Baú: Henry David Thoreau

Extraído da edição 58 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Viver muito ao ar livre, ao sol e ao vento sem dúvida produzirá uma certa aspereza de caráter – fará com que uma pele mais grossa cubra alguma das qualidades mais refinadas de nossa natureza, como ocorre no rosto e nas mãos, ou como o duro trabalho manual rouba dos dedos um pouco de sua delicadeza de toque. Assim, a permanência em casa, por sua vez, pode produzir uma brandura e uma maciez, para não dizer fineza, de pele, acompanhada por uma sensibilidade aguçada a certas impressões. Talvez fôssemos mais suscetíveis a algumas influências importantes para o nosso crescimento intelectual e moral se sobre nós o sol e o vento tivessem batido um pouco menos; e sem dúvida é uma questão importante dosar com equilíbrio a pele fina e a pele grossa. Mas penso que haverá oportunamente uma descamação – que o remédio natural deve ser encontrado na proporção que a noite mantém com o dia, o inverno com o verão, o pensamento com a experiência. Haverá então tanto mais ar e luz do sol em nossos pensamentos. As palmas calejadas das mãos do operário entendem-se melhor com os finos tecidos do autorrespeito e do heroísmo, cujo toque comove o coração, do que os dedos lânguidos e indolentes. Não passa de sentimentalismo o que faz alguém ficar deitado o dia inteiro e se julgar imaculado, longe dos calos e da pele curtida da experiência.

Henry David Thoreau, Caminhar (1862 – n’A Desobediência Civil, Ed. Penguin, 2012).

Morgana Rech: Elaborando o fim

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Cinco coisas que pude elaborar durante esse período de ombudsman no RelevO:

 

  1. Tudo pode ser virtualizado. Em cada frase que dirigimos a alguém, um espaço vazio permanece entre como uma caixinha de potencialidades imaginativas. Minha relação com o jornal não tem absolutamente nada de concreta. É virtual na minha liberdade imaginativa; assim como na nuvem de onde falei durante esses cinco meses; assim como nos contatos com quem comigo divide essas páginas, neste oásis mundano que é a arte.
  2. Ser analista de jornal é por pouco tempo. Primeiro, porque ele sabe mais do que eu. Segundo, porque cinco meses é mais do que suficiente para instalar uma relação suficientemente boa entre o jornal e suas estranhezas. Freud atendia seus pacientes-pessoas por pouco mais do que isso, às vezes menos. Não foi analista de jornal, mas de grandes obras de arte, trabalhos que lhe construíram como fundador de alguma coisa.
  3. Existem várias formas de matar um leão por dia, seja transformando-o num tigre preguiçoso, ou deixando-o no silêncio, ou ainda reduzindo a sua presença à significância de uma joaninha.
  4. Continuo sem entender por que é mesmo que eu deveria criticar o jornal. Ninguém entende isso mesmo.
  5. Jornais: especialistas em resistir ao tratamento com as suas múltiplas capacidades de se deslocar e se condensar em imagens, como as de Magritte, que só servem para desviar a atenção do analista.

 

Dizem que, depois da última sessão, o paciente sonha com tudo o que aconteceu durante o percurso. Sua capacidade de sonhar já não será a mesma, dali em diante. São ferramentas e fios novos para tecer, dia e noite e do dia para a noite. Como o RelevO já faz um tecidão pelo Brasil com seu impresso há todos esses anos, só me resta esperar que ele siga contaminando todo mundo, por onde quer que passe, com a sua arte de renovar as nossas esperanças. 

Tempo esgotado.

Louis Vuitton, mestre das malas

Extraído da edição 57 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Existe uma diferença significativa entre o primeiro baú – de topo arredondado – e o segundo – retangular. Para constatá-la, basta juntar vários destes objetos: uma pilha de unidades do baú retangular se manterá em seu devido lugar, ao passo que uma pilha de unidades do baú arredondado formará um caos semelhante a uma rodada de Tetris encerrada precocemente.

Essa desordem em nosso cenário hipotético prejudica os objetos contidos em cada baú arredondado. Por sua vez, o cenário hipotético já não foi apenas hipotético: muito antes das malas com rodinhas (“Como é possível conceber que se passaram quase 6 mil anos entre a invenção da roda e essa implementação brilhante (por algum fabricante em um monótono subúrbio industrial)?“) e dos extravios em Guarulhos, viajar exigia um empenho logístico maior do que um check-in no app da Latam.

Na metade do século 19, durante ou depois da Revolução Industrial, para se deslocar era necessário subir em uma carruagem, barco ou no recém-desenvolvido (e lento) trem. Nesse contexto, um sujeito muito astuto otimizou a maneira como indivíduos poderiam carregar e guardar suas bagagens. Pelo título do texto, você deve imaginar a quem nos referimos, o que remove qualquer margem de surpresa.

O adolescente Louis Vuitton (1821-1892), antes de ser simulacro de camelódromo, tendo perdido pai e mãe, saiu de Anchay – a pouco menos de 500 km da capital – para morar em Paris, onde se desenvolveu na confecção de bagagens sob a tutela de Monsieur Maréchal.

Com o tempo, Vuitton se tornou empacotador oficial da corte (com ô) francesa – pense num cara bom com malas, não é mesmo? Hahahahaha… Era ele, portanto, o responsável por organizar os baús de ninguém menos que a imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III. Também era responsável por fabricá-los (os baús, não os monarcas).

Além da experiência, isso lhe rendeu clientes, contatos e, claro, status. Quando Vuitton abriu a própria loja, na década de 1850, o transporte ferroviário crescia. No fim dessa mesma década, Louis Vuitton implementou seus inovadores baús retangulares. Ele havia se inspirado na marca inglesa H. J. Cave, creditada como a primeira a confeccionar bagagens de mão.

A engenhosidade de Louis Vuitton lhe valeu a consagração, que perdura até hoje. Por sua vez, o logotipo da LV foi desenvolvido após a morte do criador, já visando a impedir falsificações. Mérito de seu filho, George, que também ajudou a criar o sistema de trancas nas bagagens – até então (estamos falando das últimas décadas do século 19), qualquer um podia furtar os pertences contidos nas malas. Como no aeroporto de Guarulhos!

Baú: Robert Stam

Extraído da edição 57 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

A linguagem convencional da crítica sobre as adaptações [de romances ao cinema] tem sido, com frequência, profundamente moralista, rica em termos que sugerem que o cinema, de alguma forma, fez um desserviço à literatura. Termos como “infidelidade”, “traição”, “deformação”, “violação”, “abastardamento”, “vulgarização”, e “profanação” proliferam no discurso sobre adaptações, cada palavra carregando sua carga específica de ignomínia. “Infidelidade” carrega insinuações de pudor vitoriano; “traição” evoca perfídia ética; “abastardamento” conota ilegitimidade; “deformação” sugere aversão estética e monstruosidade; “violação” lembra violência sexual; “vulgarização” insinua degradação de classe; e “profanação” implica sacrilégio religioso e blasfêmia.

Embora o poder persuasivo da suposta superioridade da literatura ao filme possa ser parcialmente explicada pelo fato inegável de que muitas adaptações baseadas em romances importantes são medíocres ou mal orientadas, ele também deriva, eu argumentaria, das pressuposições profundamente enraizadas e freqüentemente inconscientes sobre as relações entre as duas artes. O senso intuitivo da inferioridade da adaptação deriva, eu especularia, de uma constelação de preconceitos primordiais. Em outros textos eu resumi esses preconceitos nos seguintes termos: 1) antiguidade (o pressuposto de que as artes antigas são necessariamente artes melhores); 2) pensamento dicotômico (o pressuposto de que o ganho do cinema constitui perdas para a literatura); 3) iconofobia (o preconceito culturalmente enraizado contra as artes visuais, cujas origens remontam não só às proibições judaico-islâmico-protestantes dos ícones, mas também à depreciação platônica e neo-platônica do mundo da aparências dos fenômenos); 4) logofilia (a valorização oposta, típica de culturas enraizadas na “religião do livro”, a qual Bakhtin chama de “palavra sagrada”dos textos escritos); 5) anti-corporalidade, um desgosto pela “incorporação” imprópria do texto fílmico, com seus personagens de carne e osso, interpretados e encarnados, e seus lugares reais e objetos de cenografia palpáveis; sua carnalidade e choques viscerais ao sistema nervoso; 6) a carga de parasitismo (adaptações vistas como duplamente “menos”: menos do que o romance porque uma cópia, e menos do que um filme por não ser um filme “puro”).

Robert Stam, Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade (2006).

Como (mas não necessariamente por que) Community é brilhante

Extraído da edição 56 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Community

Dez anos atrás – um pouco antes, um pouco depois – a emissora americana NBC encaixava uma sequência mágica de séries de comédia. Nas noites de quinta-feira, o canal de TV aberta transmitia The Office (2005-2013), 30 Rock (2006-2013), Parks and Recreation (2009-2015) e Community (2009-2015), não necessariamente nessa ordem.

Até o momento, todas envelheceram muito bem. Claro que não faz muito tempo que acabaram, portanto não dispomos do distanciamento necessário para cravar a relevância histórica de cada uma, mas é notável como a audiência da internet não só não permitiu que arrefecessem como parece impulsioná-las gradativamente.

Community retornou à Netflix brasileira há pouco tempo, o que tem renovado seu público. A série também está disponível no Prime Video. Já faz mais de dez anos que o primeiro episódio foi ao ar, e esse envelhecimento reforça a impressão de que Community estava à frente de seu tempo.

As histórias de bastidores da produção são bastante conhecidas. A maioria envolve as peripécias do criador, o idiota-prodígio Dan Harmon, e o temperamento complicado de Chevy Chase, de longe o nome mais famoso da atração, ao menos quando ela começou.

Grosso modo, Community não conseguia uma grande audiência. Harmon foi demitido da própria criação. Uma temporada se passou sem ele – abaixo das outras. Surpreendentemente, Harmon foi readmitido para outra. Durante e depois dela, alguns atores deixaram a série, a qual foi cancelada, então magicamente reativada pelo Yahoo, onde permaneceu por uma temporada final. A audiência se manteve, se não baixa, ao menos pouco impressionante. Mas Community terminou com dignidade.

E, de fato, não abordaremos tanto por que razão Community é brilhante, embora possamos fazê-lo em outra oportunidade. A série é engraçada (oras); tem personagens carismáticos, com dilemas verossímeis; carrega a metalinguagem como recurso, não muleta; fornece pastiches e paródias caprichados; abraça o multiculturalismo dos personagens de forma muito genuína.

Enfim, como toda ou, pelo menos, a maioria das obras extraordinárias – e Community é uma obra extraordinária –, o êxito artístico da criação de Dan Harmon exigiu a colaboração de um núcleo de pessoas talentosas. Afinal, como já sintetizou José Mourinho, “sem ovos, não se fazem omeletes – e depende da qualidade dos ovos”. Isso responde como Community se tornou brilhante: com muitos ovos de qualidade.

Depois de Community, Dan Harmon criou Rick and Morty (2013-) com Justin Roiland. A animação estourou e dispõe da notável vantagem mercadológica de vender bonecos e afins. Além disso, ser uma animação (que depende mais do próprio Roiland, quem grava as vozes dos protagonistas) confere uma flexibilidade maior para contornar o comportamento errático de Harmon.

Os irmãos Anthony e Joseph Russo, produtores executivos da série e diretores de 48 de seus 110 episódios, acabaram contratados pela Marvel para dirigir Tanto Faz 5 e Herói Genérico 7, além dos dois últimos filmes dos Vingadores. Cada um deles rendeu mais de US$ 2 bilhões aos androides da Disney, e o último detém a maior bilheteria da história do cinema.

A Enclave não assistiu, portanto não avalia; fato é que ninguém é escolhido para tocar um projeto tão grande sem apresentar um leque amplo de habilidades – mesmo que depois elas sejam pasteurizadas sem dó.

Por sua vez, Ludwig Göransson, responsável pelas músicas autorais que ouvimos ao longo de Community, compôs as trilhas sonoras de Creed (2015), The Mandalorian (2019-) e Tenet, o próximo filme de Christopher Nolan. Além disso, colabora frequentemente com o rapper Childish Gambino, assinando composições e produções em todos os seus álbuns.

Childish Gambino, para quem desconhece a ligação, é Donald Glover, e Donald Glover – ator, músico, roteirista (de 30 Rock, inclusive) e criador de Atlanta (2016-) –, hoje mais consagrado do que nunca, é um dos protagonistas de Community.

Ainda no elenco, Jim Rash ganhou um Oscar pelo roteiro adaptado de Os Descendentes (2011). Alison Brie, que já dava as caras em Mad Men (2007-2015), participou de BoJack Horseman (2014-2020) e estrelou GLOW (2017-2019). John Oliver estourou na HBO com seu Last Week Tonight (2014-). Concluímos que eram ovos muito competentes em diferentes esferas: está respondido o como.

Anteontem (18), durante a quarentena, o elenco se reuniu (com Dan Harmon) para ler o roteiro de um episódio icônico da quinta temporada – um bottle episode, isto é, aquele mais econômico possível, que geralmente se passa em um só cenário. Eles também responderam perguntas de fãs.

Há uma leveza na dinâmica dos envolvidos – leveza repetida em toda interação pública de elenco e produção, que costumam se reunir em diferentes projetos atuais. Essa naturalidade, a famosa química, é mais abstrata, mas certamente explica, ora como causa, ora como consequência, como (e por que) uma obra consegue atingir todo o seu potencial. Pode ser verificada na constância com que um faz o outro gargalhar, costurando a atmosfera típica de piada interna.

Community é uma série sobre amizade e (não) pertencimento. Joel McHale, protagonista (e eventualmente produtor informal), compreende exatamente a que se refere a magia de seu conteúdo: “Dan (Harmon) é o mestre das piadas dirigidas aos personagens, e há uma diferença muito grande entre piadas e piadas dirigidas aos personagens, que partem do que se passa com o personagem – em oposição a ‘aqui vai algo engraçado para falar’ (…). Por isso eu ficava furioso quando algum crítico dizia ‘é só humor referencial’.”

Com os instrumentos certos, Dan Harmon conseguiu converter sua visão em uma comédia demasiadamente humana, traduzindo a insegurança, o comprometimento e o humor derivados da construção de intimidade. Community emula o conforto de ser alvo das piadas de um amigo muito próximo.

Baú: Epicteto

Extraído da edição 56 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

[34] Quando apreenderes a representação de algum prazer – ou de alguma outra coisa – guarda-te e não sejas arrebatado por ela. Que o assunto te espere: concede um tempo para ti mesmo. Lembra então destes dois momentos: um, no qual desfrutarás o prazer; e outro posterior, no qual, tendo-o desfrutado, tu te arrependerás e criticarás a ti mesmo. Compara então com esses dois momentos o quanto, abstendo-te <desse prazer>, tu te alegrarás e elogiarás a ti próprio. Porém, caso a ocasião propícia para empreender a ação se apresente, toma cuidado! Que não te vençam sua doçura e sua sedução. Compara isso ao quão melhor será para ti teres a ciência da obtenção da vitória.

[35] Quando discernires que deves fazer alguma coisa, faz. Jamais evites ser visto fazendo-a, mesmo que a maioria suponha algo diferente sobre <a ação>. Pois se não fores agir corretamente, evita a própria ação. Mas se <fores agir> corretamente, por que temer os que te repreenderão incorretamente?

(…)

[37] Se aceitares um papel além de tua capacidade, tanto perderás a compostura quanto deixarás de lado aquele que é possível que bem desempenhes.

Epicteto, O Encheirídion de Epicteto, séc. 2 (trad. Aldo Dinucci e Alfredo Julien, IUC/Annablume, 2014).

Igualmente humanos: adeus a Tony Allen, Aldir Blanc e Florian Schneider

Extraído da edição 55 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Tony Allen (esquerda), Aldir Blanc (superior direita) e Florian Schneider (inferior direita).

Já havíamos sentido a morte de Moraes Moreira em abril. Mas três outras mortes – tão demograficamente distantes, tão inquestionavelmente impactantes – afetaram a música nos últimos dias.

Em 30 de abril, perdemos Tony Allen, 79, em razão de um aneurisma da aorta abdominal. Nigeriano, Allen era um baterista extraordinário, reconhecido por tocar (e, literalmente, conduzir) a banda de Fela Kuti, expoente do afrobeat, que muito influenciaria o pós-punk e, posteriormente, a música eletrônica. Sobre ele, disserta o convidado Matheus Chequim.

Tony Allen pode não ter sido o rosto nem a voz do afrobeat – este certamente foi seu parceiro Fela Kuti. Mas nada disso se sustentaria em pé sem um corpo, do qual saem pernas e braços e onde fica o coração: órgão fundamentalmente rítmico e mais essencial do organismo. Este foi o baterista Tony Allen. Sem ele, jamais teria existido o afrobeat – palavras do próprio Fela.

Se o afrobeat assim é chamado, é porque existe algo de distinto sobretudo em seu ritmo, em sua batida. Na percussão não existe tonalidade. Isto é, não existe fá, nem sol, nem ré. O papel da bateria é essencialmente o da sustentação, mas há diversas maneiras de se equilibrar. Tony Allen criou silenciosamente um ritmo que foi capaz de segurar a explosão e a inquietação de Fela Kuti, e ao mesmo tempo libertar os corpos que, contagiados, inevitavelmente se põem a dançar.

O afrobeat seguramente não morrerá. Mas a morte de Tony Allen nos tira um criador prolífico que jamais se acomodou com um legado que já havia precocemente deixado escrito. Nas últimas duas décadas de vida, trabalhou com os mais diversos músicos, se associando a artistas como Damon Albarn (Blur/Gorillaz) e Charlotte Gainsbourg. Também chegou a gravar disco com o “mago” do techno, Jeff Mills.

Miles Davis disse um dia que o afrobeat era a música do futuro. Brian Eno considerou Tony Allen o maior baterista que já viveu. Certa vez, quando indagado se pensava em aposentadoria, Tony Allen declarou: “Não sei o que essa palavra significa.Tocarei até meu último suspiro.

Em 4 de maio, morreu Aldir Blanc, 73, vítima de COVID-19. Blanc era compositor e cronista; exalava o carioquismo reconhecido pelo Brasil e pelo qual o Brasil é reconhecido. Em Vida Noturna (2005), interpretou todas as letras de um disco pela primeira vez. Com a palavra, Daniel Zanella.

A morte de Aldir Blanc me comove como a derrota de uma estrela, ocasião suspensa de supernova — borboleta vadia, nos deixa na chuva, com a mão no bolso. O compositor carioca é a tríade basal da letra brasileira, ao lado de Chico Buarque e Paulo Cesar Pinheiro, sem a importância de ordens e estabelecimentos, afinal, quem orgulhava-se de ser o emérito do boteco, “Doutor, quer cerveja ou pinga com limão?”, não corria atrás de pinguins de geladeira.

A música brasileira, enquanto patrimônio, enquanto sumidouro do espelho… Existem tantos outros grandes compositores, tantos outros que foram acometidos pela desgraça de bem-escrever, compositores de um Brasil hediondo com seus expoentes, um Brasil que cantarola letras sem saber intencionalmente quem as compôs. Aldir, artista introspectivo, reflete, tensiona o que é ser contemporâneo, pertencer ao agora, e ainda nos remete ao estremecer das essências primeiras.

Aldir… Aldir atingiu um índice fundador de sujidade e lirismo, de indiscrição e elegância. A sua gnose era a gnose do bar, a gnose do amor derradeiro, a gnose do silêncio, como se habitasse em suas letras uma paleta de sóis discretos, luminar de grandezas e ressalvas. Ouvir “Vida Noturna”, espantosa madrugada serena em forma de disco, de 2005, resguarda as profundezas desse compositor, e aqui também intérprete, ora na direção do pôr do sol, ora diante do quarto silencioso, “que amores terminam no escuro, sozinhos”.

Ouvi-lo pela primeira vez sempre foi aquela pinga da sede de noite, o estupor do conhaque, a mulher de vermelho disparando no crepúsculo. Reouvi-lo: a constatação do fim em si mesmo, a aceitação do sorriso covarde, a claridade da manhã que se mede pelo simples, pelo direto, o cultivo da tristeza, um piano acompanhando o desterro.

Constelação maior, Aldir Blanc sempre foi estar no melhor inferno ao som da Ave-Maria. Para onde foi Aldir Blanc? Tudo depende, como “depende o seu conceito de assassinato”, especula em “Lupicínia”. Certamente os gênios brindam no céu, “andorinhas fazem ninho nas ruínas” e os deuses embriagam-se da essência do imorrível.

“Estrela é só um incêndio na solidão”, escreveu.

Por fim, em 6 de maio o público foi informado da morte de Florian Schneider, 73 – que ocorrera, por conta de um câncer, em 21 de abril. Schneider fundou o Kraftwerk com Ralf Hütter no início dos anos 1970 e deixou o grupo em 2008. Além de fundadores, ambos foram responsáveis pela fase mais prolífica da banda, na segunda metade daquela década.

A influência do Kraftwerk, a perfeita simbiose homem-máquina, é imensa, imensurável. Mapeá-la não diz respeito a quem tentou reproduzir ou emular seu som – vai muito além disso. É um exercício análogo a entender como a evolução da tecelagem afetou a produção de roupas.

Schneider e Hütter são responsáveis por um impulso sem fim na produção de ritmo, textura e melodia. ‘Neon lights‘, contida na obra-prima The Man Machine (1977), é uma síntese disso em 9 minutos.

É quadrada, porém melódica. Seus sintetizadores, melancólicos, conduzem à poesia imagética do futuro com a qual o Kraftwerk se consagrou. Uma letra simples e cantarolável é pincelada, então gradativamente cede espaço a uma suave combinação de rastros sonoros tenros, longos e devaneadores, potencializados em um fone de ouvido competente ou em uma caixa de som grande e limpa.

Também há o fator visual. Poucos grupos se tornaram tão marcantes, tão reconhecíveis como aqueles quatro robôs no palco, que permitiram de uma só vez não só uma identidade inconfundível, mas também a condução enigmática, misteriosa e privativa da trajetória do grupo.

Kraftwerk, uma criação tão alemã com consequências tão universais, tornou-se significado e significante, um farol mental a guiar seus sucessores. A morte de Florian Schneider é sensível por nos lembrar que nem mesmo esse robô brilhante (enigmático, misterioso e privativo) escapa à condição de humano.

Se Tony Allen, Aldir Blanc e Florian Schneider se juntassem para criar uma só música, teríamos lírica, percussão e melodia. Orgânico e eletrônico. Nigéria, Brasil e Alemanha. Tudo o que perdemos em algumas semanas.

Baú: Alan Watts

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A existência, o universo físico, é basicamente divertida. É absolutamente desnecessária. Não vai para lado algum. Não há um destino em que devemos chegar. Podemos entender melhor por analogia à música. Porque a música, como uma forma de arte, é essencialmente divertida. Nós dizemos que você “toca” o piano, não “trabalha” o piano. Por quê? Música é diferente de, digamos, viagens. Quando você viaja, você está tentando ir a algum lugar. Na música, entretanto, não se busca o final da composição como o objetivo da composição. Se fosse, os melhores maestros seriam aqueles que regeriam mais rápido. E existiriam compositores que escreveriam apenas os finais. As pessoas iriam a um concerto apenas para ouvir um crepitante acorde. Porque este é o final! Quando você dança, você não mira um ponto específico no salão onde tenha de chegar. O grande objetivo da dança é a dança. Mas nós não enxergamos isso como algo trazido pela educação em nossa conduta diária. Nós temos um sistema escolar que nos dá uma impressão completamente diferente. Tudo tem classificação. O que fazemos é colocar a criança num corredor desse sistema classificador com um tipo de “vem cá, gatinho”. Você vai para o jardim de infância e isto é ótimo, porque, quando você termina, vai para o primeiro ano. E o primeiro ano te leva para o segundo, e assim por diante. Você sai do ensino fundamental e vai para o ensino médio. Vai acelerando, e algo está chegando. E você vai para a faculdade. Então você se forma. Depois que você se forma, você está pronto para aproveitar o mundo. Aí você arruma algum serviço em que você vende seguros. Eles te dão uma meta a bater, e você vai batê-la. A todo instante uma “coisa” está chegando. Está chegando, está chegando. Essa grande “coisa”. O sucesso pelo qual você estava trabalhando. Então você acorda um dia com 40 anos e diz: “Meu Deus, cheguei. Eu estou aqui”. E você não sente algo muito diferente do que sempre sentiu. Olhe para as pessoas que vivem para se aposentar. Que fizeram grandes poupanças. Quando elas têm 65 anos, não sobrou energia alguma; são, de algum modo, impotentes. Então vão envelhecer em alguma comunidade de idosos. Porque nós simplesmente enganamos a nós mesmos pelo caminho todo. Nós pensamos, por analogia, que a vida fosse uma jornada. Uma peregrinação – com um sério propósito no final. E o objetivo era alcançar esse final. Sucesso, ou o que quer que seja. Ou talvez o céu, depois de morrer. Mas deixamos de perceber durante todo o caminho. Era uma música. E você deveria ter cantado, ou dançado, enquanto a música tocava.

Alan Watts, “A vida não é uma jornada“.

Melancolia mortal da trilha sonora infantil

Extraído da edição 54 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Na infância, é improvável que consigamos mapear exatamente aquilo que nos cativa em um filme ou personagem. Nossa rede de conexões é confusa; nosso vocabulário, limitado. Talvez por isso mesmo aquilo que nos cativa cedo seja tão direto, instintivo e marcante; talvez, ao contrário, por isso seja mais frágil – não tenho ideia.

De todo modo, houve um momento do ano passado em que minhas emoções me pegaram de surpresa. Comia (um prato executivo de arroz, feijão, frango e salada) durante meu intervalo de almoço e utilizava meu fone de ouvido para gastar tempo no YouTube.

Levado pelo algoritmo, revi determinada cena de um desenho muito querido em razão do apego emergido e consolidado na infância. Ao assisti-la, subitamente senti aquele amortecimento dos pômulos que denuncia o despertar das glândulas lacrimais: eu estava segurando choro. O que não era ou é comum, muito menos diante de um prato de frango grelhado, em público, às 12h30.

A cena provinha de Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, 1986-1989), anime muitíssimo popular entre as crianças brasileiras dos anos 1990. Não lembrava sequer a última vez que havia visto qualquer coisa relacionada com a franquia, e ainda assim aquilo me derrubou de imediato.

Para quem não conhece ou não se recorda, Cavaleiros do Zodíaco, criação de Masami Kurumada (1953-), é puro melodrama. Os cavaleiros em questão usam armaduras e lutam em defesa da reencarnação da deusa Atena. A todo momento, os protagonistas, órfãos e irmãos de criação, precisam superar adversários mais fortes em seu caminho de sangue, suor e lágrimas.

Um amigo apanha pelo outro, sacrifica-se pelo outro, tenta (ativamente, às vezes comicamente) morrer pelo outro. Todos se motivam e lutam por uma causa maior, e no fim o personagem principal (Seiya), após ser surrado feito purê, sempre resiste e vence.

O universo da narrativa consiste em uma mistura desenfreada de mitologia greco-romana e nórdica, cristianismo e budismo, astronomia e astrologia a partir da qual uma molecada se estoura na porrada usando armaduras caprichosamente desenhadas – até porque boa parte do apelo da série vinha, ou melhor, ainda vem, da venda de bonecos.

Por fim, a cena que me comoveu era a de Hyoga, um cavaleiro de bronze, derrotando o próprio mestre, Camus de Aquário. Se essa sequência de palavras não lhe diz nada, não há problema, pois a trama não será relevante aqui. (Mas o nome “Camus” é sim uma homenagem explícita ao autor d’A Peste.)

O fato é que, naquele momento, meu cognitivo finalmente ligou os pontos – e só precisou de vinte anos para fazê-lo. O que impulsionava a comoção súbita era, além do melodrama usual das mortes do anime, sua trilha sonora, sempre sinfônica e melodiosa.

É típica da produção. Nos momentos dramáticos de Cavaleiros do Zodíaco, não raro um acompanhamento vocálico se junta à orquestra. ‘Inside a dream‘ é um exemplo clássico; ‘Sad brothers‘, outro. ‘Aria of the three‘ toca na cena mencionada.

Até então, essas melodias marcantes não me apontavam nome ou rosto. Mas o responsável pelas trilhas sonoras é – era – Seiji Yokoyama. Não sei quão comum é ou era compor sinfonias tão completas para animes; conheço pouco sobre este universo. No entanto, é certo que as composições de Yokoyama – ora épicas, ora suaves, sempre com belos arranjos –, não contêm nada de intrinsecamente infantil.

Seiji Yokoyama morreu de pneumonia em 2017, aos 82 anos. Não sabia quem ele era, portanto não pude lamentar. Sua música comoveu minha infância e, de forma contraintuitiva, hoje parece comover ainda mais. Ao identificar seu valor, descobri uma lembrança de morte que continuará comigo.

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Baú: Jodô, mendigo sagrado

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Por que financiou Poesia Sem Fim pelo crowdfunding?

O cinema, desde o início, foi considerado um negócio. Arte que nunca procurou ser uma boa arte, mas agradar o máximo possível. A finalidade do cinema foi ganhar milhões de dólares. Uma coisa tão monstruosa – como dizer, no caso da poesia, “indústria poética”. Pensando não na obra, mas no resultado econômico, os produtores escravizaram as musas. Como eu, mísero poeta, que não pensa em dólares, mas em versos, irá conseguir que produtores, estrelas prostituídas, distribuidores ladrões e técnicos escravos se interessem em trabalhar de graça? Durante 20 anos, estive lutando, mendigando, suplicando e me humilhando para conseguir dinheiro para transformar meus sonhos em filmes. Cansado de tantas negativas (“não, não é comercial”), passei 20 anos reunindo o que rodei com a câmera. Depois, esperando que a juventude não seja formada somente por idiotas infantilóides e consumidores, mas por espíritos novos que aspiram alimentar seu coração com ideais sublimes por meio de uma arte honesta, converti-me num mendigo sagrado e inaugurei o crowdfunding. Dez mil pessoas colaboraram. Assim, pude ser o senhor da minha obra e criar com total liberdade, sem me preocupar em agradar ou não, mas comunicar sentimentos que enaltecem o ser humano.

Alejandro Jodorowsky, 2007.

Morgana Rech: Screen

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Um mês depois de levantar o acampamento no consultório, seguir à risca as normas de isolamento social, várias sessões on-line, RelevO e eu estamos entrando numa espécie de alta, mesmo que esse termo seja muito discutível na psicanálise.

Nosso problema não é financeiro, principalmente agora que o paciente-jornal tem até investido mais em nossa relação, me oferecendo obras maravilhosas em .jpg por e-mail, “capturando” o meu momento clínico para além dele. É maravilhoso como o narcisismo se engrandece na análise – não no sentido inflamado, que esconde um machucado terrível e maltratado por baixo –, mas esse narcisismo que, lá pelas tantas, pode ver o analista de igual para igual como pessoa, que entende o inexprimível do terapeuta, dá algo que ele precisa, mesmo sem que lhe tenha dito o que era.

Bem, nosso problema também não é falta de tempo, muito embora o RelevO esteja trabalhando dobrado para dar conta de manter as edições vivas e respirando nessa fase quarentênica, o que é muito compreensível. Tampouco podemos dizer que nosso problema é de lonjuras, porque agora estamos todos bem perto, vivendo nesse universo pandêmico simultaneamente com e sem fronteiras.

Talvez nem tenhamos um problema, na verdade. Freud mesmo dizia que existem análises termináveis e análises intermináveis. O RelevO é tão criativo e elabora tão bem seus conflitos, edição após edição, que ele quase anda mais rápido do que eu consigo compreender. Quem caminha perto assim da arte costuma se deslocar mais entre o desejo e a necessidade, inclusive o de ouvir e ser ouvido. Artistas têm mais cacife para fazer várias análises curtas ao longo da vida; estão sempre se reconhecendo em cada obra.

Freud, por exemplo, um dos artistas menos compreendidos do século passado[1], foi seu próprio analista durante muitos anos.

Remendou sua própria análise na sua própria criação e na sua própria vida, e assim criou o método que está em transformação até hoje, principalmente agora, transferidos que estamos para o screen. Vejo o RelevO pelo screen e mal posso acreditar que a pulsão de vida se infiltra tão bem num jornal de literatura, em plena pandemia mundial, e que torna sua criatividade soberana justo num momento em que quase nada circula neste mundo com tão pouco movimento.

 

[1] Digo isso com base nos meus estudos sobre a relação de Freud com a arte, mas ele nunca se denominou artista e raramente é visto assim pela comunidade científica.

Menos colarinho, mais Marlon Brando

Extraído da edição 53 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Da esquerda para a direita, Cary Grant, Clark Gable, Humphrey Bogart e Gary Cooper

Você provavelmente está usando uma camiseta agora, principalmente se estiver em casa. Eu estou. Mas se prestarmos atenção às representações visuais de um passado não muito distante – desde o início do século 20 –, observaremos essa peça em contextos diferentes do atual. Em Mad Men, Peaky Blinders e virtualmente qualquer filme de guerra ou western, a camiseta costuma ser encontrada sob a camisa de botões do personagem masculino.

Ora com henley, ora com ceroula, ora com union suit, fato é que o dorso esteve coberto de maneiras diversas, intermediando a relação da pele com a camisa. Em determinado momento, porém, a camiseta – esta tão popular hoje – deixou de ser algo que usa se por baixo para se tornar algo que se usa. Quando, exatamente?

Claro, transformações culturais não ocorrem do dia para a noite – seria irresponsável atribuir tal mudança a um só evento. Por outro lado, isso é exatamente o que faremos, visto que carecemos de compromisso com a verdade, confundimos correlação com causalidade e porque, afinal, acabamos de alertar para nossa licença poética (“qualquer coisa, chama de literatura”, aconselhou um amigo historiador, sóbrio há quase dez dias).

Uma contextualização responsável já foi feita no Gizmodo, cuja leitura recomendamos. Dela extrairemos algumas informações antes de seguir adiante:

“Pouco após o fim da guerra, o autor F. Scott Fitzgerald se tornou a primeira pessoa conhecida a usar a palavra ‘camiseta’ (ou t-shirt, em inglês), em seu romance Este Lado do Paraíso, como um dos itens que o personagem principal leva para a universidade. (…) Quando a Segunda Guerra Mundial começou, a camiseta ‘moderna’ já era comum em escolas e universidades pelos EUA, mas não era onipresente e ainda era usada por adultos, por exemplo, como uma camisa interior. (…) O que fez com que elas se tornassem populares entre todos foi o fim da guerra, quando os soldados voltaram para casa e começaram a incorporar a vestimenta ao guarda-roupa tradicional, da mesma forma como faziam durante a guerra.”

Pois bem. Lembremos o arquétipo do galã na Era de Ouro de Hollywood, desde antes até depois da Segunda Guerra (1939-1945): Cary Grant, Clark Gable, Humphrey Bogart e Gary Cooper, como na imagem de abertura deste texto. Há um padrão claro ali, isto é, de vestimenta – sequer abordaremos fatores raciais, ainda mais evidentes.

Estes senhores, enfim, estão devidamente engomados para nossos padrões atuais. A estrela hollywoodiana, dentro ou fora das telas, era um homem de terno de flanela cinza até os anos 1950, e terno, colete, Brylcreem e chapéu.

Em 1951, o filme Uma Rua Chamada Pecado foi lançado, adaptando a peça homônima de Tennessee Williams (A Streetcar Named Desire, 1947, também traduzida como Um Bonde Chamado Desejo – que, por sinal, hoje seria um ótimo título de funk carioca). E um jovem Marlon Brando, então com 26 anos, apareceu da seguinte forma.

Mais sedutor do que nunca, Brando foi Stanley Kowalski, papel que já vinha interpretando na peça durante temporada da Broadway. Este personagem havia retornado da Segunda Guerra Mundial, e não por acaso é um grande adepto de uma simples camiseta (suada, gasta e até rasgada). Stanley é bruto, instintivo e carnal, uma contraposição visível ao galã hollywoodiano clássico.

Marlon Brando também representava uma mudança na forma de atuar, empregando um envolvimento total ao personagem. Essa postura – a que estamos acostumados hoje – difere do melodrama mais caricato a que associamos a atuação até meados do século passado. Fato é que Brando – à vontade, ousado, e já falei suado? – tornou-se um ícone visual, independentemente de quão abominável pudesse ser o desfecho de seu personagem. A partir do filme, a camiseta passou a ser muito mais aceita, utilizada e procurada como uma peça autossuficiente, isto é, sem a condição de roupa íntima.

Podemos enxergar este momento como um estopim. A camisa e o terno são cada vez mais associadas a contextos formais, ao passo que a camiseta, leve e prática – de algodão ou poliéster, com ou sem estampa –, foi abraçada pelos mais diversos grupos demográficos. Marlon Brando evidentemente não é a causa de adesão generalizada desta peça no planeta, mas um empurrão – e um ponto de referência. Aquele alinhamento do zeitgeist que, se não ocorresse por meio dele, talvez ocorreria da mesma forma, pois a receita já estava no forno. (Não somos tão descompromissados com a verdade!)

Baú: Rex Stout

Extraído da edição 53 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Wolfe murmurou: — Agradeço o interesse que eles demonstraram.
— Não duvido. — Bascom apoiou um dos punhos sobre a mesa e pareceu ficar ainda mais ansioso. — Senhor Wolfe, quero lhe falar de profissional para profissional. O senhor seria o primeiro a concordar que nossa profissão deve ter dignidade.
— Não de maneira explícita. Afirmar a dignidade significaria perdê-la. (p. 54.)

(…) eu sabia que Wolfe já errara, poucas vezes, porém mais de uma. Quando a ocasião mostrou que ele estivera errado a respeito de algo, era uma delícia vê-lo lidar com a situação. Ele balançava o dedo de maneira mais rápida e violenta do que de costume e murmurava com os olhos quase abertos, ‘Archie, eu adoro cometer um erro, é a minha única garantia de que não se pode razoavelmente esperar que eu carregue o fardo da onisciência’. (p. 195.)

Rex Stout, A Confraria do Medo, 1935 [Companhia das Letras].

666, o número do… Vangelis

Extraído da edição 52 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

“QUALQUER UM COM INTELIGÊNCIA PODE INTERPRETAR O NÚMERO DA BESTA. É O NÚMERO DE UM HOMEM. ESTE NÚMERO É 666.” (RecordMecca)

O grego Vangelis (leia-se vanguélis, não vângelis) é um músico consagrado, consagrado demais. Ele é responsável pelas trilhas sonoras de Carruagens de Fogo (1981) e Blade Runner (1982), por exemplo.

Prolífico, onipresente e longevo, é natural que Vangelis tenha assinado inúmeros materiais para contextos diversos. Dessa forma, seu catálogo contempla desde música oficial de Copa do Mundo (2002) até a série Cosmos (1980), de Carl Sagan, que utilizou algumas de suas composições antes da popularização extrema do artista.

Dependendo da boa vontade, este grego pode ser visto como um mago do sintetizador e engenheiro da música eletrônica; também pode ser visto como um chato de new age ou sinônimo de composições datadas – ou tudo isso junto. (Estamos mais inclinados à primeira interpretação.)

E quem é jovem – como todo o corpo maciço da Enclave, composta de millennials que não coexistiram com a Iugoslávia – não teve acesso ao que Vangelis fez antes de ser o Vangelis, isto é, quando Evángelos Odysséas Papathanassíou era apenas um compositor/tecladista grego com um nome tipicamente grego tocando em uma banda grega.

A banda atendia por Aphrodite’s Child, e seu último disco é uma obra-prima.

Essa informação pode soar quase ofensiva aos mais velhos, pois a Aphrodite’s Child atingiu um sucesso notável na década de 1960, e seu vocalista, Demis Roussos (1946-2015), tornou-se uma estrela mundial. Roussos se apresentou diversas vezes no Brasil e, reza a lenda, lotou um Maracanã com capacidade para 150 mil pessoas – informação que não conseguimos confirmar em nenhuma fonte confiável.

(O fato é que Demis Roussos, notabilizado pelo figurino criativo e pela obesidade gradativa, foi um fenômeno setentista; se você, colega millennial, não o conhecia, é possível que seus pais ou avós o conheçam. Por sua vez, se você viveu o ápice da Aphrodite’s Child, muito obrigado por ler a Enclave e contorcer nossa demografia limitada – compartilhe sua memória conosco.)

Os dois primeiros discos, aos quais não nos atentaremos, são leves, agradáveis, certinhos. ‘Rain and tears‘, do primeiro, e ‘It’s five o’clock‘, do segundo, representam bem a combinação de arranjos limpos e voz angelical que caracterizava os filhos de Afrodite.

Mas o terceiro, meu amigo, o terceiro é obra do próprio Satã.

Gravado em 1970-71 e lançado em 1972 – quando a banda já havia acabado –, 666 (The Apocalypse of John, 13/18) é uma obra épica e intensa cuja qualidade se sobressai tranquilamente a seu nicho. Isto é, não é necessário apreciar discos conceituais de rock progressivo ou ataques de megalomania da contracultura para compreender por que 666 é tão… bestial.

Todas as músicas foram compostas por Vangelis; e todas as letras, pelo diretor Costas Ferris. Juntos, eles elaboraram o conceito do disco, e as aspas a seguir derivam deste texto robusto de Mairon Machado, cuja leitura recomendo aos interessados.

“Costas [Ferris] escreveu um livro conceitual para o álbum, 666 (The Apocalypse of John, 13/18), e a ideia era simples: um grande circo com acrobatas, dançarinos, elefantes, tigres e cavalos mostrando um espetáculo referente ao fim do mundo. Enquanto o show ocorre com diversos efeitos de luz e som, algo estranho começa a acontecer fora do circo, que é a revelação da destruição do planeta Terra. O público acredita que o que acontece fora do picadeiro faz parte do show, mas o narrador começa a alertar a plateia que aquilo é real. Então, uma imensa e densa batalha entre o bem e o mal passa a ser travada, até que um deles vença!”

666 contou com o retorno do guitarrista Silver Koulouris, que havia deixado a Aphrodite’s Child em razão do alistamento obrigatório. E guitarra era justamente o que faltava para o Pandemônio ser tão expressivo. Com metais, flautas e outras adições variadas, a proposta da banda ficou completa: a melhor maneira de degustar essa empreitada ocorre com ‘All the seats were occupied‘, penúltima faixa do disco, uma porrada de quase 20 minutos que basicamente repassa o álbum inteiro.

Ao contrário de tantas iniciativas de rock progressivo, que às vezes se perdem dentro da própria bunda, 666 não deixa a peteca cair em momento algum. As composições de Vangelis conseguem transitar por gêneros, arranjos e ideias. Basta ouvir ‘Babylon‘, ‘The four horsemen‘, ‘The beast‘, ‘The wedding of the lamb‘ e ‘‘ para testemunhar tamanho alcance – esta última consiste basicamente na obtenção de um orgasmo, o que não poderia ser menos Carruagens de Fogo.

Quem associa Vangelis à tranquilidade da new age ou Demis Roussos à candura de suas canções pode se surpreender ao deparar com uma combinação tão expressiva de fim de mundo, blasfêmia e orgia. Não pela surpresa, mas pela execução, 666 é um discaço e, como o próprio Apocalipse, não envelheceu nada.

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  • 666 inteiro no YouTube e no Spotify.
  • Vangelis é o diminutivo de Evángelos. Por sua vez, o nome completo de Demis era Artemios Ventouris-Roussos.
  • Por onde começar com Vangelis? See You Later (1980). A faixa ‘Memories of green’ seria (muito bem) reaproveitada na trilha sonora de Blade Runner.
  • Aliás, fãs de Blade Runner devem ter percebido (ou estranhado) ao longo do texto: o Aphrodite’s Child lançou ‘Rain and tears‘ em 1968; Vangelis, ‘Tears in rain‘ com o filme. A música acompanha o monólogo final e foi reutilizada por Hans Zimmer em Blade Runner 2049 (2017).
  • Demis Roussos no Jô Soares; Demis Roussos com Hebe Camargo.
  • ‘The friends of Mr. Cairo’, de Vangelis e Jon (Anderson, do Yes) contém uma riqueza intertextual tão grande que será tema de alguma Enclave futura. Aqui, o clipe. Aqui, a versão completa (12 minutos).
  • Demis Roussos já foi refém do Hezbollah após sequestro do voo TWA 847 em Atenas. Ao longo dos cinco dias de sequestro, o cantor completou 39 anos. “Eles me deram um bolo de aniversário e um violão para cantar. Foram bastante educados conosco”.