Zeh Gustavo: FAÇA AMOR! FAÇA ARTE! E pode fazer suas merdas também!

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Calma lá, não baixei de coach, ainda sou alguém. E este título se inspira noutro, do Fausto Wolff, de crônica de junho de 1981, n’O Pasquim: “Você não é um merda!”. Nela, Fausto ataca o “complô maquinado (…) para que vocês esqueçam o fim que dá significado à existência de vocês. Um plano para transformá-los em mortos-vivos, sem vontade própria (…).” Em outro momento, incita o leitor a entender que pensava; que sentia; que, afinal, vivia – não era um telefone! E Fausto escreve numa era pré-smartphone…

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“O silêncio é uma ética.” Anda difícil o ombudsman não citar nossos Editoriais. “As nossas vidas são permeadas por um constante fluxo [tagarela, como o define Adauto Novaes] de informações, notificações e alertas que competem por nossa atenção, fragmentando nosso foco e nos empurrando para hábitos de hamster.”

A tecnologia atual é contrarrevolucionária, reativo-positiva, no sentido de que cria mais e melhor de um mesmo que nos joga para trás. Somos instados a nos superarmos em troca de uma espécie de pseudoeus (inter/super)ativos que nos ocupam o tempo inteiro, sem pausa para o silêncio premente à produção real de sentimento e reflexão.

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Mas não renunciaremos de todo a nós, certo? As “Nuvens não querem se separar das montanhas. / Vivem assim: em luta eterna para conciliar seus desejos.” O Hino à sedução do tudo, de Adonis, é dos vários pontos altos da última edição. Outro verso, de “Divisórias”: “Você, coisa incompleta, / inicia a perfeição.”

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Trauma da contemporaneidade: o consenso em torno de uma autovivência condicionada, extenuante, fármaco-dopada, individualoide e precarizada.

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Outro: o neomoralismo. Camaradagem, toda bundinha já esteve e estará um dia suja. Não se rebaixe à canalhice do lugar-comum de frases como “Não passo pano para…”, porque você passa sim, geral passa pano, toda hora, porque se não passar não tem vida em sociedade. Vivemos de passar pano. A novidade é a escalada preocupante do cancelamento, fantasma onipresente, que habita o mundo do juízo deserto de qualquer razoabilidade, que não dá a menor pelota ao contraditório e ao perdão do erro, que visa a punir sem prazo e muitas vezes nem lei.

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Que duo formoso a obra plástica de Oli Maia, em que a gente nota cores mosaiculosas num singelo preto e branco; com o “Costume” de Anderson Almeida Nogueira, p. 22-23 (volta lá no mês passado para seguirmos juntos adiante). E aí a gente vira a página e tá lá estampada a letra de um genuíno samba ensinado por Zé Keti e Elton Medeiros: aquilo que “Não fala, meus amigos, de ninguém / Simplificando a história / Não fala de mim também”. RelevO, definitivamente, não é qualquer parede.

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Isto, obviamente: tal de defender a profundidade, prioridade, preciosidade que é existir, não se trata de o indivíduo se pôr a babar asneira academicuzona ou namastê-afetiva na internet, recomendando (aff!) leveza no relacionamento (ficou demodê falar no seu correlato mais fodão, que seria amor, como trocam fácil arte por diversão numa programação dita cultural) e outras bobageiras graciosas.

Sabe o que é leve? Merda. Sempre boia, no mar. Em suma: faça das suas, mas corra de sê-las.

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No meu último escrito que talvez tu leias, (re)luto ante teu medo e incidente confusão; ainda e sempre, nos insisto. E, já que urge a vida, que é esta, como a temos e não como gostáramos numa visada de novela ou partida tensa de fuga de rebaixamento boleiro, te grito: mergulha! Que oceano é coisa nossa de não perder de vista, para além. Mergulha logo. Que, no início, a gente bate perna; uma hora até aprende a nadar.

Zeh Gustavo: DE COMO OUTRAR É PRECISO e a máquina de triturar autores (e seus livrinhos)

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Naturalizou-se a disgrama: a literatura-literatura (alô, Odvan! abraço, Luxa!) depender de autores venderem seus livrinhos aos amigos e parentela; livrinhos esses fabricados por editoras cujos clientes são os próprios autores, por sinal vistos como menos que clientes, algo como uma gente chata, que não entende o processo.

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Vivemos do descontão de 30% de que falei de passagem na última coluna, concedido para comprarmos e doarmos ou revendermos, de mão em mão, nossas próprias obras. Não se fala mais em remuneração dos autores. Não se fala mais em distribuição. E faz é tempo! O livro (não) é vendido no site da editora. Não há estratégia de lançamento, cuja organização igualmente recai nos ombros dos autores. Aí vem as feiras — para as quais você se desloca com os seus próprios recursos, se delas a editora participa. Carece sim dizer: não está bom, não está justo.

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Não, não meti atestado. E sei o que li no jornal passado. Por exemplo, a espécie de autoalta que Diana Joucovski se deu para contar que “alguns já nascem como a noite: demasiados, indomáveis, criaturas horrendas passionais, tão humanas que beiram à desumanidade”. Laura Redfern Navarro, por sua vez, nos apresentou ao termo aotubiografia: escrita do si no tu. Com todo o respeito, é claro!

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F. Da Costa ilustrou com traço peculiar e manchadiço uma edição de diagramação redondíssima. Nem sempre atentamos à forma, adictos que ficamos em conteúdo. Largados na ilha, desprezamos o continente, inscrevemos em nossa fala diária que queremos ir ao mar, seja como for: “mas nada dos rudimentos / passa em branco”, nem mesmo aquela “faísca alada / que saltita pela casa/ inundada de noite / e anseios quebrados”, como verseja Nadja Rodrigues.

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Há que notarmos, ainda, a inquietação com que o RelevO aborda o tempo. Não, não é sacanagem: filosofia, que chama! Em pleno e pelo impresso.

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Enshittification e gamificação são duas fases do mesmo jogo de tornar as experiências da vida em unidades de um negócio pulsional absolutamente descartável.

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Nós escribas aceitarmos de boníssima pagar pelo nosso trabalho deve-se à premência um tanto egoica mas também altruísta ou missionária que temos de continuar a produzir e lançar nossas coisas, fato. Contudo, o silenciamento a respeito das más condições em que isso se efetiva remete a uma autoimagem rebaixada a ponto de fazer corar o vira-latas complexado do Nelsão; e/ou à condição de pertença, de tantos, a uma classe mais remediada, outro fato. Mas, olho no lance (saudade, Silvio Luiz!): se sucumbimos diante das contingências como se elas fossem inescapáveis (coitada da editora, ela é pequena!), quem achamos que vamos enganar com isso, além dos nossos mais chegados, que já devem estar de saco cheio de, sozinhos, nos prestigiarem?

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O eu é o centro e o alvo do descarte vital consentido. Outrar é preciso. Até para obrar.

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Fechando o reclame do ombudsman: causam-me, até hoje, absoluta perplexidade o surgimento e a longevidade de (bons) prêmios que requerem a concorrência exclusiva de autores inéditos. Que raios de fetiche é esse de renovar o cabedal de futuros trabalhadores precários do meio (fodidos privilegiados, como dizia o saudoso Abujamra!) lhes dando uma oportunidade que não vai se repetir logo adiante?

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A gente brinca porque ainda está num certo (falso) controle. Porém, os mad menx estão aí, na raça!, nos pedindo um soco na cara que nunca lhes damos. “O que você afinal faz no seu trampo? Ah, meu, eu sou um criativo!”. Não se engane: eles parecem fofos, mas merecem uma morte lenta e cruel.

Zeh Gustavo: ESTÃO MATANDO TUDO SEMPRE mas a gente só morre amanhã

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Ao menos, em tese. E calma lá: informo que não sou doutorando em nada! De certo, certo, só temos que Não é dinheiro não! é o novo Me dá um trocado? e que empreender virou verbo intransitivo.

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Mas estão matando mesmo. O projeto é de precarização da existência: tornar o ser numa atividade inusual, ou prescindível, ou capenga; algo qual uma disparatada (dis)função cujo ímpeto, horizonte enquanto (meu revisor interior saiu pra comprar cigarro!) ação se pudesse superar, sem prejuízos, pelo consumir produtos, processar dados, lacrar na rede.

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Querem me sacanear? Façam por onde! E capricharam os autores de junho do Jornal — em que passo vergonha, mas mando aquele SOS diante do fim da arte, da revolução e do amor como utopias-guias pra gente aguentar o tranco. Com a palavra, o ex-supervisor de inteligência estratégica do excelente conto de Saul Neto, que abre o último RelevO: entregaram!

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Da provinha da aquarela de traços épica de Era uma vez no Contestado, romance-quadrinho-milonga do André Caliman, recém-lançado, à mochila carregada das falhas que negamos e que Catulo nos acusa termos sempre às costas; da gargalhável colagem do Informe Publicitário ao inspirado Editorial sobre a saga do impresso (“A nossa inadequação, quem sabe, seja a nossa fortaleza”); no poemário com, entre outros, Douglas Batalha — obrigado pelo verso com que abrimos este ombudsdito! — e Bruna Gonçalves (o Algoritmo é a unidade de afeto do desamor-livre): estupenda, a edição!

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Eu só nunca entendi o David Bowie, tampouco intento fazê-lo, e falo (não) só pra garantir os xingos da rodada. Juro!

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Ainda Saul Neto: se tenho um vício, é o de não dar muita pelota para texto literário de cuja leitura não se guarde mísero trecho, expressão, diálogo nas ideia (o revisor ainda não voltou!). Dramaturgo fascinado por Dostô, Nelsão Rodrigues foi o que foi por ser também um baita frasista. N’O teatro dos loucos, ele tasca que “A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz.” Para tanto, lidamos com coisas como “um ódio bem guardado dentro dos ossos capaz de desejar a aniquilação ou apenas o sumiço sumário” de desgraçados que “gostam de mostrar o pequeno poder que exercem sobre os outros os fazendo esperar”. Bravo, Saul (#somostodos sobreviventes do estilo)! Depois me manda seu livro, camará!

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A roda gira, gira a roda. Não é clichê, mesmo o sendo — é mantra para quem topa os segredos das matas invisíveis que nos rodeiam, do mar em que pouco(s) mergulhamos disponíveis a ouvir seus silêncios, do rio que passou em nossas vidas e o coração se deixou levar. Laiá, Paulinho: quantas vezes isso tanto nos doerá pelo caminho?

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Elogiar, elogiei. Mas bora de errata? No afã de cobrir o efervescente mercado de transferência de síndicos, a editoria marcou passo em relação ao próprio nome da lei-sonrisal que, economistas projetam, vai fazer o PIBão do papi Haddad subir uns 2 cm, ops, 2%. A lei é conhecida, afinal, como Novo Marco Síndico (o que já rendeu, por troca do lugar em que se bota o acento, com todo o respeito, é claro, piadinhas infames no colo da rampeira Jana). Síndico, e não sindical. Belezinha?

Obs.: o termo sindical remete a uma antiga tradição de reunir trabalhador (algo parecido com o atual colaborador) para reivindicar direitos, quase que suplantada pelas boas práticas inauguradas com o Plano para o Futuro do Pretérito do ex-golpista e agora vampiro, não necessariamente nessa ordem, Michel Fora Temer (mal aí pela lembrança!).

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Sempre volta a metáfora do zelador de Dias perfeitos: continuemos, a cada banheiro, lutando para que não aconteça, por irrazoável escrutínio ou inércia destrutiva, de depositá-la — a tal de vida — numa latrina.

Zeh Gustavo: DA ANESTÉSICA INDIFERENÇA DE UMA LONGA AGONIA

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O trânsito infecundo das horas e anos, as tragédias em série da (in)consequência do Antropoceno, a troglodice da extrema direita ultraliberal não ajudaram para uma mudança abrupta de visada, em que pese seguirmos fazendo nossas coisas e comprando nossos próprios livros (os que insistimos em escrever) com um descontão de 30%. Pois então: sabe aquela candura de poeta de sarau, olhos brilhosos, gestos expansivos? A coisa do “Porque a puesia (complete com o que quiser de bonitinho aí)…”? Pois é, nunca me convenceu! Sempre achei que, dentro ou fora daquela, desta bolha estávamos – e estamos – é muito fodidos.

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Não há muito o que comentar. Na boa: maio/2024 foi a pior edição do RelevO que já li. E não culpo o Conselho Editorial pelo meu drama pois curadoria trata-se de mera cambonagem: quem incorpora a literatura na nossa tendinha impressa é quem a escreve. Confere, produção?! Ou tava todo mundo mesmo de sacanagem e sobrou pra mim o bagaço da laranja?

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Ou devo eu tergiversar acerca do respeito que Cícero afirmou terem os juízes – os juízes! – pela voz dos poetas (!)? Rimbaud: após tanta humilhação, restaria alguma dignidade? Noutro vértice: Vitor Miranda de fato deixou – ou deixaria – de ser um canalha? Ou foi visto estacionando no Leblon com o Caetano? Henrique Pitt: tal de maturidade literária é de cumê? Ou é biricutico? Me conta: fica bom com o quê? No mais: siameses separados, mula-mulher sem cabeça que deu pro padre, cartas nunca enviadas a Deus (faltou o CEP?), o cosmobol da Serra Talhada, uma ode ao tomate na fruteira (!) e outra à apoptose (!!!), em dois poemas empolados…
Sono. Muito sono.

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A pior edição. Mas, e daí?

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Eis que a literatura se encontra enfiada em uma longa agonia, que se acelera. Porque a literatura não importa. Romances-vivências, contos com participação dos leitores no Kindle (engajem ou morram, seus fidumaputa!), poemas do tipo olha-o-que-andei-lendo-pro-meu-doutorado ou faço-valer-minha-identidade-oprimida o comprovam. Não importa a literatura se você praticou inclusão. Não importa a literatura se você não praticou inclusão. A literatura – como texto de ultrapassamento da linguagem, rasura-testemunho de uma época, jogo de luzes no breu dos debates comuns, fossa da linguagem em fissura –, a literatura, como tal, não mais importa.

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É essencialmente estético. E o estético é político. E define nossa existência perante o outro, no mundo. A vida precisa ser bela. E o belo, nesse caso, não é um ornamento, mas um princípio – alguma tentativa, forma ansiada do ser que verse sobre o único e plural, o singular e vário. Ao mesmíssimo (contra)tempo. Ainda que entre notificações do celular.

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Exceção única (o fumo que se fume: que nunca mais se use Campos de Carvalho de muleta!): a cobertura (isto aqui permanece um jornal!) que o Enclave deu ao filme Dias perfeitos. Com este vaticínio: “a beleza se encontra em dois opostos complementares: (1) a repetição consciente e (2) a quebra inesperada (…). Abraçar o primeiro ajuda a saborear o segundo.”

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A indiferença geral machuca, claro. Mas dói mais a indiferença manifesta em apatia e obra insossa, alheia tanto à consciência de se empreender uma repetição quanto à premência do se buscar o inesperado. Até quem normalmente já seria medíocre pode mais.

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Na textura dos silêncios, a gente apanha da reflexão, que é ulterior ao sentimento. Nasce, assim, o insight. Ao termo em inglês, a preferência da firma é por estalo. (Haverá tentativas de indefinição semântica desse termo, em breve ou nunca, neste periódico.) Depois disso, dá um trabalho danado, ainda.

Zeh Gustavo: O ALIMENTO do zelador sensível

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Acontece, já dizia Cartola [1], sem que a gente deva prescindir do conselho. Você está ali, distraídis… (Mussum é desinência neutra de raiz! [2]). E dá de cara com algo – aquele algo, que pode ser uma pessoa, uma coisa; uma paixão, um assaltante; um arco-íris, um tsunami. Chamam de destino, mas a gente podia aprender, um dia, a tratar a poesia pelo nome.

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Acontecimento é um achado que não se procura, logo adiante; tampouco num retrovisor, quer irradiado de ternura ou de indignação. O acontecimento é uma situação. Certo movimento tomou tino das duas noções e tratou o mundo a fim de reivindicá-lo outro: o situacionismo. Um de seus maiores expoentes, Guy Debord, sacou da tese da sociedade do espetáculo para destrinchar as manhas do fetiche da mercadoria, em sua associação com o estabelecimento da imagem visual como linguagem soberana de nosso tempo – isso na década de 1960! Direto ao ponto: a imagem visual sequestrou o instante – junto com o prazer do presente – e não pediu resgate. Até hoje.

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Ah, Jaine Oster: “Assim como o fim do mundo, a epifania, essa palavra tão gasta, não vem de uma explosão, mas de um lamúrio – ou mesmo um bocejo.” Lamúrio é o que mais vocês têm de mim – dou o meu melhor, não? E aceito, em troca, um bocejo. Boom!

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Desafio do mês: descubra a frase lapidar do editorial de abril e, com seu talento, a transforme em sabedoria de para-choque de caminhão. Dica: se você trocar o sujeito dessa frase por O samba ou A literatura ou A arte, juro que vai dar, o sentido, quase no mesmo.

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Arte é o banheiro invisível cujo zelador, tal de artista – também conhecido, no baixio, por alcunhas como Se Fosse Bom Estaria na Globo, Um Dia Ainda Vão Te Descobrir e Vagabundo da Rouanet –, limpa os dejetos de uma sociedade prisioneira de sua pouca afeição ao que de fato importa. E, no geral, ninguém lhe agradece por isso. Ah, a pandemia… Responderia o Pedro Pedreira, inesquecível personagem do ator e último vereador eleito pelo Partidão no Rio, Francisco Milani: “Não me venha com chorumelas!”.

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Bobos de criação (ainda Jaine!) não merecem sacos de pipoca. Merecem ser posto para fora do cinema (ou do parquinho). Pega a lógica, pelo rabo: Glauber Braga chutou foi pouco!

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Enclave: vivemos imersos num, em meio à deprimência dos anúncios, à bestial virtualização e empobrecimento das experiências e ao surto de autodestruição financista. Apesar disso, e em vão, e não, (ainda) escrevemos.

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Ah, Anne Carson: “Nosso amor, esse incendiário meio doido, / corre uma vez ao redor da sala / chicoteando tudo / e se esconde de novo.”

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Instante é o fundamento do nosso devir transeunte; sopro de vida, sob ruídos de um antes, em rota de alguma ainda possível (re)inauguração.

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Ah, Maiakóvski: “Eu fico sozinho, como o último olho / de quem vai embora com uma pessoa cega!”.

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Por outro, e mais um; o primeiro, o próximo, o último. A gente ainda o sente por perto, como que entrevisto na noite esconderijo a que se refere Menalton Braff. O instante insiste. E acontece.


  • [1] “Acontece” foi a música predileta do vate da Estação Primeira, para quem ninhos de amor no vazio consistiam em tema assaz angustiante. O Angenor era um baita dum zelador sensível das dores que perpassam todas as eras e esferas.
  • [2] Já subjaz evidente que lacrar exige uma seriedade, uma soberba, um ar suposto sóbrio, akademicuzinho ou zão, né? Então, pra que citar o Antônio Carlos, que ainda por cima era preto (não militante), músico e palhaço?! Por que aderir a um modo humano-humorado de lidar com traumas, dívidas, transvisões do passado? Madame Treta não gosta que ninguém sambe.

Zeh Gustavo: ESCREVER: o diabo que mora no detalhe!

Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Enfim um tema sério e que importa aos leitores? Absolutamente! A culpa é da ressaca, daquela melancolia que supõe assumir, e diante da tela em branco (porque o teto está preto?), e diante de ti, e nas tintas deste impresso, que o ano, inadiavelmente mais, começou. Arre, que não dá mais para tapar o sol da realidade com a peneira de um cavalo-branco sorvido todo, a gente de palhaço numa terça fevereira.

O mote: as Cartadas literárias da edição que passou. Como poderia me ser indiferente tal apelo: “Quer prêmio, medalha, reconhecimento, amor? Escrever é só um detalhe”.

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Acrescentei o diabo ao detalhe. Porque, para gente da minha laia — que lê o Zé Kéti para ouvir a Hilda Hilst, que tem no Abraçado ao meu rancor do João Antônio um título-lema de vida, que sente nas prosas da Tânia Faillace e da Márcia Denser os ecos da forma narrativa que irrompe o instante para chamar o tempo pra briga (ou pra cama), que crê na poesia atual, qual a do Edimilson de Almeida Pereira, como uma tremenda força-motriz de interpretação do contemporâneo —, risco é regra, o que é torpe serve de guia, erro é caminho. Escrever nos suplica, quando não impõe arbitrariamente, aquele incerto pacto imaginário e cabreiro celebrado entre vísceras e neurônios, epifanias e aflições, belezuras e demoninhos interiores.

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O voo imprescinde do rasto de falha, sangue, fluido, lágrima. Quem procura relacionamento leve com a escrita — e com a própria existência — deveria virar coach, não autor(a) de literatura. Não é fofo fazer arte. Tem momentos em que essa fixação que certa feita nos baixou beira, inclusive, o autoflagelo.

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Para não dizerem que não falei de autoficção: esse termo o cunhou Serge Doubrovsky e ele tinha originalmente muito pouco a ver com o que a linha editorial do RelevO tenta evitar ao convocar sua chamada para novos textos. Para o amigo Doubrô, autoficção intersecciona memória e rasura de linguagem, em uma espécie de bioescritura em que a vida é também compreendida como artefato, constructo estético-político, à la Foucault.

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O poema de duas páginas de Carvalho Junior encorpa de boniteza o último jornal, boniteza que não contradiz, de jeito maneira, o que antes expus sobre o fazer arte. Há outros e muitos modos de escrever — cada um se pendura no que pode, já insinuava o xô-xuá do mestre Riachão da Bahia. De ombudsmada do mês fica que O homem-tijubina demonstra, como destacado já fora pela Amanda Vital, que o RelevO pode mais em termos de generosidade de espaço para a poesia.

Ó que bela rasteira: “o homem-tijubina tem um paladar exigente. não digere o ovo do óbvio. somente silêncios de pássaros lhe passam pelos gorgomilos. (…) quando o indagam a respeito desta passagem, diz que o outro lado da vida está no verso.”

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Pode parecer, mas não tenho “o coração envolto em fuligem” — com baita texto, baitas imagens, André Miranda nos apupa em seu “Urraca”, em que pese não ter alcançado de onde vem afinal o bendito nome da personagem (será ainda a ressaca?).

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Estou em campanha: use, sempre que for publicar seus textos, divulgar livros na redessoci, a hashtag #algoritmofdp. É cair atirando, afundar com a orquestra a tocar afinada, morrer segurando o copo.

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E, se eu falei muita besteira, se o Marlon Brando não é páreo pro seu charme, se você não vai mesmo com as minhas fuças, se a Vai-Vai ofendeu a entidade Tiozão do Pavê que você carrega até no Carnaval quando põe um maiozinho, se você ama MAIÚSCULAS ou acha um ab-sur-do! a Alessandra Negrini de índia no Cacique de Ramos, para qualquer coisa, para quem precisa — o Tony revisa!

Zeh Gustavo: Crise: o que faremos depois da escrotidão?

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


A culpa não foi, tanto, minha: as cartas de janeiro é que deram a deixa. Valeu, Catarina Lara Resende (será ela parente do Otto, amigo do Nelsão, a quem este atribui a frase “O mineiro só é solidário no câncer”?) e suas Doses de escrotidão! Teve ainda o relato do apogeu e queda do Clube de Literatura Café no Cocô, por Cândido Magnus, um nome acima de qualquer suspeita. Houve as saliências de Natan Schäfer, citando José Paulo Paes: é sempre por essas que escrotos como nós geramos algo como “[…] a carne possuiu a carne” ou “nossa cabana tem furos no telhado”, em que se acusa a Lua de ser uma tremenda voyeuse. Então pediram, ah se pediram!

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O Conselho Editorial deixou passar mais esta: a terapia não está, nunca estará em dia — falta-me, além de fé na viabilidade de uma adimplência psicológica (!), o quinhentão mensal para minha autoelevação espiritual diante do mundo da classe média analisada. Mas, ao contrário da Matilde Campilho (aquieta, coração!), eu choro fácil. Isso equilibra um pouco as coisas?

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Já me apresentei, seção passada, mas faltou dizer que eu sou um cara meio escroto (e precisava?), daqueles apaixonados pelos boleros lúdicos e torpes de Aldir Blanc, pela cafajestice lírica dos filmes do Hugo Carvana, pela rouquidão gostosa da Zezé Motta e pelos palavrões da Dercy Gonçalves. Arte-xarope eu tento sequer nem comentar, quanto mais doar-lhe um roçar qualquer de meus sete sentidos.

À questão: não bastasse o sequestro de ao menos certos simulacros de escrotidão pela direita mais imbecil — a fascistada que devia estar em cana! —, noto haver ainda uma outra crise, fruto de um surto de (pseudo)moralidade nos discursos, sobretudo os virtuais. E onde falta escrotidão também há de faltar amor & arte: não há literatura sem flores de escatologia e cretinice, ou seja, escrotidão tirada a método e a quente; tampouco amor sem uma sacanagem de leve, essencial à construção de afetos, digamos, mais carnosos. A assepsia da vida, tudo controladinho como num aeroporto, é o maior dos precipícios.

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— Fiu! Já sei! Fazendo caras de intelectual fingindo que tem vida interior intensa, né, ô babaca?!

—Poupa meu saco, Passarinho, poupa meu saco! (…)

—Já sei! Fazendo caras de intelectual da geração perdida, fingindo que é agressivo e vingador, né, ô Hemingway de merda?

Carvana e Antonio Pedro riem de soslaio em certo momento dessa passagem antológica de Bar Esperança: o último que fecha, com Denise Bandeira nuíssima, Marília Pêra impecável de descolada, Pereio de Pereio e uma penca de gente-personagem em rota fácil de ser cancelada no mundo pós-escrotidão. Como a boa sem-vergonhice, acha-se grátis o clássico no YouTube.

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Bolívar vai à academia. Olho assustado, adio o quanto der a missão, mormente após trocarem o velho malhar por treinar, o que nos remete à antiga Melô do Romário: “Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer?!”

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Erlândia taca o porrete em almas amesquinhadas pela busca do encontro flácido: somos, cada qual, um microacidente “[…] que é milagre / e desastre / na mesma medida”.

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Escrutinadores da Akadimia pululam na redessoci e amam um Jorge Aragão feito com caipirinha de 51, com um toque de análises sociológicas do novo BBB. Às vezes, misturam Belo a discurso massa-empoderadx e Bacardi Maçã. Denúncia: é no dia seguinte disso que boa parte dos artigos e papers são produzidos.

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Lembremos do que nos dizem os verdadeiros pulhas: crise é oportunidade!

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Baby, pode soar a cantada barata, mas é importante para o futuro da nossa relação: você já ouviu falar de caralhinhos voadores?

Zeh Gustavo: Cuidado: há um sambista na porta lateral!

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Jards, o Macalé, já cantarolou: há um morcego, há um abismo na porta principal. Pega o fio: aos 15 anos nasci, sob o céu alaranjado da Gothan City literária, já desguiando para a música, para a roda de samba. E assim a margeei — por exemplo, publicando livros sem torná-los de fato públicos, essas especialidades do ramo! —, com a dignidade de um penetra convicto ao se dirigir sorrateiro à cozinha da festa de bacana atrás de um gole de conhaque. Ora me apresento, entortando Macala: há um sambista na porta lateral da literatura! E dela para a p. 5 deste RelevO — mandato curto, passa já!

Mó responsa: quem há de superar a verve bem urdida e humorada que faz da prosa da Amanda Vital, ombudswoman que sucedo, poema-crônica deste tempo tão certinho das ideias como o Simão Bacamarte do Machadão? Prometo tentar não ser mala, atributo honorável para todo escriba, mas vamolá: quantos textos literários citam um samba, um sambista sequer? De orelhada, recordo o João Antônio com seu Guardador dedicado a Cartola, livremente inspirado no episódio em que Stanislaw Ponte Preta encontra o vate de Mangueira a lavar carros na lindona Ipanema das bo$$as.

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Ao inaugurar este ombudsdito, na música me apoio para me acercar de palavras que dizem das de outrem, ante o diverso corpus textual de cada edição. E assim vumos diretos pra delegacia (bença, João da Baiana!) tratar da de dezembro e da parte que me cabe, neste literafúndio (ui!): a ilustra de Gilberto Marques nos fita, olhos cerrados, a se perfilar entre a arte cega que seria a expressão máxima do desenho posta a dialogar com a rasura da memória, como sustentou Derrida. Bolívar Escobar dá rasante sobre a história do pensamento pegando de mote… uns memes clássicos! E eu achei bonito, viu? Também jogo no time da não metafísica.

O relato de Gumbrecht, em tradução de Bellin, sobre seu almoço com Foucault evoca a (des)graça dos encontros que morrem no quase da expectativa com que se forjaram. O que se teria sucedido de nossas vidinhas se eles vingassem, os danados? Não sei você, leitor(a) — eu fujo das desinências neutras, sobram-lhes bons intentos, falta-lhes musicalidade e a mim, ainda, a crença de que tornam melhor o mundo do deus Algoritmo e do sushi como área de interesse no Tinder —, mas vi tristeza, ainda, nas sugestões niilisterárias de Lucio Carvalho (juro caçava um delirium tremens se lesse um livro ilustrado por selfies!); e no Waltel milionário do ritmo de Felippe Aníbal. Ou seria amargura, termo em desuso? Aliás, amor e paixão, sei lá também, viu, Giovana Erthal, vale entrar na fila? Lacrar, na rede, cagando regra de relacionamento tem dado mais like, mormente se o relacionamento for do eu para com ele mesmo, o que a literatura médica anterior à pós-contemporaneidade sempre considerou como esquizofrenia. Vale também ouvir e cantar pagonejos em seitas comandadas por DJs. Ah, misturo tudo mesmo e, como reza o anúncio-manifesto da cZara: Foda-se o frete, camarada! Aqui é pirataria, embora eu ainda compre e (pouco) abandone livro pela meiuca, Enclave! O espaço vai curto: teve ainda poema (bem) ornado por Maria Joanna; Mylena Queiroz em tom ensaístico a discorrer dos recadeiros da terra Nego Bispo e Conselheiro; e Mistral fechando no duro do poético uma edição que flertou bastante com a aridez.

*

Música — sentido-algo a que o velho Schopa se apegou a fim de nomear o mistério maior das coisas. Meu amor é bifurcado como o título do último Jards: poesia & música — se bem amalgamadinhas, hum… Sigamos a errar o (com)passo, próxima edição, Carnaval a vir?

Amanda Vital: Ombudswoman 12: é hora de dar tchau :(

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Car_s leitor_s, uma hora tinha que acabar, né? Quer dizer, ficar um ano aqui abancada no mesmo espaço, a bunda começa a doer, a perna prende a circulação, as costas começam a travar, essas coisas de velho.

Chega ao fim minha temporada enquanto ombudswoman do RelevO (e fiquei até um pouco mais do que o plano inicial, pela alegria minha — e espero que vossa também). Que os textos aqui publicados nesse período tenham divertido um pouco mais a rotina de vocês, querido leitor, querida leitora. Que me perdoem pelos textos ácidos a mais ou bonzinhos a mais (ou a menos, em ambos). Que me perdoem pelos textos mais fraquinhos, que sei que fiz. Que tenham sido úteis as pequenas anotações, os comentários, as resenhas, as opiniões. Obrigada pelos retornos, pelas mensagens enviadas inbox, pelas críticas & elogios & reclamações publicadas no correio dos leitores.

Não sei escrever despedidas, não. Hoje, por fim, não vai ter textão.

Eu só agradeço muito mesmo a oportunidade.

Ao Nuno Rau [ombudsman anterior], ao editor Daniel Zanella, à equipe toda do RelevO e sobretudo a vocês.

Obrigada pela estadia leve e muito querida.

Da redação: A partir da edição de janeiro, o espaço de ombudsman será preenchido pelo escritor, compositor, cantor e ativista cultural Zeh Gustavo. Também é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2020) e licenciado em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF, 2000).

Amanda Vital: Ombudswoman 11: “The Chocolate Agenda” — o que a grande mídia não quer que você saiba!

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

“Tabacaria”, Álvaro de Campos (sim, este é do Álvaro, maltinha, Álvaro que tem o mesmo focinho do Pessoa, mas nãaaao atribuam ao Pessoa, é Ál-va-ro, tá-se bem?)

Car_s leitor_s, a coluna desse mês vai ser totalmente voltada para denunciar o propagandismo da curadoria do RelevO da edição passada para a venda de seu novo produto, o Chocolate RelevO, lançado no mês passado. Tenho provas o suficiente para mostrar que todos — sim, absolutamente todos — os textos foram selecionados a dedo para incentivar a venda casada, que, aliás, é crime no Brasil. Fazendo um trabalho de trincheiras, busquei o que a grande mídia não mostra, o fio de cabelo em ovo, o conspirac-, quer dizer, os “olhos de ver”, acordados e muito bem acordados. Vamos a isso.

Começo por “Questão de vestibular”, literatura-múltipla-escolha de Marco Aurélio de Souza, pulando a seção de carta dos leitores, que é claro que não deixou de publicar uma quantidade absurda de comentários relacionados à venda do chocolate. O que múltipla escolha nos lembra? Enem, é claro. Vestibular, para ser mais precisa, e para ornar com o título atribuído ao texto. O que levamos para a prova de vestibular? Caneta preta, sim. RG, total. Uma garrafinha d’água? Convém. Mais mais do que isso: levamos chocolate. Há uma psicologia do consumidor (e do consumo — do chocolate, claro) atirada para os leitores logo à primeira vista, preparando o ambiente para o que mais vem por aí. Isso é jogada de mestre, vamos concordar, né? E começamos jovens, vestibulandos, acabadinhos de sair das fraldas. No começo do vício.

Depois entra “O amor”, de Maurício Porto. Ora, novamente a curadoria entra na mente de quem lê. O amor também pode ser f*dido. Com isso, recorremos a todas as benditas desgraças, para nos desgraçarmos ainda mais; entre elas, o álcool. E a menção a whiskies, que vão bem com chocolate, faz com que o leitor fique predisposto a buscar um acompanhamento rápido para um bom conto. Uma caixa de bombons com uma boa garrafa de destilado? Não há melhor. Na fossa, então…

A crônica da Maria Eugênia Moreira segue a mesma coisa: a autora traz à tona a questão dos supermercados da rede Oxxo, estilo Dia, que é onde costumamos fazer compras pequenas; dentre elas? Sim, o chocolate. A nossa mente vai quase de maneira automática no corredor dos doces e batatinhas, sentimos a mão alcançando, entre aquelas barras quebradas de chocolate barato e duvidoso, alguma que esteja minimamente inteira. O cenário trash da crônica descreve e ambienta super bem essa procura. E o estômago ronca, estranhamente ronca.

“Novíssimos paraísos artificiais” é a reportagem especial do RelevO do mês passado, que, é claro, como todo bom vendedor, veste-se da causa ambientalista apenas para fingir que o produto é sério e preocupado com os rumos que o planeta está tomando, deixando a publicidade bem nas entrelinhas. O “Novíssimos paraísos artificiais” é o blue money da imagem boazinha e limpa, anti-monstros-capitalistas, de quem acaba de lançar um chocolate ao mercado e não quer ser confundido com charlatães. Mas sendo.

E sobrou até para a própria Enclave, mãe do céu, uma coluna tão séria, tão perfeitamente bem escrita sempre… Precisava mesmo mencionar alguma parte do trabalho de Fischer na busca de João Gilberto, algum recorte que seja, voltado apenas para aguçar o apetite? E foi logo de um diálogo com Garrincha, garçom do restaurante preferido. Ora, o que se come depois de um bom prato? João Gilberto não pedia sobremesa, mas você pode pedir!

Agora, qual não é a minha surpresa quando viro a página e, tcharam!: além d’O Grito, mais um texto sobre supermercados… Pois é. Dessa vez maior e mais esmiuçado, com deliberações (bem interessantes) sobre a organização dos corredores e do carrinho de compras, chegando ao fim do jornal e fazendo aquela última tentativa de despertar o apetite e levar as mãos à carteira para comprar besteiras. Percebem a sutileza? É uma linearidade do mal essa. Do senhorzinho gordinho de suspensórios e bigodudo que te quer vender o seguro de um carro que você não tem!

Até a crônica tão leve de Rodrigo Madeira tem sua porção de culpa no cartório. Primeiro porque é um texto doce, docinho. Segundo, porque de tão leve, mas tão leve, cria pequenas perninhas de palitos de pirulito e vai caminhando pela cidade qual flâneur. E o leitor também cria suas perninhas e fica achando que está não só leve, mas doce, docinho. Acho que não preciso falar mais nada, né?

Mas sabem que com poesia a coisa fica um pouco mais complicada, que esses poetas são qualquer coisa de enigmáticos, hieroglíficos, ai, são tão pseudo! Mas consigo ver, no poema de Liana Timm, dois elementos: o sexo (que sim, pode exigir um chocolatinho em cima do travesseiro) e o pós-sexo (que sim, pode exigir um chocolatinho embaixo do travesseiro).

O mesmo com a tradução de Bernardo Antônio Beledeli Perin de “The woman who could not live with her faulty heart”, de Margaret Atwood. Ora, bate na minha cara com esse trecho: “Mas a maioria deles diz quero, quero, quero”. Vê se não cheira a propaganda. Tem cheiro de agenda. Tem ar de propaganda do Baton dos anos 80. Tem tom de letrinha miúda.

Por fim, logo o texto antes da página publicitária em si, a página final, que fecha todo esse grande complô, é um poema de Guímel Bilac. Não vou dizer da menção às cervejas, porque não combina, não. É da gana do leitor terminar querendo mais. E é claro que a venda casada se concretiza aí: o poema nos é apresentado como “que intrigante, quero ler mais dessa pessoa”, e pimba! Toma-lhe página publicitária do chocolate. Meu amigo. Se isso não é venda casada 101, eu não sei mais o que é.

E coitada da Ana C., que ficou na contracapa. “Costa com costa” com a propaganda e não tem nada a ver com isso.

Uma curiosidade, já agora no fim, que fui verificar: a palavra “chocolate” foi repetida 17 vezes no RelevO da edição passada. 17 ocorrências. Provavelmente, só nesse texto, também há 17 ocorrências. Mas isso não vem ao caso, ou vem?

Mas olha que essa coisa toda e eu não levava nada a mal que um certo editor mui nobremente me mandasse uma barrinha do chocolate novo. Na verdade, esse texto todo é só para pedir que me mande uma.

*

No mais, car_s leitor_s: comam chocolates, pequen_s, comam chocolates. Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates! Mas se não quiser, não precisa.

Amanda Vital: Ombudswoman 10: otimismo

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


De: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Para: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Assunto: Um favorzinho de amiga! rs

Oi, Claudinhaaaaa! Tudo bem, meu amor?

Aqui é a Júlia, lembra de mim? A galera me chamava de “Julinha Melancia”, estudei com você no Ensino Médio! Eu gostava demais de você, sempre admirei muito sua inteligência e dedicação! Fiquei sabendo que você é editora de livros agora, muito chique, viu? Imagina só, a menina que nunca ia nos churras no Terceirão para ficar em casa estudando, floresceu e virou editora! Eu fiquei surpresa que você não virou diplomata, achei que ia ver minha amiga Claudinha em uma embaixada hoje em dia! Mas a vida tem dessas coisas, né? Fico feliz que você tenha se descoberto na sua área! Nada é por acaso!

Bom, agora vamos às minhas novidades: eu fui para o Direito mesmo, descobri que a advocacia é minha paixão! Trabalho no escritório do meu pai, você chegou a conhecer ele, né? Eu levava muitas meninas lá da sala pra casa depois da aula, certezaaaa que você tava nesse meio também!!! rsrsrs, segui os passos da família, tenho um legado para manter por ser filha única, né? Mas claro, sempre com muito suor e muuuito trabalho! Nunca foi fácil, sempre foi Deus, a gente sabe como é árdua a caminhada, né?

Claudinha, adivinha só… me descobri poetisa! Acredita que um amigo meu do escritório leu os textos de motivação que eu publico no meu Insta e me falou que eu dava jeito para a escrita também? Imagina, logo eu que odiava literatura e redação! rsrs Aí ele me encorajou a mandar algumas poesias para publicar e eu lembrei da minha amiga tão querida que trabalha na área! Tenho que comprar alguns livros da sua editora, eu li alguns livros, mas são mais best-seller mesmo, confesso que não sou grande leitora, você lembra, né? Mas agora que ele plantou essa sementinha na minha cabeça, eu preciso regar, né? Se não não floresce, você que é empreendedora acima de editora, sabe como é!

Linda, então eu estou te mandando o meu livro lindo, meu orgulho! Batizei o meu filhote de Flores da Julinha, achei o nome muito delicado! Minhas poesias são mais positivas, para dar um tom de otimismo entre os livros que eu vi que você tem publicado, que são um pouquinho mais pro sombrio e pro triste, né? Fiquei até um pouco preocupada e quis juntar o útil ao agradável, pensei que eu poderia trazer uma gotinha de felicidade e otimismo para minha querida amiga Claudinha! Pra trabalhar com um sorriso no rosto! Você vai gostar muito do meu livro!

Ah, aí entra a parte do favorzinho: eu tô totalmente lisaaaa no momento! rs Será que você pode cogitar a publicação gratuita? Sei que muitas editoras fazem isso, então por favoooor! Quebra essa pra gente? Vou ficar te aguardando!

Um beijo grandeee, minha flor, podíamos combinar alguma coisinha, né? Eu gosto muito de ir pro Villa Mix! Podíamos combinar uma baladinha um dia desses, imagina eu ver a minha amigona Claudinha de vestido e salto pela primeira vez! Hahaha, babadoooo!

Anexos:

original-floresdajulinha.docx

foto-eu-linda-na-praia.jpg

orelha-do-meu-unico-amigo-minimamente-intelectual.docx

imagem-horrenda-e-minúscula-toda-pixelizada-para-colocar-na-capa.jpg

Enviado do meu iPhone

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De: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Para: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Assunto: RE: Um favorzinho de amiga! Rs

Oi, Júlia, tudo bem?

Que surpresa em ter você escrevendo para mim, na verdade… Acho que a última recordação que eu tenho é de você sabotando o meu caderno. Mas bom saber que está tudo bem.

Peço imensas desculpas, mas depois de uma leitura cuidadosa e atenta, não vai ser possível publicar o seu original. Seu livro tem uma proposta diferente do que a gente costuma publicar e pode não funcionar com o nosso catálogo, com a nossa linha editorial e com o nosso círculo de leitores mais fieis.

Mas estou à disposição para sugerir outras editoras — ou até mesmo uma gráfica, para você fazer alguma edição do autor, se for da sua vontade.

Tudo de bom para você e para o seu livro.

Atenciosamente,

Cláudia

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De: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Para: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Assunto: RE: RE: Um favorzinho de amiga! rs

Nossa, Claudinha!!! Inacreditável a grosseria da sua resposta! Te escrevi uma mensagem toda atenciosa e você me veio com essa? Você se tornou uma pessoa muito amarga e tá puxando sua editora pro buraco junto com você, viu??? Grossa, mesmo!!!

Ah, querida!!! rs Sinto muito dizer, mas você perdeu uma excelente oportunidade de publicar uma poetisa promissora! Quando eu for internacionalmente conhecida (e vou ser, porque sou uma pessoa muito focada, e guardo rancor, viu? rsrs), você vai se arrepender de ter recusado meu livro por motivos pessoais que só existem na sua cabeça!!! Eu e as meninas éramos pessoas sempre super abertas para amizades, você é que se excluía quando a gente fazia uma piadinha ou outra totalmente inofensiva! Era divertido, você é que não ria com a gente!

Agora era só o que faltava! rs Deitar a lenha nas minhas poesias! Sabe quantos seguidores eu tenho no Insta??? Eu tava te fazendo um FAVOR, te proporcionando materiais ótimos para você publicar coisas mais bonitas nessa editorazinha mequetrefe que só publica autores que ninguém nunca ouviu falar, rs! E eu achando que eu é que estava te pedindo um favor, descobri que você publica os livros de graça! E a capa, poxa, eu mandei praticamente pronta para você, a imagem estava anexa, era só apagar a marca d’água, colocar na capa e mandar imprimir!!! Não tem trabalho mais fácil do que o seu!

Eu sou uma possível cliente que ia te dar livros novos todo o ano, ENORMES inclusive, e é assim que você me trata? Ridícula! Espero que vá a falência!

Enviado do meu iPhone __________________

De: claudia_editoradenomemuitocool@gmail.com

Para: julia_escritoriodeadvogadocomsobrenomeitaliano@hotmail.com

Assunto: RE: RE: RE: Um favorzinho de amiga! Rs Júlia, por favor, não me escreva novamente. Atenciosamente, Cláudia

Amanda Vital: Ombudswoman 9: nômades digitais

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


— E a menina trabalha?

— Trabalho sim senhor, todos os dias. Estou trabalhando agora mesmo.

— Mas no que trabalha?

— Eu sou assistente editorial em uma editora brasileira.

— Então está cá temporariamente?

— Não, eu moro aqui em Portugal, mesmo. Já vai fazer uns quatro anos.

— E como é que trabalha para uma editora brasileira?

— Por trabalho remoto. Faço tudo pelo computador.

— Ah! É como os nómadas digitais?

— Não, não é como os nômades digitais.

— Como não?!

— É que esse tipo de trabalho que eu faço sempre foi pelo computador. Quer dizer… pelo menos nos tempos digitais, informáticos.

— Pois então! É nómada digital.

— Mas eu não sou.

— Trabalha em outro país e pode fazer tudo pelo computador? É nómada digital, sim.

— Mas não sou. Eu não tenho o estilo de vida do nômade digital.

— Que estilo de vida?

— Sei lá. Supergentrificar países, comprar trocentas casas e terrenos ao preço da chuva e cobrar aluguéis caríssimos, não contribuir com a economia local?

— Mas o nómada digital não precisa necessariamente fazer isso. Até tenho um amigo britânico que…

— Foi só um exemplo.

— Ainda acho que a senhora é nómada digital.

— Não sou, não. Eu nem tenho o visto para nômades digitais!

— Mas muitos não têm! Esse meu amigo não tem.

— Ele pode pedir.

— E a menina, não?

— Não, eu não posso, porque eu não sou nômade digital.

— E o que é que a desqualifica enquanto nómada digital?

— Minha renda mensal é inferior à quantidade mínima de euros que os serviços pedem.

— Mas isso é o valor estimado. Acho que eles aceitam mesmo assim.

— Mas eu não sou nômade digital, senhor.

— Ainda acho que é nómada digital.

— Eu não trabalho no que os nômades digitais costumam trabalhar.

— E no que eles trabalham?

— Não sei bem ao certo, para falar a verdade. No que esse seu amigo trabalha?

— Ele explicou-me uma vez. Não me recordo.

— Pois então. Acho que há trabalho remoto que se qualifica como nômade digital e outros que não.

— Mas ele mexe com o computador assim como você.

— Mas há muito poucos assistentes editoriais, senhor. Não somos assim tantos. E ele pode mexer no computador com, sei lá, programação. Processamento de dados. Essas coisas.

— E o seu não é esse coiso?

— Não, não é.

— A menina está aí com planilha aberta, e-mail aberto… isso é tanga. Faz o mesmo que o meu amigo.

— Olha aqui um livro aberto em PDF. Ele abre livros no computador?

— Por acaso não.

— Então. São coisas diferentes.

— E esses livros aí são virtuais? E-book?

— Não, a maioria vai só para impressão. Esse aqui não vai ter e-book.

— E imprime cá?

— Não mando imprimir, eu só verifico tudo para ir para a gráfica. Eles é que imprimem lá no Brasil.

— Então seu trabalho é só virtual. Digital. É nómada digital, vê?!

— Mas que mania! Eu não sou nômade digital. Para ser “nômade” eu precisava morar em mais de um lugar. Eu só vim do Brasil para cá.

— A menina migrou. É nómada, é.

— Mas eu nem vim a trabalho, vim estudar! Eu só quis ficar aqui depois dos estudos, só! Acho que o nômade tem essa coisa de ter contrato para trabalhar nos lugares específicos, não?

— Não. Esse meu primo não tem isso, não.

— Afinal, ele é primo ou amigo?

— É os dois. A menina é nómada e ponto. E que há de mal nisso?

— Eu não sou neoliberal para ser nômade digital. Não quero ser confundida com um neoliberal.

— Mas que eu saiba não tem nada a ver com política. Vocês, também, a meter a política em tudo… — Tem razão. Me desculpe.

— Estrangeira, ainda por cima. É nómada, é.

— Eu sei lá, eu… olha, não tenho o Instagram de um nômade digital.

— E como é o Instagram de um nómada digital?

— Ah, tipo… cheio de fotos de viagem. Comida chique. Gente saradona.

— Nada, essas pessoas estão nos cafés a trabalhar. O meu vizinho não faz isso do Instagram.

— Mas ele não era seu…? Ah, deixa estar. Olha, pode ser, mas eu tenho que estar ativa para o trabalho o dia todo. Os nómadas têm metas e essas coisas.

— Mas se terminam cedo, podem usufruir dos momentos de lazer. Já vi a menina a fazer isso.

— É claro que eu faço. Mas eu não sou nômade! Eu não sou neoliberal!

— Não é sobre política!

— Tá bem, tá bem! Fogo!!!

— Ai, que disparate!

— O senhor não para de me encher o saco com isso.

— Por que é que está tão nervosa?

— Porque eu não sou nômade digital. E nem quero ser.

— Se a menina não queria ser chamada de nómada digital, era só dizer.

— E faria alguma diferença? Tiraria isso da cabeça?

— Não. Eu estaria a mentir para si.

— Olha, senhor, eu não sou responsável pelo aumento do preço da habitação de Lisboa. Eu moro de favor, inclusive. Não tenho um MacBook nem um iPhone. Essas coisas, sei lá.

— Mas nem todo nómada… até tenho um colega que…

— Ah, não. De novo, não.

Amanda Vital: Ombudswoman 8: pela liberdade de sermos “burrinh_s”

Coluna de ombudsman extraída da edição agosto de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Só a inocência e a ignorância são

Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?

Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,

Um lugar, nada mais.

“Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa.

(Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa). Lisboa: Ática, 1952

— Tudo o que eu vou fazer tá errado. Tudo o que eu faço tá errado (3x). Tudo o que eu penso tá errado. Tudo o que eu faço tá errado. Se eu faço isso, tá errado. Se eu faço aquilo, tá errado. Se eu converso com Fulano, tá errado. Se eu pego esse trem aqui, tá errado. Se eu fecho a porta, tá errado. Se eu converso com o outro, tá errado. Se eu converso com outra pessoa, tá errado. Tudo tá errado. Fala o que é que eu acertei até hoje? Nada. Nada.

— Inclusive esse momento agora, eu acho que você tá errado.

Caio e Rodolfo, BBB21

Car_s leitor_s, a literatura é uma coisa linda. É linda de verdade, agora é muito sério. Novas possibilidades se abrindo à frente dos olhos, universos em constante construção, transversalidades com outras áreas do conhecimento, os encontros e afetos, a profundidade, a cultura, a representatividade, as toadas de muitas bandeiras importantes. É mesmo bonito. Demais. Por isso mesmo, aproveitando para trazer novamente um texto sobre as pessoas que fazem esse campo — e dando nomes aos bois, às vezes; e denunciando, a todo o tempo — porque literatura já as próximas páginas vão trazer sempre, e sempre muito bem. E antes dele, faço um convite-sugestão que trago como lema pessoal e que pode servir para alguém: evitar ao máximo ser mais uma dessas tantas pessoas chatas para estragar tudo isso, que é tão bom e bonito, com (por falta — no momento — de outro nome em português) o famigerado gatekeeping. Também chamado de “se você não é X, não pode entrar”, “se você não leu Y, não pode entrar”, ou até “não pode se sentar conosco na hora da merenda”.

E o que seria o gatekeeping na literatura, afinal? E quem seriam os gatekeepers? No mundo dos jogos, por exemplo, ele vem na forma do nerd que dá resposta atravessada à mãe e não sabe fritar um ovo, por meio de falas como “se você não tem um computador com a placa gráfica da AMD mais recente — e carérrima — para jogar, você não é considerado um gamer de verdade”. “Se você não conseguiu zerar Yakuza 0 [adendo: gente, que série maravilhosa de jogos os de Yakuza, recomendo para todos os que não forem uns bananões que “blablablá joguinho é só pros xófens” enquanto ficam jogando paciência e jogo de trinca o dia todo; logo, sendo gamers tanto quanto Os Gamers ©] em modo difícil, nem venha aqui na live conversar com a gente”. No mundo da música, “se você não conhece todas as faixas de todos os álbuns dessa banda como eu te pedi para nomear, tá usando a camiseta dela por quê?” (geralmente é muito com mulher essa, né? Quanto sadismo…). E na literatura não é muito diferente, mas vem com outras demandas. Então é um tipo de comportamento muito específico, bem passivo-agressivo, bem pretensioso, de gente que ou quer te testar, ou quer se sentir superior acima da sua falta de conhecimento, das práticas que você tem ou do que você consome ou deixa de consumir, tem ou deixa de ter, é ou deixa de ser.

Há uns 15 anos, quando eu passava tardes inteiras escrevendo um ou outro textinho para criar coragem de publicar no Recanto das Letras (eventualmente rolou), achava que os escritores eram todos super gente boa. Que cumprimentavam o porteiro, agradeciam o carteiro, olhavam o pedreiro com admiração e não repulsa, não tinham preconceito, eram pessoas gentis e bem educadas. Todos. Até receber as primeiras críticas de marmanjos que tinham idade para ser meus avós e que não diziam nada a respeito do texto. Só que eu ainda tinha que “comer muito arroz com feijão para chamar esse textinho aí de crônica”, mas sem explicar o motivo; de gente me cobrando leituras, dizendo que eu não pertencia àquele lugar, que aqueles assuntos eram desinteressantes. Mas de uma maneira bem porca, arrogante, mesmo. Cobra criada de internet, não me abalava com essas coisas, não. E já achava que essa coragem seria só por causa da tela, do anonimato. Fui começando a conhecê-los pessoalmente, agora já adulta, e não mudou muita coisa, não, da desilusão que eu tive quando criança. Porque as cobranças agora se aprofundam — já que uma pessoa cresce e tem que seguir exatamente o caminho padrão que todo mundo seguiu, é claro — para leituras obrigatórias (e não só de livros literários, é dos acadêmicos também, e filosofia, sociologia, política, psicanálise, aromaterapia, tudo), que aparentemente todo mundo leu menos você; de não conhecer isso ou aquilo. E do BBB. Ai, caramba do BBB, das discussões ao redor do BBB todo ano… “Ai, eu tenho alergia, não vejo, coisa de gente burra, programa baixo, inculto, pobre e vulgar, da plebe, tenho mais o que fazer!” e vai lá passar horas no Face.

Pobre escritor que um dia resolve dizer que assistiu ao BBB da noite passada. Que não perde um episódio da novela das sete. Que chora com propaganda, ouve Biel do Furduncinho, fala “iorgute”. Não pode, não, uai. Onde é que já se viu alguém que quer ser escritor se prestar a esse serviço? Tem que assistir a filme difícil todo dia, ler 200 páginas/hora com um linguajar refinadíssimo. Ter tempo para isso e para ser dum azedume horroroso nas redes sociais. Essas pessoas adoram dizer que não perdem tempo com bobagens. E talvez não percam. Mas o que é bobagem, mesmo?

Bobagem é esse cansaço, que não teria razão de ser se as pessoas não se incomodassem tanto com coisa besta. Essa necessidade de dizer que o que é popular é burro ou de/para gente burra. Isso porque ainda não falei direito das obrigações de leitura, que é o que deu o mote ao título. Chega a um ponto em que a gente se sente tão sem graça de estar por fora das referências e citações da pessoa que a gente finge. “Conhece o Fulanóvski?”. “Ah, li sim, claro”. Depois do primeiro “mas ele é cineasta”, passei a dizer só que “conheço vagamente”. Já me calhou de ter fingido que conhecia tal coisa e a pessoa dizer que tinha acabado de inventar aquele nome. Pedi mil desculpas, mas que a cobrança e o climão pelo desconhecimento já davam tanto cabo de mim que passei a mentir sobre tudo o que é conversa intelectual. Depois disso, meio que vou dosando, só falando que li as coisas de que já ouvi falar, ao menos. E não precisaria mentir tanto se as pessoas ficassem de boa com o fato de você não conhecer todas as coisas. “Já leu o Fulanóvski?”. “Não, não conheço…”. “Como assim não conhece? Não deu na ementa do seu curso? Nossa, mas é leitura obrigatória!”. Com um ar assim de quem viu fantasma, sabe? Que constrangedor, gente. Parem com isso, que coisa desagradável… É só falar “ah, tudo bem” e dar um resumo bacana do que se trata aquilo. Apresentar, deixar a pessoa curiosa para ler. Simples, né? É tão gostoso apresentar coisas novas para as pessoas. Deveria ser uma experiência legal, de partilha, não de hierarquia. Ah, e já que adoram recomendar leituras, leiam o ambiente, também; porque se não despertou interesse, para que ficar dissertando sobre algo que não tá assim tão interessante para alguém?

E se as coisas de que mais pessoas gostam é sinônimo de burrice, que sejamos pessoas meio burrinhas. Sabe? Só um bocadinho. Ler na surdina sobre aquela briga de duas subcelebridades de que você nunca ouviu falar. Ligar na Globo na hora do reality (pode colocar baixinho pro marido professor acadêmico engomadinho não vir te encher o raio do saco). Fazer testes do Buzzfeed para saber sua idade baseado no que você gosta de comer no verão. E no meio de tudo isso, ler jornais, livros, ver filmes legais e de Alta Cultura ©, também. Que é libertador sorver um pouquinho de cada coisa.

Querid_s leitor_s, assistam a reality shows duvidosos depois de terminar de ler aquele calhamaço daquela obra completa. Vão aprender a dançar a música da sanfoninha da Anitta depois de voltar daquele evento maroto. Mas é o costume: se não quiser, também não precisa.

Amanda Vital: Ombudswoman 7: como participar de eventos literários

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Olá! Somos a Panelinha Literária Inc., e agradecemos que tenha adquirido um de nossos produtos mais vendidos, a incrível skin de “Escritor Contemporâneo Padrãozinho”, esse último lançamento de grande sucesso entre os círculos literários. Aproveitamos para ofertar uma skin também disponível em versão NFT, bastando digitar o código “NuncaGanheiPrêmio” em nosso site para resgatá-la e ativá-la no metaverso.

Esta skin é composta por:

1. Um microfone com má sonoplastia predefinida, para ler seus poemas geniais (ainda que não eram, agora vão ser — geniais, surrealistas e subestimados!);

2. Cara de bunda (não modificável);

3. Três divórcios (de preferência com meses de distância entre cada um) e uma esposa-troféu (opcional);

4. Um widget chamado “Ego de Escritor Contemporâneo Padrãozinho”, que deve ser inserido pela extremidade final do intestino e inflado manualmente.

Sejam bem-vindos, portanto, ao manual de sua nova skin, que também coincide com o manual de como participar de eventos literários; afinal, o produto não terá efeito se seu primeiro teste não for em um evento.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES ANTES DO USO DO PRODUTO:

1. Para ativar o produto, basta dizer “Foucault, Derrida, Deleuze!”, 3 (três) vezes, com um leve sotaque bêbado e/ou senil. Se ainda não sabe fazer o sotaque organicamente, não se preocupe, basta adquirir a skin “Escritor Contemporâneo Bêbado”. Gesticulações excessivas — com as mãos colidindo em pessoas que estejam portando uma taça de vinho tinto — garantem uma ativação mais rápida do produto.

2. Para mais êxito do produto (sobretudo de seu widget), confira se tem presentes, na sua estante, ao menos 5 (cinco) livros de autores bielorrussos ou de alguma nacionalidade considerada “exótica” para o Brasil. É obrigatório que sejam originais. Se não souber ler em língua estrangeira, pedimos que adquira os livros em sebos, para dar o tom de que estão gastos porque você os leu.

3. A bateria de sua skin vai durar mais se você curtiu, na última hora, ao menos 15 (quinze) poemas no Facebook sem ter lido um único verso, a segundos de sua postagem. Vale também 3 (três) corações em fotos de perfil de autoras mulheres (postadas há meses, para comprovar o stalking e o não-ligar para o trabalho literário delas, é natural).

4. Também para maiores êxitos, é necessário que não tenha recebido nenhum (zero) prêmio literário e tenha escrito ao menos 1 (um) texto passivo-agressivo dizendo que não estava amargurado nem magoado, mas estava, muito. Bônus se tiver dito mal dos vencedores — direta ou indiretamente, mas preferimos indiretamente, com uma “codificação” que só você acha que deu certo — e chorado em posição fetal ao abrir a lista de finalistas.

5. O mestrado em alguma área de Letras é obrigatório. A famosa “carteirada”, como “você sabe com quem está falando?” e humilhações a estagiários(as), sobretudo envolvendo machismo e paternalismo, é um fator preferencial para garantir o bom trabalho de seu novo produto.

6. Esta é uma das perguntas mais frequentes: sim, é preciso que tenha publicado ao menos 1 (um) livro com arte de capa mediana em edição de autor, após longos conflitos com o(a) editor(a) e com o(a) designer de sua editora anterior para que saísse de acordo com a sua concepção estética bastante refinada e superior. Nós acreditamos nisso. Nós acreditamos em você.

PASSO-A-PASSO:

1. DATA. Antes de ativar o produto, tenha em mente — e em seu calendário — o próximo evento literário para participar e, enfim, fazer a estreia de sua skin. Saraus menores e slams não contam, são proporcionalmente muito pequenos e corre-se o risco de uma expulsão. Estamos almejando eventos maiores, como coquetéis de academias literárias, lançamentos de autores relativamente conhecidos e eventos culturais em cidades a mais de 100 (cem) quilômetros de distância de sua residência (excluem-se moradores do eixo Rio-São Paulo).

2. APARÊNCIA. Separe suas roupas mais pseudocult possíveis. Chapéus, sobretudos pretos e castanhos (bônus se o local for quente), mocassins, bolsas a tiracolo — mas em couro legítimo. Corte seu cabelo em franjinha, se for mulher. Óculos escuros, sempre, mesmo à noite. O objetivo é parecer o mais inacessível possível, evitando que plebeus (também chamados “leitores comuns, que não escrevem, só leem, mesmo”) se aproximem de você, frustrando a estreia do produto.

3. MATERIAL. É obrigatório trazer consigo ao menos 3 (três) livros autorais publicados, todos em sua mala de couro (ver tópico 2). Antologias também contam como livros, desde que tenha sua seção marcada com marcador de páginas. Leve seus poemas mais conceituais ou sua prosa poética incompreensível — textos que ninguém entende a não ser você, para poder usufruir da característica de “subestimado” de seu produto.

4. MATERIAL NÃO-FÍSICO. Na bagagem mental, é imprescindível trazer referências e citações — sobretudo citações — com você. Mas nada de literatura ou estudos de cultura. Deixe para trás o Pound, o Benjamin, o Barthes. Psicanálise e teatro é o que está na moda agora entre os literatos, ainda que poetas e estudiosos de poesia. Estamos pensando em Artaud, Lacan, Freud. Não precisa ter lido nenhum deles, não se preocupe.

5. TRANSPORTE. Alguns eventos maiores proporcionam transporte para o local do evento. Aceite sempre, mesmo que isso tire a vaga de alguém que não tenha dinheiro para ir até lá. Pobres? Fora. O transporte é o começo do networking, e isso é mais importante do que qualquer outra circunstância empática. Chegue algumas horas antes, ninguém tem paciência para atrasadinhos. Foda-se se você precisa tomar 3 (três) ônibus para chegar ali. Acorde às 4 (quatro) horas da manhã.

6. NETWORKING. Dizíamos que o transporte é o começo do networking —e é. Faça uma busca detalhada dos participantes do evento antes do dia, para saber a feição e o currículo de cada um. Procure sempre os editores (mas não nos independentes, esses fracassados; queremos de editora média-alta para cima) e os professores universitários, esses podem colocar estagiários para fazer pesquisas sobre seu trabalho literário (e creditar como se fossem deles, claro). Também pode arriscar um caso amoroso com alguma escritora jovem nesse trajeto. O próximo ponto tem uma informação crucial para isso.

7. VINHO. Deixe para trás toda a sua medicação de hipertireoidismo: eventos exigem que você fique bêbado (se esse passo for muito complicado, a skin “Escritor Contemporâneo Bêbado” é a ideal para você) para flertar — também chamado “assediar”, mas não gostamos dessa palavra — com as escritoras jovens e as estudantes universitárias que apareçam por lá. E para poder suportar aquele poeta chato mais velho que fica colando no seu pé toda vez.

8. LEITURAS MISTERIOSAS. Ensaie as suas leituras para o mais dramático possível. A partir do momento em que você pisa nesses eventos, você se transforma em um diseur de poesia. Atue, preferencialmente sem saber atuar. Não precisa decorar o texto; na verdade, as mãos trêmulas segurando o livro ou o papel, ainda após os ensaios, são um fator preferencial.

9. AFTER PARTY. Essa parte é mais importante do que o evento em si. Aqui você encontra o networking mais pesado de todos. É a parte que você consegue o WhatsApp daquele cara famoso que vai divulgar o seu livro. Daquela novinha com daddy issues que romantiza bastante a sua existência boêmia. Você é o diabinho no ombro direito.

10. A DESPEDIDA. Você agora está totalmente sem saco para os abraços e beijinhos de senhoras de meia idade, mas recomponha-se. É preciso ser mais simpático do que quando você chegou. Sorria sem culpa de não ter feito nada. A culpa é da skin.

POSSÍVEIS SEQUELAS APÓS O USO:

1. Uma intimação por assédio sexual (severa). 2. Um linchamento no Facebook (média). 3. Pedidos ignorados de divulgação e promoção de sua obra devido a insistência e chatice pós-bebedeira dos indivíduos que assim prometeram (branda). Faça uso de skins apenas sob indicação. Mas se não quiser, não precisa.

Amanda Vital: Ombudswoman 6: estou farta do lirismo dos metidos

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o

cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Car_s leitor_s, vocês não estão exaust_s da vida burguesa que tem aparecido nos romances, nos poemas, nos contos? É tão estranho pegar num livro e se deparar com um jantar com comida flambada e espumante, a combinação de uma viagem pra Paris na mesma semana com umas amigas (como se não tivesse todo o rolê de ter que combinar com todo mundo, ver que dia fulana pode, marcar folga, fazer uma pesquisa de preço mais barato e marcar pra dali a uns 6 ou 7 meses, ou algo assim), uma corrida na orla da praia logo de manhã sem um sustinho— nem falo de assalto, poderia ser uma topada numa pedra, sabe? —, um galã chamado Pierre Albuquerque ou Brad Alcântara, do nada, no Brasil… Já é tão comum que chega a ser estranho. Porque é tudo falado com uma naturalidade, imagina! É normalíssimo a dona Cindy Bittencourt dar de presente uns bombons de licor de cereja da Indonésia oxidada e conservada a frio com chocolate suíço 70% cacau orgânico biológico e hidropônico para a sua mãe, “que ela gosta tanto, são seus favoritos”! Romance de vida de herdeiro (infelizmente — e sobretudo — de herdeirA), sem boleto pra pagar, sem mercado pra fazer, que não chora pela alta do preço dos tomates, que freta um jatinho em 5 minutos. Que não é fudido. O máximo que pode acontecer nessas histórias é talvez não ter pão integral para comer no lanche. Descobrir que um gostosão rico que a protagonista conheceu numa balada (de rico, novamente), cujo mapa astral suuuuper bate com o dela — inclusive, ela fez ali mesmo, no meio da boate, e o rapaz nem fugiu, vê só! —, tem uma ex que ele não supera. São uns problemas ridículos apresentados como se fossem problemões. Eu só consigo imaginar que quem escreve isso não precisa sair para trabalhar, mesmo. O romance de herdeiro não fica só no romance, é literalmente escrito por quem não precisa acordar às 5h40 pra pegar condução. Pede almoço e jantar pelo aplicativo. Paga “mocinho” para ir ao correio por si. Tem um gato bengal. Não dá bom dia para a faxineira do prédio. Engraçado é que a gente consegue “ler” isso nos personagens que a pessoa cria, porque também é tudo um bando de gente chata e entojada, com diálogo medíocre, que acha que a vida gira em torno do próprio umbigo. Não sei se cheguei a mencionar por aqui a classe do rico que paga pessoas (literalmente paga) para estar no meio literário, oferece jantares em restaurantes chiques, elabora eventos inteiros com um nome bem pseudocult para uma galera que ninguém conhece, faz seu networking safado para caber bem grandão na rodinha, suuuuper aclamado e respeitado em seu terninho feito sob medida, enquanto escreve, sei lá, num estilo meio Cesário Verde meets escritório do papai para o rapazinho no ócio leite com pera e iogurte dietético.

Acho que quase todos os textos do RelevO da edição anterior se ligam por essa linha mágica que é a vida real, a vida acontecendo. E isso não é necessariamente chato, vamos parar com essa teoriazinha, também, né? “Ah, não quero ler nada que me lembre a minha vida, que já é tão enfadonha”, poxa… O problema não é da literatura ser “do cotidiano”, é seu. Tem gente tão, mas tão chata que não aguenta ler um “asfalto”, um “cocô” num poema, costumam ser os mesmos que criticam poesia descritiva/narrativa porque “não é poesia, é prosa poética”; bando de gente que não superou que as caretices são minoria agora, a trupe dos agarradinhos ao mundo mágico do lirismo pretensioso dos que nunca lavaram um copo na vida porque a esposa faz tudo em casa. Nem tudo o que é distante da nossa vida cotidiana é legal; na verdade, acontece muito o contrário (e isso também pode ser lido por “nem toda literatura fantástica é legal”, muita não é, só imita o Tolkien e vem de uma galera que passa os dias no WattPad lendo adolescentes tristes e iludidos para pegar inspiração), a coisa ser tão desconexa da realidade que chega a ser um saco. E nem todos os cotidianos são os nossos. Porque também não é todo dia que a gente tromba, pessoalmente, com a poetinha arrogante de bairro que escreve uns poemas ridículos de tão senso comum que são — e com uma sacanagem merecida (olha o guilty pleasure e a sedezinha de vingança aí!) com ela —, com as clientes-sinhás-nossas-senhoras da manicure, com as vizinhas adúlteras de meia-idade se confessando ao padre, com o Alzheimer da dona Linda. Tem que vir alguém contar isso e mandar para o nosso querido jornal. Contar da perspectiva do fudido, mesmo. Nem toda literatura é para fugir, para salvar, para ir longe. Muita é pra geral ficar puto, sair com dor de cabeça, ler como se fosse o desabafo de alguém que tá farto, assim como quem a lê. “Mas até tem rico que sabe escrever”, é verdade. Ainda mais antigamente; eram os que mais publicavam, tinham o dinheiro e os contatos certos, e o talento — boas vezes — também; tinham a escolaridade certa, o tempo de leitura certo, o “modo de ver o(s) mundo(s) que não o seu próprio” também, e isso tem lá a sua graça. Atualmente também tem. Isso não é um manifesto contra os ricos, é contra os bestas, mesmo.

A edição passada foi muito, muito boa, apesar de ter pouca poesia originalmente em português, mais tradução, mas as traduções também estão excelentes. Tivemos o conto “A Poeta”, de João Alexandre (acredito que esse protagonista tenha vingado todos aqueles que gostariam de tentar mostrar alguma farsa por trás dos poemas curtinhos e suas autorias — eu estive em alguns grupos desses poetas dos “curtinhos” na minha adolescência e olha, o plágio, a apropriação de ditados amplamente conhecidos e populares para si, como se fossem de autoria del_s, com assinatura estilizada e tudo; a mania de superioridade d’A Poeta em questão são reais, bem reais, e agem como se estivessem escrevendo o suprassumo da literatura contemporânea, e são só coisas que ouviram na rua —, mas aqui deixo um adendo, porque vi alguns desses poetas crescerem, e apesar do início ter sido meio duvidoso, evoluíram bem em suas respectivas literaturas. Nem tudo é amargura, né?); “Maria do Rosário”, de Iara Sydenstricker (muito bom, fez um cruzamento bem legal entre denúncia e beleza, e teve um ótimo fechamento); Audre Lorde, traduzida por Rafael de Arruda Sobral (que traduz bem até a forma, ele é um ótimo tradutor; há trabalhos dele em revistas como Mallarmargens e Escamandro, pra quem quiser ler mais); “A beata”, de João Paulo de Barros (aquela dose genial de exposição da hipocrisia das beatas católicas, sempre bem vinda, e uma escrita boa, gostosa demais de ler); Friedrich Holderlin, esse querido atemporal que meu-deus-do-céu como o homem escrevia bem, traduzido por João Paulo Andrade; uma seleção de poemas de Ivan Junqueira por Lucas Silos (muito boa curadoria); e o conto (ou crônica, pode-se considerar, também) “Helena, sharmuta”, por Jennifer Cabral. Também contamos com o projeto gráfico muito bom do André, com ilustrações de um puta bom gosto.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora

de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário

do amante exemplar com cem modelos de cartas

e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

Porque não tem graça nenhuma o lirismo que não seja libertação, tem? Car_s leitor_s, nos vemos no próximo texto. Sejamos livres! Mas se não quiser, não precisa.