Cezar Tridapalli: (Des)confiança

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2019 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Na metade final da década de 1990 eu começava a vida profissional a que sou ligado até hoje: o trabalho com literatura. Foi nessa época que assinei pela primeira vez um jornal, a Folha de São Paulo, quando eu vivia o auge 1) do combate em favor da leitura e 2) do sentimento escandalizado: como podia haver professor que sequer lia jornal?

Meu critério de avaliação da Folha não era muito especializado: o jornal era tanto melhor quanto mais as reportagens, crônicas, ensaios etc. confirmavam aquilo que eu pensava e expandiam unilateralmente meu universo de argumentos para enfiar na cabeça dos alienados. Afinal, quem não sabe que alienado é todo aquele que pensa diferente?

No meio de tanto texto, semanalmente vinha a coluna do ombudsman (ômbudsman ou ombúdsman?). Era um caroço no meio da polpa, um ruído no tom do jornal, que passava a semana falando mal dos outros e fazendo propaganda de si mesmo. De repente, uma fissura abstrusa fazia brotar um texto falando mal do próprio jornal. Uma coluna na contramão do fluxo. E nunca é fácil andar na contramão. No mundo dos automóveis, estar na contramão significa atenção dobrada para não bater; e tentar sair assim que possível. Já o ombudsman precisa continuar ali. E bater.

O ombudsman é o sujeito chamado para desconfiar do jornal, mas é dele — ombudsman — que todo mundo desconfia. Não seria ele apenas um panegírico com meios reversos, tipo a figura a quem se pede para falar dos próprios defeitos e ela diz que é sincera demais, organizada demais, perfeccionista demais (chata demais ela não diria)? Não seria a pessoa física do ombudsman um compadre do editorchefe, até padrinho dos filhos? Ou, na outra ponta da desconfiança: quem é esse sem-noção que fala mal do meu jornal, que avaliou mal uma das minhas pautas preferidas?

Quando fui convidado para ser o ombudsman do RelevO durante algumas edições de 2019, fiquei pensando, pensando. Coloquei minha autoconfiança na pauta e fiz o ombudsman de mim mesmo. O resultado foi terrível: febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. E a certeza de que era incapaz.

Ao mesmo tempo, janeiro não é o mês das grandes esperanças e decisões equivocadas? Aceitei.

Como exigência, toalhas brancas, amoras silvestres e espumantes (brut). E que as edições seguintes do RelevO sejam meio ruins, pra eu ter assunto.

Agradeço a (des)confiança.

Gisele Barão: Ouça o público

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2019 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Neste período como ombudsman, meu contato com o público do RelevO aconteceu exclusivamente pelas “cartas dos leitores”, publicadas nas primeiras páginas. Notei que quem se dedica a comentar no Facebook do jornal, de onde boa parte das “cartas” vêm, parece estar satisfeito com o conteúdo. Exceto por um ou outro comentário mais anacrônico, esse tipo de leitor defende o jornal das críticas, acredita que o RelevO descobriu prodígios da poesia e da prosa, anuncia que renovará a assinatura. Se tomarmos essas mensagens como referência, 2018 tem um balanço positivo – menos financeiramente, nós sabemos.

Há algumas semanas, porém, achei necessário fazer algo diferente. Conversei pessoalmente com leitores e leitoras do RelevO. Conheci assinantes, ex-assinantes, ouvi seus motivos para fazer o que fazem com este impresso – abraçá-lo ou abandoná-lo pelo caminho, por motivos variados. Alguns contaram qual era seu texto favorito. “Gostei de um sobre o Belchior”, disse um leitor. Vi um exemplar na mesa de trabalho de um colega, que afirmou: “Não me lembro de onde veio, acho que peguei por aí”.

O RelevO parece ganhar novos leitores com frequência. Principalmente os acidentais, que encontram exemplares por acaso em algum ponto de distribuição ou embaixo do braço de um amigo assinante. Esses, suponho, não têm grandes ressalvas para fazer quanto ao conteúdo. É mesmo muito prazeroso encontrar algo para ler em meio à rotina. Mas para quem é ou foi assinante, e acompanha o jornal frequentemente, pude perceber que algumas coisas ainda incomodam. Talvez sejam os editoriais um tanto monotemáticos. Ou o estilo dos textos selecionados. Ou os acontecimentos e pessoas marcantes para a literatura que passaram despercebidas. Ou o fato de não recebermos muitas informações sobre os escritores que publicam no impresso. Em alguns momentos, mal temos certeza sobre a autoria dos textos.

Ser independente tem suas vantagens. No entanto, não nos exime da autocrítica nem da responsabilidade pelo que publicamos. Não é motivo para não querer crescer. Qual é o objetivo do RelevO com uma coluna de ombudsman, por exemplo, se é um veículo que “não se leva tão a sério”? Por mais que tenha reduzido a tiragem, a lista de pontos de distribuição é de impressionar. Existe um grande público para se atender.

Se falta dinheiro e as abordagens mais diretas aos potenciais assinantes nem sempre funcionam, talvez seja hora de repensar a estratégia. O RelevO tem 6,8 mil seguidores no Facebook e pouco mais de dois mil no Instagram, rede que poderia ser muito mais utilizada. Pensar além dos editoriais e se render a outras vias de marketing na internet pode ser uma solução.

Nesses últimos meses, vi surgirem mais do que desaparecerem impressos literários no Brasil. Depois de ouvir leitores e leitoras, entendo que quem não assina o RelevO apenas fez uma escolha. Ela é legítima e pode ser compreensível, inclusive. Neste momento, há concorrência. Outros impressos ou pacotes de leituras que podemos assinar. Como fazer o público escolher este jornal?

 

Da redação:

A coluna de janeiro marca a despedida da Gisele Barão do cargo de ombudsman. Foram nove meses. A partir de fevereiro, teremos nova ou novo ombudsman, titular ainda não definido. Gisele sugeriu quatro nomes, que serão avaliados pelo nosso conselho editorial e, sobretudo, consultados individualmente para vermos quem aceitará a enrascada. Somente temos a agradecer pelo período todo.

Gisele Barão: Três acontecimentos

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Ter uma obra recusada por uma editora ou mal avaliada por um crítico não deveria ser desestímulo para autores. A parcela de escritores bem-sucedidos (use a definição que preferir para este termo) que foi descoberta milagrosamente por grandes editoras ou especialistas é muito pequena. Quem acompanha publicações literárias com frequência, por exemplo, consegue notar a preferência destas por determinados estilos: alguns temas e maneiras de contar histórias se repetem, pois as escolhas são também orientadas por critérios pessoais mais do que técnicos, e não há grandes problemas nisso, a princípio. É assim que as coisas são.

Paralelamente, há quem encontre sua própria estratégia para ser notado ou cumprir expectativas de ação no meio literário, e o mês de novembro teve alguns exemplos interessantes. No dia 24, aconteceu em Curitiba a Augusta Publica, uma feira de publicações independentes feitas por mulheres. As produções de várias artistas, escritoras, editoras e designers puderam ser conhecidas pelo público. Essas pessoas não estão em reportagens de grandes jornais, ainda não foram estudadas, poucos conhecem sua rotina extenuante de trabalho e criação. Fora do circuito tradicional, elas criaram outro circuito.

O próprio mercado literário, que é heterogêneo, tem caminhos diferentes para alcançar o público. No dia 11, foi criada no Facebook a página Livrarias de Rua, que divulga informações sobre lojas pequenas, que não integram grandes redes. Em duas semanas, a página já havia apresentado quase 20 dicas, de diferentes estados brasileiros. Qualquer pessoa pode colaborar com sugestões de livrarias que valem a visita.

Leitores também se organizam. Se falta tempo e estímulo para atender à lista de metas de leitura que costumamos fazer e não cumprir, há quem dê um jeito nisso. No início de 2018, um clube de leitura propôs um desafio entre os participantes: todos deveriam concluir Anna Kariênina, clássico de Liev Tolstói, até o fim do ano. Mês a mês, eles eram relembrados da meta e compartilhavam seu avanço sobre as páginas. Em novembro, encerraram o desafio com um encontro para trocar impressões sobre a obra. Em uma livraria de rua.

Com esse pequeno noticiário, quero dizer que coisas boas podem acontecer pela literatura mesmo em circunstâncias não tão favoráveis. Sempre haverá quem saiba recitar um poema de memória, presenteie um amigo com o livro de uma pequena editora, assine um jornal literário gratuito ou estimule outras pessoas a ler. É assim que as coisas são.

Gisele Barão: Outro país, outros tempos

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Outubro de 2018 estará para sempre marcado como um dos períodos mais tensos da história recente do Brasil. No RelevO, nem tanto. A História não esquece: naturalmente, um dia os jornais dessa época serão analisados. Lá no futuro (se tivermos futuro) algum pesquisador vai questionar: o que os impressos literários publicaram durante aquele importante marco brasileiro? Se nosso hipotético pesquisador resolver folhear este jornal, pensará que tratava-se de outro país, outros tempos. 

Em outubro de 2018, caberia publicar textos com cansativas descrições de personagens mulheres minimizadas em enredos fantasiosos? No meu outubro de 2018, não. Caberia publicar nas páginas de destaque, no miolo do jornal, nada mais do que um alô vindo diretamente das profundezas das inseguranças masculinas? No meu outubro de 2018, jamais. 

Vamos olhar para os lados, ou para frente. No mesmo mês, o Suplemento Pernambuco estampou na capa a frase “Uma ditadura nunca acaba”. O texto principal era de Ricardo Lísias, que ocupou o espaço de ombudsman do RelevO antes de mim. No artigo, ele relembrou obras fundamentais para a cultura e democracia brasileiras. No mesmo mês, vários escritores se posicionaram, diante do contexto atual: Alice Ruiz, Veronica Stigger, Nuno Ramos, João Paulo Cuenca, Milton Hatoum, Raduan Nassar, Laura Erber, Vanessa Barbara, Marcelo Rubens Paiva. A lista é enorme. Literatura, política e memória caminham juntas.

De trás para frente, a edição passada começou bem: na contracapa, havia um texto de Susan Sontag, extraído do livro Diante da dor dos outros. Vejam só, ela tentou nos avisar. Em seguida, o texto de Mariana Carrara, a poesia de Julia Bac, e em uma ou outra página, mais textos de boa qualidade. Richard Roch deu um aceno para o tema. Vale registrar também que a coluna Maidan representa hoje o maior compromisso deste jornal com a atualidade. Mas não pode ficar sozinha nisso.

É fato: em qualquer circunstância, pautar a cultura já é sinal de dignidade. Enquanto isso, grandes jornais e emissoras de TV do Brasil silenciaram ou revelaram estar do pior lado desse caos. Assim, o olhar dos leitores começa a circular, na expectativa de encontrar eco em outros meios. Nas publicações independentes, por exemplo.

O RelevO deixou passar a oportunidade de produzir uma edição de colecionador, como executou tão prontamente durante a Copa do Mundo. Se o tipo de produção com a qual estamos sonhando aqui não chega à caixa de e-mails dos editores, é o caso de provocá-la a chegar. Editar um periódico independente é trabalho árduo, ingrato e, por si só, um ato de resistência. Mas essa tarefa exige um olho lá no futuro. Se tivermos futuro.

Gisele Barão: Políticas públicas

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quando nos tornamos entusiastas da literatura e dos livros, há uma lista de “bandeiras” para carregar além do ato da leitura em si. A instabilidade do mercado editorial, a visibilidade de novos autores e de pequenas editoras, a baixa remuneração dos profissionais, a qualidade dos textos ou da crítica são alguns temas que também merecem atenção.

É preciso reconhecer, por exemplo, que visitar bibliotecas, livrarias, sebos e feiras nos proporciona um tipo de experiência cultural insubstituível. Nós criamos uma “cartografia sentimental” (para usar um termo explorado por pesquisadores da área). A falência de uma livraria, por exemplo, nos atinge como leitores, já que com ela perdemos, inclusive, um possível ponto de distribuição de periódicos. E há quem conheça jornais ou revistas de literatura apenas porque frequenta tais ambientes.

A edição de setembro do RelevO publicou uma carta do leitor que se aproxima dessa ideia. “Se uma guria ou piá forem todos os meses na biblioteca pública da sua cidade buscar um exemplar do RelevO pra ler de cabo a rabo, e eu puder proporcionar isso, já tô felizona”. O depoimento da leitora ajuda a explicar por que, mesmo com distribuição gratuita, o jornal precisa de assinantes: para proporcionar experiências para mais pessoas, não somente para quem recebe o impresso em casa. Na coluna Maidan da mesma edição, encontramos outra questão preocupante: Mitie Taketani, a curadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, alerta para a invisibilidade desse tipo de narrativa, seja em editais públicos, feiras ou editoras.

E já que defendemos a valorização da produção literária em diversos âmbitos, acrescento que uma das formas de incentivo é por meio da informação, da memória. Nesse aspecto, sinto falta de ver no jornal mais informações sobre os autores que colaboram em cada edição. De que cidade eles são? Já têm alguma obra publicada? Hoje, não sabemos mais do que seus nomes. Se um dia o RelevO se tornar objeto de estudo acadêmico, o pesquisador terá dificuldades para entender qual é o perfil dos autores publicados. Incluir esses dados seria uma contribuição à história do jornal e aos escritores.

Fortalecer os periódicos literários, remunerar os autores (sei que o RelevO tem essa pretensão) e cobrar cada vez mais qualidade das produções são caminhos necessários. Políticas públicas, quando existem, também podem funcionar como estímulo à produção e à circulação de bens culturais. Mas, infelizmente, neste caso andamos a passos lentos: sugiro uma busca por tópicos relacionados ao incentivo à leitura nos planos de governo dos candidatos à Presidência da República. Já adianto que o leitor vai se decepcionar.

 

Da redação:

Gisele Barão, passaremos, a partir da próxima edição, a publicar um pequeno perfil de cada colaborador, com cidade de nascimento, cidade atual, principal livro ou espaço de divulgação do trabalho. Não fizemos isso antes por mera implicância com os autores/as que nos mandam, em vez de informações sobre o próprio trabalho, dicas de lugares para viajar ou nos contam sobre seus apreços por vinhos baratos ou por animais de pequeno porte. Vamos resolver isso com um pequeno guia de envio de bios no site.

Gisele Barão: Clichês

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Em 10 de agosto, a escritora, professora e crítica literária Noemi Jaff e esteve em Curitiba para participar do Litercultura. Além de apresentar uma densa lista de sugestões de leitura e descrever sua própria trajetória e formação, Noemi fez alguns comentários sobre o processo de escrita. A palestra toda me fez pensar em algumas coisas que decidi compartilhar neste espaço. 

A primeira dica é sobre como avaliar o que escrevemos. Basicamente, Noemi defende que, se você terminar uma frase e ela te deixar orgulhoso e admirado, apaixonado por si mesmo, é o caso de cortá-la do texto. Provavelmente está ruim. Isso porque a literatura não precisa ter compromisso com o belo. O autor não deve se preocupar em mostrar ao leitor que escreve bem. Ela explica melhor a ideia em um post no blog da Companhia das Letras: “Algo soa mal, algo escapa da fluência da leitura, do prazer do texto, de sua verdade textual, quando um personagem diz algo mais belo do que naturalmente diria ou quando o leitor se intimida diante das cambalhotas lírico-frasais do autor”. 

Na palestra, a escritora também disse que é necessário fazer exercícios mentais para evitar os clichês. Caso contrário, de repente nos pegamos escrevendo “árvore frondosa”, “frio e calculista”, ou qualquer coisa assim. Seria algo semelhante, ela explica, ao que George Perec fez em O sumiço (1969), livro que escreveu sem utilizar a letra “e”. São tentativas de evitar construções, linguagens e estilos viciados.

Neste ponto eu incluo uma reflexão que não é nova, mas serve para o momento: não devemos também fazer exercícios mentais para evitar temas que são lugares-comuns ou abordagens clichês sobre eles? Na edição de agosto do RelevO alguns textos parecem se esforçar nesse sentido. Outros, não. Um tema perigoso que podemos usar como exemplo: “crises existenciais de um escritor”. Há quem escreva sobre isso muito bem, inclusive autores paranaenses. Também tem O ano em que vivi de literatura, livro do Paulo Scott (Editora Foz, 2015), que dá uma boa desenrolada no assunto. Mas, dependendo da abordagem, a impressão é de que estamos mesmo diante de um clichê. 

Obviamente não cabe a ninguém determinar sobre o que se deve escrever ou não. Estamos falando sobre exercícios, tentativas. Se escrever é propor desafios a si mesmo, publicar significa desafiar o leitor, provocá-lo. O RelevO parece executar bem essa função.

Ukiyo-e

Extraído da edição 48 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

A gravura é a arte de impressão que surge na China no século 9 (e você ainda achava que o primeiro livro impresso do mundo tinha sido a Bíblia de Gutemberg…) e marca a Idade Média no Ocidente. Feita pela criação de uma matriz única, cria a possibilidade de cópia em grande escala, funcionando como um grande carimbo. Entre as inúmeras técnicas de gravura, a primeira a ser desenvolvida foi a xilogravura.

A xilogravura é a arte de trabalhar com a madeira, primeiro lhe entalhando e em seguida passando camadas de tinta no alto relevo produzido, que ao ser prensado sobre um papel transmite a imagem “desenhada” na matriz. Cada cor a ser usada deve ser passada separadamente para o papel, o que, junto do tempo de espera da secagem de cada mão, torna grande o tempo gasto com cada trabalho.

No Ocidente, o maior exemplo que temos de gravura japonesa é certamente a Grande Onda de Kanagawa:

 

Essa xilogravura é uma ukiyo-e e foi criada em torno de 1833. Foi gravada por Katsushika Hokusai e faz parte de uma série de 36 obras que representam o Monte Fuji. Hokusai demonstrava um grande amor pela paisagem japonesa e criou centenas de ukiyo-e nesta temática.

Ukiyo-e, em português “Retratos do Mundo Flutuante“, são xilogravuras feitas no Japão do período Edo – marcado pelo isolamento drástico do Japão ao resto do mundo e que serviu para o aprimoramento e desenvolvimento de novas técnicas artísticas. As ukiyo-e geralmente representavam a beleza da mulher, momentos históricos, o teatro Kabuki, paisagens, enfim, o cotidiano japonês deste período. Por mais que hoje sejam exibidas em belas exposições nos mais importantes museus ao redor do mundo, quando surgiram eram comuns e de fácil acesso, muitas vezes servindo como papéis bonitos para enrolar peixe.

A beleza desta arte está dividida em muitas partes, literalmente, pois não era feita por um único par de mãos, mas por várias pessoas trabalhando juntas. Pelo menos três: o artista, o talhador e o impressor. Essa técnica se tornou um dos mais famosos estilos artísticos japoneses e muitos historiadores da arte chegam a descrever a história da arte do Japão com base unicamente no estudo das ukiyo-e, o que, claro, corresponde a um reducionismo.

Mesmo assim, o papel dessas xilogravuras na identidade artística nacional é tamanho que as ukiyo-e foram a principal referência estética do japonismo, tendência na pintura europeia do século 19 em que artistas, sobretudo impressionistas franceses como Degas e Monet, se inspiraram nas cores vivas e no movimento da arte japonesa para compor suas obras e para estudar. Van Gogh, por exemplo, copiou diverssos trabalhos de Hiroshige e pintou árvores que claramente homenageiam as cerejeiras nipônicas. Outros pintores, como Felix Valloton, Paul Gauguin e Edvard Munch, chegaram a experimentar com essa técnica diretamente e foram precursores de seu uso no Ocidente. Já quase no século 21, a obra de Hokusai ainda é fonte de releituras, como em Uma Súbita Rajada de Vento, do fotógrafo canadense Jeff Wall.

Outra curiosidade sobre as ukiyo-e é que elas são as responsáveis pelo surgimento dos mangás. E o precursor dessa ideia foi o próprio Katsushika Hokusai. Em 1814, ele desenhou uma série de 15 ukiyo-e, as encadernou e batizou de Hokusai Manga, ou “esboços de Hokusai”. Nela estão cenas do dia a dia, paisagens, estudos sobre animais, plantas e também histórias de fantasmas.

Para ler mais a respeito, admirar e até participar de leilões de ukiyo-e originais, visite o site da Fuji Arts — e nos agradeça depois!

[por Flávia Rhafaela]

Leão do Castelo de Gripsholm

Extraído da edição 48 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

No século 18, as relações diplomáticas entre Suécia e Argélia eram bastante próximas. Os escandinavos enviavam vários presentes valiosos aos argelinos e em troca tinham garantida a passagem segura e gratuita de seus navios pelo mar mediterrâneo. Em retribuição, em 1731 o Rei Frederik I recebeu do Dey (uma espécie de regente) da Argélia alguns mimos, que incluíam: um leão, três hienas e um escravo liberto, que se tornou o cuidador dos animais. Todos viveram suas vidas no luxuoso Djurgården, o parque real.

Alguns anos após o leão morrer, o rei enviou os restos do felino (a pele e os ossos que haviam sobrado) para que um taxidermista o reconstruísse em toda a sua glória. O leão seria exposto no castelo como um símbolo da força da Coroa sueca. O problema era que o taxidermista nunca tinha visto um leão pessoalmente e teve que se basear em relatos escritos e brasões de armas. Como é de se imaginar, o resultado ficou uma bosta:

Essa espécie de Ecce Homo animal está em exposição no castelo de Gripsholm, hoje um museu, e é um dos muitos exemplos de animais exóticos sendo mal desenhados por artistas europeus. Nas iluminuras medievais, principalmente nos bestiários, eram comuns as representações bizarras de animais como elefantescrocodilos e corujas.

O tempo passou e pouca coisa mudou: em 1840, Londres renovava a Trafalgar Square, sua principal praça, e encomendou, além de uma coluna imensa, esculturas de quatro leões. O encarregado pelos leões foi Sir Edwin Landseer,  pintor especializado em retratar animais como cães, cavalos, touros… mas não muito familiarizado com esculturas. Ou leões.

De fato, o único espécime desse animal que o artista conhecia era o leão do zoológico da cidade, e quando este morreu, Landseer pediu para que deixassem o corpo em seu ateliê para que ele pudesse estudá-lo. Mas, dizem, ele demorou tanto para terminar seu projeto que os restos  do bicho começaram a se decompor. Faltando ainda as patas a serem esculpidas, Edwin usou seu cachorro como modelo e terminou a obra.

resultado final lembra mais um esfinge do que um leão propriamente dito e causou estranhamento aos olhares mais críticos na época, mas não chama tanta atenção dos transeuntes e turistas que passam pela praça hoje em dia. Ao menos não a ponto de as pessoas deixarem de tirar fotos e escalar os bichanos de bronze. De todo modo, se for esculpir ou empalhar um leão, talvez a relação entre perfeição e pressa tenha que ser reconsiderada.

Tony Garnier

Extraído da edição 48 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

No início do século passado, Lyon, na França, passava por uma grande industrialização. Centro metalúrgico, a cidade, cuja linha férrea com início em St. Étienne havia sido asegunda da história do país, já se adaptara a uma nova realidade de produção. Somam-se a isso a primeira fábrica de automóveis da França – uma Berliet –, testes com os primeiros aviões e a invenção do cinematógrafo. (Lembra do primeiro filme exibido ao público? Aquela fábrica se tornou o Instituto Lumière.)

Lyon, enfim, compunha um contexto agitado, modernizado e propício a especulações. Isso provavelmente borbulhava na cabeça de um arquiteto local, o talentoso Tony Garnier. Nascido em 1869, Garnier estudou na École des Beaux-Arts, em Paris, e retornou a Lyon, onde projetou aquela que seria, para ele, a cidade ideal. Seu projeto, Une cité industrielle, refletia o planejamento de uma utopia.

Une cité industrielle foi publicado em 1917 após vários anos de estudos. Preocupado com a monotonia do trabalhador em seu ofício, Garnier visou ao lazer e à acessibilidade de áreas verdes — cada casa de família, por exemplo, teria um jardim. A cidade foi idealizada para 35.000 habitantes e continha as seções industrial, agricultural, universitária, sanitária, residencial e pública, esta última dividida entre setores administrativo, cultural e esportivo.

A utopia projetada por ele não continha delegacias, tribunais, prisões ou igrejas. Porque capitalismo. Não obstante, existe ali um legado arquitetônico mais rico do que a ignorância arquitetônica do editor permite enxergar – como a existência de edifícios de concreto armado – portanto permanecemos na apreciação estética. Se você entende algo de francês, vale se atentar a este documento aqui. Se não entende, fique pelas imagens e dificilmente se arrependerá.