Naturalidades e artifícios

Editorial extraído da edição de julho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Prompt: Escrever sobre a importância dos leitores que divulgam presencialmente o Jornal, distribuem seus exemplares, presenteiam com assinaturas e nos marcam nas redes sociais, ampliando, assim, a nossa malha de contatos e de circulação.

Resultado: Um mundo de risadas e negócios florescentes: No universo dos clientes divulgadores, o exagero é a moeda corrente e a diversão é o objetivo final. Eles transformam o mundano em uma comédia desenfreada, inspirando outros a seguir seu exemplo. Enquanto empresas colhem os benefícios da divulgação entusiasmada, todos nós desfrutamos de risadas e momentos de leveza em um mundo que muitas vezes é excessivamente sério.

Prompt. Contar aos leitores sobre os nossos planos de aprender a programar (não fazer programa) para compreender melhor as possibilidades de expansão do mundo digital, além de, finalmente, ter uma presença nas redes sociais mais coerente com o potencial todo envolvido.

Resultado: A Importância da Programação de Tecnologia para Escritores: aprender programação de tecnologia pode trazer uma série de benefícios para escritores, ampliando suas habilidades e oportunidades no mundo literário. Além de oferecer uma compreensão mais profunda sobre o funcionamento dos dispositivos e sistemas digitais, a programação pode melhorar a produtividade, permitir a criação de projetos interativos e abrir portas para novas formas de contar histórias

Prompt: Combinar uma citação do Conde de Lautréamont [“Belo como o encontro fortuito entre uma máquina de costura e um guarda-chuva em uma mesa de dissecação”] com outra de André Breton [“O homem que não consegue visualizar um cavalo galopando sobre um tomate é um idiota”]; inserir uma camada do filme A vida de Brian.

Passamos, de fato, do meio do ano. Aqui estamos e permanecemos, entre a planilha e o delírio, movendo um jornal de papel que nada mais faz do que investir nas ligações diferentes de palavras e imagens. Orgânico ou sintético, quem sabe tudo não seja estímulo e resposta.

Uma boa leitura a todos.

Dívidas, juros, dividendos, música

Editorial extraído da edição de junho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O Jornal RelevO, em um esforço quase acima de suas capacidades papelísticas, não mencionará, em seu texto-apertura de junho, as causas e os efeitos de nossas dificuldades financeiras. Falaremos de música.

Quando fundamos o Jornal, em agosto de 2010, desejávamos ser um periódico de cultura, sobretudo de literatura, principalmente pela relação (tóxica) do editor com a escrita, mas também queríamos publicar textos sobre música, cinema, teatro, ensaios, aleatoriedades (essa palavra boba…) divertidas para quem estivesse em busca de um texto saboroso.

Criando crônicas, perfis e obituários, o editor ocupava com regularidade um espaço que podia ser destinado a outros escritores e escritoras, usuários melhores da língua portuguesa. Felizmente, o hábito de preencher obrigatoriamente as páginas com o próprio nome foi abandonado com o tempo (ou com a maturidade). Aí já estávamos em 2014 e começamos a abrir espaço para o humor nas páginas centrais, sem precisar destacar quem escreveu, RG, CPF, se estudou na USP. Talvez tenha começado nesta época a nossa aversão a bios e a nossa busca por diversão sem pedigree.

Reparamos também, ao longo desses quase 13 anos, que sempre publicamos muitos textos com relação direta com a música, de relatos de festivais a trechos de canções na contracapa. Nunca assumimos essa faceta como um de nossos norteadores editoriais. Não sabemos dizer bem o porquê, mas sentimos que este é o momento de nos entendermos melhor com o passado e o futuro de nossos desejos, aprofundando nossa relação entre música e literatura.

A música sempre fez parte do Jornal como uma espécie de região sem fronteiras, aberta às experiências, uma ferramenta de conexão. Recentemente, em abril, publicamos um especial de quatro páginas sobre o Skank escrito pela Marceli Mengarda, responsável pela Burocrata Carimbos e projetista gráfica da página impressa da Enclave – que, aliás, trata de música com apuro (não confundir com apuração) e regularidade.

Queremos abrir, portanto, mais espaço em nossas páginas para relatos peculiares, quem sabe em um reencontro entre texto e ritmo. Notamos, ainda, uma notória falta de cobertura musical um pouco menos… como podemos dizer… caça-clique. (Não podemos esquecer o nosso peculiar projeto, o sensacional Brazilliance, descontinuado – por ora – para descanso do alemão.)

Nesta edição, trazemos um relato de quatro páginas sobre a nossa cobertura do C6 Fest, que aconteceu em São Paulo entre 19 e 21 de maio. O evento teve Kraftwerk e Underworld como os líderes da programação. De modo geral, gostamos muito de música, gostamos de música eletrônica e acreditamos que os relatos de quem estava lá podem proporcionar experiências interessantes para os nossos leitores. Esperamos que se divirtam.

Uma boa leitura a todos.

Procedimentos

Editorial extraído da edição de maio de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Desde o fim de outubro de 2022, o Jornal RelevO centralizou no Substack o envio de seus materiais digitais. Em linhas gerais, trata-se de uma plataforma que permite enviar textos por e-mails, armazená-los e catalogá-los em newsletters diferentes. Também permite cobrar por conteúdos exclusivos. No nosso caso, recebem os informativos nossos assinantes; antigos assinantes da Enclave e da Latitudes (então no Mailchimp) que não se descadastraram; quem se cadastrou por vontade própria pelo site [jornalrelevo.com]; e, provavelmente, amigos que não abrem a caixa de entrada há seis anos.

Para um periódico de papel e de literatura, o Substack é uma ferramenta espantosamente prática. Permite que dividamos os bastidores da nossa cozinha editorial, recuperemos conteúdos esquecidos no porão da nossa memória, informemos aos leitores as oportunidades do meio cultural (via Latitudes, voltada a concursos e afins) e sigamos na miscelânea divertida da Enclave, nossa newsletter de… nada específico. Sobretudo, facilita nossa regularidade, algo que já replicamos na edição impressa e que, acreditamos, estreita a relação com a nossa base de leitores.

Em pouco mais de seis meses, notamos um crescimento de seguidores digitais em todas as frentes, das redes sociais ao próprio cadastro disponibilizado pelo site. O que isso representa? Mais share, mais assinantes no jornal físico. Em suma: quanto mais o conteúdo anda, independentemente do caminho, mais assinantes conseguimos para o impresso, que é quem paga a conta, ao menos diante do que oferecemos hoje. Assim, interessa-nos – e muito – como encontrar o tom ideal entre conteúdo gratuito e remunerado. Basicamente, a proporção entre quem curte descompromissadamente o que produzimos e quem assina e anuncia conosco.

Ainda nessa direção, de tempos em tempos, estamos recebendo menos votos de extinção e de solidariedade. O famoso “por que não ser apenas digital?”. Notamos, com certa naturalidade, um cansaço progressivo com a experiência digital por parte de usuários. Bem, nos chamam de usuários. Cada vez mais, as pessoas estão buscando estratégias de melhor uso de seu tempo de qualidade, até para gastar menos com remédio e mais com vícios lúdicos, como bebida, aposta e jornal de literatura. Ao mesmo tempo, não aspiramos a um universo pré-internet. Pode surpreender a alguns, mas não somos saudosistas (che serà, serà).

Assim, pensamos em ferramentas que (1) facilitem nosso trabalho, pois ainda tratamos a existência digital como fardo; (2) aumentem a nossa base de leitores; (3) melhorem a comunicação com a base atual de assinantes e curiosos. Aos poucos, encontramos o nosso ritmo de forma a equilibrar constância com qualidade (ao menos a mesma qualidade destas páginas). O cansaço generalizado das redes sociais, que reinavam absolutas até pouco tempo, favorece o trabalho regular, repetitivo e pouco Pavloviano do RelevO. Também nos anima observar o nascimento de alternativas a esse sistema primal de estímulo e resposta com que nos acostumamos. O Substack – que não nos paga nada e, ao contrário, poderá receber de nós a partir do momento que estruturarmos conteúdos pagos lá – é uma delas, e reforçamos o convite para nos acompanharem por lá [jornalrelevo.substack.com].

Uma boa leitura a todos.

Música para ouvir no trabalho

Editorial extraído da edição de abril de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


De maneira quase iconoclasta, o editorial do Jornal RelevO de abril não falará de dinheiro, nem reclamará da falta de dinheiro, apesar de, apesar de. De fato, o Jornal RelevO gosta de música. Muito. Mais do que literatura? Talvez. Ao longo da nossa trajetória, certamente nos envolvemos mais em coberturas de shows do que estivemos em festivais literários, e realmente gastamos mais do que ganhamos, solapando o mais básico dos conselhos econômicos. Ao menos, nos mantemos longe das apostas e não acumulamos bens dignos de serem confiscados.

Temos alguma experiência com festivais não literários: cobrimos o Dekmantel 2017, o DGTL 2018, o Dekmantel 2018, a TribalTech 2018 e a Gop Tun 2022. Em todos, produzimos relatos nas páginas centrais – as de maior destaque do periódico. Todos os envolvidos com o RelevO já escreveram sobre música em outras frentes; e aguardamos, ansiosos, por escritores e escritoras que nos digam: “Topam uma pauta sobre o festival de tamborim invertido de Sertão de Camanducaia?”. Acreditamos que escrever sobre a música calha de juntar duas boas formas de expressão e divertimento.

Nossa newsletter de generalidades, a Enclave, também se aventura regularmente a falar de música, de Debussy a Skank – banda que, nesta edição impressa, surge com uma cobertura de quatro páginas. É provável que, a cada dois meses, seu editor se sinta obrigado a tecer comentários sobre algum lenço que serviu de inspiração para determinado clássico do Tom Jobim, ou qual fruta David Bowie comeu no terceiro dia da mixagem de Low [nenhuma].

Nossas centrais também trataram de música muitas vezes, como na edição de fevereiro de 2021, com o Acústicos RelevO: grandes encontros para ideias medianas ou o contrário (recentemente resgatada no nosso Substack). De “Alanis Lorenzetti” a “Noel Rosa por Noel Gallagher”, nos orgulha especialmente o trecho “DJ Marlboro apresenta ‘Águas de maço’”. Também nos deixou muito felizes o projeto Excursão: Aparefrita do Norte para gente sem norte, da edição de março de 2021, o que talvez até comprove nossa tendência à repetição (outra vez saturada com C_D_Sky, nosso DJ de eutanásia das centrais de outubro de 2019). O Jornal RelevO evita bares com voz & violão – inclusive já publicamos o Mapa da Violância nas centrais de novembro de 2019.

“Nele [Mapa da Violência], expomos os estabelecimentos com maior perigo de ocorrência de voz & violão de sua cidade – qualquer cidade, pois a voz & violão é imanente, pervasiva e destrutiva. Nosso intuito é claro: queremos que o cidadão digno se proteja. Não queremos que você seja convidado para um aniversário do seu amigo que é, na verdade, uma apresentação de voz & violão do seu amigo – a 10 reais de entrada! Fuja dos tocadores de violão. Não seja amigo de tocadores de violão. Não consuma voz & violão.” (RELEVO, novembro de 2019, páginas centrais).

“SOBRE O BUSLOOP

Família, silêncio, paz e harmonia com a natureza: nada disso faz o menor sentido para o BusLoop, que se projeta para o desgraçamento mental mais violento da sociedade desde as Cruzadas. Visando à completa deterioração do corpo, da cabeça e da alma, a excursão promete uma viagem só de ida para os pesadelos individuais com os melhores beats e synths e drops de qualquer imaginação impulsionada por enteógenos” (RELEVO, março de 2021, páginas centrais).

“Ninguém precisava de um DJ de eutanásia até eu soltar uma virada cabulosa nos segundos derradeiros de Alessandra Pierini Domingues, vítima de uma raríssima doença crônica degenerativa. Foi sinistro. E não só porque a avó dela, aos prantos, berrava ‘por que isso tá acontecendo, pelo amor de Deus?!’. Foi realmente sinistro. Na moralzinha. A véia ficou ali urrando qualquer coisa abafada pelas minhas caixas Pure Groove.” (RELEVO, setembro de 2019, páginas centrais).

Diferentemente da curadoria de textos, que busca estabelecer critérios de diversidade de estilos e de autores – senão teríamos um jornal inteiro de trocadilhos como “Pato Fu Fighters” e “Yamancu Bosta” –, nossa cobertura musical é aleatoriamente consistente: apenas seguimos alguns instintos primitivos de diversão e som torando. Não somos muito diferentes da estudante de Jornalismo que idolatra Harry Styles.

Uma boa leitura a todos.

O papel do papel, o ChatGPT, os escreventes

Editorial extraído da edição de março de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A presente edição do RelevO, de março de 2023, não foi escrita por inteligência artificial (IA), mas teve o auxílio dela. Tal qual a aparição de um craque na base de um clube decadente, o surgimento do ChatGPT no fim de 2022 trouxe à tona uma série de reflexões sobre o fazer artístico —a nossa edição especial da Copa do Mundo teve capa de IA, por exemplo. E ficou ótima. Será o fim do artista? No plano prático, diversas revistas e concursos literários espalhados pelo mundo passam pelo desafio de avaliar ou excluir textos enviados com auxílio de tais ferramentas. Logo será a nossa vez de lidar com isso.

Estamos vivendo o início do fim dos escritores e dos artistas? Certamente que não. Certamente que sim. Quem já se aventurou no ChatGPT e saiu emulando estilos de autores e autoras consagradas pôde verificar que a fluência e a beleza textual ainda são de uma carruagem no asfalto. Contudo, sabemos que a IA irá melhorar, o que nos traz outro questionamento: e os escritores? Permanecerão cada vez mais distantes das transformações do mundo e descrevendo árvores por três páginas? Lógico que exageramos. O argumento, inclusive, acabaria com Marcel Proust. Mas só tivemos um Marcel Proust…

Longe de nós querer transferir aos escritores a tarefa de avançar junto das AIs. É impossível, tanto por processamento quanto por aprendizado. O que nos interessa, na condição de veículo de curadoria de um segmento cultural, é pensar em como os escritores lidarão com ferramentas que podem escrever melhor que eles. Ou melhor do melhor: que podem ser medíocres com muito mais qualidade.

Daqui do nosso cercadinho de muitas incertezas e na continuidade de procedimentos, enxergamos com bons olhos a chegada de uma ferramenta que tensione a nossa existência. Poderá, em breve, uma IA selecionar os textos enviados para a nossa caixa de entrada apenas pelos padrões de escolha dos editores ao longo de 13 anos? Poderá a IA descartar automaticamente do processo de avaliação textos que tenham erros crassos (e involuntários) de língua portuguesa? Gostaríamos.

Diferentemente de uma IA, o ser humano é escravo e senhor de sua temporalidade – e não avança apenas com atualizações. Como medir as transformações internas de uma pessoa que teve um filho pela primeira vez? É possível quantificar (ou realmente descrever) em algoritmos a experiência do primeiro amor? E a sensação de receber uma encomenda pelos Correios? Ainda somos nós, ainda somos nós. E nunca fomos mais humanos.

Entre infinitas razões, criamos para também nos questionar sobre a nossa própria existência — e por utilidade, valor sempre em confronto com o mundo exterior. Pedimos ao ChatGPT que escrevesse um editorial que refletisse sobre a utilidade de um jornal de literatura no mundo contemporâneo. O comando foi simplório, já que poderíamos dialogar em perspectivas bem mais profundas. A resposta foi didática:

Um jornal de literatura pode ter várias utilidades no mundo contemporâneo, mesmo com o avanço da tecnologia e das redes sociais. Algumas das principais utilidades são:

  1. Promover a literatura: Um jornal de literatura pode ser uma excelente plataforma para promover a literatura, tanto nacional quanto internacional. Ele pode destacar obras e autores relevantes, estimular a leitura e ajudar a formar novos leitores.
  2. Fornecer análises críticas: Um jornal de literatura pode fornecer análises críticas de livros, oferecendo aos leitores uma visão mais aprofundada e reflexiva sobre as obras. Isso ajuda a enriquecer o debate literário e a estimular a produção de obras cada vez melhores.
  3. Divulgar eventos literários: Um jornal de literatura pode divulgar eventos literários, como lançamentos de livros, feiras de livros e encontros com autores. Isso ajuda a aproximar os leitores dos escritores e a fomentar o diálogo entre eles.
  4. Fortalecer a comunidade literária: Um jornal de literatura pode ajudar a fortalecer a comunidade literária, criando um espaço para a troca de ideias e experiências entre autores, leitores, editores e outros profissionais do mundo literário.
  5. Preservar a cultura: Um jornal de literatura pode ajudar a preservar a cultura, registrando a produção literária de uma época e documentando os eventos e acontecimentos importantes do mundo literário. Isso é importante para a posteridade e para que as próximas gerações tenham acesso às obras e ao legado dos escritores.

Para nós, não se trata de uma resposta vazia, afinal ela captura um bom tanto das identidades possíveis de nosso periódico, o que muitas vezes frustra os leitores em busca de um norteamento claro. Mas também é fria, protocolar, semelhante a um editorial cansado. Em suma, será divertido acompanhar o rumo disso tudo. Certamente continuaremos nos divertindo, aspecto básico de nossa existência (chatbots sonham com risadas elétricas?).

Uma boa leitura a todos.

Jornal de papel como experiência coletiva

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Tivemos quase 170 edições para observar e comprovar: um jornal impresso de papel e de literatura não existiria sem uma comunidade. Ao longo de quase 13 anos, passamos por diversas intempéries da vida: jornal com ares de jornal de faculdade, jornal de um desempregado pós-faculdade, jornal com ambições nacionais, jornal que se organiza como o esquema tático de um clube emergente, mas de pouca torcida— sabendo que briga primeiro contra a ZR e depois se estabiliza na busca por vaga em competições intermediárias. Lidamos com o aumento de custos de tudo, com uma pandemia que matou quase 700 mil brasileiros (inclusive colaboradores e assinantes), com a diminuição de nossa arrecadação, enfim: passamos por diversos ciclos que nos trouxeram alguns padrões comportamentais, por assim dizer, e que, sobretudo, nos trouxeram até aqui.

O RelevO não arrisca mais do que é capaz de manter. Temos dificuldades, mas você certamente nunca ouviu um “o RelevO não pode acabar”. Não queremos acabar; no entanto, também não queremos que o assinante pense que estamos prestes a acabar (muito menos que o país precisa de nós). Assim, estruturamos uma operação para tentar controlar o controlável: o tal Risco Brasil. Com operação enxuta, prestação pública de contas e uma possível retomada econômica — que podemos até constatar como certo otimismo para 2023 —, voltamos a expandir nossa circulação, o que resultou em dois meses de prejuízos (com o qual já contávamos). Aumentou nosso custo, ainda não aumentou nossa receita, porém isso era esperado.

Desde o começo de dezembro, voltamos a entrar em contato com livrarias, cafeterias e pontos culturais para fazer o envio gratuito do Jornal. Gratuito em partes: quem financia o envio são os assinantes que adquirem os planos especiais de apoio à nossa distribuição. Antes da pandemia, disparávamos o RelevO para mais de 300 pontos, algo sem dúvida acima da nossa capacidade logística de absorção. Não à toa, com a pandemia, interrompemos a circulação em pontos físicos e conseguimos, por outro lado, finalmente remunerar todas as pessoas que trabalham em nossa estrutura, da distribuição aos autores e autoras. Pagamos pouco, mas pagamos — em um meio encharcado de trocas de favores e cobranças para publicar (“todo dia um malandro e um otário…”).

A pandemia de dois anos apertou o cerco logístico e o financeiro. Tivemos queda de 20% de nosso faturamento. Ao mesmo tempo, aqui estamos, com novos planos e com aquilo que, sem dúvida, foi o que nos trouxe até fevereiro de 2023: a nossa comunidade. Atualmente, enviamos o jornal a 120 pontos espalhados pelo Brasil todo, além de 150 bibliotecas comunitárias. Nossa meta para 2023 é audaciosa: chegar a 600 pontos, mandando exemplares para todos os estados e, principalmente, para espaços fora dos grandes centros urbanos.

Entendemos que esse plano vai ao encontro de pilares institucionais muito caros para nós, como a descentralização e o acesso a quem não tem condições de nos assinar. Acreditamos que, com mais 200 assinantes, consigamos sustentar essa distribuição mensalmente — também estamos estudando a criação de uma associação de apoio à distribuição do RelevO, formada por contribuintes que sejam algo como o patrocinador master do Jornal. Em valores absolutos, precisamos de R$ 5 mil a mais para cobrir o Brasil todo com o nosso periódico.

O RelevO não é obra de um gênio, de um abnegado, de um filantropo, de um rico entediado, de quem faz cavadinha na hora de bater pênalti. Somos a soma de procedimentos com uma comunidade. Não somos uma experiência individual e não praticamos a arte do consenso, bastando verificar nossas cartas e os nossos ombudsmanatos. Acreditamos muito em produções e construções que agreguem o esforço de um grupo sem que isso represente a perda de uma suposta identidade. O grupo que representamos é o de nossos assinantes. Acreditamos que são vocês que nos escolhem, por R$ 70 ao ano ou mais, para ler um periódico de papel por mês. E agora queremos que isso chegue para mais pessoas — simples assim.

Uma boa leitura a todos.

2023: um tônico e um euforizante

Editorial extraído da edição de janeiro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A edição de janeiro do RelevO chega com duas novidades. A primeira é a apresentação da nova ombudsman – ou ombudswoman. Depois do ciclo do poeta, arquiteto e professor de história da arte Nuno Rau por quase todo o ano de 2022, Amanda Vital é a nova detentora do cargo, um dos mais importantes do nosso Jornal. Ela é a 15° ocupante do cargo, podendo ficar de 3 a 9 meses na função.

Neste espaço, o ombudsman escreve sobre o RelevO, agindo como mediador entre o leitor e o jornal, apontando aspectos positivos ou negativos do veículo, considerando críticas, sugestões e reclamações ou, ainda, trazendo ponderações sobre o conteúdo publicado. Ao lado da Folha de S.Paulo e d’O Povo, de Fortaleza, somos os únicos jornais do Brasil com o serviço.

A coluna – enviada mensalmente por volta do dia 25 – não pode ser editada pela publicação, cabendo aos revisores apenas o apontamento e a possível correção de erros não intencionais. Amanda Vital é assistente editorial da editora Patuá e co-editora da revista Mallarmargens, além de mestra em Edição de Texto e autora do livro Passagem (Patuá, 2018).

A atual titular foi uma indicação do ombudsman anterior, que pode sugerir até três nomes para substituí-lo. Acreditamos que o olhar de Amanda Vital, insider do meio literário e agente em diversas frentes deste mesmo mercado, possa trazer discussões importantes sobre o Jornal, abrangendo as recepções de leitura e o contexto todo em que estamos inseridos.

A segunda novidade é mais discreta, mas igualmente importante. Reformulamos o nosso Conselho Editorial, adicionando novos nomes. Em 2022, perdemos a bibliotecária Jacqueline Carteri, uma das nossas maiores entusiastas em mais de 12 anos de Jornal. Jacqueline morreu precocemente e deixa um espaço que jamais será preenchido. Atualmente, oito pessoas compõem o grupo, que contempla desde apoiadores muito próximos ao Jornal a ex-ombudsmans que trouxeram colaborações fundamentais ao nosso processo de existir.

Para 2023, ambicionamos reunir presencialmente este Conselho para discutirmos aspectos sempre delicados do RelevO, como as relações entre a política editorial e o departamento financeiro, as dinâmicas do Jornal com os autores recusados para publicação e as naturais complicações de ser um veículo impresso de literatura em um país sempre à beira da convulsão (ou de virar um istmo e sair flutuando pelo mundo).

De modo geral, desejamos que o novo ano seja um pouco mais… equilibrado. Não procuramos a cura que Comte-Sponville menciona em A felicidade, desesperadamente: a pílula da felicidade. “Uma pilulazinha azul, cor-de-rosa ou verde, que bastaria tomar todas as manhãs para se sentir permanentemente (sem nenhum efeito secundário, sem viciar, sem dependência) num estado de completo bem-estar, de completa felicidade”. Apenas queremos continuar com o nosso trabalho, nos divertindo entre a transcendência e a vulgaridade, com menos cambalhotas financeiras para fechar a edição no azul.

Uma boa leitura a todos.

2023: logo ali

Editorial extraído da edição de dezembro de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Chegamos à última edição de 2022. Neste ano de pós-pandemia, eleições e Copa do Mundo (e do primeiro Encontro Ufológico de Joinville), o RelevO continua imprimindo ininterruptamente, seguindo sua sina de ser de papel e de literatura desde setembro de 2010. Provavelmente, quando esta edição chegar às suas mãos, já saberemos que fim teve o Brasil na maior competição monoesportiva do planeta. Em novembro, para lembrar, fizemos uma edição especial com a literatura dos 32 países que disputam a Copa do Mundo. Não é segredo que gostamos muito de futebol e, em dezembro, nos aproveitamos das analogias esportivas para refletir sobre os últimos 12 meses.

Se o Jornal fosse uma seleção, seria, quem sabe, o Irã – organizado e aplicado, mas limitado e distante de uma grande liga? Temos uma equipe de apenas seis pessoas. Ou então a Croácia, com um futebol equilibrado e rompantes técnicos, mas com poucos recursos humanos para dar aquele passo adiante e se tornar grande? Temos, como fonte de renda, apenas assinantes e anunciantes privados. Seria alguma seleção que não foi pra Copa? Nunca nos sentamos nas principais mesas do meio literário.

2022 foi um ano desafiador sob muitos aspectos, com aumento de 23% de custos operacionais em uma ponta, diminuição do nosso corpo de assinantes em 15% em outra ponta e aprimoramento da nossa comunicação interna, com a circular, a Enclave e a Latitudes unidas em uma única base de controle (Substack). Conseguimos, enfim, centralizar toda a nossa produção de conteúdo digital, ajustar questões estruturais tão importantes quanto entediantes do nosso site e deixar cada vez mais evidente as vantagens de alguém nos assinar por apenas 70 reais ao ano.

Buscamos convencer nossos novos e velhos assinantes pelo trabalho contínuo em prol do que consideramos o melhor da literatura brasileira contemporânea. Não conseguimos competir em preço, mas nos esforçamos editorialmente – e não devemos favores. Somos uma defesa forte que busca aproveitar suas poucas chances de gol. Se subirmos demais ao ataque, seremos amassados. Assim, crescemos lentamente, adaptando-nos às intempéries naturais da vida. Estamos distantes das maiores competições do planeta, mas sobreviveremos até a festa de encerramento.

Uma boa leitura a todos.

“Não sei. O amor é assim”

Editorial extraído da edição de novembro de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Desde 2014, o RelevO produz uma edição especial da Copa do Mundo de Futebol. Gostamos muito de futebol, até mais do que gostaríamos. Também gostamos muito de literatura, mais discretamente. Como qualquer esporte (menos o beisebol), o futebol, em sua duração entre 90 e 100 minutos, carrega todos os elementos necessários para a criação de boas histórias: jornada do herói, imprevisibilidade, drama, beleza, técnica, envolvimento emocional.

Sabemos que nem todos os jogos de um Campeonato Paranaense são dignos de epopeias de Camões. Mas a Copa do Mundo é diferente. Ali se encontram os melhores praticantes do dito esporte, todos na busca pela consagração — e o futebol é um dos raros esportes em que as Olimpíadas não se configuram como “o momento sublime”. Mesmo com jogos considerados menos empolgantes, sabemos que a Copa é outra coisa; é outro modo de estar no mundo, a potência máxima da célebre frase da crônica de Rachel de Queiroz sobre o seu amor pelo Vasco: “Não sei. Amor é assim”.

A edição de novembro do RelevO — maior, com 40 páginas— é toda dedicada à literatura dos 32 países envolvidos no maior espetáculo monoesportivo do planeta. Buscamos trazer escolhas que fugissem da obviedade, ou mesmo veicular autores e autoras nunca publicados no Brasil. Contrariando um tanto a nossa aversão a bios, entendemos que, nesta edição, contextualizar cada escolha editorial é um processo pedagógico necessário.

Aliás, para que esta edição especial viesse à tona, contamos com a parceria do curso de Jornalismo da Universidade Positivo (UP). Mais de 50 estudantes de todos os períodos se envolveram, por quase dois meses, na pesquisa, produção e curadoria de conteúdo, desde a seleção de autores e autoras à captação de imagens e informações históricas. Também tivemos o aporte do nosso corpo de anunciantes e assinantes, que aderiu ao projeto, auxiliando em uma edição mais robusta e com uma tiragem três vezes maior que a nossa média. Em virtude do projeto especial e da redistribuição de conteúdo, as cartas dos leitores e as sessões Brazilliance e Enclave retornam em dezembro, assim como a prestação de contas. O ombudsman Nuno Rau fecha a presente edição, ao passo que nossas galhofas temáticas a abrem.

Boa leitura a todos. E boa Copa!

De um futuro analógico

Editorial extraído da edição de outubro de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O nosso futuro será analógico.

Em virtude do caráter forjado na regularidade, o RelevO reforça com certa frequência a importância dos hábitos e de seu pacto com o real. Acreditamos nos rituais, nas repetições, nas buscas individuais por espaços que fujam da pressão e da volatilidade de ser contemporâneo. De fato, folhear papel parece tão… século 20, assim como todas as coisas que possuem dimensões táteis, como um sapato. E não parece muito sustentável (assim como os sapatos). Contudo, folhear papel é uma experiência real, mensurável.

Não somos o que se pode chamar de conservadores e não somos o que se chama de progressistas. Ao nosso modo, buscamos participar das discussões que mobilizam nosso cotidiano, em um cruzamento entre o novo e a tradição, entendendo o humor como uma força norteadora de nossa existência. Por apostarmos em novos autores e autoras, almejamos oferecer um recorte do que é produzido na atualidade, sem desconsiderar, por exemplo, uma tradução de Emily Dickinson que chega à nossa caixa de entrada. Não existe o novo sem uma interlocução com repertórios anteriores.

Entendemos que ser um jornal de papel e literatura em 2022 é promover um espaço de diversão (e alguma reflexão, vá lá) fora da tela. Somos pela produção de presença: o viés digital é apenas uma ferramenta de que fazemos uso moderado por conta de seu potencial de abrangência e distribuição. Nosso leitor ideal está procurando experiências off-line – também por isso nos solidarizamos com os leitores que não prosseguem com a assinatura por falta de tempo. De fato, deve ser frustrante investir 70 reais ao ano para uma leitura de aproximadamente uma hora e não conseguir ler no intervalo de 30 dias; é melhor gastar em outra coisa que produza presença – como uma pizza, mais ou menos nesse valor.

É possível argumentar que é melhor passar uma hora mensal nas redes sociais (sabemos que a média de vida que o brasileiro passará na internet é de 40 anos, com potencial de aumento de tempo), porque não se gasta. Mas aí temos uma diferença para um produto físico que custa 70 reais ao ano: em muitos casos, o produto nas redes é o próprio consumidor, imerso em uma rede alucinante de publicidade e recolhimento de dados. Assim, pela identificação dos hábitos (quem diria), o consumidor é avaliado pelas plataformas e o consumidor, então, compra ou vira audiência (que vira dinheiro). É a máxima recente: “se você não está pagando por isso, você não é o cliente – você é o produto”.

Acreditamos que o futuro será analógico não porque os cabos subterrâneos de internet serão cortados e voltaremos a usar lampião de querosene. Não somos luditas, muito menos saudosistas que acreditam que os egípcios de três mil anos atrás faziam intervenções dentárias melhores. Quando dizemos “nosso futuro”, nos referimos a uma parcela de pessoas que não aguentará mais a linearidade do consumo cultural e pagará para receber uma experiência em casa, longe de banners, pop-ups, comerciais indesejados, novos links, cookies, WhatsApp Web aberto, Craque Neto. E isso que nem estamos falando dos smartphones como intensificadores de ansiedade e depressão.

Um cínico de carteirinha pode apontar que o leitor de jornal de papel e de literatura que posta seu hábito analógico no Instagram é uma fraude. Pois nós não concordamos. Este nosso leitor ideal apenas está em busca de sua comunidade analógica, que pode desconhecer os benefícios (não é nossa função, mas agradecemos se houver) de simplesmente parar e ler algo aleatório – algo, sobretudo, tangível e não produtivo.

No RelevO, você recebe o que paga. Buscamos oferecer o que consideramos serem os mais interessantes textos contemporâneos. E nós pagamos aos colaboradores. Pouco, é verdade, mas em proporção infinitamente maior que a do Spotify para pagar aos músicos catalogados, por exemplo (com orçamento infinitamente menor). Outro fator que não desconsideramos é o simples aspecto egoísta de ter um produto de arte em mãos e poder fazer o que quiser com ele, como levar a uma cachoeira ou a um café, ou somente aproveitá-lo para forrar os copos diante da imediata mudança de casa.

Uma boa leitura a todos.

12 + 1: o que nunca fizemos

Editorial extraído da edição de setembro de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Cento e sessenta edições.

O RelevO completa 12 anos e chega a um número redondo de circulação, quase como um acaso beneficente: 12 anos de circulação ininterrupta e mais de 5 mil assinantes diferentes (hoje, somos pouco mais de 1050 assinantes regulares). Embora tenhamos feito um pouco de tudo ao longo desse período, seguimos virgens em algumas atitudes. Por exemplo, nunca fizemos:

  1. Acordo com escritor em troca de assinatura ou privilégio editorial.
  2. Acordo com editora em troca de resenha ou espaço preferencial.
  3. Concessões humorísticas por conta de assinantes que cancelaram assinaturas em função do nosso humor. Jamais deixamos de publicar textos considerados impróprios para uma parcela de nossos assinantes e anunciantes. Também nunca…
  4. Servimos de palanque político-partidário para qualquer figura naturalmente transitória.
  5. Alegamos que somos a salvação da literatura brasileira ou o maior jornal de literatura do Brasil.
  6. Agredimos idosos na FLIP.
  7. Escondemos nossas dificuldades, pontos cegos ou limitações.
  8. Deixamos de apresentar nossas melhorias, aprimoramentos e evoluções logísticas.
  9. Mimamos o artista/escritor/poeta, tratando-o como sujeito sagrado e removido da sociedade. [Sempre respeitamos quem tem contas a pagar – e torcemos o nariz para quem não tem.]
  10. Deixamos de publicar ofensas, críticas agressivas, reações exacerbadas, violências originais e todo tipo de insulto de que, muitas vezes, fomos merecedores ou que simplesmente nos entreteram muito.

Por fim, também (11) nunca deixamos de, em alguma medida, nos divertir. Parece besteira, mas é o vício inerente capaz de nos manter operacionais. Acreditamos na leveza e, seguindo a lógica habitual, o desafio para os próximos 12 anos é existir. Que venha o 13.

Uma boa leitura a todos!

“Hoje pavão, amanhã espanador”

Editorial extraído da edição de agosto de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Um impresso de literatura vive de pequenas conquistas não simbólicas. Por exemplo, a gráfica. Pagar a gráfica não é alegórico. Não temos como permutar a gráfica ou convencê-los de que os preços subiram e “esse mês tem como pendurar?”. O mesmo vale para todos os nossos insumos: itens de papelaria, envelopes, combustível, manutenção do carro do jornal — o prestidigitado RelevOMóvel. Estar em dia, para nós, equivale a continuar em circulação. Portanto, é um sintoma de nossos acertos.

Nesse cotidiano em que a logística é muito importante – e, certamente, o coração operacional do Jornal –, às vezes deixamos certos vácuos editoriais sem solução (ou apenas com sistemas de continuidade duvidosos). Como já relatamos em editoriais recentes, sempre tivemos muita dificuldade de estar em dia com as leituras dos textos encaminhados para avaliação ao nosso Conselho Editorial. A situação já foi tão desesperadora que chegamos a ter dois mil textos não lidos. Na pandemia, o drama se acentuou.

Pois bem: em julho, conseguimos, enfim, zerar a caixa de entrada, ou ao menos encaixá-lo no que a nossa própria política de publicação alega ser o ideal: “Tentamos, mas não conseguimos acusar recebimento. Se você não receber retorno em 60 dias, não utilizamos o material. Se o aprovarmos depois deste prazo – estamos em constante atraso –, evidentemente entraremos em contato. Textos selecionados têm sua aprovação comunicada antes do fechamento da edição”. Em suma, os textos não lidos (menos de 40) agora se encontram na margem de retorno.

Além das leituras, retornamos individualmente para cada autor ou autora não selecionada. Reforçamos que o material não será utilizado pelo nosso Conselho Editorial e que isso não significa, de modo algum, que o trabalho não tem potencial literário: apenas não se encaixa na linha editorial das próximas edições. “Fique à vontade para submeter outros materiais quando quiser” foi o tom que buscamos apresentar, entendendo que estamos em um circuito interligado, o dito meio literário. [Nós mesmos publicamos textos que hoje não publicaríamos apenas porque… mudamos, como tudo na natureza.]

O RelevO não é um periódico de um banco ou de um órgão público. Nossa equipe é enxuta, regular e preza por transparência (talvez até com um certo grau obsessivo). Assim como trazemos a público a satisfação de, depois de mais de três anos, estar com a caixa de entrada em um nível decente, também dividimos os melhores-piores retornos dos recusados, curiosamente todos homens. Você pode conferir tudo na nossa seção de cartas, em que apenas mudamos os nomes dos autores porque é justamente dessa união entre ego frágil e tempo livre que nascem alguns processos.

Reiteramos aquilo que consta nas nossas orientações há anos: “Tentamos, mas não conseguimos acusar recebimento. Se você não receber retorno em 60 dias, não utilizamos o material. Se o aprovarmos depois deste prazo – estamos em constante atraso –, evidentemente entraremos em contato. Textos selecionados têm sua aprovação comunicada antes do fechamento da edição. Uma recusa absolutamente não impede novas tentativas. Não tome a avaliação como pessoal. Se você não tem preparo emocional para receber um não – todos nós já recebemos vários –, por favor, não nos envie seu trabalho”. Também sabemos há muito tempo que autointitulados não leem edital algum.

Nada do que recebemos como retorno negativo nos surpreendeu. Sabemos que uma parcela significante do meio literário sofre de egoesclerose ou da mera dificuldade de compreender que qualquer veículo toma decisões não inclusivas. Ao mesmo tempo, a imensa maioria dos temporariamente recusados foi gentil, cortês e estreitou vínculos conosco. Dentro da nossa miudeza de projeto e do nosso lastro de quase 12 anos de publicação, não somos nada mais do que atravessadores, que tomam emprestado textos que julgamos bons.

Tudo nesse mundo é emprestado, como relembra a canção.

Boa leitura a todos.

Não existe jornal sem conflito / não há motivos para existir jornal sem humor

Editorial extraído da edição de julho de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Não existe jornal sem conflito.

Uma das principais noções de existência que carregamos da nossa inserção no meio literário é que fazemos escolhas o tempo todo, principalmente do que não queremos. Partícipe da natureza analógica, não podemos (nem queremos) escolher todos. Não podemos escolher metade. Não vamos escolher nem 2% do que recebemos.

À primeira vista, pode parecer um exercício de prepotência – e um método criativo de carteiraço – antes de o(a) escritor(a) manifestar seu descontentamento com a falta de retorno do material enviado em 2020. Mas definitivamente não se trata de salto alto. Não temos qualquer anseio de cânone, muito menos de ilusão de importância (“o jornal que você precisa ler para entender o mundo hoje”).

Em média, recebemos 400 textos por mês, portanto cerca de cinco mil textos por ano. Temos 24 páginas e no máximo dez colaboradores por edição, desconsiderando colunas fixas, da casa, como as centrais, o ombudsman, a Enclave e a Brazilliance. Quem sabe, um formato especial da Latitudes (nossa newsletter exclusiva para assinantes, voltada a concursos literários, editais e cursos de literatura) também comece a circular no impresso. Então, com o espaço que temos, publicamos apenas 120 autores e autoras por ano.

Não escolher 98% dos textos que recebemos gera ruído. Deste percentual de 100% de não escolhidos, temos: assinantes do Jornal; escritores que fazem questão de reforçar que estudaram na USP; indicações de amigos; nóias; antigos colaboradores com potencial; gente nova em busca de espaço no ecossistema literário; picaretas conhecidos desde o início da nossa circulação etc.

Para evitarmos mais ruído (e também por falta de braço), não damos retorno específico, detalhando a recusa. Há alguns anos, tentamos isso – não durou dois meses (principalmente por falta de braço). Hoje, com um processo mais maduro, nem achamos que deveríamos fazê-lo. A presente edição, de julho de 2022, por exemplo, está repleta de textos sobre morte e misticismo, com um viés de humor estranho em textos nos arredores deste eixo temático. Não faria sentido dizer: “Pena que o seu texto sobre escritor corno fumando em um bar não foi selecionado agora”.

[Em nossa seção Publique, do site do Jornal, ainda manifestamos nossa preguiça geral com “escritor triste escrevendo sobre escrever”, “poema sobre o valor da poesia” e “meu amor não correspondido acaba de sair pela porta”. Isso não significa que materiais dessa natureza serão automaticamente piores e/ou recusados].

Não há motivos para existir jornal sem humor.

Para o RelevO, é o humor que acende a vela necessária para sobreviver aos espasmos de escuridão. É o humor que mantém acesa a loucura e a impossibilidade. O humor desarma, desprende, pisa nas convicções. Rir de modo inesperado é uma das únicas experiências ainda válidas em qualquer modo de convivência humana. O humor, inclusive, nos auxilia a lidar com o próprio meio em que estamos inseridos.

Gabriel García Márquez dizia: “Todo mundo tem três vidas: a vida pública, a vida privada e a vida secreta. A vida privada é só para convidados. A vida secreta não é da conta de ninguém”. O RelevO, em seu protocolo institucional gauche, faz o possível para transparecer suas ações. Mas sabemos de nossos segredos. Por exemplo, não divulgamos quem pertence ao nosso Conselho Editorial de avaliação de textos. Podem ser quatro, podem ser três, podem ser dois, e pode ser que um dia não seja ninguém — um dia que esperamos que demore para chegar. O que queremos, ao fim e ao cabo, é entregar um jornal interessante de se ler (sem desconsiderar todas as implicações disso).

Uma boa leitura a todos.

Sensos e generosidades

Editorial extraído da edição de junho de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O RelevO sempre se diferenciou de uma organização com fins lucrativos – não só pela desorganização de seus primeiros anos e pela incapacidade de lucrar, contínua – e se assemelhou a uma instituição, operacionalmente. Não entendemos, de forma alguma, que o nosso impresso mensal de literatura desenvolva atividades como as de hospitais, universidades e igrejas (sequer temos crenças). Todavia, acreditamos que temos alguma relevância (com o perdão do trocadilho) tanto em quesitos editoriais como de acessibilidade ao nosso trabalho, que busca apresentar novos autores e descentralizar perspectivas do meio literário (o que também não sabemos se conseguimos, dada a nossa limitação logística). De fato, muito do que fazemos é pelo senso livre e particular de gostar do que fazemos – e de primar absolutamente por continuidade.

Nesses quase 12 anos de existência, apostamos muito em nosso senso de comunidade, promovendo a autocrítica constante, criando o cargo de ombudsman, abrindo ao leitorado as cartas mais negativas possíveis e divulgando o nosso balanço financeiro mensalmente. Não temos vergonha de nossos índices e práticas, que até poderiam ser chamadas de modelo de negócio caso tivéssemos certeza que chegamos até aqui com um plano.

A transparência é um pilar do nosso projeto editorial e não negamos que utilizamos desse expediente para a publicidade de nossas ações. Pagamos os autores e autoras e divulgamos isso. Confiamos em nosso corpo de assinantes para superar crises. Esforçamo-nos para entregar, todo mês, o melhor periódico que conseguimos.

Se não apelamos diretamente para o slogan “Não deixe o RelevO morrer”, não deixamos de reconhecer que sempre expomos nossas fragilidades e dificuldades em busca de compreensão e de suporte financeiro. Também por isso, entendemos como necessário agradecer a cada um que ouve nossos chamados nas circulares mensais direcionadas aos assinantes, que nos escrevem depois de nos encontrar numa biblioteca do interior, gente que manifesta generosidade genuína e se compadece da nossa situação de busca simples por continuidade,. E é apenas isso que buscamos: continuar.

Obrigado. Boa leitura a todos.

Pedintes

Editorial extraído da edição de maio de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Ao longo de quase 12 anos de existência & suas consequências, o RelevO fez algo além de circular mensalmente e colaborar para o desmatamento de reservas de reflorestamento: pedir.

Desde o dia da criação mental do Jornal, o que mais fazemos é pedir. Foi assim em agosto de 2010, quando conseguimos dois anunciantes para custear a impressão (quando conseguíamos imprimir 1000 jornais com R$ 200). Quinze dias depois, o Jornal começava a circular em não mais do que dez lugares do Paraná, diversos exemplares soltos no banco de passageiros do mesmo Gol 1994 que ainda hoje transporta os fardos coletados na gráfica (com custos que agora aumentam a cada três meses).

Em 2012, ambicionando a estabilidade e o fim da dependência exclusiva de anunciantes, começamos a vender assinaturas, que custavam, então, R$ 50 ao ano. Em pouco mais de dois meses de prospecções, tínhamos 100 assinantes e a esperança de que conseguiríamos mesmo imprimir um jornal de literatura com alguma regularidade. Neste período, demos alguns saltos que podemos considerar, hoje, como excessivamente arrojados para o nosso perfil de investimentos em mais de uma década.

A entrada de assinantes nos levou a tomar medidas de cunho organizacional. Precisávamos entregar os jornais e justificar a confiança daqueles que adquiriam 12 edições antes mesmo de receber a primeira. Ali, aprimoramos nossas planilhas, ampliamos nossa rede de distribuição para angariar mais leitores e chegamos a ter 25 anunciantes em 2015, com edições de 32 páginas e seis mil exemplares de tiragem.

Aí percebemos nosso teto de produção. Com fechamentos confusos e altos índices de erros de checagem, vimos que 32 páginas eram um excesso; também enxergávamos de maneira mais notória os efeitos da crise de formato, com o predomínio do digital e o fechamento de diversas marcas conhecidas da dita mídia tradicional. Tínhamos alguns sinais oscilantes: crescíamos, mas também gastávamos mais energia.

Em 2015, com o aumento de diversos custos (pois veja), como combustíveis e gráfica, começamos campanhas mais agressivas para ampliar o nosso fluxo de caixa. Não foram poucas as noites em que o editor do periódico escreveu para amigos, conhecidos, contatos e qualquer ser humano que pudesse gostar do nosso projeto editorial. “Que acha da ideia de assinar o Jornal RelevO?”. Foi em 2018 que chegamos a 1000 assinantes e pensamos: será possível ter mais assinantes? Acreditávamos que sim – e ainda acreditamos, hoje, com pouco mais de 1100 assinantes (patamar que não conseguimos ultrapassar desde 2019 e que não sofreu quedas severas com as permanentes crises econômicas).

Desde então, o cenário mudou muito. Os custos cresceram ainda mais, os hábitos de leitura mudaram — nos chamam de “experiência offline” —, tivemos uma pandemia, os índices de renovação caíram, as reclamações aumentaram. Ao mesmo tempo, solidificamos nossos processos, nos tornamos ainda mais antifrágeis e convivemos com alguma resiliência com o nosso cinismo, sem fazer clima de terra arrasada, mas também sem deixar de considerar os desafios do nosso meio de atuação.

A pandemia, sem dúvida, foi o momento em que mais pedimos, em que mais apelamos para o nosso senso de comunidade. Ao diminuir a tiragem, cessar a distribuição em pontos físicos e ter os custos aumentados em cadeia, temos cada vez mais dificuldades para abrir novos mercados e dependemos sobremaneira de nossos assinantes.

Não temos vergonha de pedir. Em nossas circulares, destinadas apenas a assinantes e colaboradores, contamos os nossos percalços e os esforços para manter em circulação o periódico que gostamos de seguir produzindo. Não são poucos os dias em que nos perguntamos se não estamos exagerando no drama. E 2022 está mesmo complicado.

Enquanto interessarmos como produto e como projeto literário, pediremos. Quando não for mais possível manter a Operação RelevO, ainda assim seremos gratos por tantos anos e anos em que os nossos pedidos viraram o pagamento de contas, a edição seguinte, a manutenção de nossa circulação. Somos mesmo muito gratos.

Uma boa leitura a todos.