A revolução silenciosa do impresso ou 14 anos da primeira edição

Editorial extraído da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2 de setembro de 2010, o RelevO saiu com a sua primeira edição impressa, oito páginas, preto & branco, formato tabloide, 1000 exemplares de tiragem. A fatura da gráfica: R$ 200. A arrecadação do mês: R$ 200. Gastamos entre R$ 30 e R$ 60 com distribuição, concentrada em Curitiba e Araucária, cidade da RMC que foi a sede logística do nosso periódico por quase 12 anos. Pouco tempo depois da edição #1, adotamos o slogan “Não tem fins lucrativos — porque não consegue”, logo depois destituído em prol do elevado “Qualquer coisa, a culpa é do revisor”.

Na época, observávamos três movimentos regulares no mercado de jornais de papel: (1) o fechamento da versão impressa de diversos jornalões, (2) o aumento de custos de papel e de materiais de papelaria e (3) a migração de leitores para as novas mídias — fenômeno que veio a se alastrar com ainda mais força a partir da portabilidade de internet em celulares. Nosso primeiro anunciante, um proprietário de uma loja de calçados, inclusive, já na terceira edição, perguntou-nos se não era o caso de se tornar digital ou abrir um blog ou um portal de literatura.

14 anos depois, aqui estamos em um cenário que não é exatamente animador, mas se distancia com folga do clima de terra arrasada e de destruição dos produtos analógicos. Inclusive, a terra do eldorado digital passa por sérias problematizações e/ou necessidades de regulação, sobretudo por parte dos pais, que lidam hoje com crianças e adolescentes viciados em celular, com problemas visuais, claras limitações de interação física e local, desconstrução dos vínculos afetivos com a família, além do comprometimento da saúde física e psicológica, de estresse à ansiedade. Não estamos sendo saudosistas: apenas conhecemos as salas de aula.

Mas veja bem: não que isso tudo – que hoje vemos como pontos de atenção em relação às tecnologias – não existisse antes em um grau menor ou atrelado às mídias ditas tradicionais, como rádio e televisão. Apenas constatamos que a primeira década de internet ilimitada trouxe uma geração nova de distúrbios, que, parece, podem ser minimizados com comportamentos… analógicos — o famoso axioma do Filho de Steve Jobs, famoso por não deixar seus rebentos usarem dispositivos eletrônicos sem mediação.

Há uma sutil e silenciosa revolução acontecendo no interior dos negócios de comunicação, mais especificamente no que tange aos periódicos de nicho: “— podemos chamar isso de ascensão vitoriosa dos leitores relaxados que estão cansados de ler nas pequenas telas de seus celulares — e essa revolução tem a mídia impressa como protagonista”, na definição do professor em cibercultura Mario A. García (não confundir com Márcio Garcia).

Quem acompanha o dia a dia do mercado de feiras e festivais, além dos lançamentos de edições premium de clássicos repaginados, sabe que os produtos analógicos exercem poder de sedução, mesmo que os números do mercado livreiro tradicional não sejam dos mais promissores.

Entre os periódicos de literatura que orbitam tal ecossistema com certa desenvoltura, observamos uma recente onda de revistas independentes de pequenos lotes, com propostas que atravessam da curadoria de literatura, como o próprio RelevO, até revistas de invenção como a Caça & Pesca, além da novíssima revista Júlia, da Livraria e Editora Arte & Letra, que já se encaminha para a segunda edição.

Editoras ainda partem para clubes de livros personalizados, ao passo que a TAG (não confundir com Transtorno de Ansiedade Generalizada) Livros acaba de completar 10 anos, lidando com as perdas ocasionadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul. Em paralelo, García ainda reforça o caráter de individualização do impresso, com embalagens que retornam ao prazer do tato, exploram as possibilidades de formato, resgatando a beleza de juntar palavras e imagens de um jeito próprio, aquilo que convencionamos chamar de experiência.

[as revistas] têm um preço premium, às vezes excedendo US$ 25 por edição, e são destinadas tanto para exibição em mesas de centro quanto para leitura. Seu conteúdo normalmente não está disponível online, reforçando sua natureza exclusiva e colecionável. Essas revistas atendem a interesses específicos, como escalada, surfe, esqui e corrida, enfatizando conteúdo de qualidade com publicidade mínima. Elas são projetadas para serem itens colecionáveis em vez de leituras descartáveis.

O RelevO não custa nem 25 dólares ao ano. Longe disso. Em quase 200 edições de papel, sem pular sequer um mês, seguimos em conflito com os custos operacionais da vida, mas convictos de que as mídias analógicas continuarão com o seu espaço — também desconfiando que a saída dos grandes jornais da mídia impressa é mais uma ação de diminuir o acesso das pessoas à informação do que estratégia democrática.

Ao nosso modo, entregamos também uma estratégia, um jeito analógico de existir no mundo. E já vimos crises suficientes para dizer que seguiremos como um impresso — enquanto tivermos leitores e leitoras dispostos a questionar a hipertrofia do mundo.
Uma boa leitura a todos.

“Como pensar o silêncio no meio de tão vasta explosão?”

Editorial extraído da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2017, em entrevista ao Diario de Sevilla, David Le Breton desenvolveu um ideário a favor da quietude, o silêncio como forma de resistência. “Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século 20 como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica”.

Na contemporaneidade, de fato, o silêncio tornou-se um luxo raro. Como definiu Eugênio Bucci, “Como pensar o silêncio no meio de tão vasta explosão? (Explosão, aliás, duradoura e persistente, que não é de hoje, que vem se intensificando pelo menos desde o final do século 19)”. O silêncio é uma ética. As nossas vidas são permeadas por um constante fluxo de informações , notificações e alertas que competem por nossa atenção, fragmentando nosso foco e nos empurrando para hábitos de hamster. A tecnologia, embora revolucionária em sua capacidade de conectar e facilitar — e não estamos aqui para defender luditas —, também nos joga a um ciclo incessante de estímulos sonoros e visuais, a uma certa prosa infinita do mundo, produzindo ruídos internos crônicos. Não é difícil observar a qualidade de nossas interações, envolvidos que somos por pastéis de vento emocionais.

O silêncio, para um jornal de literatura, por exemplo, não é apenas necessário, e sim a substância primeira de sua consolidação, uma forma de sobrevivência da experiência. Nesse sentido, torna-se uma forma analógica de resistência – termo cujo processo de banalização agora reforçamos. Resistir à tentação de estar constantemente conectado, resistir à pressão de responder imediatamente a cada notificação, resistir à cacofonia moderna que ameaça nossa capacidade de introspecção.

Hoje, a resistência ao ruído é, de certa forma, uma resistência ao próprio fluxo do tempo moderno. O pesquisador Adauto Novaes define a experiência de ser contemporâneo como fluxo tagarela: “Damos com muita facilidade e até certo desprezo um ‘adeus’ às palavras de maneira tão tirânica e tão natural que nem conseguimos colher imagens que ela nos propõe. Sem o tempo do pensamento, a simplicidade das palavras e a riqueza dos sentidos desaparecem no fluxo tagarela. Sem a experiência do silêncio não se entende o que se diz. Ora, conhecer uma coisa é experiência; conhecer o sentido da fala é experiência”. Seria verdade, então, que somente é capaz de silêncio um ser que pode falar que tem linguagem? Quem nunca diz nada, assim como quem nada tem a dizer, não consegue guardar silêncio?

Se pensarmos no Adonis de “Você, coisa incompleta, inicia a perfeição” como uma estratégia de definir um leitor, chegamos ao valor final absoluto: quem dá vida ao texto, transformando página em alguma coisa além de uma palavra colada na outra, é o leitor que se rebela contra o ruído, que, nas palavras de Frédéric Gros, faz do silêncio uma superfície isolante branca que serve de anteparo diante do ruído.

O caminho foi cantado há muito tempo pelos Secos & Molhados: “Eu não sei dizer / Nada por dizer / Então eu escuto (…) Eu só vou falar / Na hora de falar / Então eu escuto”.

Uma boa leitura a todos.

A arte de perder não é nenhum mistério

Editorial extraído da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Quando Elizabeth Bishop escreveu que “Tantas coisas contêm em si o acidente / De perdê-las, que perder não é nada sério”, certamente não se referia ao escopo de escolhas de um jornal de literatura, muito menos do RelevO. Mas isso não nos desanima, tampouco nos impede de forçar a analogia.

Na média, recebemos 400 textos por mês – muito mais que a nossa capacidade de leitura – e estamos sempre em débito com as devolutivas aos autores recusados, o que nos gera espezinhadas regulares nas redes sociais. Para Alain, em Considerações sobre a Felicidade, ninguém tem escolha. “A arte de viver consiste, antes de mais nada, parece-me, em não brigar consigo mesmo sobre a decisão que se tomou ou o ofício que se exerce”.

Escolher o que publicar é um exercício de curadoria complexo. Isso de sermos condenados a ser livres, de abraçar a incerteza e a ambiguidade, já que envolve uma análise subjetiva a partir do gosto dos editores somado à busca por uma compreensão objetiva de textos soltos que possam gerar um conjunto interessante para uma única edição. Por outro lado, gostamos da capacidade simples e prazerosa de identificar novos talentos. Tentamos, assim, ser um espaço de mediação que conecta escritores e leitores, os quais muitas vezes estão nas duas frentes.

Não temos a ambição de orientar os leitores em meio à enxurrada de informações, destacando obras que merecem atenção pela sua qualidade, originalidade e pertinência. Ao selecionar textos de diferentes estilos, gêneros e perspectivas, não temos a pretensão de ser um farol literário que ilumina todos os caminhos da literatura – isso daria muito trabalho!

Nosso objetivo é mais modesto, porém não menos significativo: queremos ser um pequeno espaço de sensações em que cada leitor encontre algo que ressoe com suas próprias experiências – mais que um cardápio de um restaurante elegante, nos vemos como um honesto buffet por quilo.

Essa falta de pretensão não diminui nosso compromisso com a qualidade dos textos que publicamos. Não queremos ditar tendências ou definir padrões; somos apenas um ponto de encontro analógico, um café de domingo, um jeito de estar no mundo, mesmo para quem não selecionamos, afinal “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada”, como define Bishop.

Sabemos que ser recusado em um processo de seleção pode ser desanimador para os autores. Entretanto, essa decisão não diminui o valor ou o talento de quem escreve. A curadoria é um processo subjetivo e, muitas vezes, um texto pode não se encaixar no perfil ou na linha editorial que buscamos em um momento específico. Sequer precisamos entrar no mérito de grandes autores recusados ao longo da história.

Para os autores não selecionados, queremos dizer que o RelevO continua aberto e interessado em suas criações futuras. Encorajamos todos a persistirem, a explorarem diferentes estilos e temas e a continuarem submetendo seus trabalhos. Só não encorajamos a tentar trocar publicação por assinatura. Isso realmente nos ofende (o que é difícil…) e, para esses, desejamos um péssimo dia!

Para todos os outros, uma boa leitura.

“Por que não ser digital?”

Editorial extraído da edição de junho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


De tempos em tempos, fazemos um compilado de motivações para seguirmos impressos. O primeiro argumento é simples: gostamos dessa forma de existir. Depois, comumente citamos

  • a) a conexão física, a experiência sensorial em si de folhear um jornal;
  • b) o ritual de leitura, aquilo do jornal no café da manhã de domingo, abrir o malote para, então, ler de acordo com as próprias manias;
  • c) a experiência offline, com menos distrações, menos desvios de atenção: jornal impresso não tem pop-up nem notificação de tela;
  • d) o apelo visual, afinal, nos entendemos vulgarmente como um jornal de arte com uns textos dentro, e a cada edição procuramos entregar um produto de valor estético que não seja perfeitamente reproduzível em um… PDF (ou você se pega dizendo “que PDF bonito”?);
  • e) outros argumentos que envolvam materialidade para caixinhas de pet, hábitos tradicionalistas, tangibilidade, acessibilidade, curadoria, limite: imagine que podíamos ser uma edição com 893 melhores textos. A edição de junho entrega apenas 10 textos.

Também não negamos que oferecemos limitações visíveis ao consumo: jornal molha, rasga, gera ansiedade visível da não leitura, amassa, avoluma, amarela. Nem precisamos nos estender nisso porque o nosso entorno reforça tais déficits o tempo todo. Entretanto, reconhecemos ultimamente uma nova não vulnerabilidade, vista principalmente em nativos digitais e em seus apelos por rentabilidade (nós também fazemos apelos – não estamos julgando, apenas constatando).

Pois vejam: em um mundo cada vez mais dominado por algoritmos e por tráfego pago, o jornal impresso pretende se pagar já em sua materialidade, sem a necessidade direta do pedágio das redes. Paga-se – você paga – para receber 12 edições de papel.

Sabemos que jornal custa caro, da gráfica ao Correios, mas a operação é muito mais previsível que a dos meios de comunicação, cada vez mais dependentes de – e, portanto, vulneráveis a – qualquer ligeira mudança das plataformas contemporâneas. Os Correios podem fechar? Sim. As gráficas podem triplicar o preço da tiragem? Também. Porém, estes são elementos de jogo muito mais jogáveis, a nosso ver, que a disputa por atenção e o desespero com mudanças nas políticas de monetização nas redes.

Podemos observar essa resistência (ou teimosia) a partir da lógica do Efeito Lindy. Inicialmente, a constatação de seu criador, Albert Goldman, em 1964, foi: “a expectativa de futuro de carreira para um comediante de televisão é proporcional ao total de exposição no passado pela metade”. Então simplificamos para uma regra de bolso: se X existiu por Y anos, podemos presumir que existirá por mais Y (ou metade de Y, como propôs Goldman).

Assim, se o seu projeto artístico, negócio ou relacionamento depende de redes sociais criadas semana passada ou de algoritmos ajustados ontem, é muito mais provável que ele esteja vulnerável (e desapareça) a partir de mudanças nos algoritmos atualizados hoje ou redes sociais evaporadas semana que vem. A nossa inadequação, quem sabe, seja a nossa fortaleza. Por isso, impresso.

Uma boa leitura a todos.

Ergonomia: eu quero uma pra viver

Editorial extraído da edição de maio de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O tempo, mais do que urgente, é constante. O RelevO é um jornal impresso de papel e de literatura que enfrenta o calendário a cada 30 dias. A cada edição em que retiramos os exemplares da gráfica, em que fazemos o mesmo caminho e vemos os mesmos rostos, completamos o atestado da nossa sina: ser impresso.

Dentro do exercício rotineiro de existir como um produto material, buscamos nos atualizar para fazer mais do mesmo. Melhor: para nos adaptarmos e, então, fazer melhor este mais-do-mesmo. Entregar um jornal que justifique a presença no tempo é o nosso objetivo, digamos, mais semântico. Funcionamento é o nosso jeito de praticar beleza. Assim, de certo modo, acreditamos em ergonomia.

A lógica é simples. Ao longo de nossa trajetória, que logo se encaminha para 15 anos de existência, aprendemos a 1) operar planilhas; 2) melhorar processos logísticos; 3) calcular custos de curto, médio e longo prazos; 4) prever algumas variáveis; 5) encontrar os melhores espaços de alavancagem de audiência; 6) estudar estratégias de presença física e digital; 7) reconhecer mudanças no perfil de consumo de conteúdo; 8) lidar com as nossas restrições técnicas e de orçamento. Enfim, somos um peculiar modelo de negócio que, para persistir, precisa se comportar como… um negócio, contando com riscos e acasos.

[Entendemos que, se um dia nós simples e inevitavelmente virarmos fósseis nos fundos de uma casa a dois anos sem alugar, não poderão dizer que ficamos acomodados fazendo tudo do mesmo jeito. Estamos sempre buscando alternativas para fazer mais com o que temos à disposição. Não se trata de trabalhar mais, e sim de modo mais inteligente.]

Recentemente, executamos três mudanças operacionais profundas. A primeira corresponde ao sistema de envio de textos para publicação. Acabaram-se os tempos hediondos de envios manuais ao editor, pois resolvemos uma enorme e longínqua dor de cabeça. Trouxemos uma solução elegante: um formulário próprio. Basta seguir as instruções e anexar os arquivos, tudo ainda no mesmo endereço (jornalrelevo.com/publique).

O segundo avanço corresponde à otimização do nosso sistema de assinaturas, cada vez mais automatizado e distante da lógica “acertando com o publisher”. É um meio simples, porém efetivo de garantir profissionalismo e transparência nos procedimentos. Alteramos a maneira com que as compras são catalogadas pelo MercadoPago, o que não muda nada para o assinante, mas nos ajuda um tanto.

A terceira novidade diz respeito à Latitudes. A newsletter mensal (e gratuita) é a nativa digital da casa, voltada para concursos literários, editais, feiras, festivais e cursos de literatura. As edições têm entre dez e 15 notas, as quais reúnem as principais informações sobre cada proposta cultural. Trata-se do nosso material com maior compartilhamento, impulsionado pela base qualificada de assinantes do Substack, cheia de escritores, jornalistas, editores, artistas e demais entusiastas desse negócio de uma-palavra-ligada-na-outra. Muitos assinantes, inclusive, migram da assinatura digital para a física, colaborando para o custeio de nossa operação.

Desde a edição de maio, temos espaços pagos dedicados a lançamentos de livros ou à divulgação de obras de editoras independentes e de autores autopublicados. Trazemos – com aviso de publieditorial – a capa, uma pequena sinopse e as informações de acesso ao conteúdo. Assim, buscamos ampliar o nosso fôlego financeiro e apresentar mais uma novidade dentro do escopo de possibilidades de um jornal impresso que se considera conectável.

Nosso intuito prático final, em todas as novidades, é conseguir viabilizar o Jornal. Em suma, pagar a gráfica → pagar os envios pelos Correios → pagar a nossa equipe que seleciona e produz conteúdos → seguir publicando. Nosso intuito mais difícil de mensurar, mas nem por isso menos fundamental, é melhorar a experiência do leitor, do assinante e do colaborador. Assim, nos esforçamos para entregar o melhor jornal possível dentro de uma jornada de 30 dias.
Uma boa leitura a todos.

Zeh Gustavo: ESSA CHUVA, MAIOR QUE NÓS: o náufrago pede desculpas… e se afoga

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Uma sombra
chega,
senta,
segura-me do braço.

“Escuta.” Escuto. “A lua existe”.

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira:
“Existe a lua, existe”.
E sábado e domingo:
“Existe a lua, existe.”

Antônio Fraga, Moinho e

Esta chuva não remete às águas de março, que não fecham mais o verão, porque do verão restarão desertos pipocando, aqui e acolá! (Voltarei às pipocas – à vida, à morte!) A água desceu foi do “Naufrágio” de Camila Ferrazzano: “as calhas despencaram / mágoa na casa toda”.

Tampouco falo de mágoas e sim de fato poético: há roupa (ora encharcada, um dia seca, noutro rota, também dizem — se rasga, toda — num dia há um farrapo; noutro, fantasia). Há roupa. Para toda uma existência: “essa chuva é maior que nós”.

*

Essa chuva, essa lua, na cidade escusa… Há um maior que nós, vê? Que quem não cuida assume o risco de contrair uma idiotia latente, que porventura se mantenha ali, à espreita, mesmo após um doutorado em Harvard ou um samba ganho no Salgueiro. E que é capaz manifestar-se em uma abjeta condição, que é a de alguém não se tocar da própria precariedade (e sua potência). Tá ligado? O maior que nós não está aqui de bobeira!

Ou você pensa que patriotários de caminhão que rezam pra pneu, burros ilustrados citadores de livro de autoajuda como se fosse Verissimo ou Clarice, influencers em geral surgiram assim do nada?

*

Também não estão de bobeira as galerinhas da Tovi — primeira torcida organizada declaradamente franciscana e antidinizista; e da Comissão do Orçamento Participativo da Invasão Extraterrestre — cujo mandato já começa eivado de malfeitos que vão além da disseminação proselitista da tese do monodimensionalismo ocupacional. Mas sigamos, prescreveu o Bolívar Escobar, a “transfigurar a estranheza” – quiçá o maior legado que um escrevente possa deixar aos seus não leitores.

*

Meus protestos ao conto do Fiorot: onde vamos parar? E se a moda pega? Investigar a ficha corrida de móveis e eletrodomésticos para se averiguar se um dia já foram gente, como parece insinuar, irresponsavelmente, o bardo escriba: vai ajudar o Fluminense a ser campeão, como dizia o filósofo (e eterno terceiro goleiro aposentado) Ricardo Berna? O que ele quer? Que coach também seja reconhecido como gente, ainda que num passado remoto?

*

A pipoca, na mitologia cristã, é associada, no seu modo estouro, à ressurreição do imenso Jesus, o de Nazaré, aquele mesmo — imigrante preto, comunista da Galileia, produtor artesanal de vinho. O precioso salgado obtido de sal, gordura e milho bole com vida e morte. Pros da curimba: o banho de pipocas é ritual de cura perante Obaluaê — também orixá da doença. A vida é CPX, pois. Paulinho da Viola, Portela-raiz, futuro orixá, quando compôs samba para a coirmã Mangueira, já o sabia: “que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais”.

*

Conhece-o, quão bem, a Rosana Batista Almeida: “A poeira ficou antes de nossos olhos nascerem, / das pernas apontarem nas ruas de computador.” E ela arremata: “A pele vive.”

*

Alguém tem, aí, ciência de quando sai o edital para livros de ficção e poesia censurados, para serem, ordinariamente, lidos? A censura é a nova crítica! E carece ser assumida como política pública! Adeus resenha, matéria em jornal… Mané premiozinho! E não reclame: a nova ordem das coisas facilita a vida de todo mundo — principalmente a do coitado do Algoritmo, que não aguenta mais tal de teixtaum e tem na treta sua unidade linguística — e de negócios.

*

Por estilo, e por isso tudo que dissemos — o acrobata cai, o náufrago se afoga. O nome disso é literatura.

Em que consiste uma vida bem vivida?

Editorial extraído da edição de abril de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em Dias Perfeitos (2023), de Wim Wenders, acompanhamos um zelador japonês em sua rotina mundana — o que, logo questionaremos, talvez não seja um pleonasmo.
Hirayama, o protagonista (Koji Yakusho no mais alto nível), limpa banheiros. Com esmero, capricho, atenção. Ele acorda sempre do mesmo jeito; toma o mesmo café da manhã; locomove-se da mesma forma; mantém os mesmos hábitos (fotografia, jardinagem); descansa na mesma praça; banha-se no mesmo lugar; bebe o mesmo highball. Suas tecnologias já pararam no tempo, o que não demove seu prazer, uma vez que ele permanece um entusiasta de música e literatura.

O RelevO, este zelador sensível que chora de alegria sozinho no carro e de tristeza ao abraçar a família, sabe que a alegria reside na tristeza; e a tristeza, na alegria. Não somos os anjos de Asas do Desejo que leem pensamentos e se solidarizam com a melancolia humana — somos banalmente humanos e periódicos. Não há muito o que fazer além de, bom, continuar fazendo. Afinal, nosso tempo é finito: por que fazemos o que fazemos? O que significa aproveitar a vida? Em que consiste uma vida bem vivida?

Viajar pelo mundo? Conhecer um grande amor (ou vários)? Acumular poder? Acumular dinheiro? Qualquer indivíduo que já tenha vivido mais de meia-hora neste planeta sabe não subestimar nenhum desses fatores e, ao mesmo tempo, reconhece que acima de todos eles reside o bem-estar volátil, intempestivo e eternamente angustiado de cada um. Viajar pelo mundo com um grande amor e muito dinheiro certamente ajuda, mas não garante satisfação alguma — não por muito tempo. Se Anthony Bourdain se matou, por que eu não me mataria?

Não existe fórmula, tampouco algo mais solúvel que felicidade. O que diabos é a felicidade? Quem disse que devemos perseguir felicidade? A vida é o que é, os seres humanos são humanos e fazemos o que fazemos — simplesmente. A magia acontece nas pequenas e inesperadas fissuras, nas grandes sensações de momentos discretos, minúsculas quebras da nossa percepção viciada. Repetição e rotina não são um problema, e definitivamente não são o problema. Toda concentração traduzida em movimento é bela, e o que nos mata é a falta de atenção.

Dias Perfeitos não ganhou o Oscar a que concorreu, mas ao menos uma certeza carregamos: importar-se com premiações não é lá uma vida bem vivida. Lembremos uma anedota de Thomas Bernhard, em Meus Prêmios, ao ganhar o Prêmio Grillparzer, uma das maiores honrarias do sistema literário austríaco:

Agora, estavam todos de pé no salão, comprimindo-se em direção ao palco e, é claro, também da ministra e do presidente Hunger, que conversava com ela. Desconcertado e sem saber o que fazer, eu me postara com minha tia logo ali ao lado, e ouvíamos o falatório cada vez mais agitado das cerca de mil pessoas presentes. Passado algum tempo, a ministra olhou em torno e, numa voz de inimitáveis arrogância e estupidez, perguntou: Mas cadê o escritorzinho? Eu estava bem ao lado dela, mas não ousei me identificar. Puxei minha tia e saímos dali. Sem que ninguém nos impedisse ou mesmo nos dispensasse a menor atenção, deixamos a Academia de Ciências por volta da uma da tarde. Lá fora, amigos nos aguardavam.

De banheiro em banheiro, seguimos.
Uma boa leitura a todos.

Dos manuais e guias

Editorial extraído da edição de março de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


O excesso é o mal da escrita americana. Somos uma sociedade sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações pomposas e jargões sem nenhum sentido. Quem consegue entender o linguajar cifrado usado pelo comércio americano no dia a dia, ou seja, um memorando, um relatório empresarial, uma carta de negócios, um comunicado de banco que explique o seu mais recente e “simplificado” balanço? Qual usuário de um seguro ou de um plano de saúde consegue decifrar o livreto que explica todos os seus custos e benefícios? Que pai ou mãe consegue montar um brinquedo para uma criança com base nas instruções que vêm junto com a embalagem? Nossa tendência é inflar tudo e, assim, tentar parecer importante. O piloto de avião que anuncia que em alguns minutos atravessaremos uma área de turbulência por causa das nuvens carregadas e possíveis precipitações nem sequer pensa em dizer simplesmente que poderá chover. Se a frase é simples demais, deve haver alguma coisa errada nela.

William Zinser em Como escrever bem.

o

céu

era açuc ar lu

minoso

comestível

vivos

cravos tímidos

limões

verdes frios s choc

olate

s. so b,

uma lo

co

mo tiva c uspi

ndo

vi

o

letas.

e.e.cummings em tradução de Haroldo de Campos.

Jarros de polvo!

Efêmero um sonho.

Luar de verão.

Bashô em tradução de Fabiano Sei.

Entusiasmo. Prazer. Raramente ouvimos essas palavras! Raramente vemos pessoas vivendo e, no nosso caso, criando com base nelas! Ainda assim, se me perguntarem sobre os itens mais importantes no figurino de um escritor, as coisas que moldam o seu material e o impelem em direção ao caminho que ele deseja percorrer, eu apenas o aconselharia a olhar para o seu entusiasmo, para o seu prazer”

Ray Bradbury em Zen e a Arte da Escrita.

Uma boa leitura a todos.

Dos búlgaros ao Brasil Poeira

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Abrimos oficialmente a temporada de rimar amor com dor, de perguntas como “com ou sem caracteres?” e das leituras de novos materiais para as próximas edições do nosso impresso, quase 14 anos circum-navegando de forma ininterrupta. Neste período (que engloba 176 edições), publicamos mais de 2 mil autores e autoras, 90% destes pela primeira vez em um veículo impresso. Alguns que por aqui passaram, inclusive, ultrapassaram a barreira da nossa inexpressividade e hoje são colunistas de jornalões e agitadores sazonais do Twitter-X, o que, muitas vezes, significa a mesma coisa (ao menos com remuneração bem melhor que o RelevO, que não volta cashback).

Não fazíamos um chamado público desde março de 2020, primeiros dias da pandemia. Recebemos, à época, aproximadamente 3 mil colaborações, o que resultou em um caos logístico e editorial. O que mudou de lá pra cá? Além de organizarmos melhor nosso fluxo de avaliações —acredite: estamos em dia com as leituras de janeiro de 2024 para trás —, também estamos muito mais esclarecidos com o que buscamos em nossas páginas. Basicamente, três fatores se desdobram em outras camadas:

  1. Textos bem escritos, ou seja, que respeitam as normas básicas da nossa língua ou as subvertem conscientemente, criando efeitos estéticos ou sinestésicos interessantes [geram beleza].
  2. Textos criativos, inesperados, imprevisíveis, que fogem das soluções mais comuns do nosso tempo. Textos que explicam menos e não duvidam da capacidade de compreensão do leitor.
  3. Textos simplesmente divertidos e criativos.

Naturalmente, somos surpreendidos com textos que não se encaixam nesses eixos. Conforme a nossa linha editorial, “não temos nenhuma restrição quanto ao tema, embora, a bem da verdade, estejamos um pouco cansados de literatura com a linha ‘escritor triste fumando em um bar’, ‘escritor triste escrevendo sobre escrever’, ‘poema sobre o valor da poesia’ e ‘meu amor não correspondido acaba de sair pela porta’. Isso não significa que materiais dessa natureza serão automaticamente piores e/ou recusados”.

Junto do chamado para publicação, também fizemos a devolutiva de mais de 700 textos recusados. Trata-se de um processo desgastante em níveis diversos: responder negativas (quem gosta de trazer más notícias?); tomar decisões injustas (e se desmotivarmos um talento genuíno?); e, naturalmente, ler – talvez o melhor verbo seja “enfrentar” – centenas de textos realmente indefensáveis. Também sabemos que um autor não selecionado tende a guardar algum rancor do veículo. Não acontece com todos, mas acontece. Resumindo: perdemos potenciais assinantes (capital financeiro), perdemos seguidores e entusiastas (capital simbólico).

Sempre reforçamos ao autor que fique à vontade para submeter outros materiais quando quiser. Esclarecer isso não impede que recebamos algumas tréplicas na linha “Tudo bem, o texto x é um sucesso de público, talvez o problema não seja comigo…” ou “Sou jornalista há mais de 20 anos, tendo ganhado alguns prêmios de literatura com crônicas, contos e poesias. Escrevo diariamente crônicas esportivas para um portal parceiro da rede x, gostaria de saber mais detalhes do por que minhas obras não seriam publicadas, já que contém potencial literário”. É do jogo, é do jogo.

Escolhas editoriais, mesmo que guiadas por um farol bem estabelecido, nunca deixarão de ser subjetivas, ratificando a nossa posição de meros leitores de uma certa e vasta produção que chega até nós, de traduções de escritoras eslavas a textos que falam das ”Estradas de chão, violas, bandeiras / Terra de Tom, Tonico e Tião”.

Uma boa leitura a todos.

2024: ficção de que começa alguma coisa

Editorial extraído da edição de janeiro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Um periódico impresso e de literatura: não precisamos nos alongar muito sobre o pressuposto de esta ser uma forma duvidosa de lidar com a presença e a contemporaneidade. Um jeito arredio que esconde, quem sabe, uma forma de preservar as memórias e de fugir da cultura do registro-pelo-registro. Pode não ser nada disso, e estamos apenas a empilhar textos ou justificar uma continuidade tal qual um colecionador de coçadores de costas, DVDs ou cadeiras em miniatura.

A síntese é: temos uma relação sincronizada com o tempo. Entre os dias 20 e 24 de cada mês, selecionamos os textos da próxima edição. Todo dia 25, nos mantemos nos preparativos técnicos, aquilo que chamamos de fechamento editorial. Dia 26… Temos que estar com a gráfica em dia. Entre 27 e 29, o Jornal tem de ir para a impressão. No primeiro dia útil do mês, Correios. Em 2023, apenas duas edições não respeitaram essa dinâmica: março e novembro (a última, por conta do feriado). As edições não são enviadas depois do dia 4 há mais de três anos.

Para que a nossa linha fina de atividades funcione, não podemos passar um dia útil sem arrecadar com assinantes e anunciantes. Mais do que um relógio, precisamos ser uma pequena caixa registradora literária. Para seguir a esteira que corremos regularmente, especializamo-nos em aprimorar etapas e nos tornamos obcecados por procedimentos. Em termos psicológicos, talvez sejamos um Jornal em mania. E 2023 foi um desafio tremendo-tremendo para a nossa forma de articular o caos natural do mundo.

Tivemos prejuízo em sete dos 12 meses do ano. Em números mais diretos, o RelevO caiu de 1.020 assinantes em dezembro de 2022 para 920 em janeiro de 2024. Especulamos diversas justificativas ao longo do ano passado e acreditamos que não seja propriamente uma punição editorial. Temos produtos gratuitos, como a Enclave e a Latitudes, com shares muito bons, ao passo que os retornos de quem nos escreve ou segue nos assinando nos mobiliza para seguir fazendo o Jornal com os conteúdos de que gostamos.

Muitos dos assinantes que não renovaram conosco seguem consumindo nossas newsletters e até compartilhando esses materiais, o que nos leva a uma reflexão constante sobre o nosso modelo de negócio. Se fazemos conteúdos que interessam ao nosso público digital da base do Substack (aproximadamente 7 mil), mas não conseguimos assinaturas para o impresso — que paga nossas contas e os produtos editoriais que produzimos —, o que faremos se perdermos mais 100 assinantes em 2024?

Lógico que reconhecemos o RelevO como um periódico cabeça-dura: não arrecadamos dinheiro público; não vendemos espaço editorial; recusamos três propostas recentes do mercado de apostas on-line; temos um senso de humor estranho; não casamos assinatura com publicação de autor (aqui no gênero certo mesmo, pois 100% dos casos são homens)… Ainda assim, seguimos e conseguimos isso graças a uma base sólida de assinantes e anunciantes. Essa base segue nos apoiando, investindo, distribuindo e fazendo o Jornal atingir sua natureza essencial: chegar em leitores de literatura.

Em 2024, estaremos mais presentes em feiras e festivais. Ampliaremos a cobertura da Latitudes, que também trará notícias deste circuito de feiras e festivais. Produziremos mais conteúdo especial para o site. Abriremos a nossa lojinha, com produtos como camisetas, canecas e bolsas personalizadas. Tudo isso precisa muito do assinante do impresso, o nosso carro-chefe logístico, responsável por garantir a continuidade de nossas atividades. Estamos otimistas.

Uma boa leitura a todos.

Inesperadamente, leitores

Editorial extraído da edição de dezembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Novembro foi um mês movimentado — e nem compramos um Playstation na Black Friday. Comparecemos à Flip com uma edição especial do RelevO, em parceria com a Casa Queer. Fomos — editor e editor-assistente — na noite da quarta-feira (22), incomodados por Fluminense e São Paulo na rádio. Entre a visão comprometida pela neblina e jatos de água proporcionados por caminhões, chegamos em Paraty na quinta de manhã, após nove horas praticamente ininterruptas de deslo(u)camento, um tanto anestesiados pela breve passagem por um Graal Route Café NYC Market, na Rodovia Presidente Dutra.

Logo ao entrar no Rio de Janeiro, amaldiçoamos Paraty com a energia soturna do RelevO, fazendo a luz da cidade (inteira) acabar na nossa primeira noite. Tentamos, em um ato de ligeiro desespero, ir para outra cidade em busca de suprimentos e de um pouco de energia elétrica (difícil ler jornal em uma noite sem luz…), porém apenas estendemos nosso contato com a chuva. Na sexta-feira, circulamos, distribuímos exemplares (mais de 5 mil) e experimentamos o café com whey gratuito na Casa Folha. E cachaça. Voltamos para casa projetando uma circulação mais pujante para uma edição 2024 na FLIP.

Para o futuro próximo, precisamos/queremos participar mais das feiras e festivais de literatura. Além da distribuição direcionada a bibliotecas, pontos culturais e espaços de promoção da leitura – hoje enviamos para cerca de 200 pontos de forma gratuita e financiada pelos nossos assinantes –, entendemos que o público-alvo de tais eventos pode alçar o RelevO a um novo patamar de envolvimento com seus leitores. [Quem é o nosso leitor ideal? Aquele que entra em um texto sem pré-julgamentos, potencialmente curioso, sobretudo, gosta de ler e se divertir.] Também acreditamos que a distribuição direcionada pode ser de alta valia para os nossos anunciantes, que demonstraram engajamento financeiro a ponto de pensarmos em novas edições temáticas, para desolação dos designers e diagramadores do periódico.

Feiras e eventos, em geral, são bastante benéficos ao RelevO (e a qualquer pequeno comerciante que descobre seu nicho). Afinal, a probabilidade é muito maior de encontrarmos interessados na assinatura em qualquer aglomeração de leitores, escritores e editores do que batendo de porta em porta (física ou digital). Para tanto, naturalmente, precisamos de orçamento, de ações regulares de captação de recursos e do posterior custeio da logística. Ao menos, temos uma certeza: o RelevO sabe ser regular (regular!) e certamente podemos interessar àqueles que queiram seus projetos, livros, textos, editoras circulando no público que está atrás de algo para dizer “fui”, entre uma estranha bebida láctea gratuita e uma queda de energia. Também não desconsideramos o Jornal como substituto (ineficaz) do guarda-chuva.

Uma boa leitura a todos.

Fora do centro, fora do clube

Editorial extraído da edição de novembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Jacarezinho (PR) — O RelevO nunca foi um periódico curitibano. Nem araucariense, relembrando os anos todos do publisher nesta intrigante cidade da Região Metropolitana de Curitiba, pouco reconhecida por seus aparelhos culturais e mais lembrada por ter uma sede da Petrobras e por seus prefeitos, digamos, singulares. Não somos um jornal brasileiro, que defende a importância da literatura do País. Em suma, não existimos para exaltar uma cidade, um povo, um grupo, uma associação. Talvez o Totti.

Como você pode imaginar, não abraçar um clube tem suas vantagens, como independência editorial, falta de elogios públicos a autores medíocres, ausência em eventos aborrecedores apenas pela política de boa frequência entre pares. Por outro lado, também são evidentes as desvantagens. Nos eventos de representação do que é o meio literário local, como festivais e feiras, por exemplo, o RelevO não existe — não é chamado sequer para ser plateia. Não temos amigos no meio.

Tais constatações nos trazem certa serenidade ou alívio. Verificamos o nosso trabalho melhor fora da aldeia do que no nosso centro, pegando o referencial de o centro ser onde estamos, não necessariamente o que nos gera pertencimento. Em eventos fora de Curitiba, o RelevO se materializa mais como aquilo que realmente pretende ser: um periódico múltiplo, com um pezinho simbólico no anarquismo, descompromissado com os feirantes, ofensivo porém carinhoso. Fora de nosso habitat, somos quem almejamos ser.

Não é novidade intelectual que as avaliações entre pares são dadas à corrupção, e isso vale para honrarias diversas. Ganhar o prêmio de Filho do Ano por parte da própria mãe não é mais que obrigação. Ser lido e estudado em uma obscura universidade da Finlândia, por outro lado, é muito mais interessante porque podemos notar ali, quem sabe, a não existência de amarras dos jogos entre pares. Por que esses japoneses de Glasgow estão lendo a literatura negra brasileira do Cariri? Isso sim é elogio.

Evidentemente, não somos o Filho do Ano, tampouco fazemos boas viagens internacionais. Ninguém estuda o Jornal — provavelmente. Nosso mood é embarcar em ônibus às 23h55 de sexta-feira para chegar num Encontro de Editores às 7h de um sábado de fechamento de edição. E como isso impacta você, leitor ou escritor?

Por não fazermos parte de nenhuma seita, conluio de herdeiros ou vestiário masculino com sobrenomes imponentes, publicamos aquilo de que realmente gostamos. Não conhecemos pessoalmente 90% dos autores e autoras publicadas em nossas páginas e, via de regra, não temos esse interesse (das nossas orientações para publicação: “Não há necessidade de enviar minibiografias [ou biografias inteiras]. Queremos saber o mínimo possível sobre o autor e/ou suas titulações.”). Se você está em Jacarezinho (PR) ou São Paulo (SP) escrevendo uma crônica banal, o que importa para nós é como uma palavra está conectada à outra. Não nos interessa a alcunha do escritor local, e sim o indivíduo que escreve em seu local.

O RelevO tem, acredite, um DNA de oposição aos grupos. Nossa equipe – praticamente inalterada desde 2018 – não passa de seis pessoas. Gostamos de ser assim, da paz da solidão, de conhecer pessoas sem necessidades de contrapartidas. Portanto, escreva para nós, assine nosso periódico… antes que façamos uma edição especial Maravilhas de Quatro Barras (mas lá é bonito mesmo).

Uma boa leitura a todos.

Sonho de uma noite de cacau

Editorial extraído da edição de outubro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Conforme antecipamos a quem nos assina no Substack, estamos fazendo um chocolate. Entre tantas piadas, absurdos e asneiras já publicadas neste espaço, essa é seríssima.

“Fazer um chocolate”, na verdade, não é a descrição justa: estamos vendendo um chocolate. Obviamente, não temos a capacidade de fazer um chocolate, ou ao menos um que teríamos coragem de comercializar. Trata-se de um produto da Utopia Tropical, aqui de Curitiba, com a nossa embalagem. Uma bela embalagem, por sinal, desenhada pelo amigo Bolívar Escobar, num belíssimo chocolate (72% cacau, medalha de prata na International Chocolate Awards de 2023).

O lançamento culminará num evento aberto ao público, também em Curitiba. Teremos música, chopp, drinks, ecobags, carimbos, Edição de Colecionador, etc. Se você ler a tempo, está plenamente convidado, com ou sem chocolate. Os detalhes estão logo abaixo, e qualquer um pode reservar sua(s) barra(s) desde já.

Aos poucos, extrapolamos a esfera do papel para cavucar outros delírios. O chocolate e o evento serão um ótimo teste para entendermos os limites da nossa comunidade e da nossa capacidade de mobilizar nossos assinantes – aqueles que, mês após mês, ano após ano, permitem a existência do Jornal.

Trata-se de um desafio, de uma fuga da zona de conforto e, por isso mesmo, também uma oportunidade. Estamos animados e com algum frio na barriga. Gostaríamos de não fracassar (diante da nossa estimativa modesta de sucesso e fracasso) e temos pessoas muito competentes nos auxiliando.

Se você quiser apoiar este ou outros delírios, considere comprar nosso chocolate – que é, sem sombra de dúvidas, muito bom e muito bonito – e/ou comparecer à nossa festa. Queremos proporcionar uma tarde agradável e uma noite promissora. Para tanto, prometemos nos esforçar. Também nos assine ou siga nos assinando. Seguimos na sina de ser jornal e de papel, acompanhando um café da manhã, um tablete de chocolate na mesa.

14

Editorial extraído da edição de setembro de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A vida financeira do RelevO é dividida em quatro faixas. Por meio delas, estabelecemos metas de arrecadação, partindo do 1º dia do mês até a última semana – quando imprimimos o Jornal. Com este controle, conseguimos observar as quedas de arrecadação e os períodos de maior fluxo de caixa.

Ter um controle básico de entradas e saídas nos permite averiguar meses mais complicados e outros mais tranquilos, quando até podemos colocar contas em dia com antecedência ou planejar o aumento de tiragem. 2023 tem sido um ano mais complicado, apesar do cenário mais otimista previsto no início do ano.

Temos muitas especulações possíveis a respeito das dificuldades financeiras pelas quais passamos — e já falamos sobre isso diversas vezes, sob o risco reconhecido de sermos repetitivos. Contudo, queremos trazer um novo aspecto dessa faceta administrativa que tanto nos suga energia: a nossa falta de causa.

O RelevO, como alega nosso projeto editorial, não é financiado por nenhum partido, nenhum banco, nenhum coletivo literário ou grupo que resolveu ter um Jornal pra chamar de seu. Muito menos algum herdeiro entediado, infelizmente (se você é um, entre em contato conosco – não estamos brincando!).

Os motivos do nosso surgimento não são necessariamente nobres: vontade de ler; vontade de escrever (menos); vontade de encontrar diversão num mundo com tédio, mas sem herança. Será a falta de um propósito mais elevado a principal razão para causamos menos interesse quando estamos em dificuldades?

Seguindo a mesma lógica, mas pela rota contrária: será que as pessoas têm menos propensão a “ajudar” em comparação com participar de uma campanha vitoriosa? Isto é, se mascarássemos nossa contabilidade e concentrássemos nossas forças em parecer muito legais, um projeto mega impactante, será que conseguiríamos apelar para o “FOMO” de cada um? Quem quer financiar uma barca furada?

São perguntas honestas, não retóricas. Se tivéssemos as respostas, pouparíamos todos nós (como dito, não gostamos tanto assim de escrever). Sem muita paciência para estratégias, métricas, indicadores, buzz, conversão, leads, lead magnets, lides (“f*d*-se que a Britney Spears tá grávida de um cavalo”), metas, redes sociais em geral e, basicamente, qualquer coisa que permita alimentar a doença do crescimento na nossa realidade, seguimos assim. Isto é, com organização e disciplina, mas sempre meio à deriva. Os instrumentos são baratos e improvisados, mas familiares. Produzem melodia. Acompanhamos o baixista e nos viramos. Quando as luzes se apagarem e o bar fechar, não insistiremos. Ninguém vai se jogar no chão e espernear. Em 14 anos de existência, conseguimos evitar o proselitismo e a demagogia. Também conseguimos nos divertir. Parafraseando Paulo Leminski – o que, incrível e ironicamente, talvez nunca tenha acontecido nesse jornal de alma e CEP curitibanos –, isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar ao buraco. Uma boa leitura a todos.

As vestes do paraíso

Editorial extraído da edição de agosto de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Na condição de reféns e adoradores dos ciclos de 30 dias em que vivemos, chegamos em agosto, delimitando, assim, a última edição do ano 13. Na condição de limpadores de calhas que somos, de tentar desentupi-las enquanto o tempo está firme, estamos na lida há quase uma década e meia. De fato, os nossos anos editoriais se encerram no mês 7 por conta da fundação do Jornal, em 3 de setembro de 2010, uma data um tanto convencional, pois não sabemos dizer com tanta precisão assim quando publicamos a primeira edição.

Como falamos muito de passado e de dificuldades do presente, o que esperar de nós para o futuro, além de seguir publicando e enfrentando ciclos? Pode parecer banal, mas, dentro da lógica dos hábitos que circundam um periódico de circulação mensal, surgem sempre novas ideias ou simplesmente novos jeitos de fazer (para evitarmos a monotonia). Esta edição que você tem em mãos é um exemplo visual disso e ilustra bem nossos propósitos.

Desde a primeira edição, o RelevO aposta em publicar artistas pouco óbvios e que possam ser adaptados à nossa plataforma, isto é, o papel-jornal – que tem suas especificidades e, vamos lá, suas manias. Gostamos muito de traços mais minimalistas, por exemplo, não porque seja a corrente que nos conecta com o Sublime…, e sim por motivos de impressão, que tende a escurecer os traços originais. Também não somos um jornal em p&b somente por acharmos bonito: o custo é consideravelmente menor.

Pela mesma via, fugimos da fotografia, ou melhor, usamos com parcimônia pelo potencial de desfoque, de apagamento e de perda de intensidade da imagem na mudança do digital para o analógico. Foram raras as edições em que ficamos realmente contentes com a migração de plataforma. Por outro lado, também recebemos pouco material fotográfico interessante, que atenda às nossas fugas da obviedade imagética. Em 2023, recebemos fotos de cachoeiras, um ensaio de pets, retratos de missa e alguns nudes que não eram nudes convencionais, pois classificados como intervenção sensorial-artística pelo performer.

Nesta edição, resolvemos voltar ao tempo que nos enovela e capturar alguns artistas de um período sem filtros tão potentes a partir de comandos direcionados. Perguntamos, procuramos, observamos, achamos imagens boas em alta resolução. Foi uma resposta à IA (não foi) auxiliada pela própria IA, que nos guiou. O resultado são pinturas que se conectam aos textos por intervalos de mais de 400 anos e conferiram ineditamente um peso singular ao nosso projeto. Elas têm como eixo o flamengo (não o do Rio). Talvez façamos mais vezes, mas sem regularidade definida. Se você for pintor, gravurista, quadrinista, entre outras modalidades possíveis de expressão pela imagem, nos encaminhe seu material, mesmo.

Por fim, quase de passagem, estamos, mês a mês, voltando à distribuição pré-pandemia do RelevO —para se ver o efeito do período em nossa logística. Em agosto, estamos novamente retornando para Santa Catarina, com a abertura (e reabertura) de 15 livrarias e pontos culturais, que distribuirão gratuitamente o nosso periódico. Quem banca isso? Você, assinante, que, com seu aporte acima da assinatura básica (R$ 70), permite que realoquemos recursos para outros espaços. A partir de uma parceria local, também começamos a distribuir exemplares para toda a rede de escolas municipais de Curitiba, com mais de 180 unidades. Em virtude disso tudo, subimos nossa tiragem para 4 mil exemplares, assimilando um prejuízo um pouco acima do nosso habitual.

Sonhamos, entre o nosso cobertor mensal de entradas e saídas e a nossa busca desvairada por tocar nas vestes do paraíso, com cinco direções:

  1. Mandar o RelevO para todas as bibliotecas públicas e comunitárias do Brasil.
  2. Enviar o Jornal para ao menos 15 pontos culturais de cada estado. Hoje, conseguimos fazer isso em apenas quatro.
  3. Participar mais ativamente do circuito de feiras para ampliar a distribuição direta do periódico.
  4. Ter apenas 1 (UM!) financiador que nos perguntasse “com este valor aqui vocês realmente conseguirão ser o jornal de literatura com maior distribuição do Brasil?”. Sim, acredite. E este valor não chega nem ao triplo do que gastamos hoje.
  5. Seguir publicando o que gostamos.

Uma boa leitura a todos.