Sandro Moser: Só dói quando eu rio

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Uma das prerrogativas da minha função neste RelevO é ler todas as letras publicadas em suas 24 páginas de papel-jornal. Uma espécie de tara, manifesta na infância, me faz começar sempre pela última. A edição de outubro, portanto, “abre” com o lindo rondó de Paulo Cesar Pinheiro, musicado por Breno Ruiz. Já vale o ingresso. E me lembrou de um episódio com o poeta há algumas encarnações. 

No fervor dos vinte anos, esperando a hora de embarcar em algum dos grandes aeroportos do país, avistei o PCP. Na época, sua música fazia a minha cabeça — e confesso que ainda hoje faz. Com a coragem do tigre moço (e bêbado), anunciei-lhe, grave: “Poeta, estou indo a Cuba me integrar à revolução”. Ele entrou na brincadeira e respondeu: “Vá, mas volte. Pois o Brasil ainda está por fazer”. 

Desde então, este sentimento me persegue. De que tudo ainda está por fazer e a gente nem começou. Como quando a mudança desce da Kombi. Seria a hora de descansar, mas ainda é o momento do trabalho pesado. Enfim, só o jornal de papel proporciona estes momentos proustianos. O fato de o RelevO seguir de pé, depois do tiroteio de agosto e setembro, é sinal que algo está sendo feito. Mas vamos lá!  

Um leitor (Luiz Cláudio Lins) reclama da qualidade do projeto gráfico, demasiado amadora para seu gosto. Concordo em partes. Em algumas momentos, a diagramação é brilhante. Em outros, claramente apressada e desleixada. Imagino que colaboradores amorais como eu, que retardam o fechamento da edição até o último segundo, sejam uma das causas. De resto, o caos não me incomoda, mas entendo o desconforto do leitor. 

Na página 6, há um oportuno perfil do grande Adão Iturrusgaray ilustrado por seu genial material. Ótimo gancho com a questão do Abaporu. Texto bem feito, nas regras da arte. Faz sentido a presença de um humorista de escol, pois notei que o periódico está cada vez mais aberto ao humor. Vocês também flagraram esta “pasquinização”? Ou sempre foi assim e eu que ando meio desatento? 

Mesmo que na última linha do editorial o jornal diga que “está difícil rir de 2020”, com a paciência do corno contei quase 30% da edição ocupada com textos satíricos. Não é pouca coisa em um jornal que, até onde me lembro, se orgulhava de seus ensaios literários e de publicar ficção e poesia. 

Quem sabe, nosso editores estejam usando a lógica invertida do grande Nelson Sargento que diz que o “samba é triste para que a gente não seja”. De resto, são merecidos os elogios dos leitores à Enclave, que está redondíssima. Me despeço dizendo que vale a pena procurar o material do Algum Lucas na internet e que queria ler mais poemas lúbricos de Jess Carvalho.

Sandro Moser: Língua de sogra

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Antes de tudo, meu apoio à greve dos trabalhadores dos Correios. Ódio e nojo à política de aviltamento e desmanche deste serviço público. Falo por mim, não pelo RelevO

Otimistas com a agora inevitável venda dos Correios — como, aliás, quaisquer otimistas — não perdem por esperar. Sei, contudo, que, em razão dessa circunstância, muita gente não recebeu a edição de setembro. 

Foram privados de uma das mais desbragadas publicações do jornal, que começa se oferecendo em editorial como uma bola na boca à tacada da multinacional do xarope de taurina gaseificada.

Pensem comigo: que uma parcela da população que mistura esta desgraça na bebida seja grande o suficiente a ponto de gerar lucros torrados com patrocínio a equipes idiotas de futebol e Fórmula 1 é sinal de que a civilização ocidental é apenas luz de uma estrela morta. E já vai mesmo tarde a civilização ocidental. 

Voltando ao RelevO de setembro, há uma seleção poética alta, com destaque aos textos de Júlia Raiz e Nathália Fernandes que ficam mais belos com a fina diagramação de motivos urbanos. 

A boa reflexão filosófico-literária de Lucas Sanches Lima, daquelas que eu sempre gostei de ler no RelevO (e quem mais publicaria?), só perde o posto de melhor texto do mês para a entrevista imaginária com o tenista ilhéu. 

Sou devoto antigo deste gênero renegado. Na página central, as melhores qualidades de uma boa “imaginária” brilham a arcada dentária da cabra vadia no terreno baldio: vileza, blasfêmia, grosseria e despropósito. Muito bom. Que se repita. 

pita. O Jornal teve a fineza de dar grande espaço aos leitores e agradecer a cada um de seus colaboradores da década passada. Como em qualquer rol longo de nomes, abre-se a chance para uma divertida busca de antigos parceiros e parceiras sexuais, credores e desafetos literários em ordem alfabética. 

Este é o caldo da edição de setembro: a mais cara e invisível da história do RelevO. Poética e autolaudatória. Efusiva e vazia. Como uma festa de aniversário nas férias na qual os coleguinhas convidados não apareceram. 

Sandro Moser: Uma dieta para perder assinantes

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Convido-os a deambular em retrospectiva nos três últimos meses deste RelevO. Neste setembro, na contramão de grande parte das publicações lítero-culturais do país, o jornal celebra uma década de circulação mostrando improvável vitalidade. A carteira de assinantes está em ascensão e, a partir desta edição, o jornal passará a remunerar seus colaboradores. 

Espertamente divulgado no final da edição de agosto, o jeton representa 10% do valor de uma bolsa emergencial da pandemia e terá como efeito imediato a melhora na qualidade dos textos, pois minha experiência mostra que um trabalho pago é pelo menos três vezes mais revisado do que um gratuito. Na edição de agosto, o ponto alto foi a reprodução, na página 6, da ótima HQ de Arnaldo Branco que escracha o papel infame da imprensa em nosso tempo, além de um bom conjunto de poemas e textos de reflexão sobre teoria literária, videogames e miséria existencial.

Ouvi críticas à página de humor. Alguns leitores a consideraram de “mau gosto adolescente” e “preconceituosa”. O texto não assinado, mas pleno das impressões digitais do autor, está mesmo situado antes da sobreloja na torre do humor, mas confesso, abestalhado, que gostei, justamente pelo tom velhaco e absurdo. 

Chegamos, pois, ao mês de julho quando um dos textos fez o RelevO perder um assinante. Para um jornal literário que destaca o nome dos apoiadores na página 1, é tão triste quanto ver fechar um bar centenário ou ver morrer um amigo. O agora ex-assinante pediu anonimato, mas explicou que desistiu do jornal em razão de um texto de “direita-fascista” da autora Greicy Bellin. Antes da despedida, ele declinou da oferta de uma possível réplica. 

Para quem não lembra, o texto de alguma forma exalta a capacidade de comunicação popular de um modelo de pensamento ideológico que não é nem o liberalismo juspositivista, nem o marxismo e suas derivações. 

Os editores reconhecem que o texto em questão está “fora da curva do jornal”, mas que a consequência de sua publicação parece sintoma da cosmovisão das redes sociais, onde há uma luta em andamento “entre o exercício de dissenso e o exercício de apagamento do diferente entre os iguais” e que, enfim, o RelevO é a “favor da dieta intelectual variada, mesmo quando não gosta de alguns alimentos”.

Em princípio, eu também sou. E acho que o texto em questão até faz boas reflexões sobre o “continente perdido” da filosofia contemporânea, mas entendo a aflição do leitor — que foi também a minha —, pois é uma chocante inversão de expectativa ler escrito a sério o nome de um autor nacional cuja a simples menção conspurca o apanágio que o RelevO construiu nesta década. 

Entendo que a casa tenha a coragem de servir conteúdo variado. Entre os leitores, quem tem estômago mais forte, come com farinha. Quem não tem, pode separar no canto do prato. Se vier sempre, os clientes podem não vir mais. É o preço de se estar em movimento neste tempo estranho e perigoso. E que venham dez anos mais. 

Sandro Moser: Cachoeira de aguardente

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Há coisas boas e coisas novas para contar. Nosso problema é que as coisas boas não são novas e as coisas novas não são boas, como na anedota. Deste último grupo de notícias, cabe dizer que a partir de hoje me cabe ocupar este excelso espaço. Uma responsabilidade mais pesada do que meus joelhos podem aguentar. 

Há apenas dois outros colegas na mesma função no país e, diante da contramarcha dos acontecimentos, não será surpresa se um ou dois de nós formos extintos em breve. Aquele que escapar será guardião de uma língua morta, o “papagaio de Humboldt” dos suplementos literários. 

A parte em que a coisa melhora — e aposto uma garrafa — é que o sobrevivente será o titular deste espaço, visto que a crise não nos alcança, pois estamos duas jogadas à sua frente, e meu ombudsmanato dura o tempo máximo de uma gestação humana saudável. 

Meu publisher pede que me apresente, me fazendo encarar, aos calafrios, minha medíocre pusilanimidade. Hoje quando me acusam da minha antiga profissão, devolvo o insulto: “Jornalista é você!” e como não quero que minha outra ocupação indefensável se espalhe por aí, me calo.

Me parece mais importante contar que nasci numa minúscula cidade no extremo-sul do Paraná, Porto Vitória, local mágico onde a principal atividade é beber aguardente de Juniperus admirando a cachoeira. Este torpor contemplativo é o sentimento de plenitude utópica que busco em todas as coisas desde que fui arrancado daquele paraíso pelas forças do capitalismo tardio e que, às vezes, a leitura poética me devolve. 

Neste sentido, apenas, talvez reúna as condições objetivas para representar os leitores invulgares deste RelevO que se espalham pelo país todo como uma mancha epidemiológica, mas que, na verdade, são zés-pilintras usando as frestas de luz desta treva hirsuta para tentar seus dribles. 

Gastei tanto espaço falando de meu medos e quase não sobrou tempo para dizer que me emocionou ver na página central do nosso caderno a marquise derrubada do velho Maracanã e, como bom argentinófilo, afirmo que toda poesia platense ou patagónia me comove como o diabo. 

Hoje vou assoprar e assim dizer que morte, izakayas e alucinações são temas que pedem mesmo grave reflexão. Prometo também morder e, afinal, a montanha dará à luz uma ninhada de ratos albinos. 

Omdusman

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Trecho da última coluna de ombudsman do The New York Times, assinada pela jornalista Margareth Sullivan, em 16 de abril de 2016. O novo ombudsman do RelevO, que sucederá a escritora e psicanalista Morgana Rech, será anunciado em meados de julho. Seu mandato se iniciará na edição de agosto. Ao lado da Folha de S.Paulo e de O Povo, de Fortaleza, o RelevO é um dos três periódicos brasileiros a contar com o cargo, fundamental para a relação de crítica e de mediação com o leitorado da publicação.

 

Então, aqui estão algumas recomendações, que refletem minhas esperanças para esta grande empresa de notícias [NYT] e são baseadas no que ouvi dos leitores:

Mantenha controle editorial. Como as parcerias, especialmente com o Facebook, o gigante das mídias sociais, tornam-se quase impossíveis de resistir, o Times não deveria permitir que abordagens orientadas pelos negócios determinem o que os leitores podem ver. Ao lidar com o Facebook e com outras plataformas e parceiros em potencial, cujos negócios giram em torno de algoritmos, é fundamental que o jornal garanta que as notícias que os leitores veem sejam conduzidas pelo julgamento de editores preocupados com jornalismo, não com fórmulas voltadas para os negócios, as quais talvez apenas reforcem preconceitos. Essa é uma das grandes questões para o futuro imediato – e deve ser enfrentada.

Lembre-se de que a velocidade mata. Como o Times tenta obter o maior número possível de leitores digitais, é preciso ter em mente que a precisão e a justiça são fundamentais. Isso parece óbvio, mas no momento competitivo da publicação, nem sempre é fácil lembrar. Vá mais devagar, por uma questão de credibilidade.

Mantenha o clickbait à distância. Na pressão pelo tráfego digital, o Times agora publica artigos em que nunca teria tocado antes para manter-se parte de uma conversa que ocorre nas mídias sociais e é lida em smartphones. Isso não torna esses artigos inerentemente ruins, mas o truque é manter os próprios valores.

– Mantenha a responsabilidade e o jornalismo de vigilância em primeiro plano. O Times de Dean Baquet é aquele que enfatiza o trabalho de investigação. Essa deve ser sempre uma prioridade, e nada deve enfraquecê-la.

Não subestime a importância do editor e da checagem. Como o Times tenta controlar os custos e reduzir sua força de trabalho, esse trabalho não deveria sofrer. Pode parecer invisível, mas importa enormemente.

Lembre-se da missão de defender os oprimidos da sociedade. O Times pode ser elitista em alguns aspectos — apartamento de US$ 10 milhões, alguém? Cubra os ricos, sim, mas equilibre-os com profunda e permanente atenção aos que nada têm.

Proteja a credibilidade com os leitores acima de tudo. Aprofunde o relacionamento com eles e encontre novas maneiras de ouvir e abordar as preocupações dos leitores. (E, por favor, corrija as desigualdades no sistema de comentários — em breve.)

Morgana Rech: Elaborando o fim

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Cinco coisas que pude elaborar durante esse período de ombudsman no RelevO:

 

  1. Tudo pode ser virtualizado. Em cada frase que dirigimos a alguém, um espaço vazio permanece entre como uma caixinha de potencialidades imaginativas. Minha relação com o jornal não tem absolutamente nada de concreta. É virtual na minha liberdade imaginativa; assim como na nuvem de onde falei durante esses cinco meses; assim como nos contatos com quem comigo divide essas páginas, neste oásis mundano que é a arte.
  2. Ser analista de jornal é por pouco tempo. Primeiro, porque ele sabe mais do que eu. Segundo, porque cinco meses é mais do que suficiente para instalar uma relação suficientemente boa entre o jornal e suas estranhezas. Freud atendia seus pacientes-pessoas por pouco mais do que isso, às vezes menos. Não foi analista de jornal, mas de grandes obras de arte, trabalhos que lhe construíram como fundador de alguma coisa.
  3. Existem várias formas de matar um leão por dia, seja transformando-o num tigre preguiçoso, ou deixando-o no silêncio, ou ainda reduzindo a sua presença à significância de uma joaninha.
  4. Continuo sem entender por que é mesmo que eu deveria criticar o jornal. Ninguém entende isso mesmo.
  5. Jornais: especialistas em resistir ao tratamento com as suas múltiplas capacidades de se deslocar e se condensar em imagens, como as de Magritte, que só servem para desviar a atenção do analista.

 

Dizem que, depois da última sessão, o paciente sonha com tudo o que aconteceu durante o percurso. Sua capacidade de sonhar já não será a mesma, dali em diante. São ferramentas e fios novos para tecer, dia e noite e do dia para a noite. Como o RelevO já faz um tecidão pelo Brasil com seu impresso há todos esses anos, só me resta esperar que ele siga contaminando todo mundo, por onde quer que passe, com a sua arte de renovar as nossas esperanças. 

Tempo esgotado.

Morgana Rech: Screen

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Um mês depois de levantar o acampamento no consultório, seguir à risca as normas de isolamento social, várias sessões on-line, RelevO e eu estamos entrando numa espécie de alta, mesmo que esse termo seja muito discutível na psicanálise.

Nosso problema não é financeiro, principalmente agora que o paciente-jornal tem até investido mais em nossa relação, me oferecendo obras maravilhosas em .jpg por e-mail, “capturando” o meu momento clínico para além dele. É maravilhoso como o narcisismo se engrandece na análise – não no sentido inflamado, que esconde um machucado terrível e maltratado por baixo –, mas esse narcisismo que, lá pelas tantas, pode ver o analista de igual para igual como pessoa, que entende o inexprimível do terapeuta, dá algo que ele precisa, mesmo sem que lhe tenha dito o que era.

Bem, nosso problema também não é falta de tempo, muito embora o RelevO esteja trabalhando dobrado para dar conta de manter as edições vivas e respirando nessa fase quarentênica, o que é muito compreensível. Tampouco podemos dizer que nosso problema é de lonjuras, porque agora estamos todos bem perto, vivendo nesse universo pandêmico simultaneamente com e sem fronteiras.

Talvez nem tenhamos um problema, na verdade. Freud mesmo dizia que existem análises termináveis e análises intermináveis. O RelevO é tão criativo e elabora tão bem seus conflitos, edição após edição, que ele quase anda mais rápido do que eu consigo compreender. Quem caminha perto assim da arte costuma se deslocar mais entre o desejo e a necessidade, inclusive o de ouvir e ser ouvido. Artistas têm mais cacife para fazer várias análises curtas ao longo da vida; estão sempre se reconhecendo em cada obra.

Freud, por exemplo, um dos artistas menos compreendidos do século passado[1], foi seu próprio analista durante muitos anos.

Remendou sua própria análise na sua própria criação e na sua própria vida, e assim criou o método que está em transformação até hoje, principalmente agora, transferidos que estamos para o screen. Vejo o RelevO pelo screen e mal posso acreditar que a pulsão de vida se infiltra tão bem num jornal de literatura, em plena pandemia mundial, e que torna sua criatividade soberana justo num momento em que quase nada circula neste mundo com tão pouco movimento.

 

[1] Digo isso com base nos meus estudos sobre a relação de Freud com a arte, mas ele nunca se denominou artista e raramente é visto assim pela comunidade científica.

Morgana Rech: O vídeo é o nosso senhor e o sabão não faltará

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Desde a semana passada, retirei o meu corpo do consultório para ingressar no isolamento social e nas sessões on-line. A relação transferencial entre RelevO e eu se virtualizou. Nunca imaginei que meu espaço físico, o ar que respiro, a mão que cumprimenta ou segura o jornal, se tornaria tamanha ameaça para o outro. Centenas de colegas fazem o mesmo e saem com suas trouxas de trabalho embaixo do braço: o lenço de chorar, o relógio que dá as horas de início e fim, a agenda, os cadernos, as Obras Completas, nossos objetos de estar lá. Alguns levam para casa seus RelevO´s impressos, presença forte em nossas salas de espera.

Levamos um pontapé na bunda dado por uma civilização de litros e mais litros de álcool que agora nos exige a desocupação das ruas e a ocupação de espaços internos. É um vírus, ok, mas eu não o vejo; o que vejo são garrafas de desinfetantes e roupas de astronauta. Duas promessas de liberdade, quem diria. Estamos rendidos, limpos e toda a nossa teoria de trabalho está temporariamente sob custódia, assim como está o rumo dos jornais independentes de literatura. Nos identificamos neste ponto.

Freud não falou nada sobre Skype, muito menos sobre Corona. Falou, isso sim, de como a miséria humana e o adoecimento narcísico pediriam uma atualização da técnica de analisar. Ele não disse que faríamos isso tão abruptamente, e que teríamos que lidar com nossa própria vulnerabilidade, que surge com a saudade do nosso local de trabalho e dos objetos familiares à manutenção de nossos lugares. Bem, os poetas também sempre disseram que a miséria humana e o adoecimento narcísico pediriam uma atualização da linguagem. A bem da verdade, na ficção o atual já existia.

O analista sempre trabalha com a ideia de que uma tela o separa do paciente. A diferença é que ela, agora, não é uma metáfora. É real e por tempo indeterminado, af! O atendimento on-line, como estamos fazendo aqui, deixou de ser exceção e se tornou regra, e quando a exceção vira regra, a teoria começa a girar em torno dela, rudimentar e única: ficar em casa. Talvez Freud tenha se visto numa situação parecida quando viu aqueles pacientes traumatizados pela guerra, tanto é que mudou sua tática. O mundo, agora, voltou a ficar tão monotemático, mas tão monotemático, que já apareceram até os agentes de vigilância nos dizendo o que podemos e o que não podemos fazer do nosso mundo interno durante o isolamento. Dizem, alguns, que não podemos romantizar a quarentena. Bem, se entendermos isso no sentido romântico mesmo do termo, romantizar a quarentena me parece uma atitude bem interessante até mesmo para manter a psicanálise — e a literatura — em pé, já que romantizar equivale à ação do pensamento de recusar tanto a razão pura como a magia pura. Ficar entre elas: espaço analítico por excelência. Possível chance de ficar imune à cegueira. Romantizar a quarentena e refazer contratos sociais me parecem ações que vivem na mesma ilha, se não quisermos que ela seja sonífera. O RelevO está liberado para romantizar o que bem entender, mesmo porque, no mundo da ficção (o atual, rs), as coisas podem até andar mais a nosso favor do que antes. Enquanto estou revisando minhas técnicas e condições de trabalho, o jornal literário tem, pois sempre teve, uma das funções mais importantes para o cenário de trincheira em que estamos. Tento encorajá-lo nisso, do mesmo modo que ele me encorajará a remontar o meu setting. Vínhamos bem, afinal de contas, com aquela história do RelevO se despersonalizar e assumir a sua dupla identidade, naquele rompante falocêntrico de ser um jornal automobilístico. Eu diria que, por um lado, podemos nos aliviar juntos desse fardo, unidos no desamparo favorável à criação. Por outro lado, o “ricaço” que, dizia o RelevO, faz falta para injetar um ânimo na publicação pode, quem sabe, ser reencontrado ou refeito no coração da coletividade.

Estamos de volta ao grau zero de leitura e de escrita. Lembraremos, fisiologicamente, da sua importância. Psicanalistas e artistas são, mais do que antes, colegas, como eram Freud e seus amigos gênios. Poetas, editores, ilustradores e quadrinistas: todos numa função mais ou menos analítica de oferecer ponte e alívio. Que o inconsciente saiba: na arte se continua vivendo. Que o jornal saiba: no seu espaço é onde contaremos essa história.

Morgana Rech: O duplo nunca morre

Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Parece que, para uma primeira sessão, fomos bem. Bastante comum: em início de análise, um primeiro movimento de despersonalização é feito pelo paciente-jornal. No caso do RelevO, ele aparece com essa dupla versão de si, metido a jornal automobilístico-guia-fálico-de-tunagem. Mostra toda a potência do seu motor editorial, talvez com o objetivo de ditar a velocidade e o trajeto da nossa estrada transferencial.

Típico, porém, genial, já que não resta mesmo outra opção a um jornal literário, impresso, resistente como esse, senão jogar limpo com as suas tendências falocêntricas. Suportar o tamanho do desamparo que é fazer literatura sob a proteção, no caso desse fenômeno duplicador que observamos aqui, de cavalos e cilindros. A análise do Gol Bola, se é que entendi bem, 1994, denuncia: o RelevO não vai se rebaixar tão facilmente. Não vai cair nessa de confundir freio com pedal de aceleração. Vai conseguir fazer humor, acima de tudo e em alta velocidade.

A cara sacana do duplo vem, às vezes, só confundir o próprio autor para, depois, fazê-lo acreditar mais forte nele mesmo. Isso é o bonito da literatura, afinal de contas. Uma forma de uma verdade desmentida se tornar uma nova verdade, fazendo da antiga uma mentira e, portanto, se refazendo como mentira. É isso mesmo? E o jornal pergunta, no fim: sacou? Eu devolvo a pergunta, é lógico. Estamos em análise, RelevO. Eu acredito em você.

O duro é acreditar no falocentrismo quando o joelho treme diante de uma narrativa como a do Rodrigo Menezes de Melo, em que “a gente quase sempre se sente melhor quando finge que é bom”; ou quando Elisa Dot conta sobre o brilho dos vagalumes que aumenta quando os olhos transbordam de “lágrimas não solicitadas”; ou quando imaginamos a personagem de Marta Neves completamente saída de si naquele bar insuportável; ou no duplo de Afrânio, que morre de tanto ignorar o que está diante dos seus olhos, no texto do Evandson Sousa.

Fim de sessão e o próprio jornal restitui sua própria imagem, ao incentivar o mantra “sou a reencarnação daqueles que ainda não morreram”. É lógico que ainda não morreram, porque o duplo nunca morre quando a arte e o humor são bons. O paciente-jornal se engrandece ao longo do tempo e, justamente por isso, fico no maior orgulho e me despeço: nos vemos no mês que vem.

Morgana Rech: Transferências e o paciente-jornal

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Talvez por ser a primeira ombudsman psicanalista, já vou começar sem entender direito por que é que o RelevO precisa tanto dessa figura para abrir o jornal. Vou criticar o RelevO para ajudar o RelevO. Vou dizer que o editor convida alguém que proteja os seus leitores para garantir uma faixa de neutralidade em suas relações editoriais. Se eu fosse analista do jornal, investigaria junto com ele os motivos, os verdadeiros motivos pelos quais ele acha que precisa dessa defesa. Defender os leitores para, no fundo, defender o jornal. Eu faria o possível para sair do lugar de escudo. Eu diria para o RelevO se virar sozinho, pela primeira vez na vida.

Fico imaginando: o consultório sendo frequentado por editores de jornais e revistas literárias. Apresentando suas queixas sobre a função de seus veículos no espaço editorial. O irrelevante ou o megalomaníaco papel que eles acreditam que exercem no conjunto das publicações. A voz do RelevO, muito provavelmente, seria aquela mais agradável de escutar. A que colabora com o processo, que está a fim da análise. E aí eu ficaria sabendo desse negócio de ombudsman, a história deles todos. Pensaríamos sobre isso, a minha atenção flutuante daria um salto. Eu ouviria histórias de ombudsman que machucaram o jornal e ele nem ligou. Tentaríamos ver por outro lado, fazer outras leituras dessas páginas.

Eu lhe diria então que, bem, não dá para deixar de apanhar sem perder a identidade, não é mesmo? O RelevO sairia dessa sessão meio puto comigo. Pediria para trocar o horário da semana que vem. Esqueceria o dinheiro. Sairia se vendendo por aí, em vez de vir. Faria uma edição melhor, iria mais longe. E depois nos daríamos conta de que os melhores sacos de pancada são aqueles que acabam por fascinar o agressor até que a pancada se transforme em homenagem. O jornal me homenagearia e eu homenagearia o jornal, porque é assim que a banda toca na relação transferencial que acabo de inventar entre mim, ombudsman, e meu paciente-jornal a quem, no fundo, me dirijo.

Sempre li dos ombudsmans — e confirmaríamos isso ao longo das sessões, RelevO e eu — que eles aprendem muito com essa função. Que, no fim, o jornal é que lhes dá a verdadeira lição. Eu me agarraria a esse fato para tentar virar o jogo a favor do analisando. Uma análise serve também para descobrir as forças que ainda não tinha aparecido em lugar nenhum. Difícil: ser ombudsman, receber as críticas e elogios dos leitores, ao mesmo tempo chacoalhando os mecanismos de defesas do jornal. Elogiar o jornal, sobretudo, merecido que é.

Para o fim desta análise, das duas uma: ou me expulsam logo (tipo mês que vem), ou me deixam fazer umas interpretações sobre isso que o RelevO vem provocando em seus leitores e vice-versa, para que possam também discordar de mim. Vamos fazer da relação leitor-ombudsman-jornal um verdadeiro seminário literário-clínico, porque também quero mudar, e espero que para melhor.

Caio Túlio Costa: Diretrizes para ombudsman

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Trecho de OMBUDSMAN:

O relógio de Pascal, Geração

Editorial, 2006

 

Nem só de alimento para a alma, como o psicodrama de Williamsburg, são recheados os encontros dos ombudsmen. Num desses, em 1982, em Washington, foram aprovadas as “Guidelines for Ombudsmen”, as diretrizes para os jornalistas e jornais adeptos do advogado do leitor. Cabem numa única página. Não custa reproduzir as Diretrizes para Ombudsmen de Imprensa:

  • Os objetivos de um ombudsman de jornal devem ser:
  1. Aperfeiçoar a equidade, exatidão e responsabilidade do jornal.
  2. Aumentar sua credibilidade.
  3. Investigar todas as queixas e recomendar ação corretiva quando for o caso.
  4. Alertar o diretor de Redação sobre todas as queixas.
  5. Fazer conferências ou escrever para o público sobre as linhas, as posições e as atividades do jornal.
  6. Defender o jornal, publicamente ou em particular, quando for o caso.
  • Alguns dos meios de que o ombudsman dispõe para chegar a seus objetivos e cumprir suas tarefas incluem:
  1. Uma coluna.
  2. Memorandos internos.
  3. Reuniões com as equipes.
  4. Questionários.
  5. Conferências.
  • O ombudsman deve ser independente e esta independência deve ser real. Ele deve responder apenas à pessoa com mais alta autoridade na Redação.

 

Nota da redação:

A partir de fevereiro, a coluna passa a ser mantida por Morgana Rech, escritora e editora da Revista Subversa, também doutora em Teoria Psicanalítica pela UFRJ (2019), mestre em Teoria da Literatura pela Universidade do Porto (2013) e graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2010).