Irmãos Hitchens

Extraído da edição 45 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Christopher Hitchens

Christopher Hitchens é o grande arquétipo de intelectual moderno, um modelo de forma e conteúdo a que tantos aspiram sem sucesso. Iconoclasta, genuinamente sarcástico, independente – enfureceu direita e esquerda conforme lhe pareceu justo –, compunha sua persona com bebedeira e, principalmente, com seu sotaque inglês proferido num inconfundível barítono.

Ao longo da vida, Hitchens se destacou escrevendo para a Vanity Fair, na qual publicou perfis de personalidades como Madre TeresaPrincesa Diana e Mel Gibson. Travou por décadas uma batalha contra religiões, instituições religiosas e religiosidades em geral. Padeceu por conta de um câncer no esôfago, e suas memórias da doença formam o excelente Últimas Palavras (2012). Aleatoriamente, ele também foi babá de Olivia Wilde – os pais dela são jornalistas renomados com quem Christopher mantinha amizade.

Provocador afiado, Hitchens não fugia de debates, principalmente daqueles com temática espinhosa. Em 2008, discutiu Deus, religião, Guerra no Iraque et cetera, diante de 1.400 pessoas, com um de seus maiores oponentes, um sujeito de opiniões simetricamente opostas, contra quem já havia duelado verbalmente – e talvez até fisicamente – diversas vezes. No caso, Peter Hitchens… seu irmão mais novo.

Peter: “alguns de vocês devem saber que tenho um irmão, Christopher, que discorda de mim em quase tudo. Alguns dos que leem seus livros e artigos também sabem que eu existo, embora eles geralmente desgostem de mim quando o fazem. Mas em geral nós habitamos mundos separados – em diversos níveis. Ele é da esquerda, mora nos Estados Unidos e recentemente se tornou um cidadão americano. Eu sou da direita e, após alguns anos na Rússia e nos Estados Unidos, moro no coração da Inglaterra. Ocasionalmente nós nos enfrentamos em público“. Um bom contexto inicial.

Peter Hitchens

Hitchens vs Hitchens, irmãos Gallagher da biblioteca, é um caso que traria diversão e dor de cabeça a um psicólogo, ou a vários deles. Filhos de um oficial da Marinha Real Britânica que lutou na Segunda Guerra, ambos – ateus e socialistas na juventude – chegaram a se filiar ao Labour Party inglês. Os dois também seguiram o caminho do Jornalismo.

Peter reavaliou sua ideologia (e sua descrença) após viajar o mundo em cobertura para o Daily Express. As experiências na Tchecoslováquia, na Romênia e em Moscou o alteraram. Ele viria a abraçar a crença em Deus e defender a cultura cristã. “Um clichê de descoberta tão óbvio e universal, e também tão profundo, privado e único para ser discutido com estranhos”. Pouco flexíveis e bastante expressivos, suas desavenças duraram décadas.

“Acho que Peter e eu tivemos azar de ele nascer perto demais de mim [3 anos] para ser um irmão mais novo que precisasse de proteção, mas perto o bastante para ser um rival, esperto e duro. Certamente lembro de dizer que ele era adotado, com uma chance razoável de ele ter acreditado”, contou Christopher.

A divergência entre eles cresceu após o 11 de setembro de 2001, momento a partir do qual Christopher passou a defender a invasão americana no Iraque – o que surpreendeu a opinião pública, tendo em vista suas décadas de atuação à esquerda da discussão política. Peter levantou o assunto no Spectator, endereçando-o diretamente a Christopher. A tensão só se expandiu desde aquele momento – no debate mencionado anteriormente, em 2008, eles talvez estivessem em um pico de discórdias.

(Peter se referiria àquele encontro como um dos piores momentos de sua vida: “só me dei conta quando caminhei pelo hall e, pela primeira vez, vi mil pessoas que me odiavam. Elas não me odiavam por quem eu era; me odiavam porque para elas Christopher era uma megaestrela no filme principal, e eles tinham que sentar e me aguentar como antigamente se sentava ao longo de um filme B no cinema, antes do filme real”.)

A relação entre os irmãos Hitchens é extraordinária, ao menos para quem não participou dela. Um correspondia ao oposto do outro. Ao mesmo tempo, eles eram tão incrivelmente parecidos – isto é, não só pelos traços ou pela voz grossa, mas sim pela condição de ambos se tornarem comentadores culturais notáveis, sempre munidos por um repertório artístico extenso.

O final dessa história, na verdade, é mais bonito do que se poderia imaginar de dois cabeças-duras de alto funcionamento. Após o diagnóstico de câncer de Christopher – e do tratamento amplamente documentado por ele mesmo –, os irmãos se reconciliaram, ou ao menos conseguiram se encontrar e conviver pacificamente. Eles ainda debateriam em público em 2010, um ano antes da morte de Christopher (o que, em uma grande coincidência cósmica, ocorreu três dias antes do fim da Guerra do Iraque). O tom foi definitivamente mais amistoso naquela ocasião.

“Nós nos demos surpreendentemente bem nos últimos meses, melhor do que por cerca de 50 anos”, constatou Peter após perder o irmão mais velho.

Christopher and Peter Hitchens

Latrinas romanas

Extraído da edição 45 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Latrina romana

Você reconhece a estrutura da imagem acima? Consegue identificar o ambiente? Imagina o período a que pertence? Vejamos mais de perto.

Latrina romana

E agora, visualizou algo? Talvez algum objeto a ser encaixado, ou então algo a se puxar. Seria uma prisão, um estábulo ou algum tipo de parque? E se inseríssemos alguns personagens…

Latrina romana

Pronto. Talvez você tenha percebido de imediato, talvez você não identificasse de modo algum. Fato é que as duas primeiras fotografias dizem respeito a banheiros públicos da Roma Antiga, onde a privacidade não era lá uma grande demanda, ao menos não nesse recinto, ao menos nesse período – para um ponto de referência, pensemos em algumas décadas antes de Cristo (ou 1976 + algumas décadas antes de Francesco Totti).

Não por acaso, “latrina” deriva do latim lavatrina. Em uma cidade com quase um milhão de habitantes, pouquíssimos dispunham de banheiros privados. Além das fossas em que se despejava a urina – sobre a qual havia um imposto, afinal, dinheiro não tem cheiro –, essas latrinas públicas estavam à disposição de homens, mulheres e crianças (ao mesmo tempo!) e, mais do que ponto de alívio, serviam como espaço para conversa.

O conteúdo desprendido pelos habitantes em seus assentos de madeira caía diretamente na água. Essa água corria em direção à Cloaca Maxima, isto é, ao sistema de saneamento da Roma Antiga que tinha, ou melhor, tem seu fim no Rio Tibre. Uma imagem melhor do funcionamento pode ser conferida neste link.

E como eles se limpavam? Se você prestou atenção na terceira imagem deste quadro, viu que os sujeitos sentados carregam uma espécie de vareta. Na ponta da vareta em questão, havia uma esponja, ou então algum tecido. Isso podia ser lavado na água corrente, que se vê ao centro da imagem. Não pense, porém, que cada um tinha a sua: o uso da vareta esponjosa era compartilhado.

Em todo o caso, sempre se podia usar as mãos…

Mission Hill

Extraído da edição 45 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Mission Hill
Mission Hill: tão legal que não foi pra frente. Ou legal porque não foi pra frente?

Mission Hill foi uma animação produzida pela Warner Bros entre 1999 e 2000 por Bill Oakley e Josh Weinstein (não aquele Weinstein…), ambos promissores roteiristas de Os Simpsons à época. A série retratava o cotidiano de um grupo de amigos num bairro de uma metrópole norte-americana indefinida – uma mistura de Nova York, Boston, Portland e San Francisco. Lá, rejeitados sociais, figuras caricatas e esquisitos em geral vivem em relativa harmonia.

Os protagonistas são Andy, um jovem cartunista frustrado e despreocupado que passa seus dias bebendo, trabalhando num emprego sem perspectiva numa loja de colchões e recebendo cartas de rejeição de revistas por seus quadrinhos. Kevin é seu irmão mais novo, um gênio completamente caxias que se muda para a cidade para viver com seu irmão e sonha em entrar nas melhores universidades do país enquanto termina seus estudos numa escola onde ninguém, nem os professores, se importa com nada.

A casa onde moram ainda conta com Jim, amigo de Andy, tão doidão e folgado quanto ele, com a diferença de ter um emprego promissor enquanto jovem cool em uma empresa de publicidade. Além dele, lá vivem Posey, a amiga esotérica de yoga, massagem e vegetais orgânicos (Phoebe Buffay?) e Stogie, cachorro de infância dos dois irmãos, sequelado após anos lambendo cervejas e cigarros caídos no chão. Na vizinhança do prédio estão um casal judaico-latino de artistas ativistas com seu bebê e um casal gay tão adorável quanto briguento, dono de uma lanchonete local.

Mission Hillera diferente por representar e escarniar a contracultura e tratar com franqueza de assuntos pouco abordados em outras animações, especialmente Os Simpsons. Na maioria dos desenhos, os problemas aparecem, se desenvolvem e são resolvidos no espaço de 30 minutos, enquanto em Mission Hill os personagens se encontram em cenários sem solução clara, com angústias típicas dessa fase de transição entre a escola/faculdade e a vida adulta. Temáticas “reais demais” para os Simpsons, por exemplo.

Outro detalhe é que na animação de Matt Groening não havia personagens com idade entre crianças e adultos, e os poucos adolescentes (Jimbo e seus amigos) raramente tinham importância no enredo das histórias. Mission Hill falava a língua dos jovens esquisitos e dos descolados – e tirava onda com hipsters antes disso se tornar a thing. Continha referências diversas e sutis – de Beck a Kafka ao Plano 9 do Espaço Sideral –, além de ser visualmente muito bonita. A trilha de abertura era da banda Cake.

Mission Hill
Esteticamente, a série também fugia do padrão, com uma paleta de cores fluorescentes e contornos maldefinidos.

Mesmo com tudo isso, a série não durou nem um ano, sendo cancelada antes mesmo de completar uma temporada. Então o que deu errado? Os produtores Oakley e Weinstein culpam a Warner: na época, o canal ainda buscava uma identidade e, na tentativa de brigar com os concorrentes, colocou Mission Hill no horário nobre, junto de programas como The Jamie Foxx Show e The Steve Harvey Show, que em nada se assemelhavam ao humor absurdo e melancólico da animação.

Com audiência péssima para o horário, foi rápida e completamente descartada: a série foi cancelada antes de terminar a produção de sua primeira temporada, e antes mesmo de serem exibidos todos os episódios que haviam sido produzidos. (À Firefly!

Todos queriam ter seu próprio Simpsons, e com isso a Warner Bros ignorou a proposta de Mission Hill de ser uma alternativa à família amarela, e não um competidor. A série só voltou à TV anos depois, com o bloco de desenhos-que-não-são-para-crianças Adult Swim, onde de fato se encaixava. No Brasil, foi transmitida no Adult Swim pelo Cartoon Network entre 2005 e 2008, junto de outras animações excêntricas como OblongsClone HighHarvey, O Advogado e Os Universitários.

Atualmente, é fácil encontrar todos os 13 episódios no Youtube – aqui ou aqui –, e assim Mission Hill sobrevive com seu pequeno culto de seguidores. Legal, honesto, diferente demais para seu tempo, uma joia que não teve sua chance de brilhar, mas que permanece ainda mais especial por conta disso.

Lista: som ambiente com temática Blade Runner para ouvir no fone de ouvido enquanto trabalha

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1. Blade Runner Ambience Sounds Of The City 2019 (By Curtis8516)
2. Blade Runner Blues | Balcony Ambience
3. Blade Runner Meditative Ambience with City Sounds
4Space Ambient – Blade Runner – Rachel’s Song 800% Slower
5. Blade Runner Ambient Deckard’s Apartment Sound for 12 Hours
6. 3 HOURS BLADE RUNNER 2017 RAIN THUNDER & MUSIC with BLACKSCREEN
7.  The Future of 2049 – Space Ambient – Blade Runner 2049 Unofficial OST
8. Blade Runner – Sounds of the city (AMBIENCE)
9. Bladerunner City Downtown ASMR Ambience
10Haloed – Off-World (Full Album) [Blade Runner Soundtrack Remix Album]
11. “Memories of Green” from Blade Runner (1982) by Vangelis – 800% Slower
12. White noise, rain, city ambiance – Cyberpunk cityscape (1 hour)
13. 1 hour of Blade Runner Main Titles (2300% slower)
14. Blade Runner, Rain, and Police Scanner – Dystopian Dream Sounds for Sleep – 2 hours
15. Futurescape – 1hr Ambience, Inspired by Blade Runner & Cyberpunk 
16. Blade Runner 2049 – Tears In The Rain Slowed Extended
17. Yukon Hotel – 1 Hour Blade Runner Ambience – ASMR
18. “Fading Away” from Blade Runner (1982) by Vangelis – 800% Slower
19. Brown noise, cold rattle, train, oscillating fan – Cyberpunk cityscape (1 hour)
20. Vangelis – Love Theme from Blade Runner (Time-stretched x8)

Ou vá direto à playlist!

Baú: Harry G. Frankfurt

Extraído da edição 45 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Mentir e blefar são formas de embuste ou de logro. Assim, o conceito mais fundamental que caracteriza uma mentira é o de falsidade: o mentiroso é, em essência, alguém que divulga de propósito uma falsidade. O blefe, também, transmite uma coisa falsa. Entretanto, de forma diferente da mentira pura e simples, ele é mais um caso de tapeação que de falsidade. Isso é o que o torna próximo do falar merda. Pois a essência de falar merda não é algo falso, mas adulterado. De forma a avaliar essa distinção, deve-se reconhecer que um embuste ou uma adulteração não precisam ser, de modo algum (à parte a autenticidade em si), inferiores à coisa verdadeira. Aquilo que não é genuíno não precisa ser defeituoso por causa disso. Pode ser, apesar de tudo, uma cópia exata. O problema de uma imitação não é a aparência, mas o modo como foi feita. Isso aponta para um aspecto similar e fundamental da natureza intrínseca de falar merda: embora se origine sem preocupação com a verdade, não precisa ser algo falso. O falador de merda está camuflando as coisas. Porém, isso não significa que ele as entenda erradamente.

Harry Gordon FrankfurtSobre falar merda (On Bullshit)2005.

Ricardo Lísias: A polícia da literatura e as polícias

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Outro dia recebi um comentário feito no Twitter sobre uma das minhas últimas colunas para o RelevO. Para indicar constrangimento ou um certo desespero cafona, a pessoa reproduzia sem aspas algo que eu teria dito aqui. Embaixo colocava a imagem de uma mulher com o rosto em desespero, as mãos na cabeça e um cigarro entre os dedos e o cabelo, quase colocando fogo no loiro oxigenado. É uma estética dos anos 1980. O espanto se dá porque eu teria dito que o “cânone literário é só reflexo do poder da classe privilegiada”. As aspas agora são minhas e indicam o que o tuiteiro afirma que eu afirmei. 

Enfim, se colocada no contexto da coluna, minha afirmação não tem absolutamente nada demais. Ela apenas ecoa as discussões de uma crítica que vai de Walter Benjamin a Jacques Derrida, passa por Silviano Santiago e Roberto Schwarz, Richard Rorty e seja lá qual outro nome o leitor quiser. Trata-se de uma das principais discussões das últimas décadas não apenas na teoria literária como em todo o pensamento de ciências humanas. Eu afirmei uma banalidade.

Como se pode ver, a figura não tem noção de coisa alguma. Trata-se de um fenômeno muito comum no mundo contemporâneo: sem nenhum conhecimento, fulano vai a uma rede social, diz qualquer negócio e logo uma manada o segue, engrossando o caldo do besteirol. Meu exemplo é singelo e na verdade serve apenas para mostrar que comportamentos como o de espalhar que uma militante de direitos humanos tinha ligação com o Comando Vermelho e uma exposição de arte promove pedofilia estão muito mais próximos da gente do que às vezes parece. E do mesmo jeito, a figura que acha estar defendendo algum tipo de tradição que jamais existiu para além de sua empáfia está bem mais perto do fascismo, como dizem Umberto Eco e Timothy Snider, do que às vezes parece.

No início de março, estive em um debate de lançamento de uma revista sobre a ditadura militar brasileira. Conversamos eu, o MC Leonardo, responsável por grandes movimentos culturais em algumas comunidades cariocas, e Rick Goodwin, jornalista que participou da equipe que criou e fez o Pasquim, um dos nossos últimos espaços de resistência verdadeira à barbárie na imprensa. Dois dias depois, enquanto esperava a esposa em uma estação de trem, Goodwin foi espancado pela polícia carioca e perdeu dois dentes. Até agora ninguém sabe os motivos da agressão. 

O que dá força e motivação para a polícia fazer isso e coisas ainda piores, como as contínuas chacinas e o genocídio da população negra e pobre do Brasil, são os micropoliciamentos que as pessoas realizam por aí. É um clichê, eu sei, mas às vezes eles servem muito bem: primeiro, é a gente que tem que mudar.

Ricardo Lísias: Para os professores de literatura

Coluna de ombudsman extraída da edição de março de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Discordei algumas vezes das reclamações dos editores do RelevO quanto à produção do jornal. Agora, quero concordar: vi uma nota na página do jornal do Facebook sobre a situação dos Correios. Parece de fato a pior possível. Não me lembro de ver uma empresa estatal ser sucateada tão rápido. Todos conhecemos os reais propósitos do governo de Michel Temer. Obviamente, estão fazendo com que a empresa valha o mínimo possível, para depois vendê-la barato aos donos do dinheiro que o mantém em um posto que ele jamais deveria ter ocupado. Mas o caso dos Correios é escancarado demais. É lamentável, como tudo que Temer faz.

Vou ocupar o espaço dessa vez para fazer um balanço das reações às minhas leituras. Uma agressão até pode gerar algum raciocínio, mas não é o caso. Quero apenas observar a afirmação de que não entendi esse e aquele texto. Um leitor achou que eu deveria conhecer um pouco melhor uma das letras de Neil Young antes de afirmar isso ou aquilo. Para ele, então, a interpretação de um trecho deve responder ao restante da obra. Não posso, por exemplo, pegar um parágrafo de um livro e falar sobre ele o que eu quiser, se a totalidade não confirmar a parte menor.

Salvo engano, mais de um leitor acusou o fato de eu ter errado o gênero de um texto. Eu deveria ter entendido que não se tratava de ficção, quando li como um conto. Para esses leitores, existe algo pré-definido em um texto e eu tenho que obedecer a essa determinante. Do contrário, eu não entendo o texto direito.

De forma nenhuma. Não vou obedecer a determinante alguma. Não é o autor de um texto que vai me dizer se ele é de ficção ou não, do mesmo jeito que não será a totalidade de uma obra que me impedirá de achar um sentido para um trecho em separado. Quem manda na minha leitura sou eu, apenas eu e leio do jeito que quero.

Naturalmente, temos aqui um impasse: se é assim, esses leitores também estão certos ao afirmar que não entendi nada, já que eles não têm a obrigação de acatar a forma como leio? Não me resta dúvida. Estão certíssimos. Mas se eles estão certos ao dizer que estou errado, então estou errado ao dizer que eles não estão certos? 

Seria ocioso continuar a brincadeira. Jorge Luis Borges já percebeu isso faz tempo. Quando estamos diante da arte, não existe nenhum tipo de opinião errada. No máximo, alguns se expressam melhor do que outros. Na verdade, essa coluna é para os professores de literatura. Vários estão lendo esse texto. Não digam aos seus alunos, por favor, que eles não entenderam um poema. Vocês não sabem que tipo de bagagem aquela menina traz para dizer que “A máquina do mundo” fala do avô dela. 

Um professor que diz para um aluno que ele não entendeu uma obra literária é um autoritário. Não é possível ensinar o sentido de um texto para ninguém. Só dá para explicar que o estudante escreveu uma frase pouco clara, sem sentido ou truncada. O que dá para fazer é deixar as pessoas falarem o que elas bem entenderem. Se a gente não aceitar a interpretação de um adolescente para um poema, podemos estar agredindo algo de muito íntimo e importante para ele. Se não isso, no mínimo vamos afastá-lo da literatura. Imagino não ser o caso de ninguém aqui…

Ricardo Lísias: Esqueci

Coluna de ombudsman extraída da edição de fevereiro de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Por gosto pelo experimento, resolvi que escreveria minha página para o RelevO de fevereiro assim que o primeiro texto da edição de janeiro me chamasse atenção. Como já tinha comentado o editorial e as cartas antes, decidi que pularia essas seções. Enfim, passei para a página 8, a primeira a que me detive. Acabei me desviando um pouco e fui atrás de uma das HQs citadas na introdução à entrevista de DW Ribatski. 

Quando voltei, o texto da página 10, “Meu querido melanoma”, não deixou muito espaço para indiferença. Mais uma vez, fechei a janela e saí atrás de referências. Fiquei bastante tempo navegando daqui para ali. Esqueci o que tinha vindo fazer aqui no computador. Ao me lembrar, já tinha ficado muito tarde e repeti para mim mesmo que continuaria no dia seguinte.

Na terceira tentativa, li o que me faltava do jornal de uma vez só. Eu realmente tinha me decidido a escrever esse texto naquela hora. Minha primeira distração foi a risada que me causou o texto de Felipe Pauluk. Esqueci de tudo outra vez ao ler a matéria sobre a retomada de Hilda Hilst. Acredito que estamos no momento histórico mais adequado para a leitura dessa obra estranha e eloquente. É uma autora que se livrou de qualquer compromisso que não seja a realização de um projeto estético amplo: nem mesmo a fronteira dos gêneros literários a intimidava. Tudo ali é deriva, rescaldo e liberdade.

Há uma ligação sutil entre a matéria sobre Hilda Hilst e o texto “A demonização da mulher pública”, mas tentar desenvolvê-la aqui não seria muito honesto comigo mesmo: daria a impressão de que o meu experimento inicial foi bem-sucedido. Como já ficou claro, não foi. Outra vez eu tinha me esquecido da tarefa de escrever essa coluna. Tenho lido sempre que posso os textos de Carol Rodrigues. A sua lista de compras é ao mesmo tempo divertida e intrigante. É o tipo de texto que deixa o leitor vermelho por estar gostando tanto. 

Terminei essa terceira leitura indo atrás de outros textos de Marin Sorescu. Na hora, o poema lembrou-me os melhores trabalhos de Aglaja Veteranyi. Só hoje, quatro dias depois, lembrei-me de que tinha esquecido de escrever essa coluna. Fiz uma mini antologia pessoal de Sorescu e estava com ela. A edição de janeiro ficou tão boa que a gente até esquece que está lendo, mas não do que está sendo lido. Penso que talvez seja essa uma boa definição de publicação muito bem-sucedida.

Ricardo Lísias: Argumentar é melhor

Coluna de ombudsman extraída da edição de janeiro de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Uma vez, na plateia de uma conversa entre cinco escritores latino-americanos que estava começando em Guadalajara, no México, espantei-me ao ouvir a declaração do mediador: o brasileiro não precisa se preocupar e pode discordar dos outros, se quiser. Eu tinha ido justamente porque gosto muito da obra do meu conterrâneo e lia naquele momento, bem admirado, o livro de um peruano que estaria à mesa. De fato, os brasileiros somos conhecidos internacionalmente por nunca discordar de ninguém. Depois, em Frankfurt, um tradutor observou em um debate que o brasileiro presente havia concordado com uma opinião e depois com o contrário dela.

Na mesma feira de Guadalajara, aliás, achei que um escritor, de tão exaltado, iria de fato dar uns murros no seu colega de mesa. Por mais força que faça, nesse caso minha memória não está tão afiada. Do interlocutor eu me lembro: era Mario Vargas Llosa, que havia acabado de ganhar o Prêmio Nobel. Uma hora depois, com a feira já fechada, dou de cara com os dois conversando em um restaurante. Parece que não levaram a mal.

Não é só na literatura. Outro dia vi um professor comentando que no café da universidade um colega seu lhe dissera, muito espantado, que no meio de uma entrevista uma jornalista espanhola havia discordado de uma opinião, lançando um argumento contrário. Para ele, a atitude soara como ofensiva. 

Quando recebi o convite para fazer uma coluna mensal no RelevO, sempre comentando o conteúdo da edição anterior, achei a ideia ótima. Eu já o conhecia e gostava do acúmulo diferente de vozes e formas. Talvez achasse o que dizer. Até hoje, não conheço pessoalmente nenhum dos responsáveis pelo jornal. Quem sabe algum dia a gente tome um café ou, dependendo do horário, um vinho. Sou paulistano, mas não gosto de chope.

No começo desse ano, falei uma frase ou duas a um jornalista sobre história em quadrinhos. Um pouco depois da publicação da matéria, um tradutor especializado mostrou o tamanho da bobagem que eu tinha dito. A estrutura da fala dele era a seguinte: Ricardo, você está errado, pois [e seguiam alguns argumentos]. De fato, eu me equivoquei.

Não vou conseguir vencer o assunto em uma coluna apenas. Acho que, no nosso momento histórico, é preciso muito cuidado para não falar demais. Tem muita gente dando bom dia a cavalo. Mesmo assim, paro um minuto para tentar entender como alguém pode escrever uma carta para um jornal dizendo que está cancelando sua assinatura porque agora, além de piadas, há um ombudsman. Enfim, logo se vê que é alguém de mau humor.

Até onde sei, há cartas mais agressivas dirigidas a mim. Estou meio acostumado. No caso, porém, não seria mais razoável que fossem apresentados argumentos contra as minhas ideias? Pelo jeito, a assinatura foi cancelada porque alguém discorda de algo que a pessoa gostava e isso é inadmissível. Como se sabe, sociedades sem tolerância para a crítica estão muito propensas a aceitarem ser controladas por pessoas que não gostam mesmo que os outros pensem. 

Imagino em quem essa gente que não argumenta, apenas afirma, vai votar em 2018.

Ricardo Lísias: Confusão

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2017 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Devo confessar que fiquei paralisado diante do editorial do último número do RelevO. A edição de novembro trouxe um conjunto de textos enfeixados sob um tema: a negritude, para usar um termo da própria apresentação dos editores. Edições temáticas podem ser interessantes também para contornar a fugacidade que, por definição, atinge os jornais. Um pesquisador irá procurá-lo daqui alguns anos. Os estudantes podem, desde já, usar a edição como fonte e matéria de informação. Os leitores, enfim, acabamos mais bem embasados se o tema nos interessar. Periódicos temáticos sempre me agradaram muito – por isso, aliás, lamento tanto o fim da circulação da revista Granta no Brasil.

Achei que na desnecessária intenção de se justificar, o editorial acabou se confundindo todo e lançando argumentos para lá de ultrapassados. O primeiro parágrafo, por exemplo, fala da tal “qualidade literária”. Ela não existe. O que se conhece por “cânone” é basicamente a imposição de grupos que, por ocupar espaços revestidos de poder para tanto, determinam critérios que incluem alguns textos e excluem outros. Trata-se de uma operação de violência. 

A citação de Campos de Carvalho veio bem a calhar: há algo de nonsense em dizer que “a derrota é certa”. Eu não acho. A edição está ótima, mas tem um editorial muito defensivo. As pessoas que digam o que quiserem. Se os editores admitem que fazer a seleção para o jornal é um ato crítico, criar argumentos para classificar a qualidade dos textos dele também é. Nós e os outros temos todo o direito de sermos igualmente críticos.

Já a citação de Machado de Assis me pareceu quase uma esperteza. Lançar mão do nosso maior escritor é um lance de segurança. Eu discordo do que ele diz: não acho que seja possível existir uma consciência “tão pura e tão alta, que não sofra a ação das circunstâncias externas”. Quanto a Henry James, fico com um meio termo. Penso, como ele, que qualquer experiência nunca é completa. Meu texto não vai dizer tudo o que eu quero, então ele será sempre limitado, ao contrário do que ele diz depois.

O editorial derrapa mesmo no final, quando diz que acredita ter ultrapassado o “arvoredo ideológico”. É o contrário. Se houve um ato crítico para a seleção de um tema, a única coisa que se impôs foi uma ideologia. Não há problema nenhum nisso e não poderia ser diferente. A ideologia não “priva o olhar de maior pujança crítica”, mas sim o torna menos cínico: até hoje quase que só homens brancos tiveram a possibilidade de ver seus textos medianos e chapa-branca serem publicados e, muitas vezes, considerados bem melhores do que são. No Brasil contemporâneo, é batata, como diz meu vizinho. Se desde o início tivesse ficado claro que não há nada nisso que não seja ideologia, quem sabe essa violência tivesse sido ao menos controlada um pouco.

De resto, a edição ficou excelente.