Autor: Jornal RelevO
Rafael Maieiro: Lajotas quebradas no subúrbio do jornal
Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Alguns comentários sobre a edição de junho?
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
CRUZ E SOUZA (RelevO, junho de 2025, p. 24)
O trecho me lembrou:
Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo ao outro. E os aplausos dos de cabelos brancos, das meigas criancinhas.
MURILO RUBIÃO (O ex-mágico da Taberna da Minhota, não publicado na edição de junho do RelevO)
*
Rafael Sica, o ilustrador da edição de junho de 2025, traçou sua distopia. Ou seria uma espécie de Baixa Distopia? Por exemplo: na página 18, as cercas estão arrombadas. Na página 19, uma criança mija nos destroços de um tanque.
*
Isto me lembra:
A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio a fome
e dizendo sim
— em meio à violência e à solidão dizendo
sim —
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo filho perdido
neste vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nossa irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pele que dá e que cega
pelo que virá enfim
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
— digo sim
FERREIRA GULLAR (Digo sim, não publicado na edição de junho do RelevO)
*
Aliás, Bolívar Escobar, obrigado pela lixeirinha com o ícone da coluna anterior (edição de junho). O espaço é exatamente isto: um repositório das críticas dos leitores. Já que o correio não está funcionando, que tal uma lixeira? Escrevam. Amassem. E… De três pontos, Magic Leitora?
*
sentes a fome, Virginia?
os ossos finos da minha mão
sobre a fonte que te eterniza
(…)
são perecíveis todas as coisas exceto os olhares
ISABELA ORLANDI (RelevO, junho de 2025, p. 22)
Mal fica sozinho no banco, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que uma velha o encontra, o lê e o deixa transformado num monte de folhas impressas. Depois, leva-o para casa e no caminho aproveita-o para embrulhar um molho de acelga, que é para o que servem os jornais depois dessas excitantes metamorfoses.
JULIO CORTÁZAR (O jornal e suas metamorfoses, não publicado na edição de junho do RelevO)
*
Continuo comprando porque é barato e de vez em quando preciso de uns jornais para embalar uns troços.
RelevO, junho de 2025, p. 13
*
Lajota amarela:
— Leitor, quer dizer alguma coisa sobre o jornal? Bolinhas de papel na seguinte lixeira: contato@jornalrelevo.com
*
Impressos podem ser úteis em tempos de guerra.
*
O que seria Relevo?
RelevO, junho de 2025, p. 13
Em busca dos assinantes do amanhã
Editorial extraído da edição de julho de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Depois de mais de quatro anos mantendo o preço firme — desde janeiro de 2021, para sermos exatos —, chegou o instante mais adiado do que gol anulado depois de 5 minutos de consulta ao VAR: o valor das assinaturas do RelevO vai subir. Nada que comprometa o orçamento de quem ainda guarda moedas em caixas de fósforo.
Durante todo esse tempo, o valor ficou em R$ 70 por ano, menos de R$ 6 por edição, o preço de um café em pé. A partir de julho, o novo valor será R$ 80 ao ano. Um aumento de 14%, contra uma inflação estimada em 30% desde então. E sejamos justos: o setor de papelaria, ah!, esse já dobrou os preços com mais desenvoltura do que serviço de teleatendimento cobrando fatura atrasada. A caixa com 500 envelopes kraft, por exemplo, que custava R$ 60, hoje custa R$ 120. E nem vem com selo. A verdade é que seguimos como um dos impressos mais acessíveis deste país de rincões e autores que pedem resenhas para amigos.
Sabemos que falar de aumento é quase tão antipático quanto pedir fiado na padaria. Mas preferimos ser francos, e não é por nobreza. Se dependesse de nós, estaríamos agora tomando um clericot numa varanda fiscal das Ilhas Cayman, contudo, somos um impresso e buscamos sobreviver com literatura impressa, um exercício diário de equilíbrio entre negociações com a gráfica, assinantes que entram, assinantes que cancelam e a captação de recursos.
O nosso jornal pesa 66 gramas. É pouco, mas carrega o peso de quem acredita que ainda dá pra fazer imprensa literária com os pés no chão e a cabeça nas estantes, sem jogar o jogo do clubinho fechado. Sem sobrenome, sem patrocínio estrangeiro, sem fundo de investimento em hipóteses. O que oferecemos é um nome-de-jornal, papel, tinta, caracteres e uma fé torta de que tem gente, como você, que também acredita e nos assina.
O RelevO é barato. Não por modéstia. Barato porque é feito por quem prefere o valor ao preço. E porque os nossos assinantes são o que os bancos chamariam de “público-alvo”, mas que nós chamamos com mais gratidão de mecenas anônimos, apoiadores fiéis, corajosos leitores do mês que vem.
*
Daqui a menos de seis meses, em dezembro, chegaremos à edição 200. Duzentas edições atravessadas mês a mês, dobradas à mão, seladas com cuidado, distribuídas por rotas reais e afetivas. São quase 15 anos insistindo na contramão do algoritmo, apostando que ainda vale a pena imprimir ideias, costurar vozes, revisitar gêneros literários, colar etiquetas e contar histórias. Não é só um número que se aproxima: é a soma de madrugadas editoriais, crises existenciais em cima da lauda e envelopes kraft que resistem bravamente à umidade e ao tempo.
De fato, cada nova edição é uma pequena teimosia contra a desistência. Se chegamos até aqui, foi porque leitores seguiram conosco. E assim permanecemos no risco do próximo mês. Porque, como dizia o Quintana, somos feitos daquilo que parece guardado sem motivo — como folha seca em livro antigo, ou jornal literário dobrado num envelope pardo que chega todo mês, mesmo quando ninguém sabe bem como. Assine o RelevO, um agregado de silêncios e persistência — ou tudo aquilo que o mundo tenta descartar.
Uma boa leitura a todos.
Edição de junho de 2025
Rafael Maieiro: Era para ser um grito, mas é apenas uma nota
Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Este espaço só faz sentido se for feito em interação com o leitor. Até o momento, no meu mandato como ombudsman, não consegui iniciar um diálogo com o leitor do RelevO. Acredito que isso se deva a dois motivos essenciais, que listo a seguir:
- A falta de tradição do cargo de ombudsman no Brasil.
“Ombudsman é uma palavra sueca que significa representante do cidadão. Designa, nos países escandinavos, o ouvidor-geral, função pública criada para canalizar problemas e reclamações da população. Na imprensa, o termo é utilizado para denominar o representante dos leitores dentro de um jornal.” (O que é o cargo de ombudsman? Folha de S. Paulo, 2014)
2. A falta de clareza sobre qual canal deve ser utilizado para essa interação (leitor/ouvidor).
Por isso, nobilíssimo leitor, vamos conversar sobre os pontos negativos e positivos do Jornal?
Envie e-mails para:
contato@jornalrelevo.com
Assunto: Ouvidoria
E mande ver! Vaias e xingamentos são bem-vindos.
Até lá!
E n…
Às margens de um jornal
Editorial extraído da edição de junho de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
O RelevO sempre habitou as margens. As margens do contemporâneo, do mercado editorial, da lógica empresarial, do tempo cronometrado, as margens da linguagem — onde o experimental, o insuspeito, o inacabado e o humorístico encontram abrigo. Não é por acaso que muitos dos textos que publicamos se recusam ao centro estabelecido e somos uma das principais casas para autores nunca-dantes-publicados. Em meio a envelopes encharcados, mensagens cobrando devolutivas, elogios desajeitados, críticas criativas (“seleção de escrotérios”, alguém já disse sobre os critérios do que escolhemos publicar), seguimos tentando entender o que é fazer um jornal literário impresso no Brasil em 2025. Com seus encantos, tropeços e descompassos.
Manter um projeto independente de literatura é viver nas bordas do viável. Não temos estrutura robusta, nem departamentos autônomos. Cada função, da curadoria à entrega, da edição à contabilidade, é feita com pouco RH. Assim, cada falha se transforma, inevitavelmente, em culpa, em revisão, em mais uma camada de cansaço [depois de 15 anos e aproximadamente 6 mil assinantes, entre aqueles que chegaram, ficaram e saíram, chegamos no Reclame Aqui, com pedido de estorno e reclamação do nosso uso da crase]. Mas seguimos, porque entendemos que esse tipo de lombada também apresenta um tipo de presença: o relevo (com minúscula e com maiúscula) do que fazemos. O atrito com uma pequena margem de leitores, os ruídos de comunicação, os desafios logísticos — tudo isso compõe a matéria real de um projeto artesanal. Há algo de profundamente humano em não operar com perfeição.
Manter um jornal de literatura em circulação exige mais do que escrever, editar ou diagramar. Exige disposição para sustentar relações — com a equipe, com os textos, com os colaboradores, com os assinantes, com o próprio tempo. A publicação não termina no fechamento da edição, mas se prolonga nos envelopes enviados, nas mensagens trocadas, nas cobranças que nos fazem olhar para dentro e ajustar o passo. Se tropeçamos, é porque estamos caminhando.
Por isso, mais do que entregar um produto, buscamos entregar um gesto. Um jornal que chega pelo correio, mesmo com suas margens às vezes amassadas, é também um convite: a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o espaço entre linhas e silêncios. É um lembrete de que ainda é possível construir algo fora do algoritmo, da fluidez absoluta, do ruído constante. E se, por vezes, falhamos na crase, no prazo ou na costura das páginas, pedimos: permaneça. As margens, afinal, são as beiras de onde se avista o que o centro esqueceu. Nas margens se escrevem os comentários mais sinceros, os bilhetes esquecidos, os ensaios de algo novo.
É por isso que insistimos em existir fisicamente. Porque o jornal, em papel, fora do algoritmo, é também um atestado de presença. Uma maneira de dizer: estamos aqui. Em nossa imperfeição de tinta, ainda acreditamos em laços que se constroem com demora, com papel, com paciência. Nas margens se escrevem os comentários que escapam do texto principal. Onde nascem as perguntas que ainda não têm resposta. E por tudo isso, a quem nos lê, a quem nos escreve, a quem nos cobra ou nos defende: nosso obrigado. Por circular conosco à margem. Por entender que, em um tempo de sobreposição de ruídos, a existência de um jornal como o RelevO é, acima de tudo, um ato de confiança.
Uma boa leitura a todos.
Edição de maio de 2025
Rafael Maieiro: Kamehameha de papel
Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
O RelevO (orelhas de abano?) que você tem em mãos já não é apenas um impresso, é uma plataforma transmídia que encontra seu auge no formato de bolinha de papel.
Esse formato, poderia dizer, essa persona do ser social rs), nos acompanha desde o simples jogo escolar, bem antes da 5ª série, e até agora, como protagonista de atentados terroristas.
Faz a janelinha! Bem me lembro, jovens leitores, quando ela acertou a careca de um candidato à Presidência, o levou ao hospital, com cobertura de toda a mídia. Olhando de hoje, posso afirmar que foi a polêmica jamais vista do VAR. Daquela vez, a simulação foi revelada. Não entendeu? Transmídia? Dá um Google. Ou pede um QR Code.
Por isso, senhoras e senhores, não se enganem: o RelevO, com suas armas de destruição em amassa, é uma célula literário-humorística (CeLiHumor) que põe em risco a segurança nacional. Golpistas de plantão, neonazis e afins: abram o olho sobre as intenções deste Jornal! Esqueçam o Lula e o Xandão!
*
Já que não taxam as grandes fortunas, vamos tachar os grandes escritores:
— Eu queria ser palhaço.
— Você? Não seja ridículo. Vida de palhaço não tem graça. Você acha fácil fazer cem pessoas caírem na gargalhada? Continue dando capim aos elefantes e carnes ao tigres.
[…]
Um dia, o palhaço, seu amigo, chegou e disse, bem baixinho:
— Vamos fugir daqui.
— Mas não é perigoso?
— Afinal, garoto, você quer ou não aprender a arte da guerra?
Só então o garoto reconheceu no palhaço o velho da ponte. E ficou muito confuso.
— Quando você acha que a gente deve tentar fugir? – perguntou o velho.
— Bem, de noite, quando todo mundo estiver dormindo e tudo estiver escuro.
— Você não aprende mesmo, hein? De noite é a hora em que os guardas estão com os ouvidos como os de um tigre. Qualquer movimento, qualquer ruído, estamos perdidos. Vamos fugir amanhã de dia, na hora que ninguém imagina que alguém iria fugir. É a nossa única chance.
— E se não der certo?
— Então os tigres vão ter cozido no almoço.
(LEMINSKI: Guerra dentro da gente, Editora Scipione, 1990, p. 19-20)
*
Outros comentários sobre a edição passada (abril) ou quase:
[bolinha de papel standard] • p. 23Sim, o RelevO tem QR Code. Evitem esse recurso: ele nos rouba a alma.
[bolinha prateada de papel de cigarro] • p. 8“santa maré, mãe das rochas / e lantejoulas caídas de estrelas”. Este verso, aquele poema de Piera Schnaider valeu por quase tudo que eu já li no RelevO.
[pequena bolinha de papel na agulha de um zarabatana-bic] • p. 3 [cartas]Centrar fogo na orelha direita dos coleguinhas do Rascunho!
[recorde mundial de embaixadinhas com bolinha de papel] • todas as páginasTá repetitivo, eu sei. Mas a integração entre artistas visuais (na edição em questão, Oli Maia) e projeto gráfico (Bolívar Escobar) está cada vez melhor. Uau de uau mesmo.
[bolinha bet] • página secretaUm dos contos me irritou bastante. Odd 171. Adivinhem!
[a bolinha de papel de Zenão] • p. 5Os inúmeros arremessos deste colunista nunca chegam ao alvo, a testa do leitor. Mais um engarrafamento no Rio de Janeiro.
Não assassinado,
Defunto autor
Impresso 2222
Editorial extraído da edição de maio de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
A única razão de ser do tempo é evitar que tudo aconteça de uma vez, teria dito Albert Einstein. Se você está lendo isso é porque viu esta citação no site O Pensador ou, de algum modo, temos uma conexão. Não a de fibra ótica, mas alguma outra — sobretudo a que passa por interesses culturais e literários, talvez uma certa inquietação que sobrevive à bateria fraca, ou algum tipo de deslocamento de certa lógica hegemônica de comunicação. Você está lendo a edição 192 do nosso periódico. Faltam somente 2.031 para chegarmos à mítica edição 2222. Não sabemos bem até onde essa estrada de Gilberto Gil vai dar. Se mantivermos o ritmo mensal, chegaremos lá daqui a mais ou menos um século. Devaneios. Como diria Aldir Blanc, em ‘Resposta ao Tempo’, nós precisamos beber um pouco para ter argumento.
Mas enquanto a longevidade segue uma incógnita, a certeza é que estamos vivos agora — circulando, imprimindo (não oprimindo) e continuando. Não por teimosia ou fetiche vintage, e sim porque o impresso funciona para nós. É direto, não depende de servidor, não pede atualização, não sugere um assistente de IA e nunca nos interrompe com uma notificação de que “você pode gostar disso aqui”. O RelevO não sabe o que você quer, tampouco publica exatamente o que você quer. E isso, acredite, é uma bênção.
A internet, por outro lado, parece atravessar a crise existencial de uma meia-idade precoce, repleta de discussões sobre a morte de seu formato. De fato, nos últimos tempos, tem ganhado força a teoria conhecida como “Internet Morta”. A ideia, disseminada em um fórum por uma peculiar conta chamada Illuminati Pirate, é que a rede, antes (por supuesto) cheia de trocas reais entre pessoas, hoje está tomada por robôs — os famosos bots — que curtem, comentam, compartilham e até criam conteúdo sozinhos. Em diversos textos, já repercutimos o estranhamento que nos causam as interações de empresas fazendo humor (publi) com outras empresas, enquanto verificamos a vertigem natural do ciclo dos memes, que, saídos de um nicho, são repetidos à exaustão até serem devidamente enterrados pela inserção na publicidade intrusiva. A cadeia alimentar do meme.
Segundo essa teoria, a maior parte do que vemos online não é feita por humanos, mas por sistemas automatizados e inteligência artificial. O resultado? Um ambiente digital cada vez mais aguado, onde as interações autênticas dão lugar a repetições mecânicas, e nossos hábitos, gostos e opiniões passam a ser moldados por algoritmos que nem sabemos direito como funcionam. É como se vivêssemos permanentemente dentro de um episódio ruim de Black Mirror.
Vivemos, portanto, num looping de mesmice inflada por IAs treinadas para copiar outras IAs treinadas, que copiam textos de ninguém, com um coeficiente negativo de originalidade e surpresa. A promessa de um espaço de troca virou um cemitério de opiniões empilhadas. E ainda dizem que foi a imprensa quem morreu.
Pois bem: o RelevO segue impresso. E isso não é resistência romântica — é escolha editorial. O papel não vaza dados, não coleta cookies (nem sabe pra que eles servem) e não te “traquêia” no Mercado Livre depois de uma pesquisa sobre a sua lombar. A cada edição, oferecemos não uma timeline, mas uma curadoria. Não há rolagem infinita, só começo, meio e fim. Uma edição pensada para ser lida com calma — ou com raiva, se preferir —, mas lida. Um jornal que não te pede cliques nem te recompensa com dopamina digital. Ao contrário da lógica do feed, que te suga até o cansaço como um parasita, somos feitos para interromper fluxos, não para alimentá-los.
Não temos pressa, e isso é uma escolha. Em vez de sermos mais uma aba aberta no seu navegador mental, queremos ser o intervalo. Um suspiro editorial entre uma notificação e outra. Um convite a se demorar pela via da página como quem vira uma esquina inesperada e descobre uma cafeteria nova. Garantimos: aqui, cada texto passou por olhos humanos. Não estamos competindo por segundos da sua atenção. Impresso não é segunda tela, embora possa ser refletido na tela a partir de postagens, comentários, likes. Não somos contra a cultura digital, e sim contra oligopólios que querem que sejamos apenas consumidores derretidos na montanha-russa de produtos vagos e serviços duvidosos.
Mais do que nunca, leitores nos encontram por uma razão simples: estafa. De estar online, de não saber onde termina o conteúdo e começa a propaganda, de consumir e esquecer. E por isso nosso clube de assinaturas é regular, constante — ou, no padrão doente do mercado, estagnado. No fundo, apenas temos um ritmo menos histérico. Talvez nunca cheguemos à edição 2222. Mas a jornada, para nós, já é um acontecimento. E seguimos circulando. Porque o mundo pode ser algorítmico, mas você pode a qualquer momento nos amassar como um origami e não aceitar ser reduzido a um mero receptor de ideias gastas.
Uma boa leitura a todos.
Edição de abril de 2025
Rafael Maieiro: Spirogyra é spreadable e/ou ao contrário — E uns xis minúsculos no coração do jornal
Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Gravando! Não, corta. Pause. Não. Rola pra cima, digo, siga, à esquerda, com sua íris as linhas deste texto. RelevO anunciou sua rendição (?) à nova mídia social digital.
Toma-lhe, sem gelo, por favor!
“O RelevO é analógico, e o analógico está com tudo. Sobrevivemos à era dos blogs e agora, ironicamente, somos impulsionados pelo TikTok ou o que quer que nossos sobrinhos usam, porque tentar acompanhar é por si só a grande derrota. A questão é… por que parar no papel?”, está dito nos Anúncios do futuro para soluções do passado.
O bem-humorado texto quer dizer: Estamos com tudo nas redes. O impresso fica, mas vamos pra nuvem. Um dos papos mais interessantes sobre o assunto é com o tal do Henry Jenkins:
A propagabilidade [spreadable foi traduzido por propagável, por isso propagabilidade] está expandindo de forma ativa a diversidade cultural em função de uma gama maior de criadores de mídia ter acesso a públicos em potencial e de um número maior de pessoas ter acesso a trabalhos que, do contrário, poderiam estar disponíveis apenas nas principais áreas urbanas [Henry Jenkins com Joshua Green e Sam Ford. Cultura da conexão. São Paulo: Aleph, 2014. p. 289].
Mas não sei, não. Em 2025, me lembra algo que espera outro algo que já se passou há 20, 30 anos atrás. Ah, Sonhos de McLuhan no Verão do Fim da História! Na verdade, este ouvidor que fala demais está cada vez mais convencido de que o dito espaço virtual é um feudo dos naxis. Nesse (pouco) sentido, acho que o formato do jornal também deve involuir e ser publicado em rolo (volumen). Leitor, desenrola! Talvez faça sucesso editorial. Cada treco estranho por aí… Veja o tal do… Ah, deixa pra lá.
xis 9
Falo nada, escrevo do Rio de Janeiro.
xis 1
RelevO dribla e deixa no chão todos que encaram as letrinhas de alguns textos do jornal. Uma injustiça. Principalmente, na edição de março, com o trabalho de Amanda Fievet Marques.
xis menos R$ 594
Com 95% da meta atingida e ainda no prejuízo. Uma maravilha. Por isso, amo escrever neste jornal. Aprenda, progressismo Itaú. Imaginem se o editor fosse herdeirão…
xis desenhado
Amanda Guilherme deu um show em preto e branco. Alô, scouting do Botafogo!
xis no Godot? [cartas]
xis sem salada
Com Fernanda Caleffi Barbetta aprendemos: os cardápios são um gênero literário.
A informação instantânea, fornecida pelos meios de massa, deve ser completada pela informação calcada na análise, mais lenta mas presumidamente mais profunda. De qualquer maneira, todos esses meios, na sociedade capitalista, comercializam essa mercadoria especial que é a informação. São meios que vendem informação: quem controla a informação, controla o poder. [General Nelson Werneck Sodré. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999, p. XV].
Destinos, o Grande Jogo, aqueles que não cabem em editais
Editorial extraído da edição de abril de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Desde sua fundação, em agosto de 2010, o RelevO nunca se propôs a ser apenas um jornal de literatura ou, pior, um jornal de pares, com uma galeria de ilustrados recorrentes e um pequeno lote para os candidatos a ilustrados. Nosso propósito sempre foi mais ambicioso, ou melhor, em uma direção menos óbvia: sustentar, com independência e vigor, um espaço em que a linguagem possa confrontar, subverter, emocionar e provocar — sem dar sustentação a CPFs conhecidos, currículos repletos de conquistas ou medalhões dispostos a colocar mais um X na imensa lista de lugares em que foram publicados.
O RelevO é um jornal de textos que gosta de outsiders, famigerados, inclassificáveis, amaldiçoados pela sina da prateleira de baixo. Gostamos dos indóceis, dos que não pedem licença para escrever. Gostamos dos que não cabem em editais nem em feiras temáticas. Dos obsessivos, dos desajustados, dos desafinados. Publicamos o que não se encaixa — e é justamente esse desalinho que nos dá forma. Por fim, ainda tentamos praticar algum humor pelo caminho. Na contramão dos tempos vigentes, nos dedicamos à permanência — ao gesto e ao gosto de editar, imprimir, dobrar e enviar literatura pelo correio, mês após mês, como quem aposta na repetição da palavra impressa e na presença do outro.
Nosso jornal é feito de margens: estéticas, geográficas, afetivas. Somos de Curitiba, mas quem nos conhece mais de perto sabe que não frequentamos nenhuma mesa das bandas que mais tocam na região. Gente que nunca havia publicado em impresso recebe um pagamento (módico, de R$ 60) e, a bem da verdade, pouco nos interessa de onde seja quem escreveu. Também não nos interessa tanto de onde somos. Somos, afinal, um jornal de textos para leitores e que orgulhosamente não segue tendências — publicamos apenas aquilo que, de alguma forma, nos comoveu.
[Aliás, passamos os últimos três meses (e contando) lendo novos materiais e dando devolutivas aos escritores. De modo geral, é um processo tranquilo, lento e individualizado, embora um & outro acabe nos homenageando assim, de um jeito mais universal:“Percebo que seu comitê de leitura é assustadoramente limitado. Acho que vocês não entenderam nem meia palavra do significado da minha poesia de renome mundial. Mas cada um tem o direito de decidir como quiser. […] Muito obrigado, vocês são um bando de transexuais brasileiros idiotas que não entendem nada de arte. Dancem no Carnaval do Rio fantasiado de bufões e parem de se preocupar com arte. Seus idiotas!”.
Apesar desse tipo de retorno, digamos, mais emotivo, trata-se de um processo muito produtivo e que nos coloca diante do novo-novíssimo e do velho-velhíssimo. A partir dele, tentamos entender o que, hoje, leva um escritor ou uma escritora a sair dos escombros de uma página em branco e se mostrar ao mundo, a começar pela aldeia dos impressos.]
E quem lê tudo isso que publicamos há quase 200 edições? Quem nos ajuda a sustentar esse espaço rarefeito, improvável e um tanto fadado às melhores caixinhas de pets? É o leitor, a leitora; o curioso; o inquieto; o generoso; quem nos descobriu em uma panificadora de domingo; quem buscou uma edição em uma biblioteca pública. É o leitor que folheia o jornal no café da manhã ou no ponto de ônibus, que guarda um exemplar debaixo do braço, que marca uma frase com lápis e envia um e-mail depois dizendo “essa aqui me acertou em cheio” ou nos marca nas redes. O RelevO é um jornal feito com e para leitores que não querem apenas confirmar o que já sabem, mas topar o risco de serem desorientados por um bom texto. Leitores que sustentam, com suas assinaturas e sua atenção, a possibilidade de um jornal que não lambe vitrines nem serve de escada para o ego de ninguém.
Não temos um “comitê de curadoria” sentado em poltronas suecas, com jalecos conceituais e cenho franzido. Temos um grupo de pessoas cansadas, sim, mas inteiras, lendo tudo com o máximo de atenção possível. E o que torna tudo isso possível, mesmo com orçamento apertado e olheiras persistentes, é saber que há gente do outro lado. Gente que valoriza o texto bem colocado, o humor desgraçado, a imagem improvável. Gente que quer mais do que o óbvio.
E por isso, mais do que nunca, reforçamos: assim como a Receita Federal e a Wikipédia, o RelevO precisa de você. Assine, recomende, presenteie, envie àquele amigo estranho que coleciona selos e sublinha contos tristes. A cada assinatura, renovação ou exemplar enviado de presente, testemunhamos um pacto silencioso, porém profundo. Trata-se de um compromisso que vai além do apoio financeiro: é a afirmação de que ainda existe valor na leitura cuidadosa, na surpresa de uma página inesperada, no pensamento que se forma devagar, ao ritmo do papel. Os assinantes são os verdadeiros patronos dessa iniciativa.
Afinal, temos estrelas direcionando nosso destino ou somos meras peças do Grande Jogo? Talvez um pouco dos dois. Talvez sejamos somente um jornal literário de Curitiba, com orçamento apertado, diagramado madrugada adentro e enviado pelo correio com a esperança de que alguém, em algum lugar, vá folhear e nos dar um pouco de tempo. Mas também gostamos de pensar que temos textos nos guiando — um tipo de constelação que se forma quando um conto, uma crônica ou um ensaio encontra seu leitor, quando um envelope cruzando o país vira um sinal improvável de que a linguagem ainda conecta algo.
E se o destino tem mesmo estrelas, quem segura a luneta somos todos nós: leitores, apoiadores, autores, editores, críticos e entusiastas. Cada assinatura é uma pequena revolução contra a pasteurização cultural. Cada apoio é um lembrete de que ainda há espaço para o singular, o excêntrico, o fora de catálogo. O RelevO não existe sem você. É um projeto coletivo, imperfeito e orgulhosamente artesanal — mas é também um delírio compartilhado que resiste ao tempo, aos cortes e às certezas.
Por isso, deixamos aqui o convite: apoie o RelevO. Se você já é parte disso, renove. Se ainda não é, venha. Junte-se a nós nesse jornal que ousa ser ao mesmo tempo palco e bastidor, confessionário e picadeiro, bússola e tiro no escuro. Porque, no fim das contas, talvez sejamos todos peças do Grande Jogo — mas, juntos, podemos mover a pequena mesa da nossa sala.
Boa leitura a todos.
Edição de março de 2025
Rafael Maieiro: Epístola Pueril Sem Número 34 – Zeh Gustavo: “Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas” (M. A.)
Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
“(…) Não vai adiantar nada eles encostarem suas cabeças no chão e pedirem Volte para cá, querida! Vou simplesmente olhar para cima e dizer Então quem sou eu? Primeiro me digam; aí, se eu gostar de ser essa pessoa, eu subo; senão, fico aqui embaixo até ser alguma outra pessoa… Mas, ai, ai” exclamou Alice numa súbita explosão de lágrimas, “queria muito que encostassem a cabeça no chão! Estou tão cansada de ficar sozinha aqui!’” (C., L. Alice. Zahar: 2009)
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Porra, Zeh!
Está difícil. Qual o maior problema de um ouvidor: não ouvir ou não ser ouvido? Me encontro agora, em frente ao espelho, tateando estas linhas paralelas no celular. Não vou me estender por 34 minutos tentando criar, num velho passe de mágica, re-ReveladO por um youtuber-coach há 34 minutos atrás. Não, Zeh. Não vou, não quero. (Cantarole, deístico leitor).
Voltemos! Podia usar o nobiliárquico título de ombudsman para envenenar, mesmo com uma roupagem modernete, os leitores com uma cansativa leitura critiquíssima do RelevO. Mas aí, né… Que contratassem outro! Já faço o favor de escrever em linhas paralelas e outros formalismos: eu não uso blusa da Farm.
Não, Zeh. Não, não quero. Um jornal literário? Então, vamos lá, tentei fazer da tal da Ouvidoria um espaço da ficção. Narrar, não os fatos em si, mas a vida como ela é na sua lida — ficcionar, leitorzim, é muitas vezes mais realista do que a tentativa malfeita de descrever, detalhadamente, bobagens.
Tá, Zeh, vou. Tô te ouvindo aqui na minha cabeça. Mas por onde, pobre diabo? Merda! O espetáculo acontece a cortina, plateia apática. Fora do teatro alguém diz que não assiste a espetáculos sem banda. No fundão do teatro, quase anônima, uma moça bate uma palma como uma Deusa da Ironia e adia por alguns segundos o Apocalipse. Mas e a vaia? Cadê a vaia, o xingamento, alguma reação do Universo que não seja um xis na plataforma nazista?
Deixamos eles, Zeh?
Aguardo a sua resposta.
Beijo,
O Outro
Ainda: por enquanto, pulem esta coluna. O RelevO, este maço (martelo) de papel, pássaro voando pela rua sombria dos tempos de merda, faz algum sentido. Quem sabe ele não empastela os seus olhos para além das paralelas.
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Mês que vem voltamos? Aguardem! Provavelmente, não teremos novidades.
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Aguardando a resposta do Zeh:
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A imagem, o som e a letra impressa
Editorial extraído da edição de março de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Quando o RelevO surgiu, em setembro de 2010, éramos pura celulose e tinta, um amontoado de páginas que se recusava a obedecer a qualquer lógica que não fosse a nossa. A cada edição — com diagramação gradativamente melhor —, fomos desenvolvendo algumas linhas de certo humor caótico, ideias que se jogavam do penhasco sem saber se havia chão. Agora, estamos prestes a expandir nosso bestiário para o audiovisual. É um novo horizonte para esse modesto balcão organizado. Mas não se preocupe: ainda gostamos do cheiro do papel e da sensação reconfortante de que, mesmo se a internet cair, o impresso continua ali, firme, na gaveta, debaixo da mesa ou servindo de apoio para aquele pé de cadeira bambo. Mais: o impresso paga contas.
Nosso jornal sempre foi um convite à leitura torta, ao texto que parece errado. Agora, queremos experimentar o peso da imagem, o ritmo do som, as possibilidades do movimento — sem perder nossa veia seletiva, satírica e, acima de tudo, inquieta. Isso significa que [quem sabe] teremos vídeos desafiando a lógica do algoritmo e um conteúdo visual que, se bobear, poderá muito bem ser desenhado à mão. Vamos estudar as possibilidades, sem esquecer que nosso porto-seguro é de papel, dobra no meio e resiste ao tempo melhor que qualquer feed.
A expansão para o audiovisual nem tem como implicar um adeus ao impresso — longe disso! É só mais uma forma de provar que a palavra não precisa ficar restrita a um formato. Vamos testar novas formas de contar histórias e provocar. Quais? Ainda não sabemos; estamos apenas confabulando. Precisamos apenas continuar nos divertindo e desempenhando algo dentro do nosso limite técnico. Nosso singelo círculo de competência. Temos o mais difícil: anos e anos de conteúdo original, não necessariamente de qualidade.
Mas calma, para quem já estava preparando o textão, quem sabe alardeando que “o RelevO se vendeu para as telas”, fique tranquilo. Nosso maior sonho ainda é perder a alma para a Red Bull e virar um cone de arrancadão. Nossa tradição gráfica segue viva e forte. Continuaremos a estampar páginas com textos que desafiam padrões, referências que só três pessoas entendem e piadas que, às vezes, só fazem sentido três edições depois. A diferença é que esses mesmos devaneios febris poderão ganhar voz, trilha sonora e até dublagem dramática.
Portanto, revisem seus conceitos de Jornalismo sério e esperem por algo que nem nós sabemos exatamente como vai ser — essa sempre foi a nossa maior especialidade. O RelevO está ampliando sua bagunça organizada. A diferença é que, agora, talvez ela tenha vinhetas.
