Hipertexto: Codex Leicester

Extraído da edição 40 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Codex Leicester, também batizado de Codex Hammer, é o mais famoso caderno científico de Leonardo da Vinci. No decorrer de 72 páginas, o manuscrito, que apresenta a característica escrita espelhada do autor, aborda temas como astronomia, as propriedades da água e de fósseis. Além disso, as observações são apoiadas por desenhos e diagramas do italiano.

Desde a morte de seu autor, em 1519, poucos foram os seus donos. Após mais de duzentos anos nas mãos da mesma família, o manuscrito foi adquirido em leilão por mais de 5 milhões de dólares pelo empresário Armand Hammer, em 1980. Hammer investiu na tradução do documento para o inglês, contratando para o projeto o historiador italiano Carlo Pedretti, que precisou de sete anos para finalizá-lo.

Em 1994, novamente, o documento foi colocado à venda em leilão. Dessa vez, acabou vendido por mais de 30 milhões de dólares, fazendo do manuscrito o mais caro da história. O comprador? Bill Gates. Três anos após comprá-lo, o fundador da Microsoft o escaneou e o tornou acessível ao público. Partes do códice podem ser folheadas aqui, e é possível comprar uma versão digital por 20 euros aqui.

[por Amanda Arruda]

Hipertexto: do afresco ao óleo

Extraído da edição 39 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

No período do renascimento da arte ocidental – se é que isso realmente existiu –, as técnicas de pintura mais difundidas eram o Afresco, pintura mural baseada na aplicação de tinta a uma argamassa de gesso, e a Têmpera, método de tintas misturadas a uma preparação com gema de ovo em uma superfície de madeira. Apenas mais tarde, no século 16, o uso do Óleo Sobre Tela se popularizou, tornando-se a técnica de escolha para pintores até o século 20, quando o modernismo resolveu chutar o pau do cavalete.

Neste fresco de Giotto, além das cores já empalidecidas e traços grosseiros, é possível ver as diferentes “mãos” de tinta (em volta dos anjos no céu, principalmente)

O Afresco foi muito utilizado principalmente na decoração de igrejas e de villas (casas de campo da nobreza e burguesia). Embora fosse uma maneira prática de embelezar paredes, o gesso secava rápido e pouco podia ser pintado de cada vez. Além disso, a cada dia a tinta se fixava de maneira diferente. Assim, ficavam visíveis as giornatas, diferentes dias de trabalho que eram evidenciados pela diferença abrupta de cores – como neste detalhe da Expulsão de Adão e Eva, de Masaccio. Seus corpos aparecem contornados por uma camada mais forte de tinta. Com o passar dos anos (séculos, melhor dizendo), ficou também claro que as cores das pinturas desbotavam com facilidade. Mas é evidente que há exemplos irretocáveis de afrescos que mais parecem pinturas a óleo, como a obra-prima de Michelangelo, a Capela Sistina.

Na Têmpera, cada traço conta: os fios da barba e as rugas desse Santo André de Simone Martini foram traçados um a um

Para imagens portáteis ou no mínimo móveis, a técnica mais comumente empregada era a Têmpera. Por ser a base de gema de ovo, a tinta nesse caso também seca muito rápido – mais ainda do que no afresco. Não havia como misturar cores a fim de criar um degradê, por exemplo. Dessa forma, os artistas usavam hachuras para modelar a luz nos personagens, isto é, linhas paralelas finas que ficam mais próximas ou distantes progressivamente, criando a ilusão de volume e de iluminação.

Aí chegamos ao Óleo Sobre Tela. O óleo deixa a tinta, digamos, mais maleável – por demorar a secar, possibilita a mistura entre pigmentos e a criação de novas cores intermediárias. Sendo translúcido, permite também que várias camadas diferentes de tinta reflitam quando sob a luz. Além disso, com essa técnica os traços desenhados não são mais definitivos, possibilitando a modificação da tela após a aplicação das tintas. O exemplo mais célebre dessas novas explorações por esse método é a Tempestade, de Giorgione. Nesse quadro, o pintor italiano cria, com diferentes tons de azul, uma atmosfera complexa e carregada e, aproveitando-se da liberdade que o óleo lhe deu: Giorgione chegou a substituir completamente o personagem da esquerda, que antes de ser um pastor (ou soldado) era uma mulher nua sentada.

A imagem de raio-X (à esquerda) revela a personagem original