Duzentas formas de estar no mundo

Editorial extraído da edição de dezembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Duzentas edições. Às vezes, quando escrevemos um número assim, grafado com efeito e por extenso, tentamos ampliar seu corpo para que acomode tudo o que não cabe nos contornos de um algarismo. Outras vezes, preferimos nem olhar tão de perto: duas centenas de meses em que um jornal literário independente, de papel, insistente, teimoso, ocupante de espaço no mundo real, conseguiu atravessar o tempo sem interrupções. Em um país com índices de leitura desestimulantes, que cria obstáculos silenciosos e permanentes à formação de leitores, esse feito diz menos sobre a sobrevivência de um impresso e mais sobre a permanência de uma comunidade que insiste em sustentá-lo. Em setembro, o RelevO completou 15 anos: “O caminho é sempre maior que o caminhão”, dizia o Barão de Itararé.

Há quem acredite que números traduzem um trabalho. Não traduzem, mas servem como referência. Eles não revelam as madrugadas de edição, as revisões que se multiplicam, as discussões editoriais, as caixas de arquivo abarrotadas, as dobras de jornal feitas à mão, os improvisos logísticos, o cuidado quase doméstico que um projeto cultural independente exige. Os números não registram o silêncio de quem escreve, o alívio de quem encontra publicação, o entusiasmo de quem abre o envelope. Ainda assim, eles nos ajudam a perceber que algo continua mesmo quando os passos são curtos.

Não é uma conversa sobre estatística, de fato. Nunca foi. Tratamos de continuidade, uma das formas mais exigentes de estar no mundo. Exige um tipo de atenção invisível: a diária, artesanal. Em 15 anos, atravessamos crises culturais, cortes de verba, mudanças de governo, rupturas tecnológicas, cansaços invisíveis. Resistimos ao canto de sereia das plataformas digitais. Reconhecemos que há menos meses de abundância e mais meses de sobrevivência e, ainda assim, manter o gesto. Pouco se fala que a continuidade exige que outras ideias não saiam do terreno da imaginação, uma vez que continuidade exige foco. Novas ideias podem matar ideias anteriores por falta de energia.

Se chegamos à edição 200 é porque nunca estivemos sozinhos. O RelevO aprendeu a existir porque encontrou colaboradores que confiam, leitores que carregam exemplares para novos leitores, assinantes que financiam o projeto, apoiadores que acreditam na cultura antes dos resultados, voluntários que ajudam sem serem convocados, livreiros que nos acolhem e pessoas que descobrem o jornal nos espaços culturais e nos levam para casa como quem adota um hábito. A continuidade é o nosso manifesto… e a nossa prestação de contas.

O tempo, quando acumulado, não forma apenas um arquivo. Forma um corpo vivo. As 200 edições não são uma coleção de papéis. São um projeto que aprendeu a crescer ao lado das pessoas que o leem. Com o tempo, percebemos que cada edição funciona como uma espécie de parêntese no calendário. A rotina mensal é um eixo. Assim, manter um jornal de papel, mês após mês, é contrariar a lógica da velocidade. É confiar que ainda existem objetos que exigem demora, que pedem cuidado. Um jornal literário não muda o mundo, mas muda as formas de estar no mundo. Acreditamos que a lentidão também produz comunidade e que o encontro entre leitor e página ainda guarda algum segredo intraduzível em estatísticas. Por isso, continuamos e novamente sacamos o Barão de Itararé: “Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”.

Ao chegarmos à edição 200, reafirmamos nosso compromisso com esse modo de existir. Publicar textos que não caberiam em outro lugar, sustentar uma curadoria que desafia a pressa, cultivar uma leitura que pede fôlego, acolher formas de expressão que não se encaixam em algoritmos. Continuar, apesar do tempo, com o tempo, pelo tempo, é o que nos fortalece.

Obrigado por fazer parte dessas duzentas edições.

Uma boa leitura a todos.

Apoio, incentivo, colaboração, micromecenato, fomento, investimento

Editorial extraído da edição de novembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há 15 anos, o RelevO é sustentado por uma convicção simples: a literatura e o jornal impresso podem existir com liberdade e continuidade. Todos os meses, centenas de leitores, espalhados por todos os estados do Brasil, recebem gratuitamente nossas edições. São 320 pontos, de Manaus a Erechim, que acolhem entre cinco e dez exemplares. Ainda não conseguimos pontos de distribuição no Acre e no Amapá, embora tenhamos leitores assíduos nesses estados. O corpo de pouco mais de 1000 assinantes e 15 anunciantes regulares sustenta a nossa operação e proporciona ao Jornal chegar sem custo em livrarias, sebos, cafeterias e bibliotecas comunitárias. É o nosso jeito de nos “espalhar” há quase 200 edições. Em dezembro, atingiremos a marca ducentésima sem nunca ter falhado um mês sequer.

80% do RelevO é mantido regularmente por assinantes. São pessoas que pagam, na média, entre R$ 5 por mês a R$ 160 ao ano e fazem a nossa logística girar. Todos os dias, o RelevO recebe no mínimo quatro horas de dedicação exclusiva; em certos dias, até inventamos horas para manter a logística funcionando, sobretudo porque acontece sim de termos reclamações, falhas de comunicação e problemas com prazos — principalmente nas devolutivas dos textos enviados, nosso cobertor mais curto.

Mas viver tudo isso por tanto tempo só faz sentido se tivermos grana para custear os gastos mensais e, por consequência, leitores que justificam a labuta. Um jornal literário independente, no Brasil, exige mais do que dedicação: exige persistência e o apoio consciente de quem acredita na importância de um projeto feito por pessoas e para pessoas que não estão no topo da pirâmide. Somos, sim, um produto e temos o compromisso ético de fazer com que ele chegue às mãos de quem o apoia, compra e acredita na sua continuidade.

Contudo, antes de qualquer coisa, somos uma iniciativa de circulação de ideias, de estímulo à leitura, de abertura para novas vozes e olhares. Cada edição nasce do encontro entre o trabalho artesanal da equipe e a colaboração da comunidade que nos sustenta. Apoiar um jornal independente é, portanto, investir na permanência de espaços de reflexão, experimentação e liberdade criativa — algo cada vez mais raro no cenário cultural brasileiro (e global?).

Assim como quem compra um livro apoia o autor que o escreveu, quem apoia o RelevO contribui diretamente para que escritores e artistas tenham seu trabalho em circulação. A biblioteca dos livros não lidos incomoda, assim como quem assina e não consegue acompanhar as edições do jornal fica ressabiado de seguir investindo. Mas podemos pensar que cada valor investido, por menor que pareça, é uma forma de apoio recorrente. É um gesto de confiança e incentivo à produção artística e intelectual que perdura fora dos grandes circuitos comerciais.

Não custa lembrar que somos um periódico fundado por um ex-entregador de jornal de Araucária, Região Metropolitana de Curitiba. Aliás, nem em Curitiba, onde o Jornal tem sede, o RelevO é chamado para As Grandes Festas da Literatura Local — também não é uma reclamação, pois sabemos de quais clubes não queremos ser sócios. Financiar, com qualquer quantia, um jornal de literatura é botar pra rodar um projeto que atinge aproximadamente 15 mil pessoas por mês. Mais do que muitas HerdeiroFest de escritores para escritores.

O RelevO não pertence a uma editora, empresa ou grupo econômico. Não temos um bom sobrenome. Não publicamos amigos, gente de ótimo networking ou quem pede permuta. Somos fruto de uma rede de colaboradores e leitores que compartilham a mesma crença: a de que a palavra escrita ainda tem alguma importância e deve ser democratizada, mesmo quando o patrocinador não consegue ler todas as edições. Para que possamos continuar imprimindo, distribuindo, pagando os custos e remunerando a equipe envolvida, precisamos da participação ativa de quem nos conhece e acredita neste projeto. E isso se trata, na maioria das vezes, de dinheiro, aquilo que alimenta um circuito inteiro — circuito que nada mais é que a soma de diversos planos pessoais.

Então por que apoiar?
Para garantir que o Jornal continue gratuito e acessível para quem não pode assinar ou não conhece o nosso trabalho;
Para fortalecer a literatura independente e o ecossistema dos produtos culturais;
Para manter viva uma iniciativa feita com cuidado, curadoria e propósito (teimosia autoral);
Para que novas vozes continuem tendo espaço para se expressar.

Se você já leu uma edição do nosso periódico, riu, se emocionou ou pensou diferente por causa de um texto nosso, considere transformar essa experiência em apoio financeiro. Muito obrigado por nos acompanhar, de coração, e boa leitura.

Nada de grande se fez sem entusiasmo, mas muita besteira também começou assim

Editorial extraído da edição de outubro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há quem diga que um impresso é como um filho. E pode ser que seja. Um impresso nasce pequeno, exige cuidado constante e, aos poucos, aprende a andar sozinho pelas ruas, pelas mãos de quem o lê. Vai deixando os comportamentos infantis para trás, amadurecendo e ganhando o mundo. Não estamos mais no controle de cada passo. Mas, assim como na vida — agora que o Jornal atingiu 15 anos e o editor, 40—, criar também significa perder. E precisamos falar um pouco disso que vamos deixando pelo caminho.

Neste baile em direção à maioridade, o RelevO trouxe alegrias intensas e inesperadas, mas também arrancou noites de sono, roubou horas de silêncio e ocupou espaços que poderiam ter sido partilhados de outra forma. É possível que o Jornal tenha afastado quem trabalha nele do convívio de pessoas que mereciam mais presença. Não sabemos se a recíproca seria verdadeira. O calendário editorial é implacável: um relógio de pulso fincado na rotina, que marca o tempo em edições. Em nossa parede, vemos os contornos do número 198. Em dezembro, chegaremos à edição 200.

Cada número entregue é também uma espécie de luto. É o texto que não coube, a ideia de humor que não vingou, a pressa que deixou cicatrizes e imprimiu imperfeições claras. Imprimir é também registrar erros, fixar no papel as marcas da urgência. É aceitar que, junto daquilo que se sonhou, fica também o que não deu tempo, o que não se pôde, o que se perdeu. E as perdas não param aí. Quantas férias evaporaram diante de uma edição que precisava nascer? Quantos domingos se dissolveram em revisões intermináveis? Quantas conversas foram interrompidas pelo fechamento que não espera? Um jornal dá, mas também tira. Ele cobra um preço invisível: o descanso, a espontaneidade, a leveza dos dias que poderiam ser livres. Com o tempo, aprendemos a nomear esses pequenos traumas — não como queixas, mas como cicatrizes de uma continuidade que insiste em existir.

No campo das finanças, a história não é diferente: sustentar um impresso independente é viver na corda bamba entre o sonho e a sobrevivência. O preço do papel, a oscilação dos apoios, a matemática que nunca fecha — tudo isso se grava no corpo, como tombos da infância que seguimos carregando. Mas negar o cansaço não elimina o outro lado: a vitalidade. Um impresso é, paradoxalmente, uma fonte de energia contínua. Cresce como os filhos crescem — entre dramas e conquistas, entre quedas e reerguimentos. Cada perda abre uma brecha para novos caminhos, cada falha ensina um modo novo de fazer. É no desgaste, muitas vezes, que surgem as melhores edições: aquelas em que fomos obrigados a inventar, a improvisar, a confiar na urgência como parte do método. A edição de outubro, especialmente com as partes íntimas apontadas pro céu, é um exemplo disso. Sempre achamos que, mais do que amor, paixão ou propósito, o que realmente move o mundo é entusiasmo — essa substância rara, feita da mistura de teimosia e luminosidade.

O RelevO completa 15 anos e segue lutando para não fechar no vermelho em sua vida ordinária. Em 2025, a balança tem oscilado mais pra lá do que pra cá: seis meses no vermelho, três no azul. Já não somos os mesmos do início, embora, sempre sem dinheiro, tenhamos a vantagem semelhante da feiúra: como nunca fomos bonitos, não sabemos o que é perder a beleza. A ingenuidade deu lugar à consciência de que o prejuízo, assim como o ganho, faz parte da nossa identidade. A dificuldade molda caráter, impede a acomodação, nos mantém atentos. E, no fim, permanece o privilégio: ver este filho seguir seu próprio rumo, deixando rastros de literatura, humor e rebeldia.
Entusiasmo não é ingenuidade. É, antes, a convicção calorosa de que cada página impressa é um jeito nosso de existir. É aceitar que não mudamos nada, mas podemos interferir em alguma parte, em algum instante. E isso já basta. Como canta BNegão, “a gente faz uma microparte para que uma microcoisa no mundo mude”.

Uma boa leitura a todos.

15 anos em 15 anos

Editorial extraído da edição de setembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em setembro de 2025, metade do século, o RelevO completará 15 anos de vida. Isso equivale a mais de 5 mil dias exatos de insistência, invenção, tropeços e recomeços dentro de formas diferentes de fazer. Para um jornal independente de literatura, cada dia é um pequeno dado jogado a um destino incerto: sobreviver em meio ao mercado editorial brasileiro, onde fazer literatura nunca foi tarefa simples, sobreviver em meio à indiferença que atravessa o ato de ler. Bem, um certo ato de teimosia.

E pensar que tudo começou com um jornal de oito páginas, mil exemplares e apenas três pontos de distribuição em Araucária e Curitiba, basicamente nos corredores da Universidade Positivo. O editor era estudante e queria ter um jornal para chamar de seu. Sabia diagramar um pouco e conhecia gente que escrevia. Era pouco, mas era o que tinha. Era, sobretudo, o que se podia fazer: juntar palavras, imprimir o que desse com 300 reais de orçamento, acreditar que alguém gostaria de ler. O RelevO foi um gesto nascido do desejo de imprimir literatura por quem gosta de ler para quem gosta de ler. As demais interpretações sempre flertam com o exagero. Hoje, olhando para trás, entendemos que aquela simplicidade não foi um acidente — foi a marca que nunca abandonaria nossa trajetória.

Afinal, o que segue como aquilo que chamamos de RelevO? Seguimos como um modesto jornal de papel com textos de literatura, um projeto simples que atravessou as transformações de diferentes ecossistemas da comunicação fazendo exatamente o que fez desde a primeira edição: publicar de maneira impressa. É a circulação de erros e acertos, de fracassos que ensinaram e de descobertas que nos deram fôlego. Já fomos chamados de velhos, já nos chamaram de anacrônicos, já nos mandaram ser digitais — e ainda mandam. Contudo, longe de nós aproveitar uma efeméride com qualquer indício de rancor.

Talvez a maior graça de tudo esteja justamente nisso: resistir à obviedade de dar errado. Sempre, ao nosso modo, duvidamos das fórmulas prontas dos novos arautos tecnológicos. Insistimos que o papel não morreu porque, enfim, o formato tem suas vantagens e desvantagens (como qualquer coisa na vida). Melhor ainda: insistimos que o papel pode ser uma alternativa, que ler pode ser uma alternativa, que pode ser uma companhia.

15 anos também são feitos de repetições. Um jornal só existe porque se repete. A cada mês, o ciclo recomeça: pensar, editar, revisar, imprimir, distribuir. Assim foram 15e anos, assim podemos definir nossos últimos 15 meses, os próximos 15 dias, os atuais 15 minutos. O RelevO é a continuidade de cada dia em que abrimos o e-mail; conferimos notificações nas redes sociais; verificamos quem mandou texto novo; atrasamos devolutivas de quem mandou texto novo, reenviamos exemplares que se perderam no caminho. Somos a soma em série de instantes cujo resultado é algo que compila o intervalo de 30 dias: o tempo lento da página impressa e o tempo rápido da leitura de quem a recebe. É ritmo, é repetição, é a mesma ação refeita 197 vezes com a mera diferença que somente a personalidade de cada mês sabe acrescentar.

Talvez essa seja a única lição de 15 anos: compreender que não há permanência sem repetição. Somos um jornal que insiste em existir de novo. Muito obrigado a todos que fizeram parte desta trajetória, aos assinantes atuais, aos projetos que anunciam conosco, aos ex-assinantes que, em algum momento dessa jornada, também estiveram conosco. A casa está sempre de portas abertas. A nossa ideia de infinito se cruza com o ato cotidiano de acordar.

Uma boa leitura a todos.

Tirem os esqueletos da sala que está passando o maior impresso da nossa rua

Editorial extraído da edição de agosto de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


No fim de junho, anunciamos o aumento no valor das assinaturas — de R$ 70 para R$ 80 na categoria básica — e, para surpresa da equipe, a resposta foi extremamente positiva. Recebemos apoio, carinho e novas assinaturas, além de renovações antecipadas e mensagens incentivadoras dos leitores. Esse reforço financeiro garantiu o primeiro superávit de 2025, que foi revertido na ampliação da distribuição do Jornal. A nova edição traz, na página 23, o Mapa de Distribuição atualizado: o RelevO agora chega a quase 300 pontos de distribuição. A proposta é ampliar o acesso e convidar mais pessoas a participar dessa estranha, porém insistente, experiência impressa, à beira de completar 15 anos em setembro.

Aliás, também por conta disso e daquilo, temos novidades diagramantes.

De fato, o ofício da diagramação se descreve, em linhas gerais, como a aplicação de conhecimentos tipográficos na disposição de elementos textuais, pictóricos e esquemáticos em um suporte, seja ele destinado ao impresso ou ao digital. Tal afazer varia um tanto, em espírito, conforme a natureza do material a ser diagramado. Para o RelevO, a diagramação é uma negociação entre a quantidade de texto para cada página e os demais elementos que precisam dialogar com ele: as ilustrações dos artistas convidados, os anúncios e o que mais for surgindo de surpresa. O desafio do diagramador é tentar deixar cada elemento “respirar”: organizar tudo que se destina ao retangulóide de 28 por 32 centímetros, respeitando as margens e os espaços em branco que geram o equilíbrio que tanto agrada aos leitores (dizem).

Não há muito segredo em relação a esse aspecto. As estrelas do show serão sempre os textos, em seu conteúdo, e as ilustrações. São poucos os elementos gráficos que os acompanham pelas páginas. Um ou outro fio separador, alguma criatividade na hora de criar numerações de capítulos ou subtítulo e pronto. Na página 2, com a ajuda do Flourish, trazemos também alguns gráficos. Há poucos ícones, usados para representar as seções fixas do periódico. A caneca de café quente representa o editorial, embora um copo de uísque seria mais fidedigno. O guarda-chuva protege o ombudsman das possíveis bolinhas de papel arremessadas pelos leitores. O conselho editorial ganhou um ícone também: um óculos, porque eles precisam ler coisas e isso cansa as vistas.

Por muito tempo, usamos a fonte Bembo para compor o corpo de texto. Essa era a fonte que conferia materialidade aos contos, poemas e ensaios enviados pelos autores. Uma bela fonte de estilo renascentista: serifada, com leve angulação para a esquerda em seu eixo compositivo, com algarismos oldstyle obedecendo às linhas de ascendentes e descendentes do restante dos outros caracteres. Seu desenho contemporâneo foi elaborado pela fundição britânica Monotype nos anos 1920, buscando como inspiração os traços do tipógrafo renascentista Aldo Manúcio, que desenhou várias letras para sua oficina de impressos localizada na Veneza do século 16.

A versão da Bembo empregada pelo Jornal tinha apenas quatro variações: regular, itálico, negrito e itálico-negrito. A partir da edição de agosto, a Bembo dá lugar à fonte Newsreader, desenvolvida em 2021 pela equipe da fundição parisiense Production Type e distribuída a partir dos critérios da iniciativa Open Font License (v.1.1). Isso significa que o RelevO é livre para usar seus estilos em composições impressas e digitais gratuitamente. A Newsreader tem 3 famílias de fontes, com 14 estilos cada uma. Isso nos dá uma considerável liberdade para explorar composições, combinando itálicos e regulares com diferentes pesos, engrandecendo a diversidade visual dos textos dos nossos autores.

Os títulos dos textos, por outro lado, não tem uma fonte definida porque estamos já há algumas edições fazendo experimentos. Cada novo volume elege um ou mais estilos para personalizar os títulos. Um pequeno disclaimer na página 2 traz os créditos para os tipógrafos escolhidos. Acreditamos que isso dá a cada edição um tempero próprio.

O Jornal ainda conta com uma fonte auxiliar, usada para legendas, cabeçalhos, nomes de autores e demais informações que acompanham os textos. Até o momento, a face tipográfica Avenir era a escolhida para o papel. Desenhada nos anos 1980 pelo famoso designer Adrian Frutiger, essa fonte é uma releitura da Futura, uma letra popular desde o início do século 20 e de autoria de Paul Renner. A Futura trazia formas geométricas para suas letras, respeitando um estilo minimalista no qual a economia dos traços simbolizava uma busca por uma suposta eficiência comunicacional — um espírito da “forma que deve seguir a função” que ditou muitas das decisões dos designers modernistas que optaram por eliminar serifas e modulações de traços presentes nas letras que estavam desenhando. A Avenir tentava respeitar essa tradição ao mesmo tempo, em que resgatava a organicidade das letras humanistas que a precederam.

Agora, o RelevO substitui a Avenir por uma família de fontes chamada Work Sans, projetada pelo tipógrafo australiano Wei Huang em 2020. Wei Huang acredita que desenhar letras é uma forma de meditação. A grande vantagem da Work Sans é que, ao mesmo tempo em que mantém as características das fontes grotescas (o aspecto geométrico e a baixa modulação dos traços), ela faz uso da tecnologia das fontes variáveis. A maioria dos softwares de composição de layout, hoje em dia, permite manipular fontes variáveis a partir de comandos numéricos. Ou seja, a Work Sans é configurada em valores que vão de 100 a 900, representando diferentes pesos. Isso permite que a utilizemos de formas bastantes diversas, tornando-a extremamente versátil. A Work Sans também é disponibilizada por meio da Open Font License.

Essa padronização tipográfica, quando aplicada nas páginas do RelevO, obedece a um grid de 12 colunas, que se adapta para receber textos em duas, três ou quatro colunas, dependendo da sua densidade ou tamanho. O importante, nessas horas, é tentar manter uma identidade entre as páginas, para não deixar o leitor perdido achando que um texto está com alguma parte faltando ou que seu jornal veio incompleto. Não eliminamos a possibilidade disso acontecer, claro, mas é importante que, em termos de diagramação, não restem tais ambiguidades.

O último elemento que compõe o projeto gráfico do Jornal são as pequenas gravuras que aparecem acompanhando os números das páginas, no cabeçalho, ou também, muitas vezes, ilustrando os textos das páginas centrais. Trata-se de imagens de jornais, livros e revistas que caíram no domínio público e estão disponíveis em bibliotecas digitais gratuitamente. Após um rápido tratamento, elas estão aptas a compor as mensagens secretas que estou tentando enviar aos meus colegas foragidos por meio das páginas deste impresso.

Ufa! Tudo gira ao redor de esqueletos.

Uma boa leitura a todos.

Em busca dos assinantes do amanhã

Editorial extraído da edição de julho de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Depois de mais de quatro anos mantendo o preço firme — desde janeiro de 2021, para sermos exatos —, chegou o instante mais adiado do que gol anulado depois de 5 minutos de consulta ao VAR: o valor das assinaturas do RelevO vai subir. Nada que comprometa o orçamento de quem ainda guarda moedas em caixas de fósforo.
Durante todo esse tempo, o valor ficou em R$ 70 por ano, menos de R$ 6 por edição, o preço de um café em pé. A partir de julho, o novo valor será R$ 80 ao ano. Um aumento de 14%, contra uma inflação estimada em 30% desde então. E sejamos justos: o setor de papelaria, ah!, esse já dobrou os preços com mais desenvoltura do que serviço de teleatendimento cobrando fatura atrasada. A caixa com 500 envelopes kraft, por exemplo, que custava R$ 60, hoje custa R$ 120. E nem vem com selo. A verdade é que seguimos como um dos impressos mais acessíveis deste país de rincões e autores que pedem resenhas para amigos.

Sabemos que falar de aumento é quase tão antipático quanto pedir fiado na padaria. Mas preferimos ser francos, e não é por nobreza. Se dependesse de nós, estaríamos agora tomando um clericot numa varanda fiscal das Ilhas Cayman, contudo, somos um impresso e buscamos sobreviver com literatura impressa, um exercício diário de equilíbrio entre negociações com a gráfica, assinantes que entram, assinantes que cancelam e a captação de recursos.

O nosso jornal pesa 66 gramas. É pouco, mas carrega o peso de quem acredita que ainda dá pra fazer imprensa literária com os pés no chão e a cabeça nas estantes, sem jogar o jogo do clubinho fechado. Sem sobrenome, sem patrocínio estrangeiro, sem fundo de investimento em hipóteses. O que oferecemos é um nome-de-jornal, papel, tinta, caracteres e uma fé torta de que tem gente, como você, que também acredita e nos assina.

O RelevO é barato. Não por modéstia. Barato porque é feito por quem prefere o valor ao preço. E porque os nossos assinantes são o que os bancos chamariam de “público-alvo”, mas que nós chamamos com mais gratidão de mecenas anônimos, apoiadores fiéis, corajosos leitores do mês que vem.

*

Daqui a menos de seis meses, em dezembro, chegaremos à edição 200. Duzentas edições atravessadas mês a mês, dobradas à mão, seladas com cuidado, distribuídas por rotas reais e afetivas. São quase 15 anos insistindo na contramão do algoritmo, apostando que ainda vale a pena imprimir ideias, costurar vozes, revisitar gêneros literários, colar etiquetas e contar histórias. Não é só um número que se aproxima: é a soma de madrugadas editoriais, crises existenciais em cima da lauda e envelopes kraft que resistem bravamente à umidade e ao tempo.

De fato, cada nova edição é uma pequena teimosia contra a desistência. Se chegamos até aqui, foi porque leitores seguiram conosco. E assim permanecemos no risco do próximo mês. Porque, como dizia o Quintana, somos feitos daquilo que parece guardado sem motivo — como folha seca em livro antigo, ou jornal literário dobrado num envelope pardo que chega todo mês, mesmo quando ninguém sabe bem como. Assine o RelevO, um agregado de silêncios e persistência — ou tudo aquilo que o mundo tenta descartar.

Uma boa leitura a todos.

Às margens de um jornal

Editorial extraído da edição de junho de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O RelevO sempre habitou as margens. As margens do contemporâneo, do mercado editorial, da lógica empresarial, do tempo cronometrado, as margens da linguagem — onde o experimental, o insuspeito, o inacabado e o humorístico encontram abrigo. Não é por acaso que muitos dos textos que publicamos se recusam ao centro estabelecido e somos uma das principais casas para autores nunca-dantes-publicados. Em meio a envelopes encharcados, mensagens cobrando devolutivas, elogios desajeitados, críticas criativas (“seleção de escrotérios”, alguém já disse sobre os critérios do que escolhemos publicar), seguimos tentando entender o que é fazer um jornal literário impresso no Brasil em 2025. Com seus encantos, tropeços e descompassos.

Manter um projeto independente de literatura é viver nas bordas do viável. Não temos estrutura robusta, nem departamentos autônomos. Cada função, da curadoria à entrega, da edição à contabilidade, é feita com pouco RH. Assim, cada falha se transforma, inevitavelmente, em culpa, em revisão, em mais uma camada de cansaço [depois de 15 anos e aproximadamente 6 mil assinantes, entre aqueles que chegaram, ficaram e saíram, chegamos no Reclame Aqui, com pedido de estorno e reclamação do nosso uso da crase]. Mas seguimos, porque entendemos que esse tipo de lombada também apresenta um tipo de presença: o relevo (com minúscula e com maiúscula) do que fazemos. O atrito com uma pequena margem de leitores, os ruídos de comunicação, os desafios logísticos — tudo isso compõe a matéria real de um projeto artesanal. Há algo de profundamente humano em não operar com perfeição.

Manter um jornal de literatura em circulação exige mais do que escrever, editar ou diagramar. Exige disposição para sustentar relações — com a equipe, com os textos, com os colaboradores, com os assinantes, com o próprio tempo. A publicação não termina no fechamento da edição, mas se prolonga nos envelopes enviados, nas mensagens trocadas, nas cobranças que nos fazem olhar para dentro e ajustar o passo. Se tropeçamos, é porque estamos caminhando.

Por isso, mais do que entregar um produto, buscamos entregar um gesto. Um jornal que chega pelo correio, mesmo com suas margens às vezes amassadas, é também um convite: a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o espaço entre linhas e silêncios. É um lembrete de que ainda é possível construir algo fora do algoritmo, da fluidez absoluta, do ruído constante. E se, por vezes, falhamos na crase, no prazo ou na costura das páginas, pedimos: permaneça. As margens, afinal, são as beiras de onde se avista o que o centro esqueceu. Nas margens se escrevem os comentários mais sinceros, os bilhetes esquecidos, os ensaios de algo novo.

É por isso que insistimos em existir fisicamente. Porque o jornal, em papel, fora do algoritmo, é também um atestado de presença. Uma maneira de dizer: estamos aqui. Em nossa imperfeição de tinta, ainda acreditamos em laços que se constroem com demora, com papel, com paciência. Nas margens se escrevem os comentários que escapam do texto principal. Onde nascem as perguntas que ainda não têm resposta. E por tudo isso, a quem nos lê, a quem nos escreve, a quem nos cobra ou nos defende: nosso obrigado. Por circular conosco à margem. Por entender que, em um tempo de sobreposição de ruídos, a existência de um jornal como o RelevO é, acima de tudo, um ato de confiança.

Uma boa leitura a todos.

Impresso 2222

Editorial extraído da edição de maio de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A única razão de ser do tempo é evitar que tudo aconteça de uma vez, teria dito Albert Einstein. Se você está lendo isso é porque viu esta citação no site O Pensador ou, de algum modo, temos uma conexão. Não a de fibra ótica, mas alguma outra — sobretudo a que passa por interesses culturais e literários, talvez uma certa inquietação que sobrevive à bateria fraca, ou algum tipo de deslocamento de certa lógica hegemônica de comunicação. Você está lendo a edição 192 do nosso periódico. Faltam somente 2.031 para chegarmos à mítica edição 2222. Não sabemos bem até onde essa estrada de Gilberto Gil vai dar. Se mantivermos o ritmo mensal, chegaremos lá daqui a mais ou menos um século. Devaneios. Como diria Aldir Blanc, em ‘Resposta ao Tempo’, nós precisamos beber um pouco para ter argumento.

Mas enquanto a longevidade segue uma incógnita, a certeza é que estamos vivos agora — circulando, imprimindo (não oprimindo) e continuando. Não por teimosia ou fetiche vintage, e sim porque o impresso funciona para nós. É direto, não depende de servidor, não pede atualização, não sugere um assistente de IA e nunca nos interrompe com uma notificação de que “você pode gostar disso aqui”. O RelevO não sabe o que você quer, tampouco publica exatamente o que você quer. E isso, acredite, é uma bênção.

A internet, por outro lado, parece atravessar a crise existencial de uma meia-idade precoce, repleta de discussões sobre a morte de seu formato. De fato, nos últimos tempos, tem ganhado força a teoria conhecida como “Internet Morta”. A ideia, disseminada em um fórum por uma peculiar conta chamada Illuminati Pirate, é que a rede, antes (por supuesto) cheia de trocas reais entre pessoas, hoje está tomada por robôs — os famosos bots — que curtem, comentam, compartilham e até criam conteúdo sozinhos. Em diversos textos, já repercutimos o estranhamento que nos causam as interações de empresas fazendo humor (publi) com outras empresas, enquanto verificamos a vertigem natural do ciclo dos memes, que, saídos de um nicho, são repetidos à exaustão até serem devidamente enterrados pela inserção na publicidade intrusiva. A cadeia alimentar do meme.

Segundo essa teoria, a maior parte do que vemos online não é feita por humanos, mas por sistemas automatizados e inteligência artificial. O resultado? Um ambiente digital cada vez mais aguado, onde as interações autênticas dão lugar a repetições mecânicas, e nossos hábitos, gostos e opiniões passam a ser moldados por algoritmos que nem sabemos direito como funcionam. É como se vivêssemos permanentemente dentro de um episódio ruim de Black Mirror.

Vivemos, portanto, num looping de mesmice inflada por IAs treinadas para copiar outras IAs treinadas, que copiam textos de ninguém, com um coeficiente negativo de originalidade e surpresa. A promessa de um espaço de troca virou um cemitério de opiniões empilhadas. E ainda dizem que foi a imprensa quem morreu.

Pois bem: o RelevO segue impresso. E isso não é resistência romântica — é escolha editorial. O papel não vaza dados, não coleta cookies (nem sabe pra que eles servem) e não te “traquêia” no Mercado Livre depois de uma pesquisa sobre a sua lombar. A cada edição, oferecemos não uma timeline, mas uma curadoria. Não há rolagem infinita, só começo, meio e fim. Uma edição pensada para ser lida com calma — ou com raiva, se preferir —, mas lida. Um jornal que não te pede cliques nem te recompensa com dopamina digital. Ao contrário da lógica do feed, que te suga até o cansaço como um parasita, somos feitos para interromper fluxos, não para alimentá-los.

Não temos pressa, e isso é uma escolha. Em vez de sermos mais uma aba aberta no seu navegador mental, queremos ser o intervalo. Um suspiro editorial entre uma notificação e outra. Um convite a se demorar pela via da página como quem vira uma esquina inesperada e descobre uma cafeteria nova. Garantimos: aqui, cada texto passou por olhos humanos. Não estamos competindo por segundos da sua atenção. Impresso não é segunda tela, embora possa ser refletido na tela a partir de postagens, comentários, likes. Não somos contra a cultura digital, e sim contra oligopólios que querem que sejamos apenas consumidores derretidos na montanha-russa de produtos vagos e serviços duvidosos.

Mais do que nunca, leitores nos encontram por uma razão simples: estafa. De estar online, de não saber onde termina o conteúdo e começa a propaganda, de consumir e esquecer. E por isso nosso clube de assinaturas é regular, constante — ou, no padrão doente do mercado, estagnado. No fundo, apenas temos um ritmo menos histérico. Talvez nunca cheguemos à edição 2222. Mas a jornada, para nós, já é um acontecimento. E seguimos circulando. Porque o mundo pode ser algorítmico, mas você pode a qualquer momento nos amassar como um origami e não aceitar ser reduzido a um mero receptor de ideias gastas.
Uma boa leitura a todos.

Destinos, o Grande Jogo, aqueles que não cabem em editais

Editorial extraído da edição de abril de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Desde sua fundação, em agosto de 2010, o RelevO nunca se propôs a ser apenas um jornal de literatura ou, pior, um jornal de pares, com uma galeria de ilustrados recorrentes e um pequeno lote para os candidatos a ilustrados. Nosso propósito sempre foi mais ambicioso, ou melhor, em uma direção menos óbvia: sustentar, com independência e vigor, um espaço em que a linguagem possa confrontar, subverter, emocionar e provocar — sem dar sustentação a CPFs conhecidos, currículos repletos de conquistas ou medalhões dispostos a colocar mais um X na imensa lista de lugares em que foram publicados.

O RelevO é um jornal de textos que gosta de outsiders, famigerados, inclassificáveis, amaldiçoados pela sina da prateleira de baixo. Gostamos dos indóceis, dos que não pedem licença para escrever. Gostamos dos que não cabem em editais nem em feiras temáticas. Dos obsessivos, dos desajustados, dos desafinados. Publicamos o que não se encaixa — e é justamente esse desalinho que nos dá forma. Por fim, ainda tentamos praticar algum humor pelo caminho. Na contramão dos tempos vigentes, nos dedicamos à permanência — ao gesto e ao gosto de editar, imprimir, dobrar e enviar literatura pelo correio, mês após mês, como quem aposta na repetição da palavra impressa e na presença do outro.

Nosso jornal é feito de margens: estéticas, geográficas, afetivas. Somos de Curitiba, mas quem nos conhece mais de perto sabe que não frequentamos nenhuma mesa das bandas que mais tocam na região. Gente que nunca havia publicado em impresso recebe um pagamento (módico, de R$ 60) e, a bem da verdade, pouco nos interessa de onde seja quem escreveu. Também não nos interessa tanto de onde somos. Somos, afinal, um jornal de textos para leitores e que orgulhosamente não segue tendências — publicamos apenas aquilo que, de alguma forma, nos comoveu.

[Aliás, passamos os últimos três meses (e contando) lendo novos materiais e dando devolutivas aos escritores. De modo geral, é um processo tranquilo, lento e individualizado, embora um & outro acabe nos homenageando assim, de um jeito mais universal:

“Percebo que seu comitê de leitura é assustadoramente limitado. Acho que vocês não entenderam nem meia palavra do significado da minha poesia de renome mundial. Mas cada um tem o direito de decidir como quiser. […] Muito obrigado, vocês são um bando de transexuais brasileiros idiotas que não entendem nada de arte. Dancem no Carnaval do Rio fantasiado de bufões e parem de se preocupar com arte. Seus idiotas!”.

Apesar desse tipo de retorno, digamos, mais emotivo, trata-se de um processo muito produtivo e que nos coloca diante do novo-novíssimo e do velho-velhíssimo. A partir dele, tentamos entender o que, hoje, leva um escritor ou uma escritora a sair dos escombros de uma página em branco e se mostrar ao mundo, a começar pela aldeia dos impressos.]

E quem lê tudo isso que publicamos há quase 200 edições? Quem nos ajuda a sustentar esse espaço rarefeito, improvável e um tanto fadado às melhores caixinhas de pets? É o leitor, a leitora; o curioso; o inquieto; o generoso; quem nos descobriu em uma panificadora de domingo; quem buscou uma edição em uma biblioteca pública. É o leitor que folheia o jornal no café da manhã ou no ponto de ônibus, que guarda um exemplar debaixo do braço, que marca uma frase com lápis e envia um e-mail depois dizendo “essa aqui me acertou em cheio” ou nos marca nas redes. O RelevO é um jornal feito com e para leitores que não querem apenas confirmar o que já sabem, mas topar o risco de serem desorientados por um bom texto. Leitores que sustentam, com suas assinaturas e sua atenção, a possibilidade de um jornal que não lambe vitrines nem serve de escada para o ego de ninguém.

Não temos um “comitê de curadoria” sentado em poltronas suecas, com jalecos conceituais e cenho franzido. Temos um grupo de pessoas cansadas, sim, mas inteiras, lendo tudo com o máximo de atenção possível. E o que torna tudo isso possível, mesmo com orçamento apertado e olheiras persistentes, é saber que há gente do outro lado. Gente que valoriza o texto bem colocado, o humor desgraçado, a imagem improvável. Gente que quer mais do que o óbvio.

E por isso, mais do que nunca, reforçamos: assim como a Receita Federal e a Wikipédia, o RelevO precisa de você. Assine, recomende, presenteie, envie àquele amigo estranho que coleciona selos e sublinha contos tristes. A cada assinatura, renovação ou exemplar enviado de presente, testemunhamos um pacto silencioso, porém profundo. Trata-se de um compromisso que vai além do apoio financeiro: é a afirmação de que ainda existe valor na leitura cuidadosa, na surpresa de uma página inesperada, no pensamento que se forma devagar, ao ritmo do papel. Os assinantes são os verdadeiros patronos dessa iniciativa.

Afinal, temos estrelas direcionando nosso destino ou somos meras peças do Grande Jogo? Talvez um pouco dos dois. Talvez sejamos somente um jornal literário de Curitiba, com orçamento apertado, diagramado madrugada adentro e enviado pelo correio com a esperança de que alguém, em algum lugar, vá folhear e nos dar um pouco de tempo. Mas também gostamos de pensar que temos textos nos guiando — um tipo de constelação que se forma quando um conto, uma crônica ou um ensaio encontra seu leitor, quando um envelope cruzando o país vira um sinal improvável de que a linguagem ainda conecta algo.

E se o destino tem mesmo estrelas, quem segura a luneta somos todos nós: leitores, apoiadores, autores, editores, críticos e entusiastas. Cada assinatura é uma pequena revolução contra a pasteurização cultural. Cada apoio é um lembrete de que ainda há espaço para o singular, o excêntrico, o fora de catálogo. O RelevO não existe sem você. É um projeto coletivo, imperfeito e orgulhosamente artesanal — mas é também um delírio compartilhado que resiste ao tempo, aos cortes e às certezas.

Por isso, deixamos aqui o convite: apoie o RelevO. Se você já é parte disso, renove. Se ainda não é, venha. Junte-se a nós nesse jornal que ousa ser ao mesmo tempo palco e bastidor, confessionário e picadeiro, bússola e tiro no escuro. Porque, no fim das contas, talvez sejamos todos peças do Grande Jogo — mas, juntos, podemos mover a pequena mesa da nossa sala.

Boa leitura a todos.

A imagem, o som e a letra impressa

Editorial extraído da edição de março de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Quando o RelevO surgiu, em setembro de 2010, éramos pura celulose e tinta, um amontoado de páginas que se recusava a obedecer a qualquer lógica que não fosse a nossa. A cada edição — com diagramação gradativamente melhor —, fomos desenvolvendo algumas linhas de certo humor caótico, ideias que se jogavam do penhasco sem saber se havia chão. Agora, estamos prestes a expandir nosso bestiário para o audiovisual. É um novo horizonte para esse modesto balcão organizado. Mas não se preocupe: ainda gostamos do cheiro do papel e da sensação reconfortante de que, mesmo se a internet cair, o impresso continua ali, firme, na gaveta, debaixo da mesa ou servindo de apoio para aquele pé de cadeira bambo. Mais: o impresso paga contas.

Nosso jornal sempre foi um convite à leitura torta, ao texto que parece errado. Agora, queremos experimentar o peso da imagem, o ritmo do som, as possibilidades do movimento — sem perder nossa veia seletiva, satírica e, acima de tudo, inquieta. Isso significa que [quem sabe] teremos vídeos desafiando a lógica do algoritmo e um conteúdo visual que, se bobear, poderá muito bem ser desenhado à mão. Vamos estudar as possibilidades, sem esquecer que nosso porto-seguro é de papel, dobra no meio e resiste ao tempo melhor que qualquer feed.

A expansão para o audiovisual nem tem como implicar um adeus ao impresso — longe disso! É só mais uma forma de provar que a palavra não precisa ficar restrita a um formato. Vamos testar novas formas de contar histórias e provocar. Quais? Ainda não sabemos; estamos apenas confabulando. Precisamos apenas continuar nos divertindo e desempenhando algo dentro do nosso limite técnico. Nosso singelo círculo de competência. Temos o mais difícil: anos e anos de conteúdo original, não necessariamente de qualidade.

Mas calma, para quem já estava preparando o textão, quem sabe alardeando que “o RelevO se vendeu para as telas”, fique tranquilo. Nosso maior sonho ainda é perder a alma para a Red Bull e virar um cone de arrancadão. Nossa tradição gráfica segue viva e forte. Continuaremos a estampar páginas com textos que desafiam padrões, referências que só três pessoas entendem e piadas que, às vezes, só fazem sentido três edições depois. A diferença é que esses mesmos devaneios febris poderão ganhar voz, trilha sonora e até dublagem dramática.

Portanto, revisem seus conceitos de Jornalismo sério e esperem por algo que nem nós sabemos exatamente como vai ser — essa sempre foi a nossa maior especialidade. O RelevO está ampliando sua bagunça organizada. A diferença é que, agora, talvez ela tenha vinhetas.

Os rumos do impresso no país dos não leitores

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em um cenário saturado pelo digital, onde o scroll infinito domina as interações e o tempo livre, mudando a percepção de foco e derretendo nossa concentração, a alternativa do impresso justifica sua existência de formas cada vez mais lógicas. Na competição diária pela atenção e na macarronada de algoritmos moldando nossos interesses, o impresso oferece uma pausa intencional e menos fragmentada, algo que a experiência digital – cada vez mais como uma roda de hamster a serviço de anúncios – dificilmente consegue (ou tem interesse de) replicar.

A recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, trouxe à tona a grave realidade do desinteresse pela leitura no país. Mais da metade da população (53%) não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, independentemente do suporte. Esse dado é comovente não só por demonstrar a desconexão com o hábito da leitura como um todo, mas também por revelar um sintoma mais profundo: uma sociedade em que não ler caminha para a norma, ao contrário do uso de tecnologias cada vez mais balbuciantes. (Convenhamos, não que antes da internet o Brasil fosse o Olimpo da intelectualidade…)

Outro dado merece atenção. A predominância do celular – 75% dos entrevistados afirmam passar mais tempo no dispositivo do que com um livro impresso –, quase uma platitude, traz uma ponderação acerca do impacto das telas em outros aspectos da vida. A hiperconectividade digital não afeta só os hábitos de leitura, uma vez que transforma o modo como nos relacionamos com o tempo e com o mundo físico. Atividades que dependem de presença, como caminhar, visitar amigos, ou até mesmo o estabelecimento de vínculos íntimos como… sexo, estão em declínio, substituídas por interações mediadas por telas.

Claro que estamos falando de uma generalização a partir de dados – e que temos, sim, zonas de respiro também nas gerações nascidas já com a internet em domínio. E não esqueçamos novamente da pesquisa: apenas 17% dos adultos acima de 40 anos têm o hábito da leitura. É uma geração pré-internet. O problema é muito mais antigo. Entendemos que o impresso, nesse cenário, pode se tornar, paradoxalmente, um ato de renovação, já que o formato não se limita somente à transmissão de informação; é um retorno à experiência tátil, visual e emocional. Livros, revistas e jornais oferecem um tipo de interação imersiva e não linear, permitindo ao leitor pausar, reler e contemplar, em oposição à efemeridade do conteúdo digital. Impresso não tem pop-up. Para além da nostalgia, o impresso encontra novas justificativas para sua existência: é um meio que incentiva o foco, a introspecção e o distanciamento saudável da saturação informacional.

Assim, o desafio não é resistir ao digital, tampouco introjetar leitura em dançarino do TikTok, mas construir uma cultura em que o consumo de conteúdo impresso seja mais presente. Chamamos isso de letramento analógico. Em um país onde a quantidade de não leitores supera a de leitores, fomentar o hábito de leitura é um passo vital para formar indivíduos menos… derretidos. Não que o RelevO, especificamente, vá salvar o Brasil de seu buraco quente (não o sanduíche), mas as redes dos bilionários malucos da ideologia californiana do Vale do Silício certamente não estão aqui para nos conduzir à evolução.

No dia a dia do Jornal, conversamos muito sobre o letramento para impresso. O que isso significa? É a nossa tentativa miúda de colocar mais leitores em contato com a nossa “plataforma”. Nosso plano logístico de distribuição, que dá acesso [grátis] ao periódico em mais de 400 pontos culturais do Brasil, tem como mote o contato com o impresso. O plano é todo financiado por nossos assinantes. Também pensamos no acesso do Jornal aos escritores. Janeiro, por exemplo, é o mês em que fazemos as devolutivas dos autores e autoras que mandaram materiais no último semestre. Acredite: muitos escritores nunca folhearam uma edição do RelevO (ok) ou sequer de outro impresso (aí complica). Mesmo entre aqueles que escrevem, as trocas de mensagens são estarrecedoras. “Olá, obrigada pelo retorno, mesmo que vocês não utilizem meu material. Quem sabe na próxima! O que é periódico? Gostaria de entender melhor” ou “Estava mais interessado na publicação do que na leitura do Jornal, não precisa mandar a edição de cortesia não”. “Mas como chega o jornal? Por email?”. Todos exemplos reais, ipsis litteris.

Em outra ponta, enquanto o Brasil vê regredir sua curva de leitura rumo ao grunhido, até mesmo gigantes do setor digital tomam ações na direção do impresso. A recente decisão da ByteDance, dona do TikTok, de expandir sua editora 8th Note Press para o mercado de livros físicos, é emblemática. A gigante chinesa aposta no crescimento da comunidade BookTok para lançar livros impressos voltados às gerações Millennial e Z. Paralelamente, revistas como Vox, Vice e Saveur retornam às bancas, ao passo que o mercado americano celebra o lançamento de mais de 70 novas publicações impressas apenas no último ano. Por aqui, temos o retorno ao impresso da folclórica Capricho.

Claro: em tempos de incertezas, a nostalgia desempenha um papel importante. Objetos físicos, como livros, vinis e câmeras analógicas, carregam uma carga emocional que os torna refúgios em meio ao barulho. Revistas impressas, muitas vezes transformadas em peças de decoração ou colecionáveis, ganham espaço pela experiência sensorial de folhear suas páginas e pelo valor estético de seus projetos editoriais minimalistas. Em muitos casos, isso não deixa de ser apenas um fenômeno de boutique.

De fato, o prazer do toque, da textura e do cheiro das páginas não pode ser replicado pelo digital. Não há interrupções irritantes, anúncios invasivos ou notificações que desviam a atenção. A leitura flui em um ritmo próprio, permitindo uma experiência limpa e imersiva. Além disso, o impresso resgata a noção de permanência. Enquanto plataformas digitais adicionam e removem conteúdos sem aviso, o que mantemos fisicamente em nossas mãos reflete nossa identidade e gera memória. Livros e revistas tornam-se extensões de quem somos, objetos que não só representam nossas preferências, mas também estreitam laços e promovem a troca de ideias. Impresso não pode ser editado a posteriori.

O milésimo renascimento do impresso não significa uma rejeição ao digital, mas sim uma convivência harmoniosa entre os dois formatos. Ambos têm seus méritos: o digital para a instantaneidade e o alcance global, e o físico para a profundidade e a conexão emocional. É nessa coexistência que leitores, criadores e editores encontram novas possibilidades: estamos falando de reimaginar o século 21 antes que ele se torne o ferro-velho completo dos bots.

(Outra) carta aos leitores em (outros) tempos difíceis

Editorial extraído da edição de janeiro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Chegamos ao início de um novo ano carregando as marcas de 2024, quando conseguimos a façanha de fechar nove meses no vermelho – um recorde não atingido desde 2019. Os últimos meses exigiram de todos nós uma série de novas habilidades para enfrentar percalços que insistem em testar nossa capacidade de seguir adiante, não sem repensar o modelo de negócio e o próprio negócio em si. Será o momento de parar? O nosso corpo de assinantes finalmente… cansou? Em meio às incertezas, é reconfortante observar que, mesmo quando nosso pequeno mundo parece vacilar, o jornal impresso segue como um abrigo seguro, uma alternativa, uma ponte entre o caos e o repouso. Lembremos que 2024 foi repleto de intensos debates sobre os limites e os transtornos provocados pelo excesso de tempo diante das telas. Brain rot, de “cérebro apodrecido” ou “atrofia cerebral”, foi eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford.

Ao virarmos a página do calendário, refletimos sobre os desafios enfrentados e renovamos o desejo por um ano melhor. Todos os janeiros carregam em si essa promessa de recomeço, de página virada – para usarmos uma imagem gasta –, mas também nos lembram de que o ciclo de dificuldades faz parte da própria experiência humana. Talvez, soando um pouco como Osho (pronuncia-se Oxxo), ao reconhecermos a repetição desses padrões, podemos assumir tanto as dores como as possibilidades de transformação que elas trazem.

Para muitos de nós, escrever e ler não são apenas atos culturais, mas também atos de manutenção e de escape. É verdade que as crises têm cobrado seu preço também deste universo. Pequenas editoras lutam para lançar seus livros, livrarias de rua resistem ao fechamento e ao mercado predatório digital, e escritores enfrentam o dilema de criar em meio às pressões cotidianas, como pagar aluguel e tratamentos médicos. A vida custa – inclusive, está bem mais caro o cafezinho que acompanha a leitura habitual de jornal. Ao mesmo tempo, nesses momentos vemos nascer iniciativas coletivas, projetos colaborativos e movimentos que reafirmam a força da literatura como um bem comum. A produção literária se transforma, encontra novos meios, alcança novos leitores. Ou, então, assumimos de vez que a literatura é um privilégio e vamos todos assinar o streaming menos invasivo por R$ 59,90 ao mês.

Aos nossos leitores, queremos dizer: estamos aqui. O Jornal RelevO continua como um espaço para acolher vozes diversas, para impulsionar novos autores e praticar algum humor. Seja parte deste exercício de continuidade: leia, escreva, divulgue, compartilhe, assine.

Que 2025 seja um ano melhor.

Por uma boa leitura,

Equipe do Jornal RelevO

Dobras de 2024: ventos contrários, páginas viradas, publicando sob sol e chuva

Editorial extraído da edição de dezembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


2024 foi e ainda é um ano que merecia virar personagem do RelevO: cheio de nuances, tropeços e desvios, daqueles que a gente acompanha com uma mistura de desconfiança, preocupação e esperança, torcendo para um bom ponto de virada, como se o arco narrativo estivesse próximo do final feliz. No limite, como todo bom personagem de humor caricato, 2024 conseguiu arrancar um sorriso de leve e alguma faísca de otimismo. Nos vemos na canção ‘Aprendizagem’, de Yamandú Costa (não confundir com o personagem Yamancu Bosta, que já constou em nossas páginas): “Quando lembro cada página do meu passado / Nunca me arrependo / Do que foi lembrado / Do que foi riscado / E dado pra viver”. Todos temos o nosso tempo de aprender.

No aspecto financeiro, foi especialmente desafiador. A instabilidade nos obrigou a fazer malabarismos que dariam inveja a qualquer trapezista. Mas sobrevivemos, sobreviveremos. Aliás, sobreviver parece ter virado nossa especialidade desde 2010 – e assim pensamos até quem sabe termos o mínimo controle dessa trama, apesar de não vivermos uma semana sem alguém sugerir que sejamos um periódico online.

Aprendemos muito. Descobrimos que consistência e teimosia são ferramentas indispensáveis quando os recursos estão em falta. Com mais coragem que precisão, seguimos publicando. Fomos em diversas feiras literárias independentes pela primeira vez – e não passamos vergonha. Aliás, até fizemos bonito, se nos permitem a modéstia de quem levou uns “não” educados antes de ouvir alguns “sim” pelo caminho. O RelevO tem 14 mil seguidores no Instagram e uma coleção de mais de 27 mil negativas ao longo de sua história. Somos especialistas em obter recusa. Outro número interessante: depois da assinatura, mais de 3.500 indivíduos desistiram de seguir conosco ao longo de quase 15 anos.

Outro marco importante foi ampliarmos nossa distribuição. Agora, temos leitores em lugares onde nem sabíamos que chegaríamos, além de estarmos cada vez mais próximos de chegar ao patamar logístico que tínhamos antes do início da pandemia. E sim, ultrapassamos a marca de 1.000 assinantes. Sabemos que isso não nos torna nenhum gigante do mercado, mas, para nós, é um feito enorme. A cada assinatura renovada, a gente festeja como quem desenterra um tesouro escondido no quintal. (Ok, sem exageros – é algo mais prosaico, como encontrar dinheiro esquecido no bolso do casaco.)

Queremos que 2025 seja o ano do Jornal. Nosso plano é participar ainda mais de eventos independentes. Queremos que a nossa lojinha finalmente saia do papel e comece a funcionar – e queremos lançar o livro dos 15 anos do RelevO, com os nossos melhores textos publicados de 2015 pra cá. Afinal, temos o RelevO 5 Anos, que, inclusive, pretendemos relançar no pacote de novos erros editoriais.

Também estamos de olho em algo ousado: ter menos prejuízo. Quem sabe até um dia chegar no tão sonhado “se pagou”. O breakeven constante. 2024 foi um ano de nove meses no vermelho. Mais que isso, queremos continuar nos divertindo. Publicar bons textos, seguir como um espaço onde leitores e escritores se sintam em casa, mas não a ponto de querer trocar assinatura por texto publicado.

Que venha 2025, portanto! Continuaremos aqui, materializando o calendário, rabiscando futuros, inventando projetos e provando que um jornal independente pode, sim, seguir em frente – mesmo com alguns descompassos. Quem sabe, no próximo editorial, estaremos comemorando não só a sobrevivência, mas também o encontro leve entre a incerteza e a nossa narrativa.

Queremos ser a Bladnoch (antes da venda ou depois também)

Editorial extraído da edição de novembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A Bladnoch, da região de Lowland, na Escócia, é uma pequena destilaria localizada perto de uma aldeia (e rio) de mesmo nome nos arredores de Wigtown, cidade a umas três horas de Edimburgo, famosa pelas suas livrarias, que olham de frente para a Irlanda do Norte. É a destilaria mais ao sul da Escócia. A população estimada de Wigtown é de 1.000 pessoas, um pouco menos que o número de assinantes do RelevO.

A destilaria surgiu em 1817. Ficou nas mãos da família que a fundou até 1938, indo parar, então, numa prateleira baixa da United Distillers, atual Diageo, conglomerado de marcas que engloba a Johnnie Walker (e o Red Label…), a vodca Smirnoff, o gin Tanqueray e a cachaça brasileira Ypióca. A Bladnoch foi fechada em 1993. A partir daí, houve um interessante ponto de virada.

Em 1994, o topógrafo e desenvolvedor de propriedades Raymond Armstrong, nascido na Irlanda da Norte, comprou a propriedade com vaca, carneiro, destilaria desativada e tudo. Originalmente, ele buscava apenas uma casa de férias. Pois faremos uma coloração narrativa e presumiremos que os deuses do uísque tocaram o coração de Armstrong, que não tinha relações com a indústria de destilados até então.

Assim como Truman Capote intuiu os pensamentos do assassino de A Sangue Frio, entendemos que Armstrong passou a compreender o que a destilaria significava para a comunidade local, reconsiderou seus planos originais e passou a trabalhar na reforma do espaço para reativar a marca. Essa atitude – pois veja – incomodou a Diageo, que havia enterrado quase 200 anos de história pelo fato de a destilaria não ser lucrativa para o grupo.

Após divergências entre a antiga firma e o novo proprietário, estabeleceu-se que a destilaria poderia retornar com um teto baixo de produção, o que, para a estrutura histórica, não foi exatamente um problema. E assim a destilaria retornou ao mercado, pequena e aparentemente desimportante para a história do mundo, mas certamente não para o povoado de Bladnoch. Trata-se de um uísque especialmente agradável, recomendado até para beber com sobremesa.

Mas não paramos por aí. Um desentendimento entre Armstrong e seu irmão sobre a venda da destilaria acabou levando-a à liquidação em março de 2014. Em agosto de 2015, o empresário australiano David Prior comprou a destilaria, os armazéns e o charmoso centro de visitantes, bem como os estoques produzidos entre 2000 e 2009 por uma quantia não revelada, criando uma nova empresa, a Bladnoch Distillery Ltd., que mantém o mesmo espírito da destilaria. Ela se orgulha de ser a “menor” destilaria da Escócia, título que a Edradour também disputa. A empresa continua tecnicamente pequena, mas agora conta com uma rede de distribuição maior e um portfólio mais amplo de produtos.

O que a Bladnoch teria a dizer sobre a “indústria” de jornais impressos de literatura a partir de sua tumultuada história de vendas e aquisições? E qual seria o benefício de disputar para ser reconhecido como o menor em tempos de aquisições, holdings, fusões, filiais e franquias? A Bladnoch talvez nos sugerisse que, para manter algo genuíno e de valor, é preciso resistir às lógicas de mercado que achatam a cultura em favor da padronização e da rentabilidade. O uísque artesanal, envelhecido e restaurado por um certo amor à tradição e ao saber local, torna-se uma imagem para a sobrevivência da literatura independente e do Jornalismo cultural. Porém, não sabemos ao certo se resistir ao mercado é exatamente o que queremos enquanto RelevO. Talvez almejemos existir neste mercado.

Cada um desses universos lida com a pressão de se expandir, diversificar, aumentar produção e seguidores, contudo, no fim, o que realmente os torna únicos não é o tamanho da operação, e sim a profundidade da experiência que oferecem – e aqui também ficamos na dúvida se utilizamos o termo “experiência”, tão gasto pelas majors na atualidade.

Tal como Armstrong, que, ao perceber a importância da destilaria para o vilarejo, decidiu investir no projeto com mais dedicação que qualquer acionista distante poderia ter, o RelevO reconhece seu papel na comunidade de leitores que alimenta. E o RelevO também bebe. Ainda que pequeno, por escolha e necessidade, a decisão de ser “menor” é, em grande parte, uma resposta às engrenagens de um sistema que nem sempre reconhece o valor do peculiar e do pessoal, transformando tudo em opacidade linear.

Não há garantias, é claro; os altos e baixos, as vendas e recomeços são parte do processo. Mas a missão de preservar a identidade, mesmo quando isso não se traduz em expansão, é um propósito difícil de defender e explicar quando nos deparamos com os números frios. Com seu produto, a Bladnoch oferece sua interpretação de Lowland; nós, no RelevO, almejamos oferecer um lugar que não sabemos bem qual é, em edições limitadas e longe das grandes prateleiras. Sobretudo distante do Red Label.

Uma boa leitura a todos.

Na falta de um francês melhor, ser guache na vida

Editorial extraído da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


No editorial de setembro, mencionamos a revolução silenciosa do impresso em tempos digitais. Temos alguns motivos para acreditar em uma espécie de reposicionamento do impresso em tempos de adoecimento pelo uso excessivo de telas.

Ao mesmo tempo, tal qual o time pequeno que perde inúmeros gols fora de casa e sai derrotado por 1×0 no final em um lance isolado, fomos punidos pelos deuses do papel-jornal por arriscar tamanho otimismo: tivemos, no mês passado, um dos mais difíceis períodos de arrecadação para o custeio geral da nossa operação.

Diferentemente do impresso, em que sintetizamos um período a partir de textos e entregamos números finais, nossa presença digital acompanha um tanto das oscilações de caixa, do espírito do tempo mais curto, essa coisa do dia a dia mais repetitivo, necessário e desinteressante. Chegamos, e sabemos disso, a exagerar na passada de chapéu —que falta nos faz um sobrenome melhor… E cada novo assinante representa mais um voto de confiança, o que soa ao mesmo tempo simbólico e efetivo. O assinante é quem paga a conta.

Nas edições de julho e agosto, atingimos aproximadamente 95% da meta de arrecadação. Um prejuízo aceitável, do jogo e das oscilações da vida financeira de um negócio de pequeno porte. Então, veio setembro… E o resultado é perceptível na página 2, com o balanço geral da edição. Aliás, no Brasil, somos o único jornal impresso que apresenta publicamente as próprias contas.

E quanto custa, afinal e mensalmente, a operação RelevO? Em torno de R$ 10 mil, puxados, sobretudo, pelo custo de gráfica e de distribuição. O custo de pagamento de autores, além da equipe editorial, não pesa tanto porque, enfim, não remuneramos bem, embora não exista alguém não remunerado nos processos internos do periódico, dos autores aos empacotadores.

Por coisas que poderiam ser explicadas, quem sabe, pela projeção de signo, o editor acumula as funções de curadoria e pagador de boleto — em inglês soa mais imponente: publisher. Ou seja, seleciona textos, com o auxílio do editor-assistente e criador-culpado pelos textos da Enclave; encaminha dúvidas ao Conselho Editorial; conversa com possíveis ilustradores; questiona a resolução das imagens com a gráfica, o corte das páginas, “segue foto em anexo”. Essa é a parte realmente divertida.

E para lidar com tantas oscilações de nascimento & desenvolvimento, o lado B de gerirmos um pequeno negócio para seguir gerando divertimento, contamos com o senso de comunidade do RelevO, essa coisa que, ao longo do tempo, fomos criando, um certo jeito de se relacionar com as coisas que envolvem a escrita, a leitura e a discussão literária. Em suma, nosso senso de comunidade se constrói a partir de um ecossistema de trocas, apoio mútuo e pertencimento em torno de uma palavra ligada na outra, pagando contas e virando páginas.

Uma boa leitura a todos.