Silvio Demétrio: Evoé

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2017 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Em meio à turbulência desse ano furioso que foi 2016, eis que me surgiu um momento de liberdade daqueles que se vive só por forca do sonho: Ben-Hur Demeneck me convida para assumir a função de ombudsman do RelevO. Apesar do risco disto soar como cabotino, é uma grande sorte ser professor.

Porque no horizonte da filosofia está sempre o “philo”, o amigo. Ganha-se sempre menos do que caberia por direito e responsabilidade, mas como compensação vamos construindo grandes amizades. E tenho a sorte de sempre receber provas disso. Minha experiência como ombudsman deste periódico foi nutrida por essa espécie de “philia”. Uma amizade que amplia nossa força de ação no mundo.

E lá se foi um ano e agora meu mandato chega ao fim. só poderia agradecer pela paciência e fé inabalável do Zanella, editor do RelevO, bem como de toda a equipe e assim como, e principalmente, de cada leitor que por algum momento me concedeu alguma atenção aos meus textos. Enquanto houver literatura ainda permanece alguma esperança no devir. Toda leitura é um ato de compaixão, de simpatia (sim – prefixo que significa “com” e pathos, “paixão” = compaixão): permitir-se a experiência segundo a condição do outro – colocar-se no lugar de alguém.

É porque é necessário, pois ainda falta compaixão. Falta amizade. Falta conforto. Falta. A falta e tanta que às vezes se desacredita nas palavras, como naquela Carta a Lorde Chandos – obra de Hugo Von Hoffmansthal. É só pela literatura que se pode recuperar algo nesse sentido. O zelo pelo dizer. Esse vapor que se dissipa facilmente e que transforma as palavras no testemunho de uma passagem: o estilo. Nada é mais frágil e, no entanto, nada também pode ser mais instigante do que aquilo que derrota a própria morte do homem e o transforma num autor. O estilo, a singularidade que projeta a vida de alguém para dentro das palavras. Algo que insiste, que resta, que fica. A mais sutil de todas as matérias.

Mas falando assim corre-se também o risco de acrescentar alguma inflexão de tristeza, e todas as matizes da bile negra só fazem é imobilizar. Muito ao contrário, de tudo o que vi e li por aqui fica uma grande satisfação pela alegria do movimento e de uma força de expansão que jamais se permite a tristeza. Acho que já estou sentindo saudades.

Quem assume a cadeira de ombudsman no RelevO a partir da próxima edição é Gutemberg Medeiros. Um dos espíritos mais prospectivos que já conheci quando o assunto é literatura e jornalismo. É com um fôlego de geólogo que suas pesquisas vão em busca do cerne da modernidade de Lima Barreto e da intersecção dos universos literojornalisticos de Nelson Rodrigues e Fiodor Dostoievski. Gutemberg constrói em sua jornada como pesquisador um conceito que acredito ser fundamental para a leitura crítica do RelevO: o “metajornalismo” – na convivência anfíbia entre as duas áreas, literatura e jornalismo, não é difícil encontrar momentos nos quais um literato-jornalista coloca-se a pensar e elaborar algo sobre o próprio oficio. A escrita como uma dobra que sela esses campos para sempre geminados.

Ganham os leitores, o periódico, a literatura e o jornalismo. De toda essa crise na área, algum elemento catalisador como força histórica deve definir melhor os contornos de um novo mapa a ser percorrido. Sei que é imprudente, arriscado e impulsivo lançar qualquer afirmação assim, mas talvez, acredito, não cabe mais noticiar. Para isso existe toda uma geração de profissionais que lembram aquele personagem da MTV nos anos 90, Max Headroom – um âncora apresentador cibernético que dispensaria a necessidade de um profissional “humano”. Cabe aos jornalistas que ainda resistem, reportar, contar histórias, e, por que não, estórias também. A imaginação no poder, mais uma vez.

O texto sobre a textura da página: um relevo sutil que se percorre com os dedos e com os olhos. Vida longa a todos nós. Que a nossa alegria continue para sempre invencível. Obrigado, Zanella. Obrigado, Ben-Hur. Obrigado, Gutemberg. Obrigado, leitores.

Silvio Demétrio: Elegia à deserção

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2017 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Todos nós erramos. E erramos feio. E a verdade por detrás disso é uma só. Não há retorno possível. Não há reparação. Um movimento completo em sua duração, indivisível. Algo que só se experimenta como vertigem. O erro é o destino de cada um. Absoluto. O erro é a sina cega. O cansaço. A canga do trágico destino que se desconhece. Humano porque trágico.

Uma espécie singular de ilusão e delírio: toda e qualquer forma de convicção. De certeza. De moral. Quanto mais se deseja a verdade mais se erra. E que erro considerar isso um equívoco. Aqui o erro é o movimento da errância. Deriva. Os desvios que constroem o trajeto do riacho do tempo. Aquilo que se passa entre um instante e outro. Móvel. Fugidio. Aquilo que foge. Escapa. Aquilo que é livre. Inumano. Potencia inorgânica.

E se não há outro destino que não o erro, por que não cantar a única atitude verdadeiramente válida? Só há sentido na deserção. Desertar vem de “dirigir-se ao deserto”. Tornar o deserto uma ação. Evadir-se em direção ao que não está demarcado. Terra de ninguém. O deserto é o que sobra para além de qualquer fronteira. Lugar nenhum. Utopia. Não lugar.

A solidão é a nação dos que não se enquadram. O afeto do único, do singular, da diferença. O mais corajoso de todos os desertores: o outsider. O bicho esquisito. Aquela presença estranha e incomoda. Indomável. Assimétrica. Sustenida. Santa. Todos os grandes heróis são desertores.

A suprema coragem de dizer não para não se colocar a serviço da morte. Do sarcasmo que assassina as possibilidades de um dia mais leve. Da falta de respeito que faz sangrar. Do desprezo de toda espécie. Da arrogância que envenena. De toda e qualquer militância. De toda burrice. De toda insensibilidade.

Desertar como ato de celebração da vida em sua potência de alegria simples. Todas as crianças são desertoras. Nascem no deserto para depois serem povoadas por monstros como a escola, as doutrinas, os credos e as certezas. Sempre elas. Assustadoras, as certezas se traduzem numa normalidade vazia que faz da vida uma espera pela morte.

Que todos nós que nos reunimos em torno do RelevO possamos viver de forma mais intensa o erro. Como ombudsman de um jornal de literatura, acredito que só possa articular essa proposição como uma tentativa de crítica depois de um ano marcado por uma intensidade tão obscura como foi 2016. Escrevo isso ainda dentro dele e apostando todas as fichas que, nesse momento no qual você lê isso, esse nefasto tempo já tenha se esgotado.

Saudações a todos os que erram. Errar é estar a caminho da surpresa. A nós a poesia — essa deserção do lugar comum para a vida da linguagem como festa. Um brinde a todos os que já desertaram e os que ainda se deixarão as certezas para embarcar nos ventos do encanto. “Só a beleza nos salvara”.

Evoé!

Silvio Demétrio: Luto pela poesia

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Este resto de epílogo de um ano cruel e tortuoso parece demonstrar um esgotamento do sentido em todos os níveis. Para muito além de qualquer polarização política ou partidária, todos se sentem traídos: seja pelo destino ou pelo acaso com a exorbitante tragédia que solapou as vidas de quem estava a bordo daquela aeronave que levava a equipe da Chapecoense (não há como não falar disso), seja pela decadência exposta de todos os parâmetros aceitáveis para a política em condições democráticas que se demonstrou com as manobras torpes, tanto do Senado com a aprovação da “PEC da morte”, quanto nas “10 medidas para acabar com a corrupção”, que o Congresso transformou a seu bel prazer e conveniências. Daqui em diante são vinte anos de inércia. Uma glaciação tropical. Não há bálsamo para uma ferida assim, especialmente quando o jornalismo é instrumentalizado como dispositivo que arranha a carne exposta do real, pervertendo a dor e a comoção nacional numa passividade bovina da população que se esquece de Brasília, do Brasil e de si mesma. A repetição até a exaustão para que o sentido entre em colapso também.

É aí que se percebe o momento ideal para avaliar o quanto existe de valoroso num jornal que se define pela “linguagem como notícia”. Um jornal de poesia e literatura. Um jornal como ágora estética — encontro de poéticas. Algaravia. Murmúrio do mundo. Glossolalia. É só assim, quando acontece na página uma epifania, que se revela a perspectiva do tempo como via de restauração do sentido. A poesia assim como toda a arte é uma forma de cura. É pelo engenho das palavras que se recupera a fé num mundo, seja ele qual for. Existem vários e eles não se excluem uns dos outros.

O RelevO acerta quando apresenta uma salada dos miolos dessa diversidade. E isto acontece de maneira constante. As páginas da publicação são pluralistas, sempre dando espaço para uma pletora de talentos de diferentes origens, estéticas e recursos de expressão. O periódico não é uma aventura paroquial e incestuosa. Mesmo quando regional, é recomendável a um jornal sempre ser cosmopolita. Mesmo que encrustado na mais febril das províncias. E o RelevO é um cidadão do mundo nesse sentido, basta percorrer suas páginas. A edição de setembro, por exemplo, acertou ao ir do chorinho ao heavy metal. Os textos de Luís Pellanda, Flavio Jacobsen e Karen Debértolis numa mesma edição faz lembrar, e isso é inevitável, os melhores momentos do saudoso Nicolau. Uma publicação de Curitiba para o mundo.

Na edição de outubro um grande acerto foi a publicação do texto do jornalista Diego Antonelli sobre um Paraná que não é nem um pouco pacato. A história da Revolução Federalista e o Cerco da Lapa nos mostram que, tal como no mundo inteiro, por detrás do silêncio de uma paisagem bucólica sempre há o grito sufocado de quem pagou com o próprio sangue o preço da história. E é necessário desmistificar o Paraná. Especialmente quando se cria uma aberração ideológica como a “República de Curitiba”.

Em alguns momentos de vulnerabilidade, o jornal pode pecar talvez por essa vocação paroquial que não é sua, mas do próprio Paraná. Estamos todos imersos no mesmo espírito do tempo e acabamos por contrair suas contradições. Talvez seja hora de expandir o alcance não só da circulação, mas também da abrangência do que se mostra em suas páginas. Existe toda uma cultura subterrânea para além do Paraná e que está ávida para encontrar espaço de expressão. O RelevO pode se tornar essa bússola continental. Encontrar interlocução com uma literatura e uma poesia que são estrangeiras dentro do próprio país, como a verve crua e cortante do maranhense Nauro Machado. O trabalho valoroso do editor Gabriel Cohn com sua Azougue no Rio de Janeiro, assim como a Editora Sete Letras e, porque não, até a Revista Cult. Não existe concorrência nesse meio, senão confluência. Vamos nos juntando até nos tornarmos atlânticos.

Escrevo esse texto para exorcizar as sombras desse mórbido fim de novembro na história do jornalismo e do esporte, assim como na política brasileira. Precisamos nos reinventar. Sempre. Não dá para esperar vinte anos. O avião pode cair a qualquer momento. Do luto, lutemos.

Silvio Demétrio: Krig-ha, Bandolo!

A primeira vez que tive de explicar o que era um ombudsman foi numa prova de proficiência em inglês. Foi na ECA em São Paulo, meados da década de 1990. A prova apresentava um texto sobre a legislação sueca referente à função do “ouvidor” em um jornal. Na época isso era uma novidade relativamente recente no jornalismo brasileiro. A Folha de São Paulo havia começado há algum tempo com a coluna que mantém até hoje. O primeiro ombudsman foi o jornalista Caio Túlio Costa, que foi o primeiro também a lançar um livro explicando o que era um ouvidor dos leitores de um jornal.

Quando me convidaram para assumir essa função no RelevO considerei interessante o desafio, uma vez que essa função é tradicionalmente vinculada ao jornalismo diário, o que se chama popularmente de “hard News”. Um ombudsman traça um arco crítico sobre a cobertura que um jornal realiza. Transpor isso para o contexto de um jornal de poesia e literatura requereria algum engenho. Foi aí que encontrei o desafio que me motivou.

É que desconheço algum exemplo de ombudsman que tenha trabalhado com um material estético e não noticioso.

O RelevO inovou ao implantar os mandatos dos que me antecederam. Em conversas com o editor do jornal, Daniel Zanella me explicou que cada um seguiu uma linha própria, independente, dando-me total liberdade para desenvolver meu trabalho. Parti, então, dos seguintes referenciais como modelo crítico: o ensaio Forma É Poder, que Paulo Leminski publicou no saudoso Folhetim publicado pela Folha de São Paulo em 1982, a concepção do que é uma teoria crítica segundo Max Horkheimer e de uma noção que é cara à linha da Semiótica da Cultura, a intertextualidade, muitas vezes atribuída à Bakhtin, mas que na verdade é desenvolvida de fato por Julia Kristeva.

De Leminski extraio as seguintes afirmações: “Uma prática do texto criativo, coletivamente engajada, tem a função de desautomatizar. De produzir estranhamento. Distanciamento. É desmistificação da “objetividade”inscrita no discurso naturalista. Essa objetividade é falsa. Ela apenas reflete a visão do mundo de dada classe social, de determinada civilização. Sua pretensão a “discurso absoluto” é totalitária”. Essa era sua concepção de uma linguagem crítica dentro do jornalismo cultural. Não há, portanto, segundo esse parâmetro, como ser “objetivo” no jornalismo cultural, a menos que não se queira ser acrítico (coisa que se vê em larga escala nesse modelo de jornalismo cultural como “prestação de serviço”, agenda, que vigora nas mazelas do mercado).

Ainda do poeta paranaense sigo o raciocínio do aforismo seguinte de seu ensaio: “Violação. Ruptura. Contravenção. INFRATURA. A poesia diz “eu acuso”. E denuncia a estrutura. A estrutura do Poder, emblematizada na “normalidade” da linguagem”. Poesia, portanto, é caso de exceção. Aquilo que foge às normas. Uma linguagem fluxo. Descodificação. Desterritorialização. Esse “eu acuso” de Leminski brilhantemente embutindo no enunciado a referência ao famoso Caso Dreyfus que marcou a história do jornalismo europeu a partir da leitura que Emile Zola fez dele.

Como a poesia realiza essa tarefa, então? Na minha concepção, exatamente pela dinâmica da intertextualidade, o terceiro parâmetro de nosso modelo crítico aqui para o RelevO. Intertextualidade é conversa entre textos culturais.

Nada que se escreve e publica é independente. Nada nesse sentido nasce de uma tábula rasa. Um grau zero da escrita, como diria Barthes. Existe toda uma rede de enunciados sobre o mesmo tema e de outros referentes afins que precede o corte que será feito pelo enunciado que antecipa e reage com este último. Aquilo que se pode chamar seguramente de historicidade.

É daí que entra a concepção de Horkheimer do que vem a ser uma teoria crítica. Em seu célebre texto Teoria Tradicional e Teoria Crítica, o filósofo alemão explica, entre outras coisas, que o que caracteriza uma teorização crítica é a possibilidade de se infletir uma perspectiva histórica sobre o objeto da crítica. Fazer crítica é, sobretudo, percorrer os agenciamentos do objeto em suas relações dadas pela perspectiva histórica. Aquilo que se percebe do objeto tal como ele se apresenta no quadro histórico no qual ele emerge e as linhas de derivação pelas quais esse objeto se desloca no devir do tempo.

Meu objeto é o RelevO como um todo. Não me sinto autorizado para realizar alguma crítica sobre a poética dos textos aqui publicados. Não poderia analisá-los como se notícia o fossem. Afinal, um ombudsman não faz crítica literária, senão uma espécie de media criticismo. Como tal, penso que minha função é colocar o que se constitui como publicação em relação à historicidade. Jamais eleger minhas convicções políticas como verdades, uma vez que não acredito ter convicção nenhuma sobre nada. Convicção só tem quem já parou de pensar.

Quero agradecer aqui, no corpo do texto mesmo, pelas observações do leitor Alexandre Cunha, especialmente a comparação com Gregório Duvivier. É isto que nos enche não de convicções, mas de um afeto que nos indica que estamos no caminho certo. Agora com relação ao fato de algum comentário sobrepor-se ao campo político, vamos pensar assim: desde que o oxigênio é uma necessidade comum a todo ser humano e não humano também, o próprio ato de respirar é um ato político. Só não existe política onde não existe mais vida. Xô, uruca!

Silvio Demétrio: “E”

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


É uma grande cilada. A ideia de concorrência que, na dimensão do senso comum, quase sempre fica restrita a um sentido de competição, de disputa. Essa é a superfície do termo que vigora pela repetição em uma quantidade considerável de momentos do cotidiano. É como quando pensamos políticos concorrendo a um cargo. Uma eleição é uma concorrência.

Da mesma forma, concorrem empresas no mercado. Espécies na natureza. Ideologias pelo poder. Concorremos na medida exata daquilo que coloca o outro como contradição. Como contrário. E como tal deve ser sobrepujado. Parafraseando Klausewitz sobre a guerra, é possível dizer que o mercado é a luta pela sobrevivência na natureza continuada por outros meios. Uma condição do “todos contra todos”.

Quanta pobreza.

Não há sentido algum em pensar nada relativo à arte e à cultura desse ponto de vista. Ainda mais quando o objeto e uma publicação ou outra. Não há competição. Não há disputa. Coisas como “Guimarães Rosa X Machado de Assis”. Houve um momento assim do jornalismo cultural brasileiro. Não há “melhor”. Não há “vencedor”. Tudo isso é uma tremenda de uma falsa questão.

A arte e a cultura formam sempre uma síntese conjuntiva – conceito que esta lá em O Anti-Édipo de Deluze e Guattari. O “E” agencia um termo ao outro. Tudo o mais é puro espírito de gincana. Coisa para quem nutre preferencias por quermesses. Diga me com quem competes que eu te direi que isso é uma besteira.

E uma das coisas que mais me cativa no RelevO é que ele e impermeável a esse espírito de gincana. Ninguém é nem quer ser melhor que ninguém. Aqui todos são melhores. Até os que não estão aqui. Até os que não acreditam nisso e são contra, porque uma síntese conjuntiva é assim. É um agenciamento maquínico do desejo. É algo que coloca as coisas para produzir.

O desejo é assim. Uma força que os pré-socráticos chamavam muitas vezes de amor – o império de Eros. Quem ama se liga. A conexão como procedimento. Se existe uma concorrência então é sob um novo sentido. Correr em companhia. Correr juntos. Correr “com”. Concorrer e colocar-se em movimento mutuo. Movimentar-se no plural. Co-mover-se.

A arte e a poesia não buscam outra coisa. Aquilo que se compreende por intermédio de uma comoção estética. O movimento, a pulsação que se estabelece e reverbera entre o coração da obra e daquele que a frui. É uma compreensão pelos sentidos. Não há como mensurar. Aqui a ordem do valor é puramente qualitativa. Antes de tudo, qualquer signo na arte é um qualissigno. Uma intensidade. Indomável completamente pela razão. Tal como uma experiência religiosa, incomunicável. Singular.

Singularidades não competem. Não se disputam. Apenas se afirmam em sua plena potência. É de singularidades que se constrói o múltiplo. Como qualquer relevo – a topologia como expressão da diferença, assim como na música acontece com os timbres (qualidade que torna único cada instrumento tal como única e cada voz).

Arte não se troca. Poesia não se quantifica. Não se pode entender nada em estética senão pelo viés do valor de uso. As singularidades como fundamento e historicidade. Só existe um mercado em relação a isso como algo externo, como uma lógica estrangeira que se impõe sobre a produção de quem trabalha o sentido como matéria prima.

É nessa dimensão que a arte e a poesia podem contribuir plenamente para uma volatilização desse panorama canhestro que vivemos nesses dias de muita política e tão pouca beleza. Uma pedagogia da diferença e do convício inclusivo. Chega de tanto mercado. Essa tristeza e solidão de quem quer ser melhor a qualquer custo. Ser singular é nunca ser só por se estar sempre no plural, na multiplicidade. Só existe paisagem para se ver quando há RelevO. Viva a Relevância de cada um, de todos. Viva a paciência do editor que esperou pela confusão deste que vos escreve para que o jornal contivesse também esse texto escrito a suor e sangue no começo de uma noite abafada de domingo sem inspiração e qualquer insight. Acima de tudo, viva a vontade de viver para além das sombras desse oco histórico no qual nos metemos. Só a arte liberta.

Silvio Demétrio: Em atrito com a pele do real

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Não há como não falar. No exato momento no qual escrevo esse texto opera-se uma disjunção entre o tempo cronológico e o tempo histórico em nosso pais. O inexorável transcorrer do dia a dia continua inabalado, mas a percepção e a perspectiva desse movimento como sentido histórico alterou-se com os últimos acontecimentos políticos no país.

Não consigo desviar desse obstáculo obsessivo. Tentei. A ideia era escrever sobre o por quê de se ler ainda no universo do impresso. Tecnologia, tempo real, convergência, alcance global, tudo conspira contra o impresso. Enfim, era para ser um texto abordando somente isto. E já é coisa muita. Porque o impresso resiste. E uma forma de resistência. E resistir à corrente do não sentido é a única forma de se produzir história, poesia e sentido.

A extração de Mallarme: “um coup de dés jamais n’abolira le hasard”. “Um lance de dados jamais abolira o acaso”. E aqui, em nosso caso, “coup” também pode ser traduzido por “golpe” (coup d’etat = golpe de estado). Quanta civilidade foi deteriorada nas redes sociais pela discussão sobre o que assistimos nesses dias ser ou não ser um golpe. Consumado agora já está. Sendo ou não sendo. E todo mundo dança nesse lance.

O que importa é “não abolir o acaso”. Do ocaso de uma transparência maior de nossas instituições cuidemos bem de preservar o improvável como limite. A velocidade da sorte de nossas liberdades que não se deixam capturar. O texto empapelado jamais desaparecera porque só se faz história impressa. Só se faz história com as marcas. Existe algo de indicial no impresso. Derrida atribui a escrita uma primazia sobre a fala por ter sua origem ligada a um sentido de demarcação. Toda escrita é territorial. Demarca um território. Uma fronteira. O papel da página como a película do real.

Mesmo que a página e o papel sejam simulados por uma matriz algébrica que você não percebe no branco da tela de um monitor. Essa película permanece. Resiste. Continuaremos produzindo e lendo as impressões desse mundo. Porque assim e diferente. Imprime-se o que se escreve para que disto algo fique. Uma demarcação sobre o deserto do acaso.

É daí que percebo uma ligação entre o tema que iria abordar nesse texto e a opacidade do momento histórico que me embaralha as ideias às percepções. O que vai ficar disso tudo? Quais as impressões, as marcas, as pistas? O registro ativo. Não um conjunto de narrativas. Opiniões qualquer um as tem. Mas há um jogo em forma de batalha na história: o embate entre a razão emancipatória e a razão instrumental.

Prevalece na história a primeira. As razoes instrumentais sempre se dissolvem em sua parcialidade. Que Curitiba se cure da “Republica de Curitiba”. Um rançoso e requentado separatismo sulista por debaixo de uma carapaça de desonestidade intelectual. Perversão mesmo. Um mccarthismo tupiniquim reeditado de forma palatável à classe média conservadora que sempre “marcha com Deus Pela Família”.

Quanta caretice ainda é suportável até que se perceba essa armadilha? Detesto, senão odeio, escrever com interrogações assim. É amador. Mas é que está sendo difícil produzir essa marca no tempo aqui nessa película do real. Nunca foi tão palpável perceber o que Adorno queria dizer com a expressão “o engodo das massas”. Deveríamos erigir um monumento naquela esquina próxima ao Teatro Guaíra na qual a atriz Letícia Sabatella foi hostilizada. Um monumento à coragem da mulher. Um marco sobre a cidade como um enunciado sobre uma página.

Marcar a felicidade de ainda se ter coragem. De se ter graça. De não ser triste. Essa Curitiba imersa em sensibilidade e mistério e que deve sobreviver ao mau gosto dos shoppings centers. Não podemos abolir o acaso de nossas esquinas. Deixar que nos roubem o sagrado direito de querer e de não querer. Ir e vir por onde quer que seja. Com os pés ou com a cabeça e a alma.

É assim que vejo uma resistência do impresso como algo fundamental. Alegoria de uma forma de ser. Possibilidade de vida. Porque lemos também com as mãos.

Elas fazem parte da moldura que estabelece uma continuidade entre a película do real da página e a nossa epiderme. Como dizia Valery, “o mais profundo é a pele”. Não abandonamos algumas coisas por simples hábito, é o argumento de

Umberto Eco para legar sua fé no livro impresso. É esse rocar de peles, o fino toque entre o mundo sensível e o inteligível que se dobra formando a figura de um leitor. Existe uma subjetivação da leitura que extrai sua forma do universo do impresso. Isso sempre permanecerá, mesmo que na aufhebung (supressão conservadora) de uma tela digital.

Acho que consegui chegar a alguma coisa com esse texto. Espero. Se assim não o foi, que o leitor e o RelevO me perdoem. Foi história demais nesses últimos dias. Até gripei. Saúde e sorte, sempre, para todos nós.

Silvio Demétrio: No mínimo

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Aqui mais uma vez eu e você estamos. Você aí do lado de fora da página e eu daqui dentro desse silêncio. Apenas uma voz que se deixa imaginar pelos seus olhos. Algo que nunca será superado é a sensação de se abrir um livro ou jornal impresso como quem descortina uma cena. A página é um palco imaterial. Uma tela. O silêncio. A iminência. Um véu que se levanta para ver mais além. Vidência e sinestesia. Mundos que se pode tocar com o avesso das pálpebras. Eu e você já estamos lá, exatamente agora. Esse lugar sagrado que existe no intervalo entre o que poderia ser e o talvez. Aquilo que se cogita. Aquilo que se agita e insiste por entre as palavras. Não dá para misturar isso com essa mesquinhez que se chama realidade. A miséria da vida como mero fato finito. Aquilo que se deixa caber numa planilha de ganhos e despesas. A arte é aquilo que a vida pode ser para além dela mesma. A grandeza da vida. O que faz valer a pena cada fôlego que se respira. É só para os raros. Afinal de contas, nem todos vivem. Essa é a história. O sentido. Ele não existe porque deve ser produzido. Ser a mais. Devir.

É que tudo passa a ser. Tudo se move. Tudo se passa ao ser. Uma página é uma potência. E para trabalhar com algo assim se exige muita sensibilidade. Porque qualquer movimento brusco ou indelicado pode por tudo a perder. É necessário despir-se de qualquer avareza. A arte é da mesma natureza da generosidade. É por isso que não existe “Eu”. “Eu é um outro”, como no verso de Rimbaud. Não pode existir “Eu”. Senão tudo dança.

Encrusta-se alguma prosódia clandestina assim quando se tem de falar na transversal sobre uma das muitas pedras que se espalham pelos caminhos de alguém que leva no heroísmo uma publicação como o RelevO. Vejam só: até agosto fica bonito quando se deixa a arte ser o que ela é. A edição desse mês está pura dinamite. É lindo ver isso acontecendo. Quem não se sente muito pequeno dividindo uma mesma encadernação com talentos como Luci Collin? A diagramação está atenta para o que a poesia sempre nos ensinou graficamente. Os espaços em branco são tão importantes quanto. Isso é respeito pelo leitor. Pelos olhos que tornam essas virtualidades e potências das páginas num mundo de vozes que constroem algum sentido de toda essa algazarra (como são lindas as palavras que nos legaram os mouros).

Em tempos de uma imprensa lamentável que transformam rifles de paintball em fuzis terroristas com um golpe de recorte é que se vê o quanto é crucial aprender com a poesia a se respeitar o todo — e isso inclui do leitor ao referente. Nunca se precisou tanto de poesia e arte. Por destino e sorte nosso RelevO ganha uma abrangência maior, passando a circular em mais cidades. Um verbo precioso: transbordar. Ir para além dos limites. Exceder as fronteiras. Desterritorializar-se. Mais além, mais além.

Quem não saca isso não percebe o quanto é minúsculo o toma-lá-dá-cá que se propõe insidiosamente à redação quase que diariamente. Algo como “eu te mando um texto e você me dá uma assinatura”. Literatura, poesia e arte sempre nasceram de gestos heroicos. A equipe que produz o periódico passa por grandes pauleiras em absoluto silêncio. É porque isso não interessa nem aos leitores e muito menos à própria equipe. Problemas são coisas que se desconstroem. E se deixa lá. No vácuo escuro. Porque o que interessa é “ocupar espaço e poetar conforme o caso”, como poderíamos entortar algo que o Torquato Neto deve ter escrito em algum momento. Assinaturas do jornal são de responsabilidade da administração. Não existe qualquer poesia e arte nesse campo. Administradores apenas administram, quase sem nenhuma poesia. E é por isso que existem as páginas pagas. Mesmo assim, todos os valores do RelevO são módicos (daí a resistência da poesia até nesse detalhe de ordem administrativa). Desconheço outra publicação que consiga imprimir tanta personalidade aos anúncios. Todos são criações de artistas gráficos que fazem tudo no mesmo espírito de toda a equipe e colaboradores: pelo prazer que rima com a generosidade de ver acontecer.

Aqui tudo é símbolo. O domínio do arbitrário como exercício libertário. Deixe acontecer que tudo rola. “Deixe sangrar” como Gal Costa em “A Todo Vapor”, disco emblemático produzido pelo saudoso Waly Salomão, de quem sempre me lembro do aviso: “Cave Canen”, “cuidado com o cão”. Beware of Darkness. Ele me dizia dos perigos dessa fogueira das veleidades chamada mundinho literário. Baudelaire atualizado para uma realidade pequenomesquinha: quando um homem visita outro que está enfermo é só para certificar-se da superioridade de sua própria saúde. Bicho, não vá perder-se por aí. O perigo é você engrossar o coro dos contentes que agora batem panelas e agridem atrizes pelas esquinas do lado de fora do teatro.

Abaixo o lamentável, o postiço. O ilegítimo. Chega de picaretagem. Chega de tristeza. “Gente é feita para brilhar”. Sucesso é coisa careta. O barato é o sentido. Como o sapo de Bashô que pulou no tanque. Uma pedra que rompe a superfície e a transforma por reverberar em movimento o som que já não é mais do que a memória do próprio salto. Fiquemos à espreita de algo. Esse é o método. A atenção. Dos ouvidos aos olhos. O tato. Aspire. Do ar queira. Cogite. Mas também desobedeça.

Enquanto eles dormem nós sonhamos. Em honra e homenagem ao que podemos ser: não acorde. O que significa que é para não dormir no ponto. Quem cobra favor é porque antes de tudo suborna a si mesmo. Vamos ser de verdade. Para além dessa vontade minúscula e enferma de encher o próprio bucho com a carniça dos desejos mortos de alguém. Abutragem. Urubulice. Neologismos-traquitanas disfarçados de palavras-valises.

Que esse agosto seja leve e lindo e que dessa viagem o RelevO da paisagem, uma promessa de aventura e fé no sentido. Cresceremos na mesma medida que nos tornarmos menores. Como Alice. Beba-me. Leia-me. Decifra-me ou te devoro. Assim como fiz com Silvio Demétrio nesse texto. Para você que me leu até aqui o universo e tudo o mais. O máximo.

Silvio Demétrio: O fiel

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Um dos mitos mais interessantes da imprensa é o jornal “Libération”, o “Libé”, como carinhosamente e conhecido por seus leitores. É que em 1973 o jornal teve como um de seus fundadores a figura de Jean-Paul Sartre (ele foi seu editor durante algum tempo). A reverberação do maio de 68 ainda era muito forte e a publicação nasceu com uma alma profundamente marcada por um desejo libertário. Em sua primeira fase, não abria espaço para publicidade. Sua receita baseava-se na venda em bancas e no público assinante, equação cujo resultado qualitativo era uma independência radical em relação a condição editorial dos outros jornais. E assim o foi por quase uma década. No começo da década de 1980, o modelo arcou-se a concessões e passou a abrigar anúncios publicitários. No entanto, o mito já tinha nascido. A ideia de um jornal como uma entidade autônoma e independente. Hoje o “Libé” e um jornal convencional do ponto de vista empresarial – desde 2005 conta em seu quadro de acionistas com os 37% de Edouard de Rothschild. Sim, o Libération alimenta-se hoje de seu mito fundador.

Outro mito é a retumbante joia editorial da contracultura, a “Rolling Stone” (a americana). Nascida na florida San Francisco dos cabelos longos da década de 1960, hoje a publicação não e nem mais sombra do que foi em seus áureos dias de fúria contracultural. O que antes era independência e organicidade com as transformações culturais de seu tempo transformou-se numa tradicional publicação gerida por um espirito empresarial que a transformou numa franchising. Sim, a convencional publicação brasileira que ostenta hoje a logo da franchising anima-se de toda essa complacência normalzinha – só lembrando a heroica luta de Luiz Carlos Maciel, nos anos 1970, publicando uma versão nossa e verdadeira da “Rolling Stone”, que realmente tinha alma de pedra rolante. Maciel, o também jardineiro da Flor do Mal que Torquato Neto tanto amava.

Entupir ou não entupir, eis a contradição. Entupir de anúncios. Engasgar as páginas com a necessidade de grana. Esta parece ser a grande questão. Até onde se pode ir sem comprometer aquilo que torna uma publicação viva. Difícil balança cujo fiel oscila entre o público leitor e o público anunciante. Não se vive sem ambos, e ambos deveriam entender que não se pode excluir tanto um como o outro. O fiel dessa balança oscila entre a ameaça de derrocada de todo romantismo que peca pela falta de continuidade, assim como a sobrevivência esvaziada de crítica porque só atende aos interesses de quem está pagando pelo espaço publicitário. Jornalismo é o supremo paradoxo entre o público e o privado. Não é diferente quando o assunto é literatura e cultura em geral.

Valha-me são Pierre Bourdieu para evocar a noção de campo. O jornalismo é um campo. E, como tal, é palco de disputas simbólicas. Qualquer resultado nesse sentido será sempre provisório. Inconstante. Instável. E isso é bom. Saudável. Editar é uma arte do equilíbrio, essa tara por atravessar precipícios a passos sustentados por barbantes. E quase voar. É necessário saber voar para além da gravidade das demandas dos dois lados da balança. E construir a confiança de que o público leitor e os anunciantes vão estar ali, sustentando um sistema sempre instável como a vida de um trapezista. E só assim que se pode ser justo tanto com quem paga pelo conteúdo quanto com quem paga pelo espaço. É certo que esse último paga mais, isto porque, para além do espaço comprado, está pagando pela atenção do público. Esta só existe quando o jornal consegue estabelecer uma justa medida de ambos os interesses.

Ao que parece, o RelevO é uma publicação com alma. Senhores(as) anunciantes, não nos esvaziem daquilo que anima o desejo do público leitor que vocês também querem conquistar. Da mesma forma, senhores(ras) leitores(as), continuem a nos prestar seu apoio com o carinho com que viram cada uma dessas páginas. Elas foram criadas uma a uma antes de serem reproduzidas por uma maquinaria infernal dessas que nos transformam todos em robôs superprodutivos. Aos assinantes, sempre a nossa saudação mais cara, porque estamos o mais próximo o possível. E com os assinantes que se constrói a imagem desse equilíbrio: um leitor que acima de tudo também paga, mas que não esgota seu significado nesse ato. E um leitor orgânico porque indiretamente participa mais de perto de todo o processo de produção. Um assinante e quem dá um voto de confiança. Identifica-se. Só lembrando aqui a vinculação do “Libération” com um certo imaginário de maio de 68, tornando-se, durante muito tempo, sua leitura quase que uma credencial crítica. Ostentar um exemplar do jornal em espaço público era ingressar numa ordem simbólica libertaria. De certa maneira e guardadas as diferenças, a alma do bravo RelevO é assim também.

Escolhi o assunto porque essa e a grande luta anônima que se trava no silêncio dos intervalos que separam as edições. Tempos incertos. Tempos de crise. Jornalismo vive de crise e incertezas. O resto é marketing. Jornalismo é risco. Tem que pagar para ver. Por mais que se tente, não se consegue fechar planilhas nesse universo. Se elas se fecham absolutas, sem nenhuma imprecisão, é porque o jornalismo já contraiu a peste. O RelevO é o que e porque manteve-se no imponderável equilíbrio sobre essa linha ao longo do seu tempo de existência até aqui. E vai continuar assim até onde for possível: pautando-se pelo interesse tanto de seus leitores quanto de seus anunciantes sob o fiel de uma balança que se constrói com a arte de entrelaçar palavras. As artes do texto. São elas que unem todos os nossos interesses num só desejo. Vamos todos celebrar. A linguagem é uma grande festa!

Silvio Demétrio: Nada é sagrado, tudo pode ser dito

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Espero estar à altura. Ser ombudsman não é uma tarefa fácil. Ainda mais com a velocidade que a tecnologia hoje imprime ao tempo vivido. Criei-me em meio a uma geração de fronteira que impunha a imagem de um universo no qual o jornalismo estava ligado organicamente à celulose. Difícil é desapegar-se do papel. É que quando se fala em jornalismo impresso fica como metáfora a ideia de uma marca que se deixa. Uma “impressão” que se causa. Tudo isso numa paisagem cujo protagonista é o leitor. O jornalismo como algo que assinala as subjetividades: quimera que só se materializa quando ele é monstruosamente literário. Daí esse reencontro com o mundo do jornal ainda impresso como resistência quando recebo o convite de Ben-Hur Demeneck para sucedê-lo como ombudsman aqui no RelevO. Invisto-me então dos poderes do machado viking que me foi passado. 

Também não acredito nem no jornalismo e tampouco em qualquer literatura como haute culture. Daí o título que roubei de um livro de Raoul Vaneigen, figurinha carimbada do meio de 68 – “Nada é sagrado, tudo pode ser dito”. A reverência é a miséria da escravidão estética. Por pura coincidência e sincronicidade conheci a publicação alguns dias antes do convite. Um aluno meu da UEL havia chegado de Curitiba e me passou o exemplar. Não discuto com sinais dos deuses do chumbo e da celulose. Por natureza, todo aquele que escreve é um ser obsessivo (não é meu esse insight não, tunguei do Ricardo Piglia, o melhor dos escritores argentinos vivos). E não existe obsessão sem redundância e acaso. Porque redundância e acaso fecham a equação das coincidências – as flores do mal (conhecidas como oximoros) que povoam a “floresta de sinais” dessa zorra toda que fede a enxofre e poluição que se chama vertigem de estar vivo. É tudo meio gratuito mesmo. As coisas vão acontecendo e quando você se dá conta aqueles discos que você ainda considera novos já completaram mais de vinte anos. Para mim esse mandato dura ad nauseum, ou seja, até que vocês se enjoem de mim. Vai ser uma longa e estranha viagem. 

A primeira impressão que tive foi analógica. Tal como num disco de vinil, percorri o RelevO com olhos nos dedos, assim como numa agulha de um toca-discos se instalavam ouvidos. O inaudível atrito das pontas dos dedos sobre os sulcos da celulose do papel chegando ao oco que separa os ouvidos como caixa de ressonância. Quando amplificado esse som em imagens acústicas (valha-me São Saussure), o resultado me sabe ao bom e velho rock’n’roll. Não qualquer um, mas algo de cepa psicodesbundética. Uma longa jam session. Aquele santo graal que sempre se procura numa primeira página: “10 dicas para que seu cabelo continue uma bosta”. É isso. Nenhum outro jornal publicaria isso em sua capa hoje e sempre. Uma ruptura com a sentença bidimensional de Euclides para incorporar à página uma topografia, essa ciência do amor ao irregular. O legado de todo RelevO é a paisagem. O detalhe. A singularidade.

Manchete: a notícia morreu. Só existem os acontecimentos. Sem hora e local definidos. Sem a priori. Tempo de irrupção. Erupção. Lava. Lavra. Palavra. Porque um jornal também pode ser dionisíaco. Sugerir ao invés de nomear. Isso para não suprimir três quartos da pensão “O Prazer do Poema”. Porque o deus dos hebdomadários, diários, gazetas e pasquins também é Hermes, o deus mensageiro. Da aurora e do acaso. O deus da curvatura do tempo que se fecha sobre si ao longo de um dia. A luz do sol é curva. Oblíqua. Porque um texto sempre esconde na exata medida que também revela. Acima de tudo deve restar algo informe, uma “parte maldita” de tudo o que se escreve, o implícito, sublime feitiço de toda enunciação. O que se quer dizer? Um sujeito indeterminado. Hecceidade. Subjetivação sem sujeito. Irrupção do desejo como acontecimento e disparo do sentido sob a superfície fantasmática da linguagem.

Alguém com uma arma apontada para o leitor na capa. A última edição do RelevO (maio 2016). Estamos todos com as mãos ao alto. Aliás, já parou o leitor para pensar o quão é polida essa forma de interpelação dos assaltos que se cometem em língua portuguesa? “Mãos ao alto”. O que cansa no jornalismo convencional é que ele é potável. Falta ruído. Distorção. Faltam entranhas. É o império da rotina. Contra isso tudo só pode vencer a invenção. Sub-versão dos fatos pela maneira de dizer. 

Em verdade, não é viking. Meu machado é de Assis. Assim como São Francisco, despir-se de tudo o que é desnecessário. A mais preciosa das preposições de Italo Calvino, a leveza. Porque o mais difícil de se alcançar com a palavra é a simplicidade. Uma virtude estoica. Não o pouco. O raso. O apenas. Mas sim a potência do silêncio como luz que revela um mundo em cada palavra cavada na página. 

É assim que agradeço pela chance de colaborar com esse grande barato que é o RelevO. Espaço para ecos que vêm de uma multiplicidade de outras grandes festas: nosso saudoso Nicolau, assim como o Joaquim; Grimpa e Revista Coyote; Revista Medusa; a Musa Paradisíaca; isso para ficar no quintal de casa.  Por cima do muro dá para ver o eco dos ecos de outros tempos: o jornal O Beijo, Bondinho e o Flor do Mal (do mestre Luiz Carlos Maciel), e por que não, até o San Francisco Oracle, o supremo jornal psicodélico de todos os tempos, editado por Allen Cohen. 

Tal qual César às margens do Rubycon, “alea jacta est”. O que também pode ser entendido como “se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora”. Chegou a hora e a vez do RelevO crescer. Para o alto e para baixo. Ao redor e dentro da cachola de qualquer um que se permita embaralhar com suas páginas. Como dizia Torquato Neto “o barato é ocupar o espaço e depois poetar conforme for”. Que seja então. Ainda. (sempre quis terminar um texto com parênteses, assim, explicando um final em fermata, em suspenção, para deixar no ar alguma promessa que só conto qual é na próxima edição – e eu só poderia hifenizar dentro de parênteses aqui, porque qualquer outro editor já teria me escorraçado – é por essas e outras que o RelevO é singular). 

Ben-Hur Demeneck: Arte do efêmero

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O ombudsman recorre ao método de Bertolt Brecht para derrubar a “quarta parede” deste jornal literário diante do público. Para facilitar a demolição dos discursos, o representante dos leitores traz consigo um machado típico dos ancestrais vikings desse cargo escandinavo.

Convidados a se manifestar, os editores saem da sua condição de personagens para explicar como criam seu jogo de cena. MÉTODO: encadeamento de falas do núcleo editorial, obtidas a partir de um questionário comum e de entrevistas exclusivas. ELENCO: Daniel Zanella (DZ): o editor-chefe; Ricardo Pozzo (RP): o editor; Marceli Mengarda (MM): a diagramadora; e Mateus Ribeirete (MR): o revisor do jornal e editor da newsletter Enclave.

 

  1. Jogral autoral 

Primeira cena: o elenco olha para a plateia e responde ao subtexto: quais foram os autores que lhes tiraram a paz diante da literatura? Preparação dos atores: sessão de grito primal. Sequência das falas (que podem ser intercaladas): MR: Jorge Luis Borges, Douglas Adams, Valencio Xavier; DZ: Rubem Braga, Júlio Verne, Paulo César Pinheiro; MM: José Saramago, Fiódor Dostoievski; RP: Raduan Nassar, George Orwell; MM e RP, em uníssono: Guimaraes Rosa.

 

  1. O menestrel 

“Não gosto do ideal de jornalismo cultural como haute culture, seriedade de fraque, literatura de doutorzinho. Não deve existir um totem que não mereça ser derrubado. Ninguém e ‘inzoável’, nada e sagrado – principalmente nos mesmos (…) O que jamais faremos: usar dinheiro público” (DZ). 

“[Nossa] transparência de método e de finanças veio a partir da constatação de que muita gente do meio cultural vive a se lamentar de condições subumanas, mas não abre suas contas. Gosto de saber do tamanho do fracasso dos outros também. Não são poucos os casos de reclamões culturais de vida mansa” (DZ).

 

  1. Teatro épico

“A postura amadora e desapegada do RelevO nos favorece a não ter rabo preso, e isso atrai um público fiel. Somos uma várzea organizada, e essa leveza agrada – principalmente no meio literário, cujo senso de humor é inferior ao de uma endoscopia” (MR).

“Volta e meia entro em crise com esse chamado mundo literário, levado por alguns fatos como o de perceber que a literatura não tem importância alguma no correr cotidiano do mundo – a não ser para os que foram ou serão seduzidos por ela” (RP).

“A coisa menos ‘desperdiciosa’ da minha vida, até agora, foi a literatura e o que ela me trouxe. Concordo muito com o Leminski, quando ele diz que a poesia e um inutensílio. Acho que a literatura, no geral, é isso aí – um inutensílio” (MM).

“O escritor e um ser carente e o fracasso e sua moeda. O que fazemos, nos, do circuito cultural, e perfumar o fracasso. Isso deve incomodar aqueles de vida mais matemática, por assim dizer” (DZ).

 

  1. Fábula líquida 

“O mundo atual é cada vez mais superficial. E não se deve culpar as pessoas por isso, [pois] o sistema biológico não foi feito para essa avalanche de informações e imagens a qual estamos sendo submetidos – o que pode levar as pessoas a terem comportamentos contraditórios ao seu discurso” (RP).

“É legal o quanto recebemos de retorno dos leitores, mesmo (e talvez principalmente) o negativo. E bom saber que alguém se importa [com o nosso trabalho], a ponto de entrar em contato (…). Porém, sinto que o diálogo entre a newsletter e o jornal poderia ser melhor aproveitado” (MR).

“O que interessa para o RelevO e veicular trabalhos bons e relevantes [esteticamente] (…). Até me surpreendi de não ter tido mais feedback horrorizado de capas alegadamente chocantes. A exemplo da edição de dezembro de 2015, que não ficou nem no ISSUU de tanta imagem de vagina [estampada] na capa (…). No fundo, acho que temos pouco a perder. Então, dá para arriscar mesmo” (MM).

 

  1. Papel do jornal

“Ainda acredito no impresso como um organizador do cotidiano. Em meio a uma enxurrada de informações, excitações, vaidades e desejos por atenção, o impresso pode ser este espaço de concentração, de comunicação mais dirigida, de diálogo” (DZ).

“E preciso encorajar e incentivar mais mulheres a escrever (de preferência, sem dizer que são loucas), porque a diferença quantitativa e clara e, talvez, deva-se ao fato de que as mulheres nunca tenham tido muito espaço para isso” (MM).

“[Você acredita que o impresso continuará por muito tempo um eixo, um centralizador da movimentação cultural nesse mundo em que há tanta dispersão virtual?] Sim. Principalmente quando O EDITOR RESOLVER A MERDA DO ISSN! CARALHO, ZANELLA.” (MR).

 

  1. Olhando nos olhos 

O narrador expõe as respostas do núcleo editorial diante de um questionário feito sobre transparência. O recurso havia sido proposto, em 2007, pela Universidade de Maryland através de seu International Center for Media and the Public Agenda (ICMPA).

Cabe aos leitores se posicionar diante do autorretrato pintado pelos editores, que relacionaram de forma unanime o RelevO a três dos cinco procedimentos identificados a “Accountability”: (a) Correção de erros: existe disposição para reconhecer e retificar os erros cometidos; (b) Politica editorial: os leitores conseguem reconhecer quais são os valores que orientam o trabalho dos editores; e (c) Interatividade: os leitores têm canais para expressar seus comentários e críticas.

O quarto tópico – transparência publicitária – recebeu a maior parte dos votos (“o jornal expõe eventuais conflitos de interesses”), enquanto que a questão relativa a propriedade ficou próxima da marcação zero entre os editores (“os leitores sabem quem são os ‘donos’ do jornal”). Nesse momento, o apresentador discursa a plateia sobre a materialidade do mundo: segundo o estudo de Maryland (“Openness & Accountability”), apenas 11 dos 25 canais globais pesquisados publicavam ou transmitiam correções de matérias de maneira clara, e somente sete mantinham ombudsman. Uma realidade cruel e anunciada: “quando o assunto e transparência, até a BBC pode tomar umas aulinhas com o RelevO brasileiro”.

 

  1. Desfecho

Literatura, transparência e humor. Em sua última colaboração como ombudsman, o narrador afirma que é com essas três palavras que resume o jornal RelevO. Para ser mais claro, ele disserta: (a) literatura como cultura – antes mesmo de ser pensada como arte; (b) transparência como a exposição das escolhas editoriais em estética e “gestão”; e (c) humor – ora autoderrisório, ora ferramenta de liberdade de expressão.

O locutor convida ao palco seu substituto, o jornalista Silvio Demétrio. Elogia o “formalismo psicodélico e esquizoanalítico” de Demétrio e lhe entrega em mãos o machado viking dos ancestrais ombudsman. Embora tal cargo e objeto não estejam relacionados na Escandinávia, rendem uma metáfora para quem precisa invocar o poder dos leitores antes de partir ao meio as couraças da imprensa. O novo personagem recebe o amuleto e logo o tropicaliza, ao metralhar um discurso sobre Xangô na obra de Jorge Mautner. Cai o pano.

Ben-Hur Demeneck: Os satélites

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Além da edição de março, dois outros objetos voadores foram identificados na órbita do RelevO: a newsletter Enclave, que chega a seu número 31, e o especial “Escritoras da Geração Beat”. Ou seja, a crise criativa passa longe daqui. Sem contar as atividades que surgem por iniciativa ou por inspiração do periódico, como oficinas e saraus. RelevO está deixando de ser um jornal para virar uma “jointventure” que divulga o WikiLeaks.

 

  1. Os números 

Em 2016, o jornal publicou 25 páginas de poesia e 14 de literatura em prosa. Comparando com janeiro e fevereiro, a edição de março teve 35% menos poesia e o dobro de anúncios de página inteira. Os gêneros mais estáveis (e os menos presentes) seguem sendo a crítica literária e o humor, que recebem, respectivamente, uma e duas páginas só para eles.

 

  1. Ombudsman bom

Falta fazer uma consulta aos ombudsmen na Suécia, na Noruega e na Dinamarca. Diante do impulso da globalização em transformar tudo em espetáculo, tudo em mercadoria, talvez mesmo por lá ser “representante dos leitores” seja uma causa perdida, seja também considerado algo semelhante a espetar um tridente em colaboradores e concorrentes. Para resumir a recepção da ouvidoria na “República de Curitiba”: a cada coluna que publicamos, alguém pede para pregar nossa cabeça numa estaca.

 

  1. Leitor consumidor?

Dando mais um motivo para pedirem minha cabeça: não concordo que assinante cobre uma regularidade típica de grande imprensa para o RelevO. É quando faço duas perguntas: A edição não chegou até a primeira semana do mês? O conteúdo do jornal lhe decepcionou depois que chegou? Só vejo motivos para o assinante reclamar aos editores quando as duas respostas forem “sim”. Imprensa alternativa já faz muito em circular. Perdão pela franqueza.

 

  1. ISSN, a lenda

Há quem idealize a volta da Colônia Cecília. Há quem fantasie com a utopia   pintada em tela por Pieter Bruegel. Lá, o vinho jamais terminava, ninguém envelhecia e tudo era de graça – sexo, doces e refeições sem glúten. Eu, entretanto, não tenho tantas ambições. Meu sonho é bem singelo, prático. Ele é quase patético – eu só quero que o RelevO tenha um ISSN!

Afinal, se até o Charlie Hebdo tem um código de identificação – logo uma publicação que se arrisca por ignorar as convenções –, por que nós, “os diferentões”, não podemos ter? É só para dizer que somos alternativos ao mundo dos adultos? Que traumas cultivamos contra os bibliotecários e arquivistas para dificultar tanto o seu trabalho? Devido ao fato de eu já ter entrado na fila três vezes para cobrar o ISSN, eu mesmo me disponho a dar entrada na papelada. É só me passarem a procuração – juro que essa será a penúltima vez que vou cobrar.

 

  1. Precisa-se de críticos 

Nós precisamos de você, crítico literário inédito, no RelevO. Para começar, procure estar habilitado para descrever, comparar e interpretar sua leitura. Se você já faz isso, compartilhe conosco seus artigos. Se você souber relacionar publicações ao ambiente cultural em que elas surgem, saia da inércia: o Brasil precisa de você. É sério mesmo.

 

  1. A recusa

Os desaforos mais típicos contra a redação (comentam os editores) surgem diante do adiamento ou recusa de publicação. Caro e sensato leitor, conte para todos como você reagiria numa situação típica às vésperas da publicação – ter 30 poemas para dividir em 8 páginas e dispor de outros 15 contos para encaixar em 6 páginas? Resolva esse teorema. Você tem um mês para dar a resposta.

 

  1. Barril de pólvora

Por ser uma questão delicada, aviso que não estou dando recado a ninguém e nem endossando a crítica originária de setor limitado dos leitores. De um lado, um dos editores explica que desde 2014 o jornal tem forçado a mão para equilibrar a representatividade de mulheres neste tabloide. Ou seja, se um editor tiver de escolher seis poesias para publicar, tenderá a escolher aquelas que considera as três melhores escritas por homens e outras três que sejam assinadas por mulheres. De outro lado, alguns leitores homens têm reclamado com frequência do nível de poesias criadas por mulheres. Alguns deles acrescentam que haviam enviado material, mas acabaram preteridos por conteúdos que julgam menos interessantes. 

Questões estéticas à parte, que sempre merecem discussão, devemos evitar tentativas de desqualificação de pontos de vista legítimos – e que pode ser o caso. Diante de tais objeções, lançamos duas perguntas: (1) Se as mulheres são mais assíduas na leitura que os homens, segundo indicam as estatísticas de “Retratos da Leitura do Brasil” (Instituto Pró-Livro), por que as leitoras do RelevO não estão se queixando das autoras publicadas? (2) Será que homens ilustrados (assim como eu) têm problemas em reconhecer que há uma “perspectiva feminina”, igualmente importante tanto quanto é a nossa? Em outras palavras: Seja lá o que signifiquem “perspectiva masculina”, “perspectiva feminina” e “perspectivas etc”, é fato que há nuances entre os gêneros e que cada um deles merece visibilidade.

 

  1. Serviço?

A constelação de atividades e de publicações do RelevO favorece a emergência de uma “agenda cultural” que nos conte onde é que o Paraná está mais literário mês a mês. Não seria tal localismo que desacreditaria nosso título de publicação nacional. Pelo contrário, pois todo jornal possui o seu entorno imediato – é claro que ninguém aqui defenderia aquele provincianismo característico dos jornalões paulistanos, onde jornalistas costumam ficar com saudades de São Paulo quando saem do “centro expandido”. Em nosso caso, convenhamos: Curitiba já merece o reconhecimento de metrópole literária – mesmo contra a nossa vontade.

 

  1. Forma como conteúdo

Para descomemorar tamanha fragmentação do conhecimento de nossa era digital, também fatiei minhas colaborações em várias lâminas de presunto. Desejo aos convivas uma boa digestão dos frios.

 

  1. A penúltima

Tal como o boêmio em mesa de bar solicitando sua “penúltima”, anuncio à roda de conversa que escrevo minha “penúltima”. Depois de um ombudsmanato e de sua prorrogação, minhas críticas findam na edição de maio. Depois, o RelevO só terá notícias minhas a partir dos sinais enviados por minha caneleira eletrônica.

Ben-Hur Demeneck: (NÃO TÍTULO: [In.(ter)] dependente FC)

Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Um dos experimentalismos do RelevO está em admitir um crítico editorial entre as páginas de um jornal literário. E mesmo tal temeridade parece pouco aos diretores, que convocam o colunista a se vestir de apicultor para apreciar ninhos de marimbondos como se fossem aqueles globos terrestres dos professores de Geografia.

Desta vez, o nosso alvo e o culto ao “jornalismo independente”. Afinal, como e que um valor profissional foi se transformar em recurso de marketing? Antes de abordarmos o problema, exibimos um making of: pela metade de cada mês, o editor envia a este ombudsman um relatório. A iniciativa favorece o diálogo entre os agentes da publicação e evita que um texto escrito remotamente perca de vista o “chão da fábrica” do veículo.

A lista dos temas assinala comentários de leitores, impasses de ordem administrativa, projeções editoriais e, em menor medida, duvidas filosóficas. As sugestões ambientam o ombudsman ao calor das repercussões em vez de o enclausurar em sua solidão de articulista. Em fevereiro, enquanto jurados cariocas concediam mais um “deeeeeez” a Estação Primeira de Mangueira, a caixa postal da ouvidoria recebia as provocações do editor Daniel Zanella. Uma delas saltou para fora da tela:

– O que é ser independente?

Quando se deixa de ser independente? Um veículo que já circulou com verba pública, via leis de incentivo, é um veículo totalmente independente? Tecnicamente, um veículo que depende de assinantes e anunciantes – como e o nosso –, e dependente deles. E se [o jornal] fosse feito só com o meu dinheiro? Ainda assim seria dependente de mim.

Para entender o porquê desse encadeamento de inquietações do editor, basta lembrarmos como seria fácil listar umas três dezenas de redações, coletivos e agencias de jornalismo que buscam colar sobre si o rótulo de “independente” – embora nenhum deles seja o RelevO. Mas o que se esconde detrás de palavra tão cobiçada e tão maltratada pela mídia? A coluna deste mês visita o saboroso pomar da imprecisão e da multiplicidade para saber por que a independência editorial pesa tanto aos ombros.

 

A interdependência 

Professores universitários da UnB, da UFSC e da UEL aceitaram compartilhar conosco o que pensam da independência editorial. Confira os comentários exclusivos para leitores do RelevO, a começar por Gustavo de Castro, docente de Estética na Universidade de Brasília:

“A independência é um mito. Um belo mito a ser cultivado – o que o assemelha a liberdade. Na prática, todo mundo depende de todo mundo. E todo mundo independe de todo mundo. Mesmo os jornais, quando querem ser independentes, ficam na ‘dependência’ do reconhecimento, ou na dependência dos patrocinadores, ou da Lei Rouanet. O que existe mesmo e a interdependência”.

“O uso [indiscriminado] do termo ‘independente’ se complica num contexto em que não existe jornalismo cultural brasileiro. Ele é uma piada. Está mais para um ‘negócio entre amigos’ (para usar um termo do Juremir Machado, professor da PUC-RS) do que para uma cobertura honesta, distanciada e profunda”, conjectura Gustavo de Castro, que e também poeta, jornalista e escritor. Ele publicou, em 2015, a biografia da poeta Orides Fontela – O Enigma Orides (Hedra).

 

Só os nômades

Silvio Demétrio, professor de Comunicação da UEL e colaborador da Revista Cult, busca o abrigo da filosofia para opinar: “a independência pode ser pensada como que remetendo aos domínios da singularidade, do ímpar. Em certa medida, romper com o senso comum é constituir-se como independente. É uma ação para sempre ad hoc [argumento usado com o objetivo de defender uma teoria]”.

“A independência e instável por ser essencialmente moderna. E um ato de acatarmos que o tempo nos perpassa. Ela age como se fosse um solvente de tudo que é fixo. Só nômades são independentes. Só o são aqueles que encontram satisfação na impureza do risco. Penso, por fim, na relação de esvaziamento que as palavras de ordem do marketing e do espirito de rebanho produzem sobre toda e qualquer ação – e o que ocorre com uma publicação não é diferente ”.

“Como não encarar o enunciado ‘jornalismo independente’ como um oximoro? [Expressão na qual se combinam palavras de sentido oposto]. Padecemos com um retorno ao publicismo – recalque histórico do romantismo revolucionário –, que agora ressurge numa versão despotencializada porque a serviçoo da redundância, da manutenção dos estados de coisas e do sempre igual. [Portanto,] viva a diferença! O múltiplo! Viva o Singular porque sempre outro!”, arremata Silvio Demétrio, que foi também o mentor intelectual do suplemento Gazeta ALT (2008-2009), em Cascavel (PR).

 

Garantia de autonomia

Para Elias Machado (Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC), este nosso colóquio literário permite perscrutar a cultura dos jornalistas: “a discussão sobre independência serve para destacar a existência de diferentes tipos de jornalismo: partidário, empresarial, público, cidadão, etc. E cada um deles detém princípios e orientações deontológicas bem distintas. O que me parece importante é que, devido as diferenças existentes entre as instituições, a sociedade ‘funciona’ melhor quanto maior for a garantia de autonomia entre suas diferentes instituições”.

“É evidente que as instituições se influenciam. No entanto, não é recomendável que uma se submeta aos interesses da outra. Seria mais ou menos como se um deputado evangélico subordinasse os interesses do Estado – necessariamente plurais – aos interesses da Igreja a que pertence. Do mesmo modo, quanto mais partidário for um impresso, menor será sua capacidade de difusão para um público mais amplo e ideologicamente diferenciado”, compara Elias Machado, jornalista e doutor em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona.

 

Contra o quê?

Jornalismo não é matemática – ainda não. No entanto, se houvesse alguma equação que o aferisse, a “independência” seria uma de suas “variáveis dependentes”. E que para saber se um veículo e independente, a primeira pergunta que se faz e: contra o que se é independente? Afinal de contas, almejar a autossuficiência subverte as regências e, em vez de justapor, nós nos contrapomos.

Não basta “ser livre” e “ser contrário”: a publicação precisa identificar o colonizador de consciências que ela rejeita. Senão, carece de ela buscar outro grafismo para gravar feito tatuagem em sua pele. Mesmo que não queira, o RelevO pode ser encarado como independente. Ao menos, o periódico resiste em tratar a literatura como aquela soja ou aquela carne de frango que enviamos ao Porto de Paranaguá para trocarmos por produtos da Apple.

Ben-Hur Demeneck: Resenhas sob ataque

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O RelevO consagra um espaço para resenhas nas páginas anteriores à contracapa. Dois leitores foram convocados a opinarem sobre essa seção crítica. Como aqui queremos jornalismo em vez de propaganda, avisamos estar atrás da circulação das ideias em vez de vereditos. Dito isto, vamos aos pontos de vista dos convidados:

COMENTARISTA 1: “O jornal acerta quando publica críticas de livros novos, mas peca quando as críticas não contribuem ao aprofundamento e leitura dessa mesma obra. Em alguns casos, parece que o RelevO cai na mesma vala dos periódicos que publicam críticas de livros dos amigos. Ainda assim, como no caso do livro do Alexandre Guarnieri, Corpo de Festim, foi importante caminho para que eu conhecesse o livro, o lesse e o achasse incrível”.

COMENTARISTA 2: “[a crítica deste periódico está] há algum tempo repetitiva e adepta da brevidade (ou preguiça) intelectual. […] Se um texto está pronto para ser denunciado ao público, que o seja sem tropelias enviesadas, disfarçadas de impressão poética sem critérios e à margem de qualquer vocação mediadora”.

A experiência de leitura dos comentaristas tira qualquer dúvida sobre o quanto nossos resenhistas e críticos são acompanhados de perto pelo público. Corre, aliás, uma lenda de que escritor “tem o direito de ser ruim”, mas não o crítico. O motivo seria que o primeiro estaria autorizado até mesmo a se sabotar, enquanto o segundo carregaria um rosário de responsabilidades tão pesado quanto fosse o seu reconhecimento público.

Com o objetivo de embasar sua crítica, o segundo comentarista propôs um “pequeno exercício” e compartilhou conosco um inventário das palavras que estariam promovendo um carnaval de termos vazios e de mau gosto nas críticas do impresso. No grupo dos adjetivos, haveria um abuso de “autêntico”, “relevante”, “inusitado”, “extremo”, “maior”, “impactante”, “significativa”, “maduro/madura”, “atraente” e “interessante”.

Quanto aos verbos, abundariam os insossos “reflete”, “revela-se”, “reside”, “insere-se”, “constrói”, “desconstrói”, “traduz”, “destaca-se”, “nota-se”, “trata-se de”, “apresenta”, “dialoga com”, “flerta”, “soa”, “questiona”, “demonstra”. É como se fosse proibido o emprego de outros verbos dicendi. Nas expressões, parece haver um compromisso com o emprego de “deixou a desejar”, “intimamente relacionado com (…)”, “vale ressaltar que”, “vai da (…) a (…)”.

O COMENTARISTA 2, após listar a repetição de lugares-comuns, faz um diagnóstico severo de como têm sido escritas as análises literárias neste veículo. “A insuficiência de meios verbais para uma formulação estética minimamente sustentável, conteudística e formalmente falando, deriva da imediatez do crítico – e não da crítica”, arremata.

Mediante os comentários 1 e 2, esperamos que os críticos entendam este texto como um sinal de apreço a seus serviços. Voltaremos ao tema das resenhas em outras colunas, porque precisamos de guias para nos localizarmos entre as torres de livros e as nuvens de links. Para apaixonados por publicações como nós somos, as releituras nos causam muito efeito. Jamais ficamos indiferentes a elas.

Agradeço ao editor Daniel Zanella por fazer a ponte com leitores especializados, os quais compartilharam conosco seus pontos de vista. Na condição de jornalista, faço uso do meu direito de preservar as fontes. Ou seja, atesto que os comentaristas existem, enquanto aceito seu pedido por anonimato. O fato de eles não se identificarem publicamente não desabona suas críticas, elas apenas certificam que as retaliações pululam no meio literário.

 

Nazismo sob edição

Adolf Hitler quer entrar pela porta da frente do mercado editorial brasileiro. Diante de tal expectativa, peço licença aos leitores desta coluna para dar minha contribuição ao debate. Considero um dever intelectual opinar sobre qualquer tentativa de publicação de obras de inspiração racista.

Nossa imprensa, respirando por aparelhos, enquadra as iniciativas de edição de Hitler como “polêmica”. E se assiste à transformação do nazista em peça de liberdade de expressão. Se, na prática, sempre haverá gente disposta a publicar Hitler; uma pergunta de natureza ética estala em nossas mentes: sempre os valores do mercado devem preponderar sobre os da sociedade civil?

Hitler se tornou um ícone da “banalidade do mal”. Em termos literários, sua obra ora é totem, ora é tabu – mas nunca deixa de ser um discurso de ódio. Diante dos traumas do Holocausto, fica difícil contemporizar com o genocida.

Para começo de conversa, um livro amaldiçoado como Minha Luta não deveria ser editado e divulgado para figurar semanas a fio na lista de best-sellers da Veja. Recordemos que a corrida ao ditador se seguiu à liberação de seus direitos autorais. Ou seja: “são apenas negócios”.

“LIBERDADE DE EXPRESSÃO”: Seria muita sorte nossa se os liberais (aqueles que estão empenhados em “defender a publicação até de Hitler”) empregassem sua energia para denunciarem a violência contra jornalistas e a “censura judicial” dirigida à nossa imprensa, ambas repetidamente noticiadas pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Segundo o Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ), nosso país é mais perigoso para o exercício do jornalismo que o Iraque. Apenas por apurarem informações, seis jornalistas foram mortos no Brasil em 2005; na terra de Saddam Hussein, houve cinco vítimas.

Lembremos que uma das editoras, que é alvo da “polêmica”, presta enorme contribuição à nossa imprensa. Lamentavelmente, na hora de desarmar os espíritos e mostrar serviço de sua “edição duramente crítica a Hitler”, ela tenha optado por uma campanha publicitária a dois passos da apologia ao facínora.

PRATELEIRAS DO ÓDIO: Uma vez que Hitler está sendo reeditado, nada impede que tal “produto” venha a “aquecer esse segmento do mercado” e sejam criadas “prateleiras de ódio” a médio prazo. Sob o manto da “liberdade de expressão”, as editoras podem querer ampliar seu escopo de “documentação histórica” e, por exemplo, democratizarem o acesso aos infames “Protocolos dos Sábios de Sião” e “A História Secreta do Brasil”, de Gustavo Barroso, membro fundador do Integralismo.

MORAL DA HISTÓRIA: “Então quer dizer que você é a favor da censura de livros, caro ombudsman?” Nada disso. Eu sou contra Hitler e o que ele representa. Sou contra o Holocausto. “Você acha que uma lei deveria impedir a edição de um livro?” Não. Mas também não quero que Hitler crie jurisprudência para “prateleiras de ódio”. Quero que a cidadania valha mais que o consumo.

Para finalizar, penso que publicar Hitler não pode ser imediatamente associado à “liberdade de expressão”. O episódio demanda discussões éticas que superem o campo falacioso da “polêmica”. O fato dele estar morto e enterrado não isenta de responsabilidades quem “democratize” sua obra. Notas de rodapé não substituem o miolo de um título icônico na transformação do racismo em política de Estado.

Ben-Hur Demeneck: O preço da ousadia

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


A capa de dezembro do RelevO fez com que alguns pontos de distribuição boicotassem a edição. A plataforma de digitalização de impressos ISSUU também censurou o conteúdo. Ela impôs um limite de idade para os usuários.

O episódio é exemplar para questionar as fronteiras entre experimentalismo e sensacionalismo, e para perguntar como se forma o “pacto” entre público, distribuidor e meio de comunicação.

Não que a capa de dezembro seja escandalosa. Não que seja destituída de conceito. Não que uma vulva (ou a sugestão dela) não seja algo tão lindo de se admirar como a paisagem do Grande Canyon ou que não seja tão misteriosa como fazer um passeio pelo Vale Sagrado dos Incas, partindo de Ollantaytambo. Nada disso.

A vulva está para a cotidiano como dunas estão para o vento. São paisagem, mas também movimento que compõe a geografia humana. A ilustração de Gustavot Diaz, quando elevada à condição de imagem da capa, dá a cara da edição – premia a ousadia à custa do consenso.

Paga-se o preço de lidar com um tema tabu de modo tão aberto. Quando um ponto de distribuição recusa receber o material, parece que algo se quebrou no pacto editorial entre veículo e aquele conjunto de leitores que iam àquela localidade pegar sua edição do mês e que deixaram de ter acesso a textos altamente vibrantes como “Coitus interruptus”, “Mulher é tudo louca”, “Amor Inconsútil”, “As Fantasias Eletivas (trecho)” e ao ensaio fotográfico feito por Ricardo Pozzo.

Os pontos que recusaram a edição provavelmente foram os mesmos que receberam as edições de junho e agosto deste ano, ambas com alta voltagem erótica. A primeira com fotografia de Isabella Lanave (R.U.A. Foto Coletivo) e a segunda com ilustrações de Maria Lima.

O olho da capa do RelevO de dezembro lembra o LP de Tom Zé, chamado “Todos os Olhos” (Continental, 1973). A capa resultou de uma parceria com Décio Pignatari e Reinaldo Moraes e faz parte da iconografia dos anos de resistência à ditadura. O troféu de quem bolou a capa cifrada e, naqueles anos de tantas indiretas, era afrontar o moralismo (e a hipocrisia).

A imagem em questão resultara de uma sessão fotográfica feita a partir de vários closes de uma bolinha de gude equilibrada num ânus de uma moça. Há versões que contam até que, apesar das sessões, o que acabara entrando na edição final fora um lábio que imitara a mucosa supracitada. Não importa. O troféu era fazer essa camuflagem para que os iniciados a reconhecessem no jogo de palavras com “olhos”.

Em termos estéticos, poderíamos falar que a capa de dezembro peca por tornar explícito algo cuja sutileza tem um poder expressivo superior. Afinal, em arte, faz parte da interação as pessoas “acabarem” a obra. Se o interesse é ser experimental, deixar o leitor alijado desse processo, no limite, pode parecer mais “vontade de aparecer” e “pretensão de chocar”, do que instaurar uma provocação no olhar.

A capa de dezembro provoca e, enquanto experimenta, anda na linha suave próxima ao sensacionalismo. Por outro lado, pode representar uma guinada editorial em busca de fortalecer a cumplicidade com leitores cativos. Para um segmento dos leitores, mais identificados a questionamento frontais, pode ser uma oportunidade de vínculo, de empatia inéditos. Nosso desejo para 2016 é que os pontos de distribuição do “boicote” reconsiderem sua posição. Os leitores não merecem ter que ir mais longe para pegar sua edição de janeiro, fevereiro e março para ler o jornal mais provocador da nova literatura brasileira!

 

O nome da autora

O RelevO trocou o nome de um colaborador. Agravante: identificou um transexual por um nome masculino em edição dedicada à diversidade sexual.

Em primeiro lugar, um jornal não pode errar nome dos seus colaboradores. Trata-se de um erro crasso. Em um jornal literário, a revisão de um nome deve ser tão minuciosa quanto o das regências e das concordâncias. Se for um nome cheio de consoantes, nesse estado marcado pela imigração eslava e por sua alcunha fantástica de “Rússia brasileira”, eu não criticaria quem contasse as letras e rabiscasse uma após a outra na conferência final. É que o patrimônio do autor é seu nome e suas circunstâncias.

Em segundo lugar, não basta “corrigir” o nome de alguém que optou por trocar de nome por sua condição de gênero. Por eu não saber o que sugerir, optei por entrar em contato com um especialista em gênero e política, o professor universitário Almir Nabozny, que é doutor pela UFRGS e professor na UEPG. Após um tempo de conversa, ele esclareceu que um dos problemas mais comuns a transexuais seria o contraste entre o seu corpo feminino e um nome masculino em situações públicas. Exemplo comum seria quando um médico o chamasse de tal maneira numa sala cheia de pacientes, causando um constrangimento desnecessário. Ou de quando se vai a banheiros de estabelecimentos comerciais e a prédios públicos. Luta pela qual Laerte Coutinho tem feito grandes batalhas.

Por outro lado, não se pode perder a visão ampliada do episódio. Um jornal que se preocupa em tratar da diversidade de gênero, em dar voz em que a vive, é uma publicação que está disposta em corrigir seus erros. 

Portanto, merece todo o nosso respeito. O azar é que tal deslize faça tanta diferença. Talvez a lição a se tomar é que em casos em que a representação se torne tão importante quanto o texto em si, convenha pedir assistência a quem esteja mais ligado à temática para supervisionar a página finalizada. Seria um modo de contornar a complexidade do tema para quem não tem familiaridade com assunto (até por isso é que eu, como representante dos leitores, busquei um estudioso).

Como canta o grande trovador de São Miguel Paulista Edvaldo Santana – “errar é consequência do que pode ser mudado”. Portanto, tal erro é antes uma tentativa de fazer certo: abrir espaço a vozes que aparecem pouco, mas que integram a diversidade de nossa sociedade. Em termos de reparar simbolicamente o que houve, a sugestão do professor Nabozny seria convidar a autora para se manifestar ficcionalmente sobre a importância dos nomes masculino e feminino em quem vive a condição transexual. Fosse uma autoficção ou ficção completa, não importaria. Fica a sugestão ao editor e à autora.

 

Autocrítica 

Na última coluna faltou eu enquadrar melhor a minha explicação de citar Aílton Krenak e outros expoentes da literatura dos povos originários. Ficou assim solto, sem a devida contextualização, a ponto de parecer até que Krenak havia escrito na edição prévia. No entanto, tratava-se de uma sugestão de nomes para nos aproximarmos do pensamento e da experiência de autores que, mais que sua visão pessoal, apresentam uma visão de etnia e de nação existentes desde antes de Cabral sonhar em ser marinheiro. Prometo ser mais cuidadoso na próxima coluna.

Ben-Hur Demeneck: Uma peça de museu

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Walter Bach publicou um belo texto sobre este periódico no portal Escotilha (“A persistência do Jornal RelevO”, 22/10/2015). No entanto, dormiu quando falou do ombudsman. Escreveu que o jornal tem “até um ombudsman, quase peça de museu em nosso tempo”. Antes fosse, meu caro. Antes fosse! Parece até que falava de copidesques ou de tipógrafos. Embora, convenhamos, os copidesques têm feito muito falta nessa terra desrespeitosa à língua portuguesa que se tornou a imprensa nacional. Pensar que faz pouco mais de 25 anos que surgiu o primeiro ombudsman no Brasil e de lá para cá a moda não pegou. A Gazeta do Povo teve ombudsman? Quando a Globo teve ombudsman? A Record? A Folha de Londrina, talvez? Aliás, em que mundo do futuro a Rede Massa terá um ombudsman? No interior do Brasil, só conheci o caso do Jornal da Manhã (de Ponta Grossa) e de jornais-laboratório. De capitais, sei que Fortaleza tem (O Povo), São Paulo tem (Folha de S.Paulo), Nova York tem. Sonhemos com o dia em que “representantes de leitores” se tornem coisas antigas no Brasil, pois, por enquanto, correm o risco de nem entrar no catálogo de uma mostra experimental. Recomendo a leitura do artigo e do portal. Ambos são muito bons.

 

Sobre o humor 

O humor e liberdade de expressão são parceiros. Humor fajuto e tédio são irmãos siameses. Talvez o único limite do humor seja o de ser verdadeiro e, claro, passear pelas ideias, não escolher pessoas e tipos por alvo de humilhações, por exemplo. Não estamos falando de agressões, estamos falando do que dá aquele nó lógico na cabeça e nos faz pensar “bem bolado”. O Editor-assistente achou a edição de humor muito fraca e adolescente. Segundo ele, perde-se espaço para literatura boa quando apostamos demais em humor. A crítica dele é válida e deve ser considerada. Se algum texto ficou devendo na sua autenticidade, merece o selo de canastrice. Mas humor deve ser considerado, só é preciso achar a mão.

O brasileiro médio em geral não é de lotar peças de teatro dramáticas, nem de dar audiência a tragédias. Há certo consenso que o humor lubrifica as relações sociais. É como se o brasileiro já não fosse por demais sociável e não precisasse ficar um pouco mais calado e observador, de vez em quando. Que participa ou testemunha do humor escrachado ou do melodrama. Um texto como “Menino Lobo”, de Marco Aurélio de Souza dá uma dissertação de mestrado. Saber como o jornalismo cultural hoje não só vira o domínio do Ctrl C + Ctr V, mas que simula entrevistas cuja matéria-prima são mentiras deslavadas. Ou seja, será que é preciso fazer piada quando até o mais provinciano jornal coloca o absurdo sob holofotes? Os humoristas precisam ser bons, é só isso que devemos cobrar deles. Porque a realidade não está dando trégua.

 

Sabedoria krenak 

Aílton Krenak vive num outro tempo. Aílton é multidialetal, poliglota, politizado e ainda sabe contar uma história por muitas horas – e quem sair dali vira lobisomem. O Aílton realmente sabe fazer chorar. Quem não aspira a sabedoria desse líder que canta para o céu subir e consegue o que quer? Como a gente pode se tornar um dele? Como seria possível assimilar a sua cultura numa velocidade como as atléticas de engenharia assimilaram o rúgbi? Como? Perguntas que não sabemos responder. Graças à nossa incapacidade de entender os “povos originários”, a gente fica falando bobagens em vez de chama-los para a conversa e ouvi-los. Quantos desses a gente vê em feiras literárias, lançamentos, palestras ou compartilhados em nossas timelines? Vejamos: Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Cristino Wapichana, Kaká Verá, Eliane Potiguara, Aurilene Tabajara, Edson Kayapó, Edson Krenak, Tiago Hakiy. As ilustrações de Denilson Baniwa? Quantos irão aparecer em nossas recordações do Facebook e nos presentes de amigo secreto? Não basta a gente achar o máximo ouvir “Koangagua”, dos Brô MC´s. Nem Curtir e Compartilhar o videoclipe deles feito nas aldeias Jaguapiru e Bororó, lá em Dourados (MS). Não basta descobrir que “Koangagua” significa “Nos dias de hoje” e que para um rap cantado em guarani não tem nada melhor mesmo que ler a legenda. Não basta achar cult, tem que entender.

 

RelevO Capital

Se a CartaCapital tivesse um assinante para cada cem replicadores dos seus conteúdos, ela seria (de longe) a revista mais estável do país. Moral da história: todo mundo quer “mudar a comunicação”, mas apoiar o que já está fazendo a diferença não dá lá muito ibope. O mesmo pode ser dito do RelevO.

 

INSS

O ISSN por enquanto não saiu. O ombudsman continua cobrando a equipe editorial para que o RelevO seja lido em cada canto do mundo a partir do momento em que for impresso o código de barras mágico. O editor disse que está correndo atrás da papelada. #EstamosdeOlho