Editorial extraído da edição de março de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Um jornal de papel não se esgota no processo de edição → impressão → distribuição. A partir de sua materialidade, cria-se um campo de forças ao seu redor — o que repetimos, quase à exaustão, como justificativa para nunca cogitarmos a via digital como solução para as intempéries financeiras e existenciais. Somos, em grande medida, aquilo que construímos com os leitores que nos folheiam, que nos encontram por mais de 400 espaços culturais espalhados pelo Brasil (e, agora, timidamente na Argentina, no Uruguai e na Colômbia).
Do papel às mãos, somos o resultado um tanto intangível das conversas emergentes depois da leitura, das discordâncias acumuladas nas cartas publicadas, das afinidades inesperadas que aparecem ao fim de uma leitura do texto de um autor desconhecido. No RelevO, a relação com quem lê não é um apêndice simpático do projeto editorial, e sim parte estrutural daquilo que decidimos publicar, do modo como escolhemos publicar e do ritmo que sustentamos ao longo do tempo.
Falar em comunidade não é recorrer a uma palavra desgastada para dar verniz afetivo a um produto cultural — algo, aliás, que qualquer rebranding poderia promover para nos lustrar. Temos uma rede concreta de leitores que acompanham o Jornal com atenção, que criticam quando necessário, que indicam textos, que escrevem mensagens extensas, que fazem observações minuciosas sobre uma vírgula fora do lugar ou um conceito mal resolvido. O RelevO tem ombudsman e, se você acompanhou a treta do uso de IA em uma coluna recente da Folha de S. Paulo, saiba que isso só foi possível porque o periódico tem uma representante dos leitores por lá (desde 1989). Por aqui, temos desde 2014, ou seja, são 12 anos com alguém de fora da redação colocando as nossas edições sob escrutínio.
Ter uma ombudsman significa, antes de tudo, que não somos catalisadores de consenso. Atualmente, mais que antes, observamos uma busca das marcas por acomodar o próprio público em um conceito confortável, quase um convite para sentar-se no sofá de modo passivo. Convenhamos que, se você compra uma garrafinha d’água, talvez não esteja procurando uma experiência intensa. Mas a lógica de produtos culturais não deveria ser a repetição de agradabilidades.
Há algo de profundamente triste na ânsia por concordância, como se a harmonia compulsória fosse um anestésico social aplicado para impedir o atrito criativo, o desconforto, a fricção que pode gerar ideias incômodas. Os catalisadores de consensos operam como engenheiros da neutralização, transformando conflitos em acordos mornos, convertendo divergências em frases redondas e aceitáveis, dissolvendo a complexidade em slogans palatáveis. É a construção de uma geração de cabeças de internet. Contra eles, precisamos afirmar a dignidade do dissenso, a coragem de sustentar uma opinião que não cabe em enquete, que não se curva à média. Porque onde todos concordam rápido demais, algo foi deixado de lado, e talvez seja justamente esse ruído abafado que carregava a única possibilidade real de diferenciação.
Existe, nesse processo, uma tensão inevitável entre acolhimento e incômodo. O Jornal pode ser espaço não só de identificação, mas também de ruído. Pode confortar e, ao mesmo tempo, deslocar. Não aspiramos à neutralidade complacente nem à unanimidade fácil. Quando reduzida a terreno de concordâncias previsíveis, a literatura perde potência, vigor, torna-se uma cama abaulada. Preferimos o risco do desacordo à segurança da aprovação automática.
Essa relação nos importa porque, como afirmamos antes, a literatura não circula sozinha. Um jornal literário não existe apenas pela soma dos textos que publica, mas pela qualidade da leitura que provoca. Sem leitura ativa, sem conversa, sem o mínimo de tensão e continuidade, o papel vira apenas objeto, garrafinha d’água. O texto precisa atravessar o leitor, gerar resposta, provocar conversa, ainda que para discordar frontalmente.
No fim, essa circulação constante sustenta um projeto que nasce a cada 30 dias. O que publicamos ganha sentido quando sai da página e entra na experiência cotidiana de quem lê. Um impresso só permanece importante para seu entorno quando aceita o conflito como parte do diálogo e entende que a leitura é menos um ato de concordância e mais um gesto de envolvimento.
Uma boa leitura a todos.
