Zeh Gustavo: ANGÚSTIA, BOSTALGIA, INFETAÇÃO: tudo, mas não necessariamente nesta (des)ordem!

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


eu também tomo café
em uma sala em chamas
só que não é café
é rum eu espero

Matheus Hotz

I
desde as cartas
é que se instaura uma certa primazia
do sistema digestório
na quase ainda possível
comunicação:
abdômen-ritornelo
a gerar um chiado
& pá
& poom
& pés
& zooms!

II
de uma bet
que dela não se reporte
o seu vício fundador
mas a elegância
do patrocínio negado
que subjaz no exercício
de uma das parcas soberanias
que elegemos para levar
as horas
no comércio hodierno
em que nos enfiaram
até a bacia das almas
(inclusos os corpos)

III
uma boa revolução
se faz é com menos quinhentão
na conta
e um sorriso na cabeça

no bolso
uma bússola
desregrada
& um mapa
de alcançar
corações danados
como os nossos

IV
nos dias seguintes
aos tantos poemas relegados
à indiferença presidenta
do conselho do mundo
regido por big techs
é que o ombudsman
rasga o jornal
em rebeldia cega
ele
vocês sabem
adora fazer merda
porque contínuo

contínuo do baixio do palavreado
e de solfejadas sofrências de amor
(contínuo! – gritaria
o pai-empresário escroque
da Bonitinha mas ordinária
aquele que não é solidário
nem no câncer!)

V
um
bando
de
bunda-suja

nunca
seremos
um

rolo

um

rolo

nem
mesmo
de
um
reles
papel
higiênico

VI
parede
ou porta:
qualquer sólido
será esquecido
ao vento
que o levará
ao mar poluído
antes que o que seja
mera performance
possa se tornar
até mesmo
um aviso sequer
de permanência

desde já
esteja proibido
algo que seja
do terreno
da passagem
porventura
se fixar

VII
a pergunta
aos mortos
precisa ser
dirigida
– e digerida –
pelos vivos

porque os mortos
eles não têm
necessidade
de pergunta
não porque já saibam
toda resposta
mas porque já sabem
toda ausência

VIII
o neomoralismo pimpão
é transfronteiriço:
propagandeia
suas bandeirolas
com superioridade
voraz

o neomoralismo pimpão
é chato pra cacete
como a palavra
transfronteiriço
e ai de quem zombeteie
de sua falso-desleixada
mania de nobreza

o neomoralismo pimpão
contém tantas
amarras
quanto a propaganda
de um carro
de um sabão em pó
ou do amor livre
na boca de professor
universitário
em busca de likes
pro lattes

o neomoralismo pimpão
confunde geral
se espalha como brasa
(brasa líquida, claro)
a flertar com o
uso e descarte
de tudo

o neomoralismo pimpão
é o estado da arte
oculto
de quem beija a mão
do opressor
e senta a pua
no suprimido

o neomoralismo pimpão
odeia o que chama de
samba de raiz
amor romântico
escrita elitista
letra difícil
filosofia de botequim
o que pense
política & estética & existência
o que sinta
demais & intenso & visceral

ou seja
o neomoralismo pimpão
odeia toda utopia
que nos possa levar
adiante
sem esse gosto
de rivotril
na boca

IX
para dar bug é preciso
operar o sistema
desde os seus ossos

para dar bug é preciso
jogar não só uma cadeira
mas alguma alma
e em alguém
que tanto a mereça
que viciou em descrer
nessa oferta de tanto

para dar bug é preciso
se jogar na alma arremessada
reconhecer nela
não o alvo
mas o destino
e puxá-la
para dentro
de si

Na falta de um francês melhor, ser guache na vida

Editorial extraído da edição de outubro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


No editorial de setembro, mencionamos a revolução silenciosa do impresso em tempos digitais. Temos alguns motivos para acreditar em uma espécie de reposicionamento do impresso em tempos de adoecimento pelo uso excessivo de telas.

Ao mesmo tempo, tal qual o time pequeno que perde inúmeros gols fora de casa e sai derrotado por 1×0 no final em um lance isolado, fomos punidos pelos deuses do papel-jornal por arriscar tamanho otimismo: tivemos, no mês passado, um dos mais difíceis períodos de arrecadação para o custeio geral da nossa operação.

Diferentemente do impresso, em que sintetizamos um período a partir de textos e entregamos números finais, nossa presença digital acompanha um tanto das oscilações de caixa, do espírito do tempo mais curto, essa coisa do dia a dia mais repetitivo, necessário e desinteressante. Chegamos, e sabemos disso, a exagerar na passada de chapéu —que falta nos faz um sobrenome melhor… E cada novo assinante representa mais um voto de confiança, o que soa ao mesmo tempo simbólico e efetivo. O assinante é quem paga a conta.

Nas edições de julho e agosto, atingimos aproximadamente 95% da meta de arrecadação. Um prejuízo aceitável, do jogo e das oscilações da vida financeira de um negócio de pequeno porte. Então, veio setembro… E o resultado é perceptível na página 2, com o balanço geral da edição. Aliás, no Brasil, somos o único jornal impresso que apresenta publicamente as próprias contas.

E quanto custa, afinal e mensalmente, a operação RelevO? Em torno de R$ 10 mil, puxados, sobretudo, pelo custo de gráfica e de distribuição. O custo de pagamento de autores, além da equipe editorial, não pesa tanto porque, enfim, não remuneramos bem, embora não exista alguém não remunerado nos processos internos do periódico, dos autores aos empacotadores.

Por coisas que poderiam ser explicadas, quem sabe, pela projeção de signo, o editor acumula as funções de curadoria e pagador de boleto — em inglês soa mais imponente: publisher. Ou seja, seleciona textos, com o auxílio do editor-assistente e criador-culpado pelos textos da Enclave; encaminha dúvidas ao Conselho Editorial; conversa com possíveis ilustradores; questiona a resolução das imagens com a gráfica, o corte das páginas, “segue foto em anexo”. Essa é a parte realmente divertida.

E para lidar com tantas oscilações de nascimento & desenvolvimento, o lado B de gerirmos um pequeno negócio para seguir gerando divertimento, contamos com o senso de comunidade do RelevO, essa coisa que, ao longo do tempo, fomos criando, um certo jeito de se relacionar com as coisas que envolvem a escrita, a leitura e a discussão literária. Em suma, nosso senso de comunidade se constrói a partir de um ecossistema de trocas, apoio mútuo e pertencimento em torno de uma palavra ligada na outra, pagando contas e virando páginas.

Uma boa leitura a todos.

Baú: Jerry Saltz

Extraído da edição 127 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Gustave Flaubert se perguntou: “Seriam os escritores muito mais que papagaios sofisticados?”. A maioria dos artistas conhece esse sentimento – de que estamos sendo conduzidos por algo alheio a nós mesmos. Todos nós escolhemos nossos estilos, materiais, modos, meios, ferramentas etc., mas a obra que criamos não é inteiramente uma questão de escolhas conscientes. Eu nunca sei bem o que vou escrever até que o escreva – e, ainda assim, não tenho certeza de onde veio o que escrevi. Essa é a alteridade da arte. Ela é tão poderosa que você às vezes pode se perguntar se a arte está nos usando para se reproduzir – se ela seria uma força cósmica autorreplicante (ou um fungo?) que nos colonizou em um serviço simbiótico.

Isso pode ser emocionante, mas também desconcertante. “É como se um fantasma estivesse escrevendo”, disse Bob Dylan, “só que o fantasma me escolheu para escrever a canção”. Não deixe que isso te apavore. Pelo contrário, aprenda a confiar nessa alteridade.

Jerry Saltz. Como ser artista, 2020 (ed. Seiva, 2024).

Zeh Gustavo: FAÇA AMOR! FAÇA ARTE! E pode fazer suas merdas também!

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Calma lá, não baixei de coach, ainda sou alguém. E este título se inspira noutro, do Fausto Wolff, de crônica de junho de 1981, n’O Pasquim: “Você não é um merda!”. Nela, Fausto ataca o “complô maquinado (…) para que vocês esqueçam o fim que dá significado à existência de vocês. Um plano para transformá-los em mortos-vivos, sem vontade própria (…).” Em outro momento, incita o leitor a entender que pensava; que sentia; que, afinal, vivia – não era um telefone! E Fausto escreve numa era pré-smartphone…

*

“O silêncio é uma ética.” Anda difícil o ombudsman não citar nossos Editoriais. “As nossas vidas são permeadas por um constante fluxo [tagarela, como o define Adauto Novaes] de informações, notificações e alertas que competem por nossa atenção, fragmentando nosso foco e nos empurrando para hábitos de hamster.”

A tecnologia atual é contrarrevolucionária, reativo-positiva, no sentido de que cria mais e melhor de um mesmo que nos joga para trás. Somos instados a nos superarmos em troca de uma espécie de pseudoeus (inter/super)ativos que nos ocupam o tempo inteiro, sem pausa para o silêncio premente à produção real de sentimento e reflexão.

*

Mas não renunciaremos de todo a nós, certo? As “Nuvens não querem se separar das montanhas. / Vivem assim: em luta eterna para conciliar seus desejos.” O Hino à sedução do tudo, de Adonis, é dos vários pontos altos da última edição. Outro verso, de “Divisórias”: “Você, coisa incompleta, / inicia a perfeição.”

*

Trauma da contemporaneidade: o consenso em torno de uma autovivência condicionada, extenuante, fármaco-dopada, individualoide e precarizada.

*

Outro: o neomoralismo. Camaradagem, toda bundinha já esteve e estará um dia suja. Não se rebaixe à canalhice do lugar-comum de frases como “Não passo pano para…”, porque você passa sim, geral passa pano, toda hora, porque se não passar não tem vida em sociedade. Vivemos de passar pano. A novidade é a escalada preocupante do cancelamento, fantasma onipresente, que habita o mundo do juízo deserto de qualquer razoabilidade, que não dá a menor pelota ao contraditório e ao perdão do erro, que visa a punir sem prazo e muitas vezes nem lei.

*

Que duo formoso a obra plástica de Oli Maia, em que a gente nota cores mosaiculosas num singelo preto e branco; com o “Costume” de Anderson Almeida Nogueira, p. 22-23 (volta lá no mês passado para seguirmos juntos adiante). E aí a gente vira a página e tá lá estampada a letra de um genuíno samba ensinado por Zé Keti e Elton Medeiros: aquilo que “Não fala, meus amigos, de ninguém / Simplificando a história / Não fala de mim também”. RelevO, definitivamente, não é qualquer parede.

***

Isto, obviamente: tal de defender a profundidade, prioridade, preciosidade que é existir, não se trata de o indivíduo se pôr a babar asneira academicuzona ou namastê-afetiva na internet, recomendando (aff!) leveza no relacionamento (ficou demodê falar no seu correlato mais fodão, que seria amor, como trocam fácil arte por diversão numa programação dita cultural) e outras bobageiras graciosas.

Sabe o que é leve? Merda. Sempre boia, no mar. Em suma: faça das suas, mas corra de sê-las.

*

No meu último escrito que talvez tu leias, (re)luto ante teu medo e incidente confusão; ainda e sempre, nos insisto. E, já que urge a vida, que é esta, como a temos e não como gostáramos numa visada de novela ou partida tensa de fuga de rebaixamento boleiro, te grito: mergulha! Que oceano é coisa nossa de não perder de vista, para além. Mergulha logo. Que, no início, a gente bate perna; uma hora até aprende a nadar.

A revolução silenciosa do impresso ou 14 anos da primeira edição

Editorial extraído da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2 de setembro de 2010, o RelevO saiu com a sua primeira edição impressa, oito páginas, preto & branco, formato tabloide, 1000 exemplares de tiragem. A fatura da gráfica: R$ 200. A arrecadação do mês: R$ 200. Gastamos entre R$ 30 e R$ 60 com distribuição, concentrada em Curitiba e Araucária, cidade da RMC que foi a sede logística do nosso periódico por quase 12 anos. Pouco tempo depois da edição #1, adotamos o slogan “Não tem fins lucrativos — porque não consegue”, logo depois destituído em prol do elevado “Qualquer coisa, a culpa é do revisor”.

Na época, observávamos três movimentos regulares no mercado de jornais de papel: (1) o fechamento da versão impressa de diversos jornalões, (2) o aumento de custos de papel e de materiais de papelaria e (3) a migração de leitores para as novas mídias — fenômeno que veio a se alastrar com ainda mais força a partir da portabilidade de internet em celulares. Nosso primeiro anunciante, um proprietário de uma loja de calçados, inclusive, já na terceira edição, perguntou-nos se não era o caso de se tornar digital ou abrir um blog ou um portal de literatura.

14 anos depois, aqui estamos em um cenário que não é exatamente animador, mas se distancia com folga do clima de terra arrasada e de destruição dos produtos analógicos. Inclusive, a terra do eldorado digital passa por sérias problematizações e/ou necessidades de regulação, sobretudo por parte dos pais, que lidam hoje com crianças e adolescentes viciados em celular, com problemas visuais, claras limitações de interação física e local, desconstrução dos vínculos afetivos com a família, além do comprometimento da saúde física e psicológica, de estresse à ansiedade. Não estamos sendo saudosistas: apenas conhecemos as salas de aula.

Mas veja bem: não que isso tudo – que hoje vemos como pontos de atenção em relação às tecnologias – não existisse antes em um grau menor ou atrelado às mídias ditas tradicionais, como rádio e televisão. Apenas constatamos que a primeira década de internet ilimitada trouxe uma geração nova de distúrbios, que, parece, podem ser minimizados com comportamentos… analógicos — o famoso axioma do Filho de Steve Jobs, famoso por não deixar seus rebentos usarem dispositivos eletrônicos sem mediação.

Há uma sutil e silenciosa revolução acontecendo no interior dos negócios de comunicação, mais especificamente no que tange aos periódicos de nicho: “— podemos chamar isso de ascensão vitoriosa dos leitores relaxados que estão cansados de ler nas pequenas telas de seus celulares — e essa revolução tem a mídia impressa como protagonista”, na definição do professor em cibercultura Mario A. García (não confundir com Márcio Garcia).

Quem acompanha o dia a dia do mercado de feiras e festivais, além dos lançamentos de edições premium de clássicos repaginados, sabe que os produtos analógicos exercem poder de sedução, mesmo que os números do mercado livreiro tradicional não sejam dos mais promissores.

Entre os periódicos de literatura que orbitam tal ecossistema com certa desenvoltura, observamos uma recente onda de revistas independentes de pequenos lotes, com propostas que atravessam da curadoria de literatura, como o próprio RelevO, até revistas de invenção como a Caça & Pesca, além da novíssima revista Júlia, da Livraria e Editora Arte & Letra, que já se encaminha para a segunda edição.

Editoras ainda partem para clubes de livros personalizados, ao passo que a TAG (não confundir com Transtorno de Ansiedade Generalizada) Livros acaba de completar 10 anos, lidando com as perdas ocasionadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul. Em paralelo, García ainda reforça o caráter de individualização do impresso, com embalagens que retornam ao prazer do tato, exploram as possibilidades de formato, resgatando a beleza de juntar palavras e imagens de um jeito próprio, aquilo que convencionamos chamar de experiência.

[as revistas] têm um preço premium, às vezes excedendo US$ 25 por edição, e são destinadas tanto para exibição em mesas de centro quanto para leitura. Seu conteúdo normalmente não está disponível online, reforçando sua natureza exclusiva e colecionável. Essas revistas atendem a interesses específicos, como escalada, surfe, esqui e corrida, enfatizando conteúdo de qualidade com publicidade mínima. Elas são projetadas para serem itens colecionáveis em vez de leituras descartáveis.

O RelevO não custa nem 25 dólares ao ano. Longe disso. Em quase 200 edições de papel, sem pular sequer um mês, seguimos em conflito com os custos operacionais da vida, mas convictos de que as mídias analógicas continuarão com o seu espaço — também desconfiando que a saída dos grandes jornais da mídia impressa é mais uma ação de diminuir o acesso das pessoas à informação do que estratégia democrática.

Ao nosso modo, entregamos também uma estratégia, um jeito analógico de existir no mundo. E já vimos crises suficientes para dizer que seguiremos como um impresso — enquanto tivermos leitores e leitoras dispostos a questionar a hipertrofia do mundo.
Uma boa leitura a todos.

Baú: Antônio Maria

Extraído da edição 126 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Acorda esse homem inesperada e injustificavelmente cedo, sem saber direito onde está, mas inteiramente certo de que aquela cama não é a sua. O despertar de quem dorme fora é sempre assim e a primeira sensação é uma desconfiança: terei sido raptado? Aos poucos, as ideias se arrumam, a inconsciência do sono vai cedendo lugar à lucidez das coisas exatas e a realidade se comprova na cor da parede, no desenho dos móveis, no cheiro da fronha e dos lençóis, que é uma agradável novidade olfativa. Esse homem chega à simples conclusão de que é um hóspede. Tem um dia grande e vadio pela frente. Poderá, se quiser, continuar na cama, lendo, tramando, cochilando e, mais que tudo, gozando a perspectiva do tempo sem horários e sem tarefas. Mas decide levantar. Antes, faz sua reza íntima de todas as manhãs, a que diz: “Não te deixes tomar pelo pequeno êxito e não te eleves acima do conhecimento que tens da tua frequente fragilidade” etc. Abre a janela. A bruma baixa desfigurou a silhueta dos montes. Vai chover e o dia terá um céu triste. Mas o vento frio da serra e as flores, que são tantas — amarelas, vermelhas, azuis — trazem uma alegria completa, uma impressão de salvamento, em que os cansaços e desgostos aparecem como penas já cumpridas. Dali por diante, esse homem está quite com os castigos e lhe chegam — como nos domingos da meninice — as esperanças, o ânimo, a ideia tranquila de existência. Esse homem não sabe se está apaixonado por uma mulher ou simplesmente pela vida. Mas, em seu coração, há um amor indefinido, que por si, pelo bem que faz, poderá ficar sem alvo certo, sem reciprocidade. Basta-lhe a manhã de vento frio, o perfume das flores e o verde do capim viçoso. Deve ser este um grande momento de sua vida, porque a sensação constante de saudade não está, pela primeira vez, entre os seus sentimentos.

Antônio Maria. Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, Todavia, 2021, pp. 130-131. Publicada, originalmente, no Diário Carioca, de 07/11/1954.

Zeh Gustavo: DE COMO OUTRAR É PRECISO e a máquina de triturar autores (e seus livrinhos)

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Naturalizou-se a disgrama: a literatura-literatura (alô, Odvan! abraço, Luxa!) depender de autores venderem seus livrinhos aos amigos e parentela; livrinhos esses fabricados por editoras cujos clientes são os próprios autores, por sinal vistos como menos que clientes, algo como uma gente chata, que não entende o processo.

*

Vivemos do descontão de 30% de que falei de passagem na última coluna, concedido para comprarmos e doarmos ou revendermos, de mão em mão, nossas próprias obras. Não se fala mais em remuneração dos autores. Não se fala mais em distribuição. E faz é tempo! O livro (não) é vendido no site da editora. Não há estratégia de lançamento, cuja organização igualmente recai nos ombros dos autores. Aí vem as feiras — para as quais você se desloca com os seus próprios recursos, se delas a editora participa. Carece sim dizer: não está bom, não está justo.

*

Não, não meti atestado. E sei o que li no jornal passado. Por exemplo, a espécie de autoalta que Diana Joucovski se deu para contar que “alguns já nascem como a noite: demasiados, indomáveis, criaturas horrendas passionais, tão humanas que beiram à desumanidade”. Laura Redfern Navarro, por sua vez, nos apresentou ao termo aotubiografia: escrita do si no tu. Com todo o respeito, é claro!

*

F. Da Costa ilustrou com traço peculiar e manchadiço uma edição de diagramação redondíssima. Nem sempre atentamos à forma, adictos que ficamos em conteúdo. Largados na ilha, desprezamos o continente, inscrevemos em nossa fala diária que queremos ir ao mar, seja como for: “mas nada dos rudimentos / passa em branco”, nem mesmo aquela “faísca alada / que saltita pela casa/ inundada de noite / e anseios quebrados”, como verseja Nadja Rodrigues.

*

Há que notarmos, ainda, a inquietação com que o RelevO aborda o tempo. Não, não é sacanagem: filosofia, que chama! Em pleno e pelo impresso.

*

Enshittification e gamificação são duas fases do mesmo jogo de tornar as experiências da vida em unidades de um negócio pulsional absolutamente descartável.

*

Nós escribas aceitarmos de boníssima pagar pelo nosso trabalho deve-se à premência um tanto egoica mas também altruísta ou missionária que temos de continuar a produzir e lançar nossas coisas, fato. Contudo, o silenciamento a respeito das más condições em que isso se efetiva remete a uma autoimagem rebaixada a ponto de fazer corar o vira-latas complexado do Nelsão; e/ou à condição de pertença, de tantos, a uma classe mais remediada, outro fato. Mas, olho no lance (saudade, Silvio Luiz!): se sucumbimos diante das contingências como se elas fossem inescapáveis (coitada da editora, ela é pequena!), quem achamos que vamos enganar com isso, além dos nossos mais chegados, que já devem estar de saco cheio de, sozinhos, nos prestigiarem?

*

O eu é o centro e o alvo do descarte vital consentido. Outrar é preciso. Até para obrar.

*

Fechando o reclame do ombudsman: causam-me, até hoje, absoluta perplexidade o surgimento e a longevidade de (bons) prêmios que requerem a concorrência exclusiva de autores inéditos. Que raios de fetiche é esse de renovar o cabedal de futuros trabalhadores precários do meio (fodidos privilegiados, como dizia o saudoso Abujamra!) lhes dando uma oportunidade que não vai se repetir logo adiante?

*

A gente brinca porque ainda está num certo (falso) controle. Porém, os mad menx estão aí, na raça!, nos pedindo um soco na cara que nunca lhes damos. “O que você afinal faz no seu trampo? Ah, meu, eu sou um criativo!”. Não se engane: eles parecem fofos, mas merecem uma morte lenta e cruel.

“Como pensar o silêncio no meio de tão vasta explosão?”

Editorial extraído da edição de agosto de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2017, em entrevista ao Diario de Sevilla, David Le Breton desenvolveu um ideário a favor da quietude, o silêncio como forma de resistência. “Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século 20 como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica”.

Na contemporaneidade, de fato, o silêncio tornou-se um luxo raro. Como definiu Eugênio Bucci, “Como pensar o silêncio no meio de tão vasta explosão? (Explosão, aliás, duradoura e persistente, que não é de hoje, que vem se intensificando pelo menos desde o final do século 19)”. O silêncio é uma ética. As nossas vidas são permeadas por um constante fluxo de informações , notificações e alertas que competem por nossa atenção, fragmentando nosso foco e nos empurrando para hábitos de hamster. A tecnologia, embora revolucionária em sua capacidade de conectar e facilitar — e não estamos aqui para defender luditas —, também nos joga a um ciclo incessante de estímulos sonoros e visuais, a uma certa prosa infinita do mundo, produzindo ruídos internos crônicos. Não é difícil observar a qualidade de nossas interações, envolvidos que somos por pastéis de vento emocionais.

O silêncio, para um jornal de literatura, por exemplo, não é apenas necessário, e sim a substância primeira de sua consolidação, uma forma de sobrevivência da experiência. Nesse sentido, torna-se uma forma analógica de resistência – termo cujo processo de banalização agora reforçamos. Resistir à tentação de estar constantemente conectado, resistir à pressão de responder imediatamente a cada notificação, resistir à cacofonia moderna que ameaça nossa capacidade de introspecção.

Hoje, a resistência ao ruído é, de certa forma, uma resistência ao próprio fluxo do tempo moderno. O pesquisador Adauto Novaes define a experiência de ser contemporâneo como fluxo tagarela: “Damos com muita facilidade e até certo desprezo um ‘adeus’ às palavras de maneira tão tirânica e tão natural que nem conseguimos colher imagens que ela nos propõe. Sem o tempo do pensamento, a simplicidade das palavras e a riqueza dos sentidos desaparecem no fluxo tagarela. Sem a experiência do silêncio não se entende o que se diz. Ora, conhecer uma coisa é experiência; conhecer o sentido da fala é experiência”. Seria verdade, então, que somente é capaz de silêncio um ser que pode falar que tem linguagem? Quem nunca diz nada, assim como quem nada tem a dizer, não consegue guardar silêncio?

Se pensarmos no Adonis de “Você, coisa incompleta, inicia a perfeição” como uma estratégia de definir um leitor, chegamos ao valor final absoluto: quem dá vida ao texto, transformando página em alguma coisa além de uma palavra colada na outra, é o leitor que se rebela contra o ruído, que, nas palavras de Frédéric Gros, faz do silêncio uma superfície isolante branca que serve de anteparo diante do ruído.

O caminho foi cantado há muito tempo pelos Secos & Molhados: “Eu não sei dizer / Nada por dizer / Então eu escuto (…) Eu só vou falar / Na hora de falar / Então eu escuto”.

Uma boa leitura a todos.

Baú: a última carta de Sylvia

Extraído da edição 125 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

4 de fevereiro, 1963

Querida mãe,

(…) Eu jamais poderia ser autossuficiente nos Estados Unidos; aqui tenho os melhores médicos completamente grátis e, com crianças, isto é uma verdadeira bênção. Além disso, Ted [Hughes] vê as crianças uma vez por semana e isto faz com que se sinta mais responsável na hora de pagar a pensão. Simplesmente, terei que continuar aqui me virando sozinha.

(…) Agora as crianças precisam de mim mais do que nunca, de modo que durante mais alguns anos tentarei continuar escrevendo de manhã e dedicando-me a elas durante a tarde, e verei meus amigos ou lerei e estudarei de noite.

Começarei a ir à consulta de uma doutora, também a cargo da Seguridade Social, que me recomendou um médico do bairro muito bom que conheço, e confio que me ajudará a superar esses tempos difíceis. Mande meu beijo carinhoso a todos.

Sivvy

Sylvia Plath. Fonte: ElPaís.

Contexto: “Uma semana separa a última carta de Sylvia Plath (1932-1963) da noite, segunda-feira, lua quase cheia, em que abriu a válvula de gás do forno e enfiou ali a cabeça até morrer intoxicada. Seu ex-companheiro, o poeta Ted Hughes, havia definido a escritura de cartas como ‘um excelente treinamento para aprender a conversar com o mundo’. Não sabia que também servia para se despedir dele. Excelente escritor de cartas, Hughes redigiu textos secos e frios para comunicar a notícia fatal” [no link].

Zeh Gustavo: ESTÃO MATANDO TUDO SEMPRE mas a gente só morre amanhã

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Ao menos, em tese. E calma lá: informo que não sou doutorando em nada! De certo, certo, só temos que Não é dinheiro não! é o novo Me dá um trocado? e que empreender virou verbo intransitivo.

*

Mas estão matando mesmo. O projeto é de precarização da existência: tornar o ser numa atividade inusual, ou prescindível, ou capenga; algo qual uma disparatada (dis)função cujo ímpeto, horizonte enquanto (meu revisor interior saiu pra comprar cigarro!) ação se pudesse superar, sem prejuízos, pelo consumir produtos, processar dados, lacrar na rede.

*

Querem me sacanear? Façam por onde! E capricharam os autores de junho do Jornal — em que passo vergonha, mas mando aquele SOS diante do fim da arte, da revolução e do amor como utopias-guias pra gente aguentar o tranco. Com a palavra, o ex-supervisor de inteligência estratégica do excelente conto de Saul Neto, que abre o último RelevO: entregaram!

*

Da provinha da aquarela de traços épica de Era uma vez no Contestado, romance-quadrinho-milonga do André Caliman, recém-lançado, à mochila carregada das falhas que negamos e que Catulo nos acusa termos sempre às costas; da gargalhável colagem do Informe Publicitário ao inspirado Editorial sobre a saga do impresso (“A nossa inadequação, quem sabe, seja a nossa fortaleza”); no poemário com, entre outros, Douglas Batalha — obrigado pelo verso com que abrimos este ombudsdito! — e Bruna Gonçalves (o Algoritmo é a unidade de afeto do desamor-livre): estupenda, a edição!

*

Eu só nunca entendi o David Bowie, tampouco intento fazê-lo, e falo (não) só pra garantir os xingos da rodada. Juro!

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Ainda Saul Neto: se tenho um vício, é o de não dar muita pelota para texto literário de cuja leitura não se guarde mísero trecho, expressão, diálogo nas ideia (o revisor ainda não voltou!). Dramaturgo fascinado por Dostô, Nelsão Rodrigues foi o que foi por ser também um baita frasista. N’O teatro dos loucos, ele tasca que “A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz.” Para tanto, lidamos com coisas como “um ódio bem guardado dentro dos ossos capaz de desejar a aniquilação ou apenas o sumiço sumário” de desgraçados que “gostam de mostrar o pequeno poder que exercem sobre os outros os fazendo esperar”. Bravo, Saul (#somostodos sobreviventes do estilo)! Depois me manda seu livro, camará!

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A roda gira, gira a roda. Não é clichê, mesmo o sendo — é mantra para quem topa os segredos das matas invisíveis que nos rodeiam, do mar em que pouco(s) mergulhamos disponíveis a ouvir seus silêncios, do rio que passou em nossas vidas e o coração se deixou levar. Laiá, Paulinho: quantas vezes isso tanto nos doerá pelo caminho?

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Elogiar, elogiei. Mas bora de errata? No afã de cobrir o efervescente mercado de transferência de síndicos, a editoria marcou passo em relação ao próprio nome da lei-sonrisal que, economistas projetam, vai fazer o PIBão do papi Haddad subir uns 2 cm, ops, 2%. A lei é conhecida, afinal, como Novo Marco Síndico (o que já rendeu, por troca do lugar em que se bota o acento, com todo o respeito, é claro, piadinhas infames no colo da rampeira Jana). Síndico, e não sindical. Belezinha?

Obs.: o termo sindical remete a uma antiga tradição de reunir trabalhador (algo parecido com o atual colaborador) para reivindicar direitos, quase que suplantada pelas boas práticas inauguradas com o Plano para o Futuro do Pretérito do ex-golpista e agora vampiro, não necessariamente nessa ordem, Michel Fora Temer (mal aí pela lembrança!).

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Sempre volta a metáfora do zelador de Dias perfeitos: continuemos, a cada banheiro, lutando para que não aconteça, por irrazoável escrutínio ou inércia destrutiva, de depositá-la — a tal de vida — numa latrina.

A arte de perder não é nenhum mistério

Editorial extraído da edição de julho de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Quando Elizabeth Bishop escreveu que “Tantas coisas contêm em si o acidente / De perdê-las, que perder não é nada sério”, certamente não se referia ao escopo de escolhas de um jornal de literatura, muito menos do RelevO. Mas isso não nos desanima, tampouco nos impede de forçar a analogia.

Na média, recebemos 400 textos por mês – muito mais que a nossa capacidade de leitura – e estamos sempre em débito com as devolutivas aos autores recusados, o que nos gera espezinhadas regulares nas redes sociais. Para Alain, em Considerações sobre a Felicidade, ninguém tem escolha. “A arte de viver consiste, antes de mais nada, parece-me, em não brigar consigo mesmo sobre a decisão que se tomou ou o ofício que se exerce”.

Escolher o que publicar é um exercício de curadoria complexo. Isso de sermos condenados a ser livres, de abraçar a incerteza e a ambiguidade, já que envolve uma análise subjetiva a partir do gosto dos editores somado à busca por uma compreensão objetiva de textos soltos que possam gerar um conjunto interessante para uma única edição. Por outro lado, gostamos da capacidade simples e prazerosa de identificar novos talentos. Tentamos, assim, ser um espaço de mediação que conecta escritores e leitores, os quais muitas vezes estão nas duas frentes.

Não temos a ambição de orientar os leitores em meio à enxurrada de informações, destacando obras que merecem atenção pela sua qualidade, originalidade e pertinência. Ao selecionar textos de diferentes estilos, gêneros e perspectivas, não temos a pretensão de ser um farol literário que ilumina todos os caminhos da literatura – isso daria muito trabalho!

Nosso objetivo é mais modesto, porém não menos significativo: queremos ser um pequeno espaço de sensações em que cada leitor encontre algo que ressoe com suas próprias experiências – mais que um cardápio de um restaurante elegante, nos vemos como um honesto buffet por quilo.

Essa falta de pretensão não diminui nosso compromisso com a qualidade dos textos que publicamos. Não queremos ditar tendências ou definir padrões; somos apenas um ponto de encontro analógico, um café de domingo, um jeito de estar no mundo, mesmo para quem não selecionamos, afinal “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada”, como define Bishop.

Sabemos que ser recusado em um processo de seleção pode ser desanimador para os autores. Entretanto, essa decisão não diminui o valor ou o talento de quem escreve. A curadoria é um processo subjetivo e, muitas vezes, um texto pode não se encaixar no perfil ou na linha editorial que buscamos em um momento específico. Sequer precisamos entrar no mérito de grandes autores recusados ao longo da história.

Para os autores não selecionados, queremos dizer que o RelevO continua aberto e interessado em suas criações futuras. Encorajamos todos a persistirem, a explorarem diferentes estilos e temas e a continuarem submetendo seus trabalhos. Só não encorajamos a tentar trocar publicação por assinatura. Isso realmente nos ofende (o que é difícil…) e, para esses, desejamos um péssimo dia!

Para todos os outros, uma boa leitura.