dançavam temor. Tomou um gole e inventou de enfrentar o vento.”

Edu Hoffman poderia inspirar quadros: “desembrulho cada palavra/feito bala/na agulha”. Davi Kinski demonstra intimidade com as palavras. Seu poema é para se ler e reler, que ali há uma variedade de matizes. Definitivamente, lerei outros poemas de sua autoria, que fiquei poeticamente curiosa. “Eu me dissolvo antes do fim/Eu pulo do trampolim/Para a cidade/For Sale.”

Aprecio o fazer poético de Cel Bentin. Gosto de como ele brinca com as palavras, criando espaço para que a imaginação do leitor se embrenhe nas sutilezas de sua poesia. “Inquieto Chiaroscuro [ou Palavra-obaluaê]” eu não conhecia. Fiquei feliz em conhecer. “De bloco em punho, garçons em cartografia/ projetam pedidos além da conta das mesas.” Como não se esbaldar em imaginação depois de ler tais palavras?

Carla Dias: Críticas são necessárias, ofensas são dispensáveis

Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quando Whisner Fraga me indicou para substituí-lo no RelevO, eu ri sozinha, antes de entrar em pânico. Ele é dos meus escritores preferidos, amigo pelo qual tenho imenso carinho e respeito, a quem sempre consulto – e escuto – quando se trata dos meus próprios escritos. O RelevO é um jornal pelo qual tenho real apreço, ao qual credito legítima importância no cenário da literatura nacional atual.

A primeira coisa que perguntei foi se ele acreditava que eu daria conta. Não me levem a mal, trata-se do exercício de se questionar o desconhecido, temendo não saber como lidar com ele. E por mais autoanálise que já tenha feito para amenizar o hábito, ainda uso esse recurso com frequência.

Todos os motivos que citei para me desqualificar estavam diretamente ligados ao fato de eu não ser ele. Pois bem, eu não sou o Whisner, mas ele me garantiu que isso é bom. Então, aceitei o desafio.

O que posso dizer em meu favor é que farei o melhor para beneficiar o RelevO. Espaços como este são essenciais para que a literatura se mantenha plural e inspiradora. Para que as pessoas, escritores e leitores, encontrem-se na prosa e na poesia, e na crítica descubram uma forma de aprimorar a relação entre ambos, contando com o periódico como o condutor.

Crítica é uma forma interessante de se compreender o óbvio: nem sempre estamos certos. Autocrítica é a aceitação dessa obviedade, que nos leva a aproveitar, em nome do bem coletivo – ou mesmo daquele mais íntimo e definitivamente intransferível – a chance de aperfeiçoarmos o que julgávamos concluído, sem necessidade de qualquer retoque.

Tenho consciência de que nunca se defendeu ponto de vista tão fervorosamente como nos dias de hoje. A internet tem sido uma ferramenta poderosa durante esse processo de escancaro. Porém, confesso que aguardo pelo dia em que ofensas não tomarão o espaço das críticas, quando teremos aprendido que, ao tirarmos o respeito de cena, a vida desanda.

Lembro-me de uma mensagem que recebi de um leitor, sobre uma crônica que publiquei na internet há alguns anos. Ele começou dizendo que havia gostado da leitura, que a forma como eu escrevia lhe agradava, mas que, para o meu bem, melhor era eu encostar a barriga no fogão e servir ao meu marido. Eu pensei que fosse alguma brincadeira de mau gosto, mas a troca de mensagens me provou que não, ele era completamente avesso à literatura feita por mulheres, independente da qualidade da obra. Aquela era uma ofensa travestida de crítica. Não foi a primeira, tampouco a última vez que experimentei dela.

O ofensor é um personagem constante nas nossas vidas, e o preconceito, assim como a certeza absoluta e irretocável de ser o autor da opinião correta, conduzem a dele. Acho que ele deveria participar do 1º Campeonato RelevO de Modestos. Aprender a lidar com o elogio direcionado ao outro faz milagres.

Falando sobre a edição de fevereiro, posso dizer que o editorial se aproximou muito do que penso. Política de boa vizinhança – a diplomacia cotidiana – é necessária para que uma sociedade funcione, mas certamente prejudica quando o indivíduo deseja camuflar a aspereza original da sua verdadeira opinião. Precisamos aceitar que nem tudo o que dissermos nessa vida será palatável, principalmente quando remeter ao gosto, que nem sempre será o mesmo do vizinho.

Encantei-me pelos poemas de Alexandre Guarnieri. Depois de lê-los, não conseguia parar de pensar sobre as palavras que um corpo comporta. Desde sempre, as mãos, os olhos, a pele, e tantas outras partes do nosso corpo vêm inspirando a poesia de muitos. Porém, Guarnieri vai além, como se fosse um cirurgião curioso sobre o corpo que habita o espírito daquele que comete poesia.

Cláudia Lopes Bório expõe a insignificância de uma pessoa sendo contestada pela sua real importância. “Manorama” fala sobre uma mulher que mora à beira dos campos de arroz. Ela é responsável por cozinhar o arroz, diariamente, na hora certa, até o dia em que isso não acontece, o que resulta em sua morte. O ritmo que a autora impõe ao texto é de prosa poética, de delicadeza debruçada em melancolia.

Fiquei muito satisfeita com a publicação do “Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV – Diário de um Jovem Soropositivo”. Nós tendemos a nos classificarmos como conhecedores dos fatos, mas andamos cada vez menos esclarecidos a respeito do que importa. Talvez seja hora de lidarmos com o outro com mais de delicadeza. Basta nos informarmos, antes de decidirmos pelo pior cenário. Evitarmos os rótulos.

Mais interessante e produtivo é dialogarmos. Nem sempre será como nos bate-papos que temos com os amigos, nos almoços que oferecemos em nossas casas, nos finais de semana. Nem sempre será afável, que verdade seja dita, melhor, quando a verdade é dita, às vezes ela amarga. Particularmente, sinto-me à vontade com o contraponto, e espero fazer minha parte de maneira positiva ao RelevO e aos seus leitores.

Sendo assim, agradeço ao Whisner Fraga pela indicação, ao Daniel Zanella pela aceitação e ao periódico como um todo pelo espaço. Quem tiver interesse em me escrever, meu contato é laila.dias@gmail.com.

Whisner Fraga: Obrigado

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Durante alguns meses vivi a ficção de ser ombudsman de um jornal literário. Senti-me na pele de um fantasma que tenta assombrar alguém, mas se vê irremediavelmente invisível, impotente. Uma assombração que tenta enviar seu recado, dia após dia, para um público desconhecido de um universo igualmente misterioso. E que, paradoxalmente, causa pânico, raiva, indignação. Com quem este espectro tentou, durante tanto tempo, um diálogo que se mostrou impraticável?

Ainda assim sentirei saudade deste monólogo. Foi um tempo em que meu umbigo me mostrou que existe tanta gente talentosa por aí que dá até medo de tentar me arriscar com algum tipo de arte. Que há, ao mesmo tempo, uns escritores tão egocêntricos e perdidos em seu miserável e inflado amor-próprio que nem merecem ser considerados como artistas. É a vida.

Perguntei ao Daniel Zanella, editor do periódico, se poderia indicar meu sucessor. Ou minha sucessora, para ser mais preciso. Sim, podia. Então escolhi uma escritora com um estilo bastante diferente do meu. Acho que o RelevO deve viver essa diversidade. A Carla Dias, a nova ombudswoman, tem um olhar sobre as coisas que é ao mesmo tempo mágico e seguro. Com isso acho que o jornal deve consolidar o papel do crítico de um periódico literário.

Despeço-me dos leitores com um abraço grato e com a convicção de ter feito algo que me deu imenso prazer. Continuarei perto do jornal como leitor assíduo de tudo o que ele publicar. Quero dizer a todos que quiseram me mandar uma mensagem, mas que não enviaram porque eu era ombudsman, que seguirei à disposição para uma conversa. Meu e-mail é whisnerfraga@yahoo.com.br.

Whisner Fraga: Entre o virtual e o impresso, a sobrevivência

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quem publica o que quer que seja, onde quer que seja, normalmente, é porque quer ser lido. Há quem se sinta realizado com cinco ou seis leitores. Há outros que não deixam por menos de cinquenta mil. Até aí não existe problema nenhum e todos podem viver felizes para sempre com os fatos. A situação muda quando o objetivo da publicação é obter lucro. Neste caso, o leitor é essencial e é preciso um número mínimo de consumidores para que o fim seja atingido. Questão de sobrevivência. Assim, qual é a função deste jornal?

Os editores terão de se fazer esta pergunta. Não que ficar em cima do muro não seja uma opção. Vejamos: aqueles que publicam o RelevO querem somente que a verba que entre dê para cobrir as contas? Ao que as prestações de conta indicam, isso acontece. Todos aqueles que compram o jornal o leem, efetivamente? Aí é pergunta mais complexa. De qualquer maneira, o formato impresso supre todas as necessidades do leitor?

A questão do suporte já foi tratada por diversos autores, algumas vezes de forma brilhante, outras nem tanto. Acontecerá que a ficção, a crítica literária, a poesia, um dia mudarão. E a mudança está ligada, evidentemente, a todo esse problema do formato e da divulgação. O ser humano é curioso, mas também preguiçoso. Assim, a “evolução” do suporte também passará pela viabilidade tecnológica e pelo conforto.

O tema da convivência pacífica entre o que é impresso e o que é virtual ainda tem muita lenha para queimar e só tempo para nos elucidar o que ocorrerá. O que não muda, a meu ver, o caso deste jornal. Literatura é um produto que não vende? Depende. Primeiro, os editores devem se questionar: eles querem distribuir um produto? Porque isso é possível, há inúmeras obras escritas ou não que são comercializadas como produto. Não há nenhum julgamento de valor nessa minha a afirmação, estou apenas lidando com um fato.

O que não é produto vende? Sim, claro. Da mesma forma que o que é produto pode não vender também. A arte pode ser um produto? Sim, claro, dependendo do conceito de arte. No campo artístico, para ser bom tem de se vender pouco? Não necessariamente. Evidentemente que dependemos do público. Sartre pode até chegar um dia a ser mais vendido no Brasil do que Paulo Coelho, mas dificilmente será mais compreendido que o escritor tupiniquim.

Os editores do RelevO terão de decidir: querem produzir algo de vanguarda ou querem agradar a todos e vender bem? Aumentar a tiragem? Ou querem revelar, de fato, talentos do meio literário? Porque revelar talento nem sempre garante leitura imediata, mas com certeza garante um público menor, porque mais restrito, o das pessoas interessadas neste assunto. Publicar somente textos de qualidade ou fazer uma concessão ou outra?

Independente de qualquer decisão, a do suporte continua como ponto central. Neste sentido, é fundamental que o periódico procure outros meios de incentivar a literatura. Por exemplo, organizando eventos, como debates, ciclos de palestras, saraus, que tenham como tema a arte, pois para mim está claro que um dos propósitos deste jornal é divulgar a arte. Isso, por acaso, não seria também uma mudança de plataforma? Ou, no mínimo, diversificação.

Agora, sobre a menina dos olhos: um concurso literário. O Brasil é muito carente de concursos literários. Há quem defenda por aí que os leitores de escritores em nosso país são outros escritores. Se nos atentarmos para a quantidade de originais que o RelevO recebe, a necessidade de se peneirar o diamante, a solução é óbvia: o jornal precisa lançar o seu próprio concurso. Mas, combinemos: com um bom prêmio em dinheiro para os vencedores, que ninguém escreve por idealismo. Comer é preciso. Ora, por acaso isso também não representa uma alternativa de divulgação, uma alteração de mentalidade, uma alternativa de suporte?

Whisner Fraga: Uma pequena ficção

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Suponhamos que exista um livro. E que esta obra tenha sido publicada por uma editora e distribuída em livrarias e outros pontos comerciais. Que o produto seja vendido e que o autor ganhe, de alguma maneira, seus direitos autorais. Que o exemplar possa cair na mão de qualquer cidadão com poder aquisitivo polpudo o bastante para esbanjar sua renda com pequenos luxos. E que, de repente, este leitor não curta de maneira nenhuma o que leu. O que ele poderia fazer? Pedir o dinheiro de volta? Procurar o autor e lhe dizer, um tanto alterado, que perdeu tempo com a leitura? Abrir um processo contra o escritor, que fabricou uma literatura de baixa qualidade?

Suponhamos que a editora deste livro fictício tenha distribuído alguns exemplares para a imprensa. Ou que um crítico literário curioso o adquira em uma megastore de um shopping famoso. E que, como consequência de uma ou das duas ações, seja publicada uma resenha da obra. Aí, podem acontecer duas coisas: 1. O texto analítico é bom ou 2. O texto analítico é ruim. A partir daí, outras duas situações podem ocorrer: 1. O artigo fala bem do livro. 2. O artigo fala mal do livro.

Se o texto analítico é ruim, o escritor pode ficar sossegado e repreender o jornal por ter veiculado algo de péssima qualidade. Mas ele só fará isso se a resenha for ruim, evidentemente. Agora se o texto analítico é bom, aí podemos ter um problema. Se é bom e fala bem do livro, o autor pode dormir sossegado, cônscio de que seu indubitável talento foi reconhecido. Se a avaliação for depreciativa, aí jornal e articulista podem estar com um pepino à mão.

Se o escritor for zen com questões de estranheza e desabono, provavelmente abrirá um Royal Salute, se for um medalhão ou bestseller ou um OldEight se for um iniciante, e beberá um bom gole, enquanto se diverte com a opinião alheia sobre algo que ele criou e sabe, dentro de seus critérios, que tem o seu valor.

Agora, se o autor for arrogante ou mesmo não concordar com a matéria ou com a argumentação, ou quiser fazer um barulho em cima de nada, o que certamente impulsionaria a venda de uns três ou quatro exemplares de seu livro, aí podem acontecer algumas consequências, a saber:

  1. O contista ou romancista ou poeta que teve sua obra desabonada pode escrever uma réplica e exigir que o periódico a publique. Neste caso, dificilmente deixará de fazer notar sua altivez e sua dificuldade de lidar com a diversidade de opiniões.
  2. O contista ou romancista ou poeta que teve sua obra esculhambada pode escrever uma carta e publicar na seção de leitores.
  3. O contista ou romancista ou poeta que teve sua obra depreciada pode entrar em contato com seu crítico, ameaçá-lo com processos, pode publicar um post em seu perfil do facebook, pode ir até as bancas que distribuem os jornais, comprar todos e rasgá-los em casa ou eventualmente queimá-los e assim por diante. A vingança não conhece limites.
  4. Etc.

A questão que se levanta e que deve ter assustado todos os resenhistas de jornais literários é: até que ponto o crítico pode escrever o que bem entende de uma obra? Até que ponto o escritor pode se melindrar com uma resenha negativa? Bom, responder estas perguntas, quando ficam no âmbito pessoal, é fácil. Cada um faz o que quer quando o assunto se restringe a questões de frivolidade. O complicado fica para quando o autor decide levar a questão à justiça.

O escritor pode processar um resenhista que escreveu uma crítica depreciativa, mesmo que feita com argumentos razoáveis, dentro de parâmetros e pressupostos praticamente científicos? A resposta é sim. Existe advogado é para isso mesmo. E o juiz, como se portaria diante de uma demanda desse naipe? Como não tenho conhecimento de caso semelhante que tenha sido julgado em qualquer instância, não posso defender nenhum tipo de questionamento, a não ser que me causa muito estranhamento que um ficcionista ou poeta se posicione desta maneira.

Como, todavia, se trata de um caso fictício e como o RelevO jamais passou por situação semelhante, venho publicamente me desculpar por esse texto completamente desconexo e inútil e pedir a todos os leitores e contribuintes deste conceituado periódico que não deixem a literatura nunca chegar a este nível e que rechacem com veemência qualquer tentativa de ridicularizar uma arte que já deu ao mundo presentes como “Grande Sertão: veredas” e “Dom Casmurro”.