Baú: Michael Lewis

Extraído da edição 73 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Greg Lippmann imaginou o mercado hipotecário subprime como um grande cabo de guerra financeiro: em uma ponta estava a máquina de Wall Street provendo os empréstimos, empacotando os títulos e reempacotando os piores títulos em CDOs. Quando ficou sem empréstimos, essa máquina criou falsos títulos do nada. Na outra ponta, seu nobre exército de vendedores a descoberto apostou contra os empréstimos. Os otimistas versus os pessimistas. Os fantasiosos versus os realistas. os vendedores de CDSs versus os compradores. Os errados versus os certos. A metáfora estava certa até certo ponto: este ponto. Agora, a metáfora era de dois homens amarrados dentro de um barco, lutando até a morte. Um homem mata o outro, empurra seu corpo inerte lançando-o ao mar – somente para descobrir que ele mesmo foi puxado para fora. “Operar vendido em 2007 e ganhar dinheiro com isso foi divertido, porque éramos os ‘vendidos bandidos‘”, disse Steve Eisman. “Em 2008, era o sistema financeiro inteiro que estava em risco. Ainda operávamos vendido. Mas você não quer que o sistema quebre. É como se o dilúvio estivesse prestes a acontecer e você fosse Noé. Você está na arca. Sim, você está bem. Mas não está feliz olhando para o dilúvio. Este não é um momento feliz para Noé”.

Michael Lewis, A Jogada do Século (The Big Short), 2010. Ed. Best Seller, 2011.

Syd Mead, futurista visual

Extraído da edição 72 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Quando o ilustrador Syd Mead morreu, em 30 de dezembro do ano passado, a Enclave estava parada. Do contrário, não teríamos deixado passar.

Mead é, direta ou indiretamente, um dos grandes arquitetos do imaginário popular do século passado. Sua influência reverbera interminavelmente, e muito do que vemos na ficção científica – por si só fonte contínua de inspiração para arquitetura, design e moda – partiu desse artista.

Americano, serviu ao exército logo após a Guerra da Coreia. Depois de retornar, graduou-se na Art Center School em Los Angeles (1959), então ingressou na Ford, onde permaneceu por dois anos. Passou as décadas seguintes prestando serviços de ilustração, design e renderização para diversas empresas do mundo inteiro.

Sua consagração no imaginário popular veio com Blade Runner e Tron, ambos lançados em 1982. Tratamos da construção do universo do primeiro na Enclave 58.

Já respeitado como designer industrial, Mead foi chamado pelos respectivos diretores (Ridley Scott e Steven Lisberger) para auxiliar com objetos (incluindo veículos) e cenários das duas narrativas futuristas. Ele já havia trabalhado em Star Trek: The Motion Picture (1979).

Como os filmes foram lançados praticamente ao mesmo tempo – 25 de junho (BR) e 9 de julho (Tron) – não sabemos em qual produção Mead trabalhou primeiro, ou se houve alguma influência direta entre um serviço e outro. Os spinners (carros voadores) de Blade Runner e as motocicletas futuristas de Tron são fruto da imaginação e dos traços do ilustrador.

Mas esses são apenas exemplos pinçados. Basta bater o olho em alguma de suas obras (recomendamos este link) para compreender a grande beleza de seus cenários, sempre envolventes em cores e detalhes. Em uma tela nítida, identificamos todo um universo vivo – e quem se inspirou nele.

Mead ainda trabalharia em diversos títulos, como Aliens, Strange Days, 2010, Elysium e Blade Runner 2049. Sua ligação com o cinema foi compilada no belíssimo livro The movie art of Syd Mead (2017), com prefácio de Denis Villeneuve.

O artista morreu aos 86 anos, em razão de um linfoma. Ele deixou um marido, Roger Servick, com quem havia se casado em 2016. Guardamos seu legado com muito carinho.

Baú: John Milton

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É esta a região, o solo, o clima,
Disse o arcanjo perdido, o assento
A trocar pelo Céu, as trevas tristes
Pela celeste luz? Seja, já que ele
Que agora é soberano usa e manda
O que entende; à parte está melhor
Quem lhe igualou razão, força fez súpera
Acima dos seus pares. Adeus campos
Que o gozo sempre habita, ave horrores,
Mundo Infernal, e tu profundo Inferno
Recebe o novo dono, o que traz
Mente por tempo ou espaço não trocável.
A mente é em si mesma o seu lugar,
Faz do inferno Céu, faz do Céu inferno.
Que importa onde se eu mesmo o for,
Ou o que seja, logo que não seja
Inferior ao que deu fama ao trovão?
Aqui seremos livres; o magnânimo
Não alçou cá a inveja, nem daqui
Nos levará. A salvo reinaremos,
Que é digna ambição mesmo se no inferno:
Melhor reinar no inferno que no Céu
Servir. Mas por que deixarmos amigos,
Os sócios e parceiros da falência,
No lago do letargo aturdidos,
E não os chamar a dividir parte
Nesta infeliz mansão; ou uma vez
Sãos os braços malsãos, tentar ainda
O Céu reaver, ou mais perder no inferno?

John Milton (Paraíso Perdido, 1674, Livro 1; trad. Daniel Jonas, Editora 34, 2016).

Gang of Four e a morte discreta de Andy Gill

Extraído da edição 71 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

(Photo by Ebet Roberts/Redferns)

Semana passada, tratamos da música brasileira na primeira metade dos anos 1970 (na verdade, nos primeiros seis anos, antes que alguém nos corrija…). Hoje, lembramos um personagem da geração diretamente influenciada por aquele período musical brasileiro.

Andy Gill (1956-2020) foi guitarrista do Gang of Four, banda ícone do pós-punk, gênero/movimento em que jovens universitários descobriram sons de origem latina e/ou africana. Basta ouvir meio disco dos Talking Heads para compreender o que estou apontando (e melhor do que a minha explicação atenciosa possibilitaria).

Não à toa, David Byrne (Talking Heads) foi responsável direto pela propagação de músicos brasileiros (e não só) para grandes centros – Tom Zé talvez como o caso mais emblemático. A história pormenorizada do pós-punk foi costurada por Simon Reynolds no livro Rip it up and start again.

Mas voltando ao Gang of Four. A banda de Leeds (Inglaterra) lançou Entertainment!, seu álbum de estreia, em 1979. Esse debut é tranquilamente um dos discos mais influentes da história, ou então entre pessoas que usam guitarras, ou no mínimo entre indivíduos que compram e discutem a perenidade de discos.

Lembro perfeitamente meu primeiro contato com Gang of Four. Foi por meio de um CD gravado por um tio (e espécie de farol estético). Portanto, ainda quando se gravavam CDs. Eu tinha 14, 15 anos. Naquele CD-R havia uma espécie de guia do que eu deveria escutar ou já deveria ter escutado.

Da banda, constavam “Natural’s not in it” e “At home he’s a tourist”, e ambas me marcaram. O Gang of Four dispunha de verve, angústia política e originalidade estética. Em Entertainment!, tudo é conscientemente rústico e encaixado: trata-se de um trabalho tão próximo do disco como da poesia – isso apenas com a formação tradicional de quarteto (voz, guitarra, baixo, bateria).

Entertainment! é, acima de qualquer letra crítica ao capital, dançante; o protagonismo do baixo na estrutura de suas músicas – uma refrescante marca do pós-punk – atestava isso. E Andy Gill, de quem ainda falaremos, conseguiu desdobrar sua guitarra brilhantemente a partir disso.

A magia se repetiu – com menos efeito, mas ainda inegável qualidade (e talvez alguma inflação por parte da crítica) – em Solid Gold (1981), segundo álbum.

Conforme o tempo passava, no entanto, a banda perdia a capacidade de unir forma e conteúdo. Por fim, os discos posteriores aos dois primeiros passaram a soar cada vez mais datados, esquecíveis – e não há lista de Pitchfork que redima o mediano Songs of the free (1982), terceiro do catálogo. Seus membros pouco a pouco se dispersavam.

Com o julgamento distante, o Gang of Four parece um atacante que, depois de uma temporada extraordinária em time médio, nunca conseguiu se impor em palcos maiores (nesse caso, literalmente; que tal essa metáfora dentro de uma analogia?).

Em que pese o letramento dos integrantes, sua angústia política – a começar pelo nome, alusão à Camarilha dos Quatro da Revolução Cultural Chinesa – não se sobressaiu para além de uma revolta no mínimo mal aproveitada. (Essa é a interpretação bondosa; a maldosa veria a banda como críticos de DCE cuja fachada escondia um notável vazio.)

Então chegamos em Andy Gill. Ele chegou a produzir o primeiro álbum do Red Hot Chili Peppers ainda em 1984, e longe de mim agradecê-lo(s) por isso. Entre outras produções, reuniu-se com Jon King, vocalista original do Gang of Four, para uma retomada no início da última década.

Em 2011, lançaram um disco; em 2015, já sozinho novamente, Gill lançou outro. Finalmente, 2019 marcou seu último álbum. São todos discos decentes, e não há por que não reconhecer o mérito banhado em alívio daquilo que poderia ter sido muito pior (e, novamente, talvez tenha havido certa inflação por parte da crítica, provavelmente por gratidão, visto que o crítico musical padrão cresceu tarado por Gang of Four).

Em maio, escrevemos sobre as mortes de Aldir Blanc, Tony Allen e Florian Schneider. E simplesmente não sabíamos, àquela altura, que Andy Gill havia morrido. Com ele, o Gang of Four – em definitivo.

Oficialmente, Gill, 64, morreu de pneumonia e falência múltipla dos órgãos. O problema: ele esteve na China em novembro e começou a apresentar sintomas hoje associados à Covid-19 em dezembro. Sua esposa, a jornalista Catherine Mayer, escreveu um relato detalhado a respeito da situação. Também é possível escutá-la falar sobre o doloroso desfecho à BBC.

Os sintomas acompanharam o círculo imediato do casal e da banda – a ponto de o gerente de turnê ser internado com crise respiratória logo após retornar à Inglaterra –, porém antes de a Europa identificar esses problemas como algo novo. “É possível que nunca saibamos se a Covid-19 matou Andy, mas eu sempre saberei, em detalhes indeléveis, como ele morreu”, registrou Meyer.

Tardiamente, registramos nossa homenagem ao responsável direto por no mínimo um dos melhores discos de um período interessantíssimo da música no século 20. Muita coisa aconteceu e ainda acontece a partir do Gang of Four, cuja verve inicial transforma qualquer cínico no adolescente que abre um CD gravável pela primeira vez e, sem saber o que lhe espera, reage estupefato.

Baú: Kenneth Clark

Extraído da edição 71 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O que é civilização? Não sei. Por enquanto, não consigo defini-la em termos abstratos. Mas acho que, vendo-a, posso reconhecê-la, e olho para ela neste momento. Ruskin disse: “As grandes nações escrevam sua autobiografia em três livros: o de seus feitos, o de suas palavras e o de sua arte. Para entender um é preciso ler os outros; contudo, o mais autêntico é o terceiro”. Acho que ele tem razão! Escritores e políticos podem expressar vários sentimentos nobres, mas estes não passam do que podemos chamar de declarações de intenções. Se eu tivesse que escolher o que expressa melhor a verdade da sociedade, se o discurso de um Ministro da Habitação ou as construções reais da época, diria que são as construções.

Isso não significa que a história da civilização seja a história da arte. Longe disso. As sociedades primitivas também podem produzir grandes obras de arte; de fato, a grande limitação da sociedade primitiva confere à sua arte ornamental uma concentração e uma vitalidade peculiares. Lá pelo século IX, podia-se ver, olhando o Sena, a proa de uma embarcação viking subindo o rio. Hoje, no Museu Britânico, ninguém lhe pode negar o vigor de uma obra de arte, mas deve ter sido bem menos atraente para a mãe de família que tentava acomodar os filhos em sua cabana; aliás, deve ter sido tão ameaçadora para a sua civilização quanto o periscópio de um submarino atômico.

Kenneth Clark (Civilização, ed. Martins Fontes, 1995).

Sandro Moser: Língua de sogra

Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Antes de tudo, meu apoio à greve dos trabalhadores dos Correios. Ódio e nojo à política de aviltamento e desmanche deste serviço público. Falo por mim, não pelo RelevO. 

Otimistas com a agora inevitável venda dos Correios — como, aliás, quaisquer otimistas — não perdem por esperar. Sei, contudo, que, em razão dessa circunstância, muita gente não recebeu a edição de setembro. 

Foram privados de uma das mais desbragadas publicações do jornal, que começa se oferecendo em editorial como uma bola na boca à tacada da multinacional do xarope de taurina gaseificada.

Pensem comigo: que uma parcela da população que mistura esta desgraça na bebida seja grande o suficiente a ponto de gerar lucros torrados com patrocínio a equipes idiotas de futebol e Fórmula 1 é sinal de que a civilização ocidental é apenas luz de uma estrela morta. E já vai mesmo tarde a civilização ocidental. 

Voltando ao RelevO de setembro, há uma seleção poética alta, com destaque aos textos de Júlia Raiz e Nathália Fernandes que ficam mais belos com a fina diagramação de motivos urbanos. 

A boa reflexão filosófico-literária de Lucas Sanches Lima, daquelas que eu sempre gostei de ler no RelevO (e quem mais publicaria?), só perde o posto de melhor texto do mês para a entrevista imaginária com o tenista ilhéu. 

Sou devoto antigo deste gênero renegado. Na página central, as melhores qualidades de uma boa “imaginária” brilham a arcada dentária da cabra vadia no terreno baldio: vileza, blasfêmia, grosseria e despropósito. Muito bom. Que se repita. 

pita. O Jornal teve a fineza de dar grande espaço aos leitores e agradecer a cada um de seus colaboradores da década passada. Como em qualquer rol longo de nomes, abre-se a chance para uma divertida busca de antigos parceiros e parceiras sexuais, credores e desafetos literários em ordem alfabética. 

Este é o caldo da edição de setembro: a mais cara e invisível da história do RelevO. Poética e autolaudatória. Efusiva e vazia. Como uma festa de aniversário nas férias na qual os coleguinhas convidados não apareceram. 

Brasil 1970-75, um guia musical

Extraído da edição 70 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Que a música brasileira é mundialmente reconhecida, qualquer um sabe. Mas nós nunca tínhamos nos dado conta da proporção de qualidade concentrada na década de 1970, especialmente até 1975.

Havia uma mistura bastante talentosa de talentos e contextos: veteranos da bossa nova; herdeiros da bossa nova; gente de saco cheio da bossa nova; tropicalistas; clássicos do samba; samba rock; geração dos festivais televisivos de música; guitarra elétrica; passeata contra a guitarra elétrica; eruditos; empíricos; gente que viajou pelo mundo; gente que nunca saiu do Brasil; repressão e tensão política; cultura hippie; o Hermeto Pascoal.

Os frutos são incríveis. A partir deles, concluímos que, àquela época, o Brasil dispunha do apogeu da música mundial. Sem nenhum traço de saudosismo – porque não vivemos essa época –, tampouco de ufanismo – porque é brega. Trata-se de uma afirmação bastante razoável de defender.

Pensando nisso, listamos todos os álbuns de que gostamos após ouvir, pesquisar e reescutar. Não são todos extraordinários, o que seria impossível, mas há discos soberbos entre eles. Todos têm pontos altos; nenhum é fraco. Ficam as nossas sugestões para que esta lista seja lida e relida (como uma porta de entrada ou fonte de discórdia).

Todos os álbuns mencionados estão disponíveis no Spotify, exceto quatro, que sinalizamos e apontamos para o YouTube. No Spotify, você também pode acompanhar nossa playlist querida, melhor degustada na ordem aleatória – exatamente como o Brasil.


Playlist: Brasil 1970-1975 era o apogeu da música mundial [Spotify]

1970
Antonio Carlos & Jocafi – Mudei de Ideia
Egberto Gismonti – Sonho 70
Elis Regina – …Em Pleno Verão
Gal Costa – Legal
Jorge Ben Jor – Força Bruta
Milton Nascimento – Milton
Os Mutantes – A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado
Paulo Sérgio – Paulo Sérgio vol. IV
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1970)
Rosinha de Valença – Rosinha de Valença apresenta o Ipanema Beat
Taiguara – Viagem
Tom Jobim – Stone Flower
Tom Jobim – Tide
Toquinho – Toquinho (1970)

1971
Chico Buarque – Construção
Erasmo Carlos – Carlos, Erasmo
Evinha – Cartão Postal
Jorge Ben Jor – Negro é Lindo
Maria Bethânia – A Tua Presença
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1971)
Sílvio César – Sílvio César (1971)
Vinícius de Moraes – Como Dizia o Poeta
Wilson Simonal – Jóia, Jóia

1972
Caetano Veloso – Transa
Elis Regina – Elis
Gilberto Gil – Expresso 2222
Hermeto Pascoal – Hermeto [YouTube]
Jards Macalé – Jards Macalé
Luiz Bonfá – Introspection
Maria Bethânia – Drama
Milton Nascimento & Lô Borges – Clube da Esquina
Novos Baianos – Acabou Chorare
Paulinho da Viola – Dança da Solidão
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1972)
Tom Jobim – Matita Perê
Toni Tornado – Toni Tornado (1972)

1973
Arthur Verocai – Arthur Verocai
Eumir Deodato – Prelude
Eumir Deodato – Deodato 2
Eumir Deodato – Os Catedráticos 73
Hermeto Pascoal – A Música Livre de Hermeto Pascoal [YouTube]
Ivan Lins – Modo Livre
João Donato – Quem é Quem
João Gilberto – João Gilberto [YouTube]
Luiz Melodia – Pérola Negra
Marcos Valle – Previsão do Tempo
Milton Nascimento – Milagre dos Peixes
Nelson Cavaquinho – Nelson Cavaquinho (1973)
Novos Baianos – Novos Baianos F. C.
Raul Seixas – Krig-Ha, Bandolo
Secos e Molhados – A Volta de Secos & Molhados
Sérgio Sampaio – Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua
Taiguara – Fotografias
Tim Maia – Tim Maia (1973)
Tom Zé – Todos os Olhos
Trio Mocotó – Trio Mocotó

1974
Adoniran Barbosa – Adoniran Barbosa
Airto Moreira & Eumir Deodato – Deodato/Airto in Concert [YouTube]
Benito Di Paula – Um Novo Samba
Cartola – Cartola
Egberto Gismonti – Academia de Danças
João Donato – Lugar comum
Jorge Ben Jor – A Tábua de Esmeralda
Jorge Mautner – Jorge Mautner (1974)
Martinho da Vila – Martinho da Vila
Nelson Gonçalves – Passado e Presente
Raul Seixas – Gita
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1974)
Vinícius de Moraes & Toquinho – Vinícius & Toquinho

1975
Airto Moreira – Identity
Alcione – A Voz do Samba
Azymuth – Azimüth
Bebeto – Bebeto
Clara Nunes – Claridade
Di Melo – Di Melo (1975)
Hyldon – Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda
Lula Côrtes & Zé Ramalho – Paêbirú
Nelson Gonçalves – Nelson de Todos os Tempos
Tim Maia – Racional (vol. 1)
Waltel Branco – Meu balanço

Vamos lá. Listas, assim como goleiros e revisores de texto (e os Correios), são avaliadas a partir de suas falhas: o que esquecemos?

Ademais, quais são os melhores, mais influentes, mais marcantes, crème de la crème, apogeu do apogeu? Quais são seus favoritos? Se o editor tivesse de morrer abraçado com um, seria o Clube da Esquina.


  • Em 1976, já temos África Brasil (Jorge Ben Jor), Cartola (1976), Estudando o Samba (Tom Zé) e Alucinação (Belchior), entre outros. Mas quem sabe uma segunda lista…
  • Já a década de 1980…

Prosopagnosia

Extraído da edição 70 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Algumas pessoas têm dificuldade em reconhecer rostos. Confundem pessoas; não lembram de traços; descrevem características faciais sem qualquer precisão. Outras não reconhecem rostos de maneira alguma, isto é, nem de familiares, nem de grandes amigos, e, em alguns casos, nem delas mesmas. À cegueira facial – um problema cognitivo sério – dá-se o nome de prosopagnosia.

Quem sofre de prosopagnosia pode não apresentar nenhum outro problema de visão, muito menos intelectual. É possível até que algumas delas vejam partes específicas, como nariz, boca e olhos. Entretanto, rostos como um todo não são reconhecidos – e você imagina as complicações sociais que isso pode causar, ainda mais em uma criança.

O problema pode ser causado por meio de uma lesão na área fuseforme de faces do cérebro, ou FFA (termo que não significa nada para nós, mas vai que te liga a outras informações). Também pode ser simplesmente congênito, fazendo com que alguém passe a vida inteira sem entender como é reconhecer um rosto. Não há tratamento efetivo ou cura: para lidar com a prosopagnosia, a escapatória é se atentar aos cabelos, vozes, roupas e linguagem corporal.

E, reza a lenda, Brad Pitt apresenta sintomas.

Publicado originalmente na edição #29, em fevereiro de 2016.

Baú: Stanley Kubrick

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O que há de melhor em um filme é quando o efeito é criado pelas imagens e pela música. A linguagem, quando a utilizamos, deve ser, claro, a mais inteligente e imaginativa possível, mas eu ficaria bem interessado em fazer um filme sem nenhuma palavra, se pudesse achar um meio de fazê-lo. Poderíamos imaginar um filme no qual as imagens e a música seriam utilizadas de maneira poética ou musical, no qual se faria uma espécie de enunciados visuais implícitos em vez de declarações verbais explícitas: digo que poderíamos imaginar, pois não posso imaginá-lo a ponto de escrever realmente uma história assim, mas acho que, se isso fosse feito, o cinema seria utilizado ao máximo. Ele seria então totalmente diferente de qualquer outra forma de arte, do teatro, do romance ou até mesmo da poesia.

Stanley Kubrick (Michael Ciment, Conversas com Kubrick, Cosac Naify, 2010, p. 123).

Hitchcock vs. Chandler

Extraído da edição 69 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Pacto sinistro (Strangers on a train, 1951).

Não é repeteco! Na última Enclave, acompanhamos a péssima relação entre Billy Wilder e Raymond Chandler na condição de diretor e roteirista de Pacto de Sangue, respectivamente.

Como um filme que, diante do sucesso, transforma-se em franquia, trazemos hoje uma segunda parte para a extensa lista de azedumes de Ray. Algumas das cartas de Chandler podem ser encontradas nas edições do autor publicadas no Brasil pela Alfaguara, sempre traduzidas por Bráulio Tavares, responsável por uma excelente seleção de material.

O documento que norteia nosso evento de hoje sequer foi enviado. Trata-se de uma carta escrita por Chandler e endereçada a ninguém menos que Alfred Hitchcock. Eles colaboraram – ou teriam colaborado – em Pacto sinistro (Strangers on a train, 1951; essas traduções…).

Motivado justamente pela qualidade de Pacto de sangue (e após algumas recusas), Hitchcock pinçou Chandler para escrever o roteiro de Pacto sinistro, uma adaptação do romance de Patricia Highsmith (Strangers on a train, 1950, publicado no Brasil).

Como um Renato Gaúcho empapuçado, o diretor inglês provavelmente superestimou a própria capacidade de converter a má vontade que bloqueia o talento alheio. “Dá no pai que o pai resolve”, ele deve ter refletido. Chandler não se encantava com o romance, mas topou. Eles começaram a se reunir em agosto de 1950.

No entanto, quanto mais os dois se encontravam, pior era o convívio. Hitchcock gostava de conversar; Chandler não gostava de nada. Por fim, conta-se que o escritor, em referência ao diretor, disse: “Look at the fat bastard trying to get out of his car!”, que preferimos não traduzir para manter a poesia intacta. O fat bastard ouviu.

Chandler chegou a terminar sua versão, prontamente descartada. Ele a entregou e não obteve retorno de Hitchcock. O diretor seguiu em frente.

Na primeira reunião com Czenzi Ormonde, a nova roteirista, Hitchcock jogou o trabalho de Chandler no lixo, isto é, literalmente, não simbolicamente. A criação do roteiro ainda exigiria uma força-tarefa para completá-lo antes das gravações (a segunda unidade começou antes).

Chandler teve acesso ao roteiro final – não conseguimos descobrir como ou por que razão (teria alguém enviado por engano? Foi uma provocação?). O resultado disso frutificou a carta que mencionamos, datada em 06/12/1950 – e que, repetimos, não chegou a ser enviada.

Nela, o escritor, provavelmente ébrio, destila em quatro páginas todo o seu arsenal talvez azedo, talvez amargo, com certeza nada doce. Eis alguns trechos em português (aqui, partes em inglês; não encontrei a versão completa – comprem o livro).

Caro Hitch:
Apesar de sua ampla e generosa indiferença com minhas tentativas de comunicação sobre o roteiro de Pacto sinistro (…), eu sinto que devo, só para ficar registrado, lhe repassar alguns comentários sobre o que foi considerado o roteiro final. (…) O que não posso entender é que você permita que um roteiro que afinal de contas tinha alguma vida e vitalidade possa ser reduzido a uma tal massa amorfa de clichês, um grupo de personagens sem rosto (…). É claro que você deve ter tido suas razões, mas, para usar uma frase cunhada por Max Beerbohm, seria preciso “uma mente menos brilhante do que a minha” para adivinhar quais foram.
Sem ligar muito para a questão de como meu nome vai aparecer na tela durante os créditos, eu não tenho o menor receio de que alguém venha a pensar que eu escrevi essa coisa. Eles vão saber muitíssimo bem que não fui eu. Eu não iria me incomodar nem um pouco se você tivesse produzido um roteiro melhor – pode acreditar, não iria mesmo. Mas se o que você queria era algo escrito como leite desnatado, por que diabo me procurou, pra começo de conversa? Que desperdício de dinheiro! Que desperdício de tempo! Dizer que eu fui bem pago não justifica nada. Ninguém pode ser adequadamente pago se está perdendo seu tempo. (…)

E assim a carta se move por outras três páginas, cheias de argumentos que justifiquem as afirmações iniciais. As gravações de Pacto sinistro terminaram em março de 1951; o filme foi lançado no fim de junho.

Pouco antes do lançamento, Hitchcock e Chandler finalmente concordaram em algo: não usar o nome do escritor nos créditos, em razão de sua participação nula no projeto (para além do folclore). Nem isso ocorreu, afinal a Warner Bros. queria aproveitar o capital simbólico do escritor e manteve Raymond Chandler na ficha técnica.

Isso responde por que ele foi pago!

Demonologia!

Extraído da edição 69 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Quem comanda o departamento de RH dos demônios? A resposta cabe à demonologia.

Se os anjos dispõem de uma hierarquia digna de multinacional do Vale do Silício, nada mais justo do que organizar o time de vendas entre os representantes do tinhoso. Para tanto, autores diversos já propuseram suas devidas classificações, cada qual separando uma logística para agregar esse elenco de estrelas, como Lúcifer, Leviatã e um ou outro goblin sarrafeiro.

Assim, anjos maléficos foram divididos ao longo da história com base em características diferentes. No século 16, Peter Binsfeld separou um demônio por pecado capital. O Belfegor, por exemplo, simbolizava a preguiça, enquanto Asmodeus indicava luxúria. Ele não foi o primeiro a pensar num mapa de conceito para capirotos, tampouco o primeiro a relacioná-los aos pecados capitais. Se a ideia de sete príncipes do inferno saiu daí, não fazemos ideia.

Antes de Binsfeld, aliás, Alphonso de Spina aparentemente havia listado 133.306.688 demônios – isso em 1467. Contabilizados nesse número ridiculamente especifico estavam íncubos, goblins, espíritos familiares, cambions (filhos de humanos com íncubos) e quem sabe até eu e você, diante da quantidade alarmante. Até o Rei Jaime I, quando era Jaime VI, Rei da Escócia, organizou sua demonologia. Anos mais tarde, ele viria a patrocinar a tradução da Bíblia do latim para o inglês, talvez a mais popular do universo.

São várias as tabelas de Excel sugeridas ao (ou pelo) capeta ao longo da história – isso que nós apenas beliscamos a tradição cristã. Fica nosso empurrãozinho às trevas.

Publicado originalmente na edição #35, em junho de 2016.

Baú: Rudyard Kipling

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Na cidade grande, havia um grupo de sobreviventes locais, de um contingente sul-americano, que vieram da Guerra. Eles eram alegres e sinceros, mas cada um devia carregar a própria amargura ou nostalgia por baixo de toda a jovialidade e do riso. “Brincadeiras à parte, que tipo de vida era esta para eles?”. E a resposta, com todas inserções e alusões locais, era: “É uma vida boa. Esta é uma vida boa. É claro que temos reclamações, mas no geral é uma vida tão boa quanto se pode esperar. Não há porquê afligir-se, e não há razão para desuniões, se o dinheiro levar a isso. Mas está repleta de tentações, você sabe, independente de ter-se dinheiro ou não”. Deveria-se contentar com isso. Em outra parte, um grupo distinto era formado por alguns homens, mulheres e crianças inglesas à vontade, após um dia de trabalho, em um lindo clube. Ali parecia que nos aproximávamos um pouco mais dos vestígios e meio segredos da vida. Mas as convenções – tanto pior – proíbem interrogar os passantes e perguntar a eles: “Como você vive na realidade? O que acha das coisas daqui – negócios, comércio, empregados, doenças infantis, educação e tudo o mais?”. Assim o rio de rostos fluía com suficiente placidez, e podia-se apenas imaginar o que jazia por baixo da superfície e reentrâncias.

Os brasileiros que encontrei eram interessados e completamente a par dos assuntos externos, mas estes não compunham seu mundo essencial. O Deus deles – eles caçoavam – era brasileiro. Ele dava a eles tudo o que queriam e um pouco mais. Por exemplo, uma vez quando a colheita do café excedeu os limites, Ele enviou uma geada no momento certo, que podou um quarto e equilibrou confortavelmente o mercado. E as vastas terras do interior do país estavam repletas de tudo o que se poderia querer, esperando para ser usado no devido tempo. Durante a Guerra, quando foram obrigados a prover por si mesmos metais, fibras e coisas assim, mostraram uma amostra a um índio e perguntaram: “Onde se pode encontrar mais disto?”. Então ele pôde guiá-los até lá. Mas possuir tais coisas, eles davam a entender, não implicava desenvolvimento imediato pelas concessionárias. O Brasil era um país gigantesco, com metade ou um terço inexplorado. Ele cuidaria de si mesmo no tempo certo. Pouco depois, fantasiei qualquer coisa nos bastidores, existiu uma linhagem de proprietários de terras com aversão ao mero comprador e vendedor de mercadorias, que sugeria uma origem aristocrática para a construção nacional.

Rudyard Kipling, Um mundo à parte (em Crônicas do Brasil, 1927), tradução ed. Landmark, 2006.

 

Wilder vs. Chandler

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Pacto de sangue (Double Indemnity, 1944).

O filme Pacto de sangue (Double Indemnity, 1944), adaptação de uma excelente novela de James M. Cain (1943), marcou o cinema tão logo foi lançado. Ali se consagrava a estética do noir americano, levantando o sarrafo para inúmeros filmes que viriam a copiá-lo.

Pacto de sangue dispunha de uma colaboração estelar por trás das câmeras: ao diretor Billy Wilder, juntou-se ninguém menos que Raymond Chandler como roteirista. E se a qualidade do resultado era indiscutível, a produção contou com um entrave: Wilder e Chandler não poderiam ser mais diferentes um do outro.

Simplificando (talvez demais), a relação entre os dois parece representar o desconforto que emerge quando um extrovertido e um introvertido não se batem.

Wilder, nascido (Samuel) na Áustria-Hungria, era 18 anos mais novo e havia escapado da Segunda Guerra (sua família – de judeus poloneses –, não). Chandler havia lutado na Primeira Guerra e, apesar de nascido nos Estados Unidos, tinha formação (e personalidade tipicamente) inglesa, afinal havia vivido da infância até o início da vida adulta na Inglaterra.

Wilder afirmou que Chandler parecia um contador – e que o escritor carregava a acidez típica dos alcoólatras. O diretor era adepto de um certo antagonismo entre colaboradores. Segundo ele, “se duas pessoas pensam parecido, é como se dois homens puxassem o mesmo lado da corda. Se você vai colaborar, precisa de um oponente para equilibrar as coisas”.

Chandler, novo em Hollywood, detestava Wilder. Já respeitado pelo romance Sono eterno (1939) quando foi contratado pela Paramount, o escritor chegou a se demitir da produção, relatando uma série de reclamações à produtora a respeito do diretor. A mais curiosa certamente se referia ao fato de Billy Wilder usar uma bengala e apontá-la para o roteirista enquanto conversavam.

Em carta de 1950 a seu editor inglês, Jamie Hamilton, Chandler escreveu: “Fui para Hollywood em 1943 para trabalhar com Billy Wilder em Pacto de sangue. Foi uma verdadeira tortura, e provavelmente encurtou a minha vida, mas com essa experiência aprendi, sobre a arte de escrever para o cinema, tudo que eu era capaz de aprender, e que não é grande coisa.”

No romance A irmã mais nova (1949), Chandler claramente se utilizou da experiência para descrever o momento em que seu notável protagonista, Philip Marlowe, interage com um produtor de Hollywood:

Ele caminhou até um vaso alto e cilíndrico no canto da sala. Dali, tirou uma bengala de malaca, entre várias que havia. Começou a ir e voltar pelo tapete, balançando com habilidade a bengala, paralela ao pé direito.

Fiquei sentado, terminei meu cigarro e respirei fundo: ‘Tem coisas que só podem acontecer em Hollywood’, resmunguei.

Ele deu uma elegante meia-volta e me olhou. ‘Perdão?’…

‘Por exemplo: um homem aparentemente dotado de sanidade mental andando para lá e para cá dentro de casa, imitando o andar das pessoas de Piccadilly e segurando uma vara de domar macacos.’

Ele assentiu.

James M. Cain adorou a adaptação de seu romance. Público e crítica também: Pacto de sangue foi indicado em sete categorias do Oscar de 1945 e, muito mais importante que isso, consagrou-se na estética cinematográfica. Naquele mesmo ano, Chandler escreveu o ensaio “Writers in Hollywood“, no qual reclamou de sequer ter sido convidado para uma coletiva de imprensa sobre a produção.

Wilder respondeu “não o convidamos? Como poderíamos? Ele estava bêbado embaixo da mesa do [bar] Lucy’s”. Farrapo humano (The Lost Weekend, 1945), o filme seguinte do diretor, contou com Ray Milland interpretando o protagonista Don Birnam, um escritor alcoólatra.