Whisner Fraga: O ombudsman, os leitores e o medo

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quando fui convidado, há alguns meses, a assumir o posto de ombudsman de um jornal literário, achei que havia algo conceitualmente deslocado. Isso porque os suplementos alternativos (e literatura é algo bem alternativo no Brasil) têm uma capacidade impressionante de assimilar críticas e de se adaptar. Então, o trabalho de um Ombudsman seria praticamente apontar falhas para que o periódico tratasse de consertá-las. Sim, ótimo, acho que é um trabalho necessário (e útil), para todos.

Registrado isto, solicitei, esta semana, ao editor do RelevO que me mantivesse no cargo por mais três meses. Ainda há algo a ser feito. E, no decorrer dos três textos que me restam, evidenciarei algumas outras mudanças que, julgo, devam ser consideradas pelos editores. Não sei se perceberam, mas estou tentando reconfigurar, adaptar a função de Ombudsman a um jornal literário.

Vamos às mensagens recebidas. Em minha primeira contribuição, há mais de três meses, deixei meu e-mail à disposição dos leitores. Ninguém me escreveu. Enviam recados eletrônicos ao endereço do jornal e pedem anonimato, principalmente quando as críticas são mais pesadas. O motivo é simples. Existe um sistema de apadrinhamento vigente na literatura brasileira, que nem sempre é benéfico para a arte em si, mas é bastante oportuno para os escritores. Este sistema, em suas regras tácitas, impede que se fale mal explicitamente da obra, ou do que quer que seja, de um colega. Quero dizer que, quando se reúnem em bares, artistas costumam descer a lenha em tudo e em todos, principalmente nos desafetos, mas colocar isso no papel é algo impensável.

Assim, provavelmente estes seis meses em que desempenharei meu papel de Ombudsman trarão mais alguns membros para minha lista de oponentes. É normal. Vejam bem: não quero inimigos, nem opositores, mas sei que os terei. Sabendo que o maior nome da literatura brasileira adulta contemporânea vende em média dois mil livros de seu último lançamento, descobriremos que é bobagem não querer explicitar nosso ponto de vista. Neste cenário, isso só piorará as coisas: falem mal, mas falem de mim.

Esse preâmbulo todo é para defender que o jornal precisa de um “Espaço do Leitor”. Assinantes e público em geral certamente quererão manifestar sua opinião sobre algum texto, sua admiração por algum compadre, seu maravilhamento diante de alguma fotografia ou pintura e assim por diante. Nada mais democrático do que uma assinatura embaixo de um comentário.

Apesar de certas rusgas que minhas considerações têm causado, corajosamente os editores deste jornal decidiram me manter mais um tempo à frente dessa coluna. Provavelmente perderam anunciantes, assinantes e amigos. Torno a enfatizar que não entrarei nos meandros dos textos publicados, pois creio que minha tarefa não é a de crítico literário. Poderia desempenhá-la razoavelmente bem, já que tenho certa experiência no métier, mas não vejo como parte das funções de um Ombudsman. Em linhas gerais, entretanto, percebo que o RelevO tem tentado (algumas vezes sem sucesso) priorizar vanguardas. Tenho certeza de que o caminho é esse mesmo. Todavia, concretamente, há muita vontade, muito esforço e pouco resultado. O jornal tem publicado muitos textos razoáveis, alguns bons e pouquíssimos ótimos.

De qualquer maneira, gostaria de acrescentar que a arte requer coragem. É quase um pré-requisito para se alcançar algo de qualidade. Nenhum artista pode ter medo de ousar, de se sujar com a própria indignidade. Como comentei em um dos parágrafos anteriores, o artista é aquele que não se envergonha ao assinar a própria obra. Gostaria que refletissem sobre isso. Neste meio tempo, quem quiser entrar em contato comigo, meu e-mail é wf@whisnerfraga.com.br.

 

Nota do editor:

A partir de dezembro, abriremos oficialmente a seção Cartas do Leitor. Nesta edição, na p. 3, os critérios de publicação.

 

Whisner Fraga: Independência versus receita

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O leitor que comparar um número do RelevO do início do ano com o de setembro vai pensar se tratar de outro jornal. Houve avanços consideráveis. A capa de Mariana Benevides foi um marco para a história do periódico. As fotos de Isabella Lanave, independentes do texto e até da diagramação, atestam que há espaço para outras artes. Neste sentido, este ombudsman não pode deixar de registrar todos os elogios aos editores, que tiveram coragem de mudar tão radicalmente.

Dos leitores, uma reclamação justa: o padrão dos anúncios. Além de não haver parâmetros claros para a publicação das propagandas, quero acrescentar que elas estão atrapalhando o texto, poluindo as páginas. Claro que a publicidade é fundamental para a existência do jornal, mas a forma com que ela é apresentada precisa ser repensada. Vamos aos exemplos: o centro de ensino de idiomas Fisk pagou os mesmos cinquenta reais que a panificadora e confeitaria Água na Boca pelo espaço e, ainda assim, um anúncio não tem o destaque do outro, nem o tamanho nem outras características.

Há que se inspirar nos grandes jornais, que sabem fazer com que propaganda e matéria convivam em harmonia. A publicidade deve ser também, na me­dida do possível, arte. Ora, o objetivo do jornal não é divulgar o belo, o estético? De maneira que, como exemplo, basta o leitor abrir a edição de setembro na página 4 para perceber que as imagens não estão nítidas, que os reclames não estão chamativos e que atrapalham a harmonia da página.

Não sei se deixar uma página exclusiva para os anúncios seria uma boa solução, isto terá de ser discutido pela equipe, mas é uma alternativa que não pode ser descartada. Também é preciso considerar se é possível que os diagramadores do jornal deem uma mãozinha na confecção dos anúncios, inclusive convidando outros colaboradores (artistas) para ajudarem na empreitada. Evidente que o valor cobrado para a publicação dos comerciais teria de ser mais alto.

Houve também um leitor que questionou a falta de transparência na escolha do editor. Acredito que o jornal deva ter independência para a seleção e acho também que não há necessidade de se tornarem públicos os critérios de definição. Mas vou aproveitar o registro para cobrar novamente que o RelevO deve constituir urgentemente um conselho editorial. A julgar pelo expediente, o grupo ainda não existe. A multiplicidade de pontos de vista só trará benefícios ao periódico.

Por fim, gostaria de assinalar que estou muito satisfeito por estar contribuindo para o crescimento deste jornal. Sempre acreditei nas publicações alternativas e penso que elas têm muito mais a contribuir com a cultura do que os grandes periódicos, sempre dependentes de arranjos para sobreviverem. É fundamental que o RelevO continue com sua autonomia e, ao mesmo tempo, avance em suas receitas.

 

Nota do editor:

Estamos buscando, a partir desta edição, uma maior padronização dos anúncios. Como tivemos mudança de planejamento gráfico no mês anterior, algumas questões de distribuição ficaram prejudicadas. Esperamos ter avançado um pouco em relação a isso. Sobre a formação de um conselho editorial, não há falta de interesse do núcleo mais regular do periódico, apenas nunca conseguimos montar uma equipe que se comprometesse mensalmente a avaliar os critérios. Contudo, a ideia será retomada com mais afinco a partir de novembro.

 

Whisner Fraga: Alguns ajustes

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


A qualidade do último número do RelevO, de agosto de 2014, certamente dificultará o trabalho deste Ombudsman. Alguns poucos erros de revisão, mas absolutamente nada que comprometa. As narrativas surpreendentes de Daniel Zanella, que sempre abrem a torrente ficcional que aguarda o leitor, e que, de certa forma me incomodam. Pode parecer a história do dono da bola, que sempre tem de estar em algum time, jogando bem ou não. Sugiro, assim, que Zanella transforme em fixas suas contribuições e dê um nome à sua coluna, para que não pegue o leitor no contrapé.

As contribuições estão num nível excelente, de forma geral, o que me leva a crer que o editor tenha levado em conta minhas recomendações. A tendência agora, com o conselho editorial, é uma curva ascendente de qualidade. A capa está mais limpa, deixando o trabalho de Yasmin Karinne Bomfim dialogar com o leitor. Tenho a sensação de que muitos artistas serão descobertos por este jornal. Eu mesmo encontrei um escritor, por meio da resenha do Daniel Osiecki. Nunca havia ouvido falar em Cezar Tridapalli e já encomendei O Beijo de Schiller após ler o texto elogioso de Daniel. Por falar na coluna de Osiecki, logo ao lado, na página 30, um cão solitário remete à Baleia, embora, para ser honesto, pareça mais um cão de raça, ao contrário da cachorra de Graciliano Ramos. Uma bela página. Foi isso que quis dizer na minha contribuição de julho: deixar a arte falar por ela. O desenho não como um suporte para o texto, mas como algo pronto, com voz própria.

Assim, acredito que o RelevO dá conta, de forma enaltecedora, da contemporaneidade. De certa forma, há um recorte dela nas páginas do jornal. Sim, como todo recorte, implica escolhas e não existe problema algum nisso. E mais: apesar de ser uma publicação curitibana, dá conta de divulgar artistas de todo o país. Não é pouco. Cumprirá seu papel de mapear o que está sendo feito de bom em nosso país. Merece aplausos.

Parece-me que a única ressalva fica ainda por conta do sistema de distribuição do jornal e talvez da divulgação em si. Quanto à distribuição, ela esbarra em pontos delicados, como assinaturas, vendas e pagamentos. O jornal terá de avançar e criar um sistema de pagamento online, o que dará comodidade ao assinante. E há que se pensar em vendas avulsas seguindo o mesmo modelo. De qualquer maneira, é importante que a assinatura do jornal não esteja vinculada, de forma alguma, a qualquer tipo de aceite de contribuições. O que quero dizer é que muitos assinantes são também escritores ou aspirantes e deve ficar claro que são, no caso concreto de assinantes, apenas leitores. Essa é a única certeza. Eventualmente podem vir a ser colaboradores, mas eventualmente.

Quanto à divulgação, recomendo mais uma vez a criação de um sítio, que não apenas reproduza o conteúdo impresso, mas que inove, que apresente material inédito. Esse contato mais próximo com o leitor pode ser ampliado com as ferramentas virtuais.

Reitero que meu e-mail está à disposição dos leitores, para que enviem críticas, sugestões e o que mais desejarem: wf@whisnerfraga.com.br.

 

Nota do editor:

A partir desta edição, a coluna do editor e cronista Daniel Zanella passa a ser denominada Cenas Urbanas e caminha da página 5 para a 29 – solução reconhecidamente tardia. Setembro também marca o início da seleção de textos para a primeira coletânea do RelevO. Os valores das futuras vendas dos exemplares serão utilizados para a viabilização do site do periódico.

Whisner Fraga: Qual é o meu papel?

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Você, leitor, em uma pesquisa básica, poderá constatar que o papel principal de um ombudsman é justamente defender seus direitos. Pensando em um jornal literário, há que se reinterpretar essa função. Qual seria meu papel? Como escrever um texto com a intenção de assegurar a você, leitor, uma publicação de qualidade? Sim, porque não existe lógica ao se falar de isenção, de imparcialidade, quando o suporte é a ficção e a poesia. É evidente que até os critérios de qualidade acabam se tornando frágeis se tratamos de obras de arte.

Ao mesmo tempo, não podia descambar para a minha zona de sossego, que é a crítica. Não é objetivo deste ombudsman confeccionar qualquer tipo de estudo sobre a qualidade literária ou os méritos do que é publicado neste jornal. Todavia, não há como fugir inteiramente ao tema. Então, a pergunta mais óbvia é: como os textos publicados são selecionados? A julgar pelo expediente, há um pequeno conselho editorial, formado por alguns idealistas, que acreditam que nosso país necessita de cultura. Não é pouco. Entretanto, penso que, com quatro anos de existência, está na hora do segundo salto.

Assim, é urgente que se pense em um conselho editorial mais amplo e heterogêneo, para que o jornal cumpra outro papel importante: o de descobrir novos talentos. Há uma temerária alternância no padrão dos textos publicados, o que não é bom para o leitor. É necessário que se proponha alguma saída para tal desafio. Que tal pedir aos assinantes que ajudem na seleção? Imagino que um concurso literário ajude não só com o aprimoramento das crônicas, contos, poesias e outras narrativas publicadas, como também com a publicidade. O RelevO precisa chegar até mais pessoas interessadas em literatura.

A partir do inevitável destino de crescer, é necessário pensar o verdadeiro objetivo da publicação. A meu ver está claro que o periódico quer investir em ficção e em poesia. Ao se dedicar à literatura, dá mais espaço a revelações, o que é fantástico. Os medalhões que vira e mexe aparecem nas páginas servem de atrativo ao leitor. Ótimo. A ressalva fica por conta da arte visual. Neste sentido, está servindo apenas de moldura para a palavra, o que talvez precise ser mudado.

Vinha trabalhando nesta estreia quando descobri que me faltavam dados: o que o leitor deste jornal pensa? O que o RelevO publica, de fato? Ataquei inicialmente a segunda questão, tratando de ler todas as páginas do periódico, publicadas desde outubro do ano passado. Assim fiz. A primeira pergunta enviei ao editor, que me respondeu prontamente com algumas indicações. Posso, portanto, continuar a dissertar sobre as necessidades dos leitores.

Sobre as minhas leituras, posso defender que a diagramação tem avançado. As páginas limpas nos permitem uma leitura sem traumas. Sugiro, entretanto, que se aumente o número de artistas visuais e que, como já foi escrito, se repense o papel deles no periódico. Às vezes se torna um pouco cansativo encontrar o mesmo traço, página após página. A fotografia, por exemplo, é pouco explorada pelo jornal. Nem preciso dizer que há muita gente de talento por aí e não é difícil encontrá-las. Mesmo quando um poeta engasga com os versos ou um contista tropeça em lugares-comuns, é possível encontrar alguma arte em aquarelas, em desenhos. Fica a recomendação.

Outro ponto positivo é a prestação de contas apresentada logo no início, em todos os números. Neste sentido, também é necessário construir o segundo passo. O jornal precisa crescer e, para tanto, deve buscar mais assinantes, mais patrocinadores. É muito interessante perceber que existem algumas propagandas de livros no periódico, acho mesmo que os autores deveriam abusar desse expediente. Assim, seria igualmente importante o apoio de editoras – as independentes, principalmente, que vêm ganhando espaço no Brasil, pela qualidade de suas publicações.

Espero poder começar um debate sobre o papel de um ombudsman em um jornal independente. Assim, gostaria de estar mais próximo do leitor, para construirmos alternativas para que o RelevO avance e ganhe cada vez mais importância no cenário da cultura brasileira, tão carente de publicações. Peço aos colaboradores, editores e leitores, que me enviem mensagens, para que comecemos a discussão a respeito deste jornal. Deixo meu e-mail: wf@whisnerfraga.com.br. Muito obrigado aos editores, pelo convite. E, querido leitor, espero que eu não o decepcione nestes meses em que estarei desempenhando esse trabalho de ouvidor-geral.

 

Nota do editor:

A partir de setembro estrearemos um novo projeto gráfico com o intuito de aprofundar as relações entre palavra e imagem. De fato, está mais do que na hora de transparecer os critérios de seleção de textos e envolver leitores e nossos assinantes no processo. A próxima reunião do conselho editorial tratará de como colocar isso em prática, assim como as demais sugestões, imprescindíveis para o futuro e crescimento do periódico.

Mateus Lourenço

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Pouca gente imagina que o RelevO já tenha quarenta anos. Provavelmente porque o RelevO não tem quarenta anos. Tem quatro. Nos mais de mil dias de vida material e digital, houve grande evolução, esse fenômeno comum a todos os seres vivos não integrantes do Casseta e Planeta. Nota-se, por exemplo, como a diagramação avançou. Quero dizer, olhe para essa página. Não se preocupe com ler, por ora; apenas aprecie um pouco dessa limpeza visual elegante aliada à capa e às belíssimas ilustrações componentes de cada exemplar, que, feito o Facebook, “é gratuito e sempre será” (ao menos, acho eu que será. Isso não é um comunicado oficial. Não me cobre). Enquanto você o aprecia, acrescentarei algumas linhas de Lorem Ipsum. Pode resumir a leitura no parágrafo seguinte. Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat.

Dirijamo-nos agora aos textos. Com o intuito de revelar gente não publicada, o RelevO oferece uma oportunidade muito, muito legal de apresentar material e, principalmente, acreditar nele. Claro que qualquer um pode publicar o que quiser na internet, além de divulgar para quem entender, potencializando um alcance indubitável. Por outro lado, a sensação de ter seu texto impresso e espalhado, de saber que alguém disse “gostei do que você escreveu; posso repassar em papel?” oferece um empurrão capaz de alterar seu pequeno universo circum-navegatório.

Não há literatura sem leitores, como não há idolatria a David Luiz sem sérios problemas gerais de interpretação. Os textos, enfim, também melhoraram muito, sustentados por uma base maior de colaboradores, interessados e curiosos. O que começou como mezzo belo projeto, mezzo belíssimo pretexto para o editor enviar e receber poesias de belas mulheres, já se transformou em mezzo belo projeto, mezzo belíssimo pretexto para o editor enviar e receber poesias de belas mulheres, porém com maior qualidade nos textos e, suponho, das mulheres (carece de fonte).

Não julguemos o editor. O jornal é gratuito, dá um trabalho do cacete e ainda acarreta em prejuízo de dinheiro e sono. Ou julguemos o editor, tanto faz; quem sou para tentar te convencer de algo? (Ele, o editor, ainda tem que lidar com esse tipo de babaca). Entretanto, chegou a hora do salto de qualidade, de atravessar o Rubicão. Após conversar com o revisor, nadamos à conclusão – aqui traduzida para sugestão –, de que, para manter a ascendência do RelevO, é chegada a hora de reduzir o critério “beleza da autora” na hora de selecionar alguns textos. Uma vez ignorada, ou ao menos relevada (argh, sem querer) essa condição, o presente periódico subirá outro degrau em sua breve história.

Nada a acrescentar. Finalizo aqui os apontamentos de ombudsman, essa função difícil de pronunciar, mas ainda mais difícil de preencher (CONTRATA-SE! Tratar com Daniel Zanella em jornalrelevo@gmail.com. Enviar foto).

 

Nota do editor:

Esclarecemos que, ao contrário do que alega nosso ombudsman-interino Mateus Lourenço, o RelevO não é uma entidade idealizada-ungida com o intuito de estabelecer relações de afeto & carinho com as escritoras ou, quiçá, leitoras que compõe o periódico.

Há, sim, um propósito de equilibrar o número de colaboradoras com o número de colaboradores, o que, de fato, tem sido um problema pouco recorrente de uns dois anos pra cá. Ao mesmo tempo, é natural que aconteça um maior entendimento nas coisas do coração entre semelhantes de uma mesma área – o que o ombudsman especula por um viés possivelmente maldoso e reducionista, o editor entende como natureza.

E, sim, habemus ombudsman definitivo: é Whisner Fraga, escritor mineiro, radicado em São Paulo, contista e poeta, autor de mais de dez livros. Ele abre os trabalhos a partir de agosto.

 

* Mateus Lourenço, 22, é CEO da Cerberus, empresa responsável por comprar poesias vendidas na rua por estudantes de Letras, apenas para dar de comida a cachorros em frente aos autores. Nas horas vagas, atua como ghost writer e se dedica ao árduo ofício de criticar a crítica literária, sendo, na crítica literária, o que o crítico foi na época em que a crítica literária era mais crítica literária.

Osny Tavares: Uma lista circular ad nauseam

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Meio ano atrás começamos um trabalho modesto e ambicioso. Uso adjetivos divergentes de propósito, pois acredito ser função do ombudsman criar um desequilíbrio que induza ao atrito, para no fim resultar em harmonia. Depois do processo de análise, o produto passa a ser bipolarizado em teses e antíteses igualmente identificadas. Somente com cargas positivas e negativas é possível conduzir energia.

Agora, encerrado meu segundo mandato, transmito a responsabilidade para o sucessor, confiante que ele trará novas ideias para esse espaço. Talvez muitas delas sejam discordantes das minhas. Tomara. Assim o ciclo descrito acima se renova e se alimenta.

Obviamente, minha visão sobre a literatura é pessoal. Mas só até certo ponto. Não teria a pretensão de possuir um corpus intelectual de todo original. Ele se completa com a síntese de tudo o que vi e li até agora. Relativamente pouco, em uma carreira que apenas se inicia. Mas o suficiente para criar um mosaico que, visto de longe, dá a falsa impressão de ser minimamente original.

Aprender pelo exemplo pode ser mais difícil que parece. Um sistema de pensamento “comum”, não–artístico, tende a funcionar da seguinte maneira: quando uma ação fracassa em cumprir seu objetivo, a memória automaticamente associa aquele procedimento ao erro. A cada vez que a mesma ação é tentada em outras ocasiões, por outras pessoas, mais a opção se consolida como falha. É o que os antigos chamam “experiência de vida”, ou a capacidade automática de formar padrões a partir da repetição, na qual a ferramenta maior é o tempo e a paciência.

Em artes, a sistemática acima é ineficiente. Toda ação artística tem por procedimento buscar um caminho novo. Se repete o já tentado e construído, não é arte. Portanto, a tendência é não haver duplicidade de abordagens. Claro, isso somente num ambiente ideal e irreal. Sempre existirão pontos em comum entre as obras, mas a capa de autenticidade tende a mascarar as o DNA em comum.

O ombudsman, em seu compromisso de guiar o processo dentro do veículo, acaba por ficar em uma posição delicada, fingindo pertencer a uma zona de conforto e certeza que na verdade não existe – nem para si mesmo, nem para os demais. Talvez pela recém- adquirida influência cultural do MMA no país, leitores e autores pediram para eu ser mais incisivo e fizesse jorrar sangue sobre a lona. Dândi pós-moderno, preferi o tapa em luva de pelica.

No processo de aprendizagem artístico, tão importante quanto a paixão é a falta dela. Empresto um conselho de John Updike: “Não se imagine o guardião de alguma tradição, um guerreiro em uma batalha ideológica, um agente punitivo de qualquer natureza”.

Existe algo de ingênuo nas artes, que é a ilusão de justiça. A crença de que o melhor sempre vai vir à tona, enterrando o imperfeito, é parte de um contrato de escapismo que vê no fazer artístico a resposta humana à tragicomédia da vida funcional. Uma armadilha destinada a trocar uma ilusão por outra, e com consequências ruins. Quando as frustrações começam a espoucar, e elas inevitavelmente virão com relativa frequência no começo, o mecanismo de negação será acionado. Seu hospedeiro passará a repetir discursos de superioridade formal ante a barbárie do gosto comum. Uma espécie de “Deus contra o mercado” que, de tão corroborado pelos outros adeptos ao vício, se cristaliza por consenso religioso. O Outro é o Mal.

Recuperando a premissa inicial, e confirmando a função do ombudsman, elenco abaixo alguns preceitos que podem soar contrastantes ao pensamento comum sobre a criação artística. Pouco disso é conteúdo original meu. Por não tê-lo ainda amadurecido, empresto o conhecimento de alguns grandes autores que já escreveram sobre o ato de escrever.

1) Da necessidade da solidão

Se existe um comportamento-padrão para a maioria dos autores, é a necessidade de solidão. Ela surge como uma quarta função biológica, tão necessária quanto comer, dormir e se reproduzir. John Irving comenta que, ao encerrar as aulas, sua necessidade de estar com os colegas se esgotava por aquele dia. Um espaço de algumas horas diárias consigo mesmo é necessário para o diálogo interno e a reflexão que frutificarão em literatura.

2) Da futilidade das patotas

Pertencer a grupos, patotas ou cenas serve de nada. Primeiro, porque talento não se propaga por condução térmica. Segundo, porque os amigos não são confiáveis. Afinal de contas, gostam de você (presume-se). Estivessem eles num júri em que você é o réu, seriam desqualificados pela promotoria.

3) Da ilusão de uma vida artística

A ideia de que existe um tipo de vida artístico regado a transgressões sociais e comportamento insalubre é dos mitos mais persistentes de nossa cultura. Há aqui uma inversão de causa e consequência. Alguns grandes artistas tiveram histórico com dependência química por causa de sua grande capacidade e sensibilidade, que os oprimia tão intensamente que precisava ser aniquilada, ou ao menos suavizada. Não usaram o vício para criar talento, afinal de contas o estupor químico cria sensações ilusórias de grandeza, sentidas apenas pelo usuário. A arte, entretanto, é real e coletiva.

4) Do interesse pela vida comum

Complementa o tópico anterior. Os aspirantes têm uma tendência a menosprezar a vida cotidiana e sua capacidade de gerar o sublime. São matérias-primas da literatura: amar, desamar e não ser amado, ter um filho, ter um emprego opressivo, se emocionar diante da beleza, ter uma família disfuncional, ter uma família que se reúne e brinda apesar de tudo, ficar doente e se recuperar, viajar, ter problemas financeiros. O que forja, molda e encaminha o artista é ser um homem (sem acepção de gênero: ser um humano).

5) Da inexistência de outras opões de carreira

Um artista é alguém que fracassou em quaisquer atividades anteriores e se descobriu incapaz de produzir nada que não seja arte. Pudera. É a pior opção de carreira possível, na soma entre tamanho do mercado, remuneração, insegurança, nível de stress e qualquer indicador que gurus corporativos ainda venham a criar. Se alguém é capaz de fazer um bom trabalho e se realizar em outra atividade, então provavelmente não é um escritor. E deve ficar feliz por isso.

6) Da recusa inicial à bajulação posterior

Todo profeta começou como herege. Dizer pela primeira vez em voz alta “sou um escritor” vai gerar certo desdém nas pessoas próximas. Algumas vão fazer insinuações muito sutis, outras vão tirar sarro da sua cara, mesmo. E não serão inimigos distantes, mas pessoas que estão próximas o suficiente para tomar a liberdade de dizê-lo (exceção feita aos integrantes do tópico 2). É preciso entender isso como parte do processo e relevar. Elas estão tentando te proteger do auto-engano. Se tudo correr bem, serão as mesmas que te bajularão no futuro. Convém, então, relevar uma vez mais.

7) Da insuficiência da técnica

O fato é que muitas pessoas escrevem bem. Essa habilidade, portanto, não é rara o suficiente para garantir um lugar ao sol ao seu possuidor. A auto-indagação a ser feita ainda é o velho chavão: “tenho algo a dizer”?

8) Do necessário passo adiante

A arte se move em passos milimétricos adiante. Qualquer produto que criar, por mais modesto que seja, precisa sugerir algo ainda não realizado. O domínio dos clássicos serve para avançar a partir deles, e não reproduzi-los.

9) Da leitura

Ler é o prazer maior de qualquer escritor e o objetivo último da organização de sua rotina. A leitura é uma ferramenta insubstituível para o domínio dos códigos textuais, essencial para obter a capacidade de usar a língua escrita a seu favor. Pense no Neo, de Matrix, quando deixa de ver os formatos do mundo e passa a enxergar somente a torrente de programação que o forma. Este tópico é tão importante que não deveria aparecer tão tarde não deveria aparecer na nona posição da lista. Mas se você chegou até ele, talvez esteja no caminho certo.

10) Da filtragem de tudo

Você absorverá somente 10% de tudo em que colocar os olhos. O que é bom, porque 90% de tudo que lê é lixo. Recorte o melhor dentre estes dez tópicos e guarde consigo. Passe o impresso a um colega.