Priscila Branco: A maior treta literária do século

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quando fui convidada para ser a nova ombudsman, a torcida inteira do Flamengo me perguntou o que diabos é essa palavra tão esquisita e por que virei um homem. Taí, realmente no Brasil não temos tal tradição interessante: mediar a interação do leitor com os temas publicados e encher o saco do editor. Obviamente, o cargo nem tem uma versão vocabular para mulheres. Brincamos que somos uma “ombudswoman”, mas ninguém usa realmente o termo. Só para registro (ou crítica passivo-agressiva), apenas cinco mulheres já ocuparam este lugar aqui no Relevo (contando comigo), entre 18 pessoas no total.

Estou muito honrada e feliz em contribuir com este Jornal, que acompanho e admiro há alguns bons anos: já fui anunciante, escritora publicada e sempre leitora. Juro que ninguém me ameaçou ou subornou para babar ovo assim, mas, gente, completar 200 edições não é para qualquer um! Começando a comentar sobre o número de dezembro, é realmente necessário que o editorial reafirme a importância do jornal impresso no Brasil. Com o avanço da internet e da Inteligência Artificial (nada contra, inclusive uso o ChatGPT para diagnosticar neuroses hipocondríacas), parece que a experiência silenciosa, lenta e corporal do texto num suporte físico tem se perdido ainda mais. Sem contar a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), que apontou uma diminuição drástica do número de leitores em nosso país. Acredito que toda iniciativa literária, pequena que seja, pode contribuir para melhorar esse quadro (alô, revistas e coletivos independentes!).

Mas nem só de elogios vive um ombudsmandato, não é mesmo? Uma leitora me mandou secretamente uma mensagem reclamando que o Relevo é muito pidão e que vive implorando esmola para existir. Não sei se vou conseguir cumprir minha obrigação em defesa dos leitores, porque achei a crítica descabida. Ora, como fazer um jornal impresso independente de literatura circular pelo Brasil, a um preço acessível, sem ser pela contribuição de quem o lê? E sabemos que a competição está alta: é tigrinho, bizarrices da Shopee, ETs de pelúcia e qualquer item aleatório de Stranger Things. O que você, leitor, sugere então que o RelevO faça? Venda pack de pé?

O Jornal também está recebendo muitas reclamações em relação às palavras utilizadas nas matérias ou textos literários. Sim, alguns vocábulos, apesar de estarem apenas em linhas corridas ou versos e não serem nenhuma bala perdida atingindo uma pessoa inocente nem notícia do crescimento numérico de agressões contra mulheres no país, estão incomodando a família tradicional brasileira ou o leitor mais recatado.

Rubervam, por exemplo, na edição passada criticou os poemas de Vitor Campos Lino, publicados na edição de novembro, devido a um “palavrório desordenado” (palavras dele). Beatriz Cagliari, em recente carta, apontou o “excesso de vulgaridade”. E ainda teve pedido de corte de recebimento do jornal em ponto de distribuição! Por outro lado, Millena, na última edição, sugeriu uma competição de xingamentos literários. Não sei se vocês conhecem um poeta chamado Ferreira Gullar e seu famoso “Poema sujo”. Sugiro que leiam o início e comentem o que acharam do uso das palavras escolhidas.

Nessa discussão toda sobre palavrões e partes específicas do corpo que são consideradas não gratas de aparecerem num jornal literário, prestei muita atenção à falta de reclamações em relação ao conteúdo do poema “Michelle”, de Rodrigo Madeira. É um poema muito violento, que mostra uma realidade dura dos moradores de rua de Curitiba e da luta de classes. Afinal, falar palavrão ofende, mas uma pessoa sucumbir à loucura e à pobreza e ser assassinada é aceitável pela sociedade. Reflitamos.
Por fim, vocês devem ter percebido que não tem treta nenhuma. O título foi só um chamariz mesmo, porque sei que vocês adoram uma fofoca. Beijo, e até a próxima!

A simplicidade é o selo da verdade?

Editorial extraído da edição de janeiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Janeiro é o mês zero com passado. O que é uma retrospectiva senão uma vaidade em forma de narrativa cronológica? Entre os marcos temporais e o vislumbre de alguns dias de descanso, olhamos para os últimos meses vividos como quem chacoalha um globo de neve, em uma busca por organizar o caos do vivido para que ele pareça coerente, contínuo, até mesmo digno de ser contado. E, afinal, estamos vivos: algo bem mais amplo do que um prêmio de consolação.

A retrospectiva não nasce do passado, mas do presente que olha para trás e escolhe o que merece permanecer, como as marcas de lápis no caderno que sobrevivem à fricção da borracha. É uma busca entre o automático das datas e as expectativas dos novos rumos. Como pronunciava Dorothy Parker, “Quatro coisas sem as quais eu teria me sentido melhor: / Amor, curiosidade, sardas e dúvida”.

Uma retrospectiva, em certa medida, assemelha-se a uma edição mensal de um jornal impresso (quem diria…): não registra o que aconteceu, edita. Corta arestas, suaviza fracassos, sublinha vitórias e, sobretudo, constrói sentido onde antes havia apenas sobrevivência. Há nela um desejo profundo de legitimação: provar que o caminho fez sentido, que os desvios eram parte do trajeto, que as quedas foram o ensaio do salto seguinte.

De fato, para um jornal impresso de papel e de literatura, uma retrospectiva é o momento em que o projeto olha para si mesmo e reconhece o custo material de existir: o papel novamente encareceu; a gráfica também reajustou preços; todos os itens de papelaria aumentaram acima da inflação; o prejuízo que acumulamos silenciosamente em 9 de 12 edições de 2025, ali na página 2, nos relembra dos assuntos da cozinha enquanto o mundo acredita que o nosso futuro é nos tornarmos todos um grande data center de IA. Todo novo ciclo é uma curiosa esperança de sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, a retrospectiva também revela paradoxos do presente: enquanto o nosso caixa aperta, a circulação se amplia. Atualmente, atingimos 380 pontos de distribuição no Brasil todo, voltando ao patamar de distribuição de janeiro de 2020, um mês antes da pandemia da Covid-19. O nosso número de assinantes caiu de 1.150 para 1.030, embora o ticket anual tenha subido com o nosso reajuste da assinatura, de R$ 70 para R$ 80.

Enquanto o papel pesa no orçamento, a presença digital se expande. De dezembro de 2024 para dezembro de 2025, a quantidade de seguidores do RelevO cresceu 30% (12.000 vs. 15.600 seguidores) — e sem impulsionar posts, decisão também motivada por saber que Mark Zuckerberg existe (calculamos que ele vá sobreviver à nossa resistência. Não estamos preso a um suporte, mas a um modo de existir no mundo, ainda mais agora que ter 1 milhão de seguidores e ser influencer não quer dizer nada: as plataformas querem mesmo é que consumamos anúncios.

O impresso segue como gesto físico, lento e deliberado; o digital, como extensão, diálogo e atravessamento. Olhar para o ano que passou é reconhecer que o prejuízo não anulou o impacto do nosso produto em nossa (tsc tsc) comunidade e que ampliar circulação e presença não é sinal de conforto, mas de insistência (“essa frase parece o chatGPT” — dilemas contemporâneos). Uma retrospectiva, nesse caso, não encerra um ciclo, uma vez que documenta a decisão de continuar.

A simplicidade é um selo da verdade: queremos circular, queremos que o Jornal saia do PDF, seja impresso (ou imprimido!) e chegue às mãos de leitores. Do assinante que nos apoia, do leitor que nos encontra na melhor cafeteria de sua cidade ou em uma das 200 livrarias do Brasil que recebem o RelevO todo mês. Falar de 2026, nesse registro, não é anunciar conquistas mirabolantes ou metas ruidosas, e sim – apenas – declarar um compromisso cíclico com o simples: queremos continuar.

Por fim, o que desejamos para 2026? Saúde financeira e uma boa dose de diversão. Não se trata de resistir ao tempo, nem de romantizar dificuldades, mas de trabalhar dentro dele, com os limites conhecidos. Se continuarmos aqui na retrospectiva do fim do ano que vem, será porque o modelo funcionou o suficiente para prosseguir — e isso, mais que qualquer discurso, será o dado mais importante do próximo ano. Queremos continuar fazendo um impresso de literatura que circule de forma consistente, chegue aos pontos certos e encontre leitores.

Uma boa leitura a todos!

Rafael Maieiro: —

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


A coluna do ombudsman Rafael Maieiro não foi enviada à redação até o fechamento desta edição. Preenchemos este espaço com uma importante menção ao jornal humorístico A Manha, de Aparício Torelli, mais conhecido como Barão de Itararé, que, aliás, sempre dizia: “Terão que passar por cima de nossos cadáveres, que não são poucos” e “O fígado faz muito mal à bebida”.

Duzentas formas de estar no mundo

Editorial extraído da edição de dezembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Duzentas edições. Às vezes, quando escrevemos um número assim, grafado com efeito e por extenso, tentamos ampliar seu corpo para que acomode tudo o que não cabe nos contornos de um algarismo. Outras vezes, preferimos nem olhar tão de perto: duas centenas de meses em que um jornal literário independente, de papel, insistente, teimoso, ocupante de espaço no mundo real, conseguiu atravessar o tempo sem interrupções. Em um país com índices de leitura desestimulantes, que cria obstáculos silenciosos e permanentes à formação de leitores, esse feito diz menos sobre a sobrevivência de um impresso e mais sobre a permanência de uma comunidade que insiste em sustentá-lo. Em setembro, o RelevO completou 15 anos: “O caminho é sempre maior que o caminhão”, dizia o Barão de Itararé.

Há quem acredite que números traduzem um trabalho. Não traduzem, mas servem como referência. Eles não revelam as madrugadas de edição, as revisões que se multiplicam, as discussões editoriais, as caixas de arquivo abarrotadas, as dobras de jornal feitas à mão, os improvisos logísticos, o cuidado quase doméstico que um projeto cultural independente exige. Os números não registram o silêncio de quem escreve, o alívio de quem encontra publicação, o entusiasmo de quem abre o envelope. Ainda assim, eles nos ajudam a perceber que algo continua mesmo quando os passos são curtos.

Não é uma conversa sobre estatística, de fato. Nunca foi. Tratamos de continuidade, uma das formas mais exigentes de estar no mundo. Exige um tipo de atenção invisível: a diária, artesanal. Em 15 anos, atravessamos crises culturais, cortes de verba, mudanças de governo, rupturas tecnológicas, cansaços invisíveis. Resistimos ao canto de sereia das plataformas digitais. Reconhecemos que há menos meses de abundância e mais meses de sobrevivência e, ainda assim, manter o gesto. Pouco se fala que a continuidade exige que outras ideias não saiam do terreno da imaginação, uma vez que continuidade exige foco. Novas ideias podem matar ideias anteriores por falta de energia.

Se chegamos à edição 200 é porque nunca estivemos sozinhos. O RelevO aprendeu a existir porque encontrou colaboradores que confiam, leitores que carregam exemplares para novos leitores, assinantes que financiam o projeto, apoiadores que acreditam na cultura antes dos resultados, voluntários que ajudam sem serem convocados, livreiros que nos acolhem e pessoas que descobrem o jornal nos espaços culturais e nos levam para casa como quem adota um hábito. A continuidade é o nosso manifesto… e a nossa prestação de contas.

O tempo, quando acumulado, não forma apenas um arquivo. Forma um corpo vivo. As 200 edições não são uma coleção de papéis. São um projeto que aprendeu a crescer ao lado das pessoas que o leem. Com o tempo, percebemos que cada edição funciona como uma espécie de parêntese no calendário. A rotina mensal é um eixo. Assim, manter um jornal de papel, mês após mês, é contrariar a lógica da velocidade. É confiar que ainda existem objetos que exigem demora, que pedem cuidado. Um jornal literário não muda o mundo, mas muda as formas de estar no mundo. Acreditamos que a lentidão também produz comunidade e que o encontro entre leitor e página ainda guarda algum segredo intraduzível em estatísticas. Por isso, continuamos e novamente sacamos o Barão de Itararé: “Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”.

Ao chegarmos à edição 200, reafirmamos nosso compromisso com esse modo de existir. Publicar textos que não caberiam em outro lugar, sustentar uma curadoria que desafia a pressa, cultivar uma leitura que pede fôlego, acolher formas de expressão que não se encaixam em algoritmos. Continuar, apesar do tempo, com o tempo, pelo tempo, é o que nos fortalece.

Obrigado por fazer parte dessas duzentas edições.

Uma boa leitura a todos.

Rafael Maieiro: “MOSTRAR MAIS”? (2) — Rafael Maieiro impudica

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


“e espero que eu jamais alcance / a impudente idade do bom-senso”

Versos de Maiakóvski que pegam bem só até uns 40? Ou a impudica idade do bom-senso corrói as entranhas da poesia nacional, inclusive, deste jornal? Sorriso maroto quase envergonhado, um café com o dedo em riste.

Apoio, incentivo, colaboração, micromecenato, fomento, investimento

Editorial extraído da edição de novembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há 15 anos, o RelevO é sustentado por uma convicção simples: a literatura e o jornal impresso podem existir com liberdade e continuidade. Todos os meses, centenas de leitores, espalhados por todos os estados do Brasil, recebem gratuitamente nossas edições. São 320 pontos, de Manaus a Erechim, que acolhem entre cinco e dez exemplares. Ainda não conseguimos pontos de distribuição no Acre e no Amapá, embora tenhamos leitores assíduos nesses estados. O corpo de pouco mais de 1000 assinantes e 15 anunciantes regulares sustenta a nossa operação e proporciona ao Jornal chegar sem custo em livrarias, sebos, cafeterias e bibliotecas comunitárias. É o nosso jeito de nos “espalhar” há quase 200 edições. Em dezembro, atingiremos a marca ducentésima sem nunca ter falhado um mês sequer.

80% do RelevO é mantido regularmente por assinantes. São pessoas que pagam, na média, entre R$ 5 por mês a R$ 160 ao ano e fazem a nossa logística girar. Todos os dias, o RelevO recebe no mínimo quatro horas de dedicação exclusiva; em certos dias, até inventamos horas para manter a logística funcionando, sobretudo porque acontece sim de termos reclamações, falhas de comunicação e problemas com prazos — principalmente nas devolutivas dos textos enviados, nosso cobertor mais curto.

Mas viver tudo isso por tanto tempo só faz sentido se tivermos grana para custear os gastos mensais e, por consequência, leitores que justificam a labuta. Um jornal literário independente, no Brasil, exige mais do que dedicação: exige persistência e o apoio consciente de quem acredita na importância de um projeto feito por pessoas e para pessoas que não estão no topo da pirâmide. Somos, sim, um produto e temos o compromisso ético de fazer com que ele chegue às mãos de quem o apoia, compra e acredita na sua continuidade.

Contudo, antes de qualquer coisa, somos uma iniciativa de circulação de ideias, de estímulo à leitura, de abertura para novas vozes e olhares. Cada edição nasce do encontro entre o trabalho artesanal da equipe e a colaboração da comunidade que nos sustenta. Apoiar um jornal independente é, portanto, investir na permanência de espaços de reflexão, experimentação e liberdade criativa — algo cada vez mais raro no cenário cultural brasileiro (e global?).

Assim como quem compra um livro apoia o autor que o escreveu, quem apoia o RelevO contribui diretamente para que escritores e artistas tenham seu trabalho em circulação. A biblioteca dos livros não lidos incomoda, assim como quem assina e não consegue acompanhar as edições do jornal fica ressabiado de seguir investindo. Mas podemos pensar que cada valor investido, por menor que pareça, é uma forma de apoio recorrente. É um gesto de confiança e incentivo à produção artística e intelectual que perdura fora dos grandes circuitos comerciais.

Não custa lembrar que somos um periódico fundado por um ex-entregador de jornal de Araucária, Região Metropolitana de Curitiba. Aliás, nem em Curitiba, onde o Jornal tem sede, o RelevO é chamado para As Grandes Festas da Literatura Local — também não é uma reclamação, pois sabemos de quais clubes não queremos ser sócios. Financiar, com qualquer quantia, um jornal de literatura é botar pra rodar um projeto que atinge aproximadamente 15 mil pessoas por mês. Mais do que muitas HerdeiroFest de escritores para escritores.

O RelevO não pertence a uma editora, empresa ou grupo econômico. Não temos um bom sobrenome. Não publicamos amigos, gente de ótimo networking ou quem pede permuta. Somos fruto de uma rede de colaboradores e leitores que compartilham a mesma crença: a de que a palavra escrita ainda tem alguma importância e deve ser democratizada, mesmo quando o patrocinador não consegue ler todas as edições. Para que possamos continuar imprimindo, distribuindo, pagando os custos e remunerando a equipe envolvida, precisamos da participação ativa de quem nos conhece e acredita neste projeto. E isso se trata, na maioria das vezes, de dinheiro, aquilo que alimenta um circuito inteiro — circuito que nada mais é que a soma de diversos planos pessoais.

Então por que apoiar?
Para garantir que o Jornal continue gratuito e acessível para quem não pode assinar ou não conhece o nosso trabalho;
Para fortalecer a literatura independente e o ecossistema dos produtos culturais;
Para manter viva uma iniciativa feita com cuidado, curadoria e propósito (teimosia autoral);
Para que novas vozes continuem tendo espaço para se expressar.

Se você já leu uma edição do nosso periódico, riu, se emocionou ou pensou diferente por causa de um texto nosso, considere transformar essa experiência em apoio financeiro. Muito obrigado por nos acompanhar, de coração, e boa leitura.

Rafael Maieiro: OMBUDSMAN, “MOSTRAR MAIS”? —

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Vanessa, te responderei por e-mail. Motivo? Espaços de economia. Aliás, eventuais interlocutores: escrevam para o RelevO. Em novembro, mando outro xis impresso por aqui. No último mês do meu mandato, dezembro de 25, faço um balanço com mais de 280 caracteres. Ainda estou ouvindo?

Nada de grande se fez sem entusiasmo, mas muita besteira também começou assim

Editorial extraído da edição de outubro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há quem diga que um impresso é como um filho. E pode ser que seja. Um impresso nasce pequeno, exige cuidado constante e, aos poucos, aprende a andar sozinho pelas ruas, pelas mãos de quem o lê. Vai deixando os comportamentos infantis para trás, amadurecendo e ganhando o mundo. Não estamos mais no controle de cada passo. Mas, assim como na vida — agora que o Jornal atingiu 15 anos e o editor, 40—, criar também significa perder. E precisamos falar um pouco disso que vamos deixando pelo caminho.

Neste baile em direção à maioridade, o RelevO trouxe alegrias intensas e inesperadas, mas também arrancou noites de sono, roubou horas de silêncio e ocupou espaços que poderiam ter sido partilhados de outra forma. É possível que o Jornal tenha afastado quem trabalha nele do convívio de pessoas que mereciam mais presença. Não sabemos se a recíproca seria verdadeira. O calendário editorial é implacável: um relógio de pulso fincado na rotina, que marca o tempo em edições. Em nossa parede, vemos os contornos do número 198. Em dezembro, chegaremos à edição 200.

Cada número entregue é também uma espécie de luto. É o texto que não coube, a ideia de humor que não vingou, a pressa que deixou cicatrizes e imprimiu imperfeições claras. Imprimir é também registrar erros, fixar no papel as marcas da urgência. É aceitar que, junto daquilo que se sonhou, fica também o que não deu tempo, o que não se pôde, o que se perdeu. E as perdas não param aí. Quantas férias evaporaram diante de uma edição que precisava nascer? Quantos domingos se dissolveram em revisões intermináveis? Quantas conversas foram interrompidas pelo fechamento que não espera? Um jornal dá, mas também tira. Ele cobra um preço invisível: o descanso, a espontaneidade, a leveza dos dias que poderiam ser livres. Com o tempo, aprendemos a nomear esses pequenos traumas — não como queixas, mas como cicatrizes de uma continuidade que insiste em existir.

No campo das finanças, a história não é diferente: sustentar um impresso independente é viver na corda bamba entre o sonho e a sobrevivência. O preço do papel, a oscilação dos apoios, a matemática que nunca fecha — tudo isso se grava no corpo, como tombos da infância que seguimos carregando. Mas negar o cansaço não elimina o outro lado: a vitalidade. Um impresso é, paradoxalmente, uma fonte de energia contínua. Cresce como os filhos crescem — entre dramas e conquistas, entre quedas e reerguimentos. Cada perda abre uma brecha para novos caminhos, cada falha ensina um modo novo de fazer. É no desgaste, muitas vezes, que surgem as melhores edições: aquelas em que fomos obrigados a inventar, a improvisar, a confiar na urgência como parte do método. A edição de outubro, especialmente com as partes íntimas apontadas pro céu, é um exemplo disso. Sempre achamos que, mais do que amor, paixão ou propósito, o que realmente move o mundo é entusiasmo — essa substância rara, feita da mistura de teimosia e luminosidade.

O RelevO completa 15 anos e segue lutando para não fechar no vermelho em sua vida ordinária. Em 2025, a balança tem oscilado mais pra lá do que pra cá: seis meses no vermelho, três no azul. Já não somos os mesmos do início, embora, sempre sem dinheiro, tenhamos a vantagem semelhante da feiúra: como nunca fomos bonitos, não sabemos o que é perder a beleza. A ingenuidade deu lugar à consciência de que o prejuízo, assim como o ganho, faz parte da nossa identidade. A dificuldade molda caráter, impede a acomodação, nos mantém atentos. E, no fim, permanece o privilégio: ver este filho seguir seu próprio rumo, deixando rastros de literatura, humor e rebeldia.
Entusiasmo não é ingenuidade. É, antes, a convicção calorosa de que cada página impressa é um jeito nosso de existir. É aceitar que não mudamos nada, mas podemos interferir em alguma parte, em algum instante. E isso já basta. Como canta BNegão, “a gente faz uma microparte para que uma microcoisa no mundo mude”.

Uma boa leitura a todos.

Rafael Maieiro: Mangrar

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Sobre editoriais, leitores e espaços em branco — sobretudo, uma menagem

Fui ao Dicionário analógico da Língua Portuguesa (Lexikon, 2010), de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, instrumento cult indispensável para candidatos ao Camões. Minha intenção? Encontrar um palavrório que servisse de título para o deleite dos nobilíssimos não leitores deste espaço.

Aliás, minto: agora temos uma leitora, Vanessa Fagundes. Ela enviou uma mensagem só para mim. Aplausos, vaias… e o silêncio de um tarja preta. Todo feliz, resumo as
exigências da assinante: menos autorreferência, mudanças na ergonomia do impresso (menos espaços em branco e ilustrações, mais textos) e a fusão (ou algo assim) entre esta coluna e o editorial.

Concordo com o primeiro e o último ponto. Aqui talvez seja o espaço mais egoico do jornal e, por isso, deva rodar pela água abaixo, rs. Será que peço demissão? Acho que não, rs. Prefiro ser demitido! Faço piquete, hein.

Agora, sobre o ponto dois, o projeto gráfico do jornal, discordo completamente da leitora. Diz Mário Quintana no Porta giratória (Globo, 2007): “Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.” Precisamos arejar o papel, Vanessa. Nesse sentido, exerço a pelegagem. Defendo o patrão, opa, o editor.

Por último, peço um brinde ao cartunista Jaguar — confesso que ainda bebo! —, e deixo um poema (ele vai ficar puto da vida, acho) dedicado a Fausto Wolff. O Lobo foi tomar um porre com Jesus Cristo no dia 5 de setembro de 2008 e nunca mais voltou.

*

p/ Fausto Wolff e ZH

não enlouquecer e nem lucrar com a loucura dos outros
dosou o Lobo aos que vivem à beira do abismo
aos poetas que rasgam a blusa
apontam para o mamilo esquerdo

[…] segura o cano do revólver, sente o frio do aço, o mamilo arrepia, a mão do verdugo
treme, tremula:

— Atira aqui, seu merda! — declama o poeta.

a vida só nos reconhece na fusão mais vulgar do ato fundamental da coragem com a
sanidade
que só será nomeado
como ato
como flor cortante em formato de alameda
se vencermos o abismo compulsório

ela quer a vida quer exercer a sua vontade de implodir este tempo já cansado

&

espiralar numa velocidade alucinante até num átimo
criar o ser quando momentaneamente desesperado
olhe para um arco um abraço uma ponte

e elas respondam

15 anos em 15 anos

Editorial extraído da edição de setembro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em setembro de 2025, metade do século, o RelevO completará 15 anos de vida. Isso equivale a mais de 5 mil dias exatos de insistência, invenção, tropeços e recomeços dentro de formas diferentes de fazer. Para um jornal independente de literatura, cada dia é um pequeno dado jogado a um destino incerto: sobreviver em meio ao mercado editorial brasileiro, onde fazer literatura nunca foi tarefa simples, sobreviver em meio à indiferença que atravessa o ato de ler. Bem, um certo ato de teimosia.

E pensar que tudo começou com um jornal de oito páginas, mil exemplares e apenas três pontos de distribuição em Araucária e Curitiba, basicamente nos corredores da Universidade Positivo. O editor era estudante e queria ter um jornal para chamar de seu. Sabia diagramar um pouco e conhecia gente que escrevia. Era pouco, mas era o que tinha. Era, sobretudo, o que se podia fazer: juntar palavras, imprimir o que desse com 300 reais de orçamento, acreditar que alguém gostaria de ler. O RelevO foi um gesto nascido do desejo de imprimir literatura por quem gosta de ler para quem gosta de ler. As demais interpretações sempre flertam com o exagero. Hoje, olhando para trás, entendemos que aquela simplicidade não foi um acidente — foi a marca que nunca abandonaria nossa trajetória.

Afinal, o que segue como aquilo que chamamos de RelevO? Seguimos como um modesto jornal de papel com textos de literatura, um projeto simples que atravessou as transformações de diferentes ecossistemas da comunicação fazendo exatamente o que fez desde a primeira edição: publicar de maneira impressa. É a circulação de erros e acertos, de fracassos que ensinaram e de descobertas que nos deram fôlego. Já fomos chamados de velhos, já nos chamaram de anacrônicos, já nos mandaram ser digitais — e ainda mandam. Contudo, longe de nós aproveitar uma efeméride com qualquer indício de rancor.

Talvez a maior graça de tudo esteja justamente nisso: resistir à obviedade de dar errado. Sempre, ao nosso modo, duvidamos das fórmulas prontas dos novos arautos tecnológicos. Insistimos que o papel não morreu porque, enfim, o formato tem suas vantagens e desvantagens (como qualquer coisa na vida). Melhor ainda: insistimos que o papel pode ser uma alternativa, que ler pode ser uma alternativa, que pode ser uma companhia.

15 anos também são feitos de repetições. Um jornal só existe porque se repete. A cada mês, o ciclo recomeça: pensar, editar, revisar, imprimir, distribuir. Assim foram 15e anos, assim podemos definir nossos últimos 15 meses, os próximos 15 dias, os atuais 15 minutos. O RelevO é a continuidade de cada dia em que abrimos o e-mail; conferimos notificações nas redes sociais; verificamos quem mandou texto novo; atrasamos devolutivas de quem mandou texto novo, reenviamos exemplares que se perderam no caminho. Somos a soma em série de instantes cujo resultado é algo que compila o intervalo de 30 dias: o tempo lento da página impressa e o tempo rápido da leitura de quem a recebe. É ritmo, é repetição, é a mesma ação refeita 197 vezes com a mera diferença que somente a personalidade de cada mês sabe acrescentar.

Talvez essa seja a única lição de 15 anos: compreender que não há permanência sem repetição. Somos um jornal que insiste em existir de novo. Muito obrigado a todos que fizeram parte desta trajetória, aos assinantes atuais, aos projetos que anunciam conosco, aos ex-assinantes que, em algum momento dessa jornada, também estiveram conosco. A casa está sempre de portas abertas. A nossa ideia de infinito se cruza com o ato cotidiano de acordar.

Uma boa leitura a todos.