Carla Dias: Até daqui a pouco!

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Sou péssima em despedidas. Quase sempre saio do tom, digo bobagens, fico com a sensação de que a melhor coisa a se fazer é sair correndo. Despedir-se de pessoas pelas quais tenho apreço é complicado e me dá taquicardia. Porém, despedidas fazem parte da vida, e, às vezes, temos de nos despedir também dos nossos sonhos – que não há como serem realizados do jeito que os sonhamos, das oportunidades pelas quais aguardávamos ansiosamente, mas não chegaram. Da casa onde crescemos e dos empregos aos quais não temos mais o que oferecer, e por aí vai.

Quando não tem a ver com pessoas, despedir- se é antessala do desapego. Dizem que desapego é necessidade vigente. Sou péssima em desapego. Sempre saio de cena dizendo “até daqui a pouco!”. 

Este é meu último texto como ombudsman do RelevO. Sei que desempenhei esse papel de um jeito diferente, mas não houve como evitar. Como não comentar sobre tantos escritores talentosos? E os ilustradores? E a dedicação das pessoas envolvidas em colocar o jornal para circular?

O RelevO nasceu ideia e desejo de uma pessoa e se tornou projeto e benquerença de muitas outras. Quando isso acontece, o valor do feito é inquestionável. O sonho de um se torna o de muitos. Foi essa a importância que descobri no jornal.

Quem me conhece sabe que não escrevo sobre o que não me agrada, ao menos quando se trata de gosto, de afinidade. Escrever para o RelevO foi das tarefas mais agradáveis. Há pluralidade nesse jornal, um comprometimento com a publicação de obras de autores que trazem frescor ao cenário literário. Esse tipo de pluralidade é o que garante, em qualquer área das nossas vidas, a capacidade de compreendermos que não somos donos da verdade. Compreendendo isso, evitamos as mancadas da intolerância e criamos cenários para o cultivo do bem-estar geral.

A edição de julho contou com ótimas participações. Com “buraco”, Noemi Jaffe e me fez refletir sobre a urgência gerada pelo medo, que nem sempre é inspirado por fatos, mas pelo ensimesmamento. “acode, mãe. o que foi, filha? é o sumiço, mãe, esse buraco, essas coisas que eu não tinha também, o que eu perdi, o que eu ainda não tive…”. Inquietou-me um tanto esse texto. 

Quem se divertiu com a “Libertadores Literária”? A Final me deixou tensa…

“Cenas Urbanas” sempre é leitura bem-vinda. Daniel Zanella é hábil ao nos transportar à cena que descreve e sobre a qual reflete. Não fosse assim, eu jamais conseguiria imaginar a conexão entre a série Californication, cerveja e funkeiros dos carros. “Quase Cinco” é mais um texto bacana, com reflexão de sacada. Adoro reflexões. Adoro sacadas.

Muito me agradou o “Museu Kodacolor dos Filmes Não Usados”, de André Knewitz. “Também converso com plantas, e enfiei o smartphone no vaso, a samambaia responde via twitter.” Gostei do ritmo do texto, da ideia de um personagem assistindo a um provável suicídio, enquanto elabora o seu próprio, “Não agora, mas depois.”, assim como a mania dele de chamar pessoas por outros nomes: “… nomes de coisas banais. Tem o Pipoca, o Incenso e a Parafuseta.”

Rômulo Candal, que participou da edição pelo Obscenidade Digital, me ganhou com o seu “De Que Adiantam Sonhos Bons?”, onde fala de um homem que ficou muito doente e que tem como sintoma derradeiro a vontade de morrer. Durante a espera, ele escreve poesia ruim e prefere os pesadelos, já que os sonhos bons não o libertam da letargia de homem doente à espera da morte. “Os sonhos tecnicamente agradáveis, aqueles em que Jorge voa, em que joga bola, ou aqueles em que transa e acorda saciado, quando se vão, jogam Jorge de volta à vida de esgoto em que vive. Os sonhos bons não têm dó daqueles que sofrem acordados”. Não, eles não têm.

Ademir Demarchi escreveu sobre o poeta Ademir Assunção, em “Cinerário”. “Poesia Escrita Com Sangue” trata da importância do poeta, destaque entre os poetas contemporâneos. Não conhecia o poema de Assunção que Demarchi destacou, “Homem só”, que foi musicado pelo talentoso Luiz Waak. Procurei e achei o belíssimo disco “Rebelião Na Zona Fantasma”, também comentado no texto. Somente um talentoso poeta para lançar um belo disco declamando poemas com trilha sonora.

Traduzido por Jussara Salazar, o trecho do livro “O Diário de Frida Kahlo”, que fecha a edição, é pintura em palavras: “Tudo tu no espaço pleno de sons – na sombra e na luz. Tu te chamarás AUTOCROMO o que capta a cor. Eu CROMÓFORO – a que dá a cor. Tu és todas as combinações dos números, a vida.”

As ilustrações de Dê Almeida e o Estúdio Vermelho Panda completaram a viagem pela edição de julho. Em uma pré-despedida, Whisner Fraga – quem me convidou para substituí-lo como ombudsman – ocupou o Expediente da mencionada edição. Acho que o pessoal do RelevO está com saudade dele. Eu também estou.

Despeço-me da função, mas não do jornal. Continuarei leitora e apreciadora do trabalho feito por aqui. Que este espaço continue disponível para a literatura e para os leitores. E que inspire projetos semelhantes.

Brazil, por Terry Gilliam

Extraído da edição 16 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Para entendermos por completo essa peculiar página, vale a pena contextualizá-la. Conforme anuncia a assinatura, seu autor é Terry Gilliam, consagrado como membro do Monty Python.

Enquanto integrante do grupo de comédia, ele também codirigiu o filme Monty Python: Em Busca do Cálice Sagrado (1975) com Terry Jones. No começo de 1985, pois, Gilliam lançou seu filme Brazil na Europa. Não à toa, o filme é altamente inspirado por 1984, de George Orwell.

Quem já assistiu à obra, cujo elenco reúne Jonathan Pryce, Robert De Niro e até Michael Palin, tem ideia de que o final da película é no mínimo atípico. Somado ao fato de conter mais de 140 minutos de duração, seu desfecho não agradou nada aos distribuidores norte-americanos da Universal, que atrasaram o lançamento de Brazil.

Sid Sheinberg, diretor da companhia, queria revisar o longa-metragem até que esse totalizasse 90 minutos e oferecesse um final mais positivo.

Sendo assim, Terry Gilliam, com seu trabalho já rodando a Europa e sem previsão de lançamento nos EUA – mais de um semestre havia se passado –, desafiou a Universal de duas maneiras. Primeiramente, questionou Sheinberg por meio da página acima, um anúncio comprado na revista Variety.

A resposta do ricaço, claro, não foi nada positiva: “se o filme é tão bom em sua forma atual, arranje outra pessoa para comprá-lo”. Ele considerava a película totalmente desprovida de potencial comercial.

E então, para enfrentar os distribuidores na prática, Gilliam simplesmente exibiu o longa-metragem diretamente para a associação de críticos de Los Angeles, sem autorização alguma para tal. E o filme começou a ser premiado. Reiteramos: sem ter sido lançado.

A Universal se rendeu diante do contexto bizarro, liberando uma edição de 132 minutos supervisionada por Gilliam. E o lançamento, aliás, de fato conquistou um prejuízo de milhões nos Estados Unidos.

(O título Brazil remete à ‘Aquarela do Brasil‘, de Ary Barroso. A música, regravada por Geoff Muldaur, conduz o longa-metragem em vários momentos.)

Carla Dias: Literatura feminina? Não… Literatura.

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Na edição de abril do RelevO, escrevi sobre o quanto me agradava a ideia de incluir material fotográfico no jornal. Habituada que sou a pegar emprestadas imagens de amigos artistas para ilustrar os meus textos – e às vezes escrevê-los ao ser inspirada por elas –, vejo na combinação delas com as palavras uma forma expressiva de se dizer importâncias. Não é cinema, ainda assim, pode se passar por cenas de um filme imaginado.

Junho chegou trazendo a concretização desse desejo de alguns, inclusive do meu. Durante o processo de seleção para a antologia de cinco anos do periódico, percebeu-se que foram publicados mais homens do que mulheres. Achei muito bacana a edição seguinte a tal descobrimento ser quase que totalmente composta por mulheres.

Isabella Lanave apresentou seu olhar aos leitores por meio da belíssima imagem de capa. Suas fotografias também se espalharam pelas páginas do jornal, dividindo espaço com as ilustrações de Sabrina Gevaerd Montibeller, estas emprestadas do zine “Nem Todo Mundo Gosta de Viver”.

Mas a edição passada não foi somente enriquecida com olhares femininos. Ela foi feminina também na sua atuação como vitrine de autoras, as mulheres que trafegam pela literatura, que vão muito além da dita literatura feminina, essa corrente enrolada em boá com a qual a sociedade e o mercado costumam tratar o fazer literário das mulheres. 

Literatura é literatura. 

Aqueles que pensam que as escritoras se enveredam somente pelo universo escoado na literatura de banca de jornal – revistas especializadas e livros dos quais os títulos são nomes de mulheres – estão perdendo a oportunidade de conhecer pessoas que sabem contar histórias e chacoalhar espíritos com poesia. O dia em que pensarmos em pessoas sem nos apegarmos ao gênero, usufruiremos do feito do ser humano com mais generosidade e profundidade. A partir daí, talvez possamos parar de lutar pelo direito de ser para então sermos.

O mercado literário passa por (mais) um momento atribulado, até mais sério do que alguns dos outros momentos atribulados que já constam no seu currículo. Ainda que não faltem escritores com obras que mereçam ganhar as prateleiras das livrarias – físicas e virtuais –, anda cada vez mais complicado fazer isso acontecer. As pequenas editoras – algumas delas acostumadas a sobreviver aos percalços econômicos – são a garantia de que teremos bons livros disponíveis.

A questão continua sendo sobre como lidar com a formação do leitor. É ele, afinal, quem faz essa roda girar. “Da Crítica [1]”, de Camila von Holdefer abordou a questão: “Faz sentido propor um caminho inverso em que a crítica auxiliaria na formação de leitores? É possível usar a manobra conhecida da publicidade e, ajustando o discurso, criar a demanda (pelos livros) a partir da oferta (crítica)?”.

Não importa o tema, mesmo que chegue explícito, apresentado em absoluto escancaro. Ainda que mergulhe em metáforas. Nós tendemos a adaptar poemas ao nosso momento. Poesia cabe na gente, de acordo com a nossa necessidade emocional. Em Lilith, Victoria Lobbo escolheu brincar com as palavras e a imaginação do leitor: “pra meter os dedos/ numa fresta/ e sentir deslizar/ apertados entre/ duas folhas”.

Assionara Souza nos mostrou – por meio de seus contos curtos, oriundos do livro “Na rua: a caminho do circo” – em “A Literatura Existe”, que as histórias imaginadas para os livros se cruzam, constante e inspiradamente, com as que desfilam pelas ruas… E pelos sebos. “A moça ruiva parada em frente ao Sebo confraria surpreendeu-se com o vento a erguer-lhe a saia. Lá de dentro, Cristovão viu; olho treinado de cineasta amador.”

“do céu, versão menor”, de Cristina Judar, reverbera a beleza nascida das dores, ela que chega ao leitor na forma como a autora desnuda a violência, incutindo em momento significantemente dolente o olhar que encontra o encantamento. “O céu nunca se repetia. Doce lar de toco de estrelas, asas e coisas passageiras, eram constantes sobre ele as nuvens; sobre ela, as solas. Intercaladas em um movimento contínuo de revelar/esconder as partes íntimas do firmamento”.

As mulheres clicadas por Lanave, na nudez que lhes cabem, assumiram posto de cenário para as palavras de Patricia Laura Figueiredo e o seu “verniz”: “descascou a palavra/de todo encantamento/raspou com a faca/todo o seu verniz”. Também o contrário poderia ser, e assim se apresenta a versatilidade oferecida pela arte, sempre debruçada em um desnudar constante. Há também dias em que cenário é roteiro, e outro em que o roteiro faz a vez de cenário, sempre ao gosto do sentimento vigente do freguês.

Prosa e poesia, fotografia a e ilustração. A edição passada do RelevO nos trouxe, como sempre, boas novas literárias. Impossível comentar todas. Só posso dizer que, se você não leu a edição de junho, leia. Antes ou depois de apreciar a de julho, não importa. Importante mesmo é que literatura é literatura, e por meio dela, homens e mulheres exercitam a contemplação.

Brando!

Extraído da edição 14 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Quando Al Pacino recusou o papel de protagonista em Apocalypse Now (1979), sua justificativa para o diretor Francis Ford Coppola foi bastante simples: “já sei como vai ser. Você vai subir em um helicóptero e me falar o que fazer, enquanto eu estarei lá embaixo, num pântano, por cinco meses”.

Mal sabia ele, muito menos Coppola, que as gravações durariam dezesseis meses. Esse é apenas um dos famosos problemas que perseguiram a criação da película, cujas infinitas tretas são devidamente relatadas no documentário Hearts of Darkness 1991 — o filme, pois, adaptou o romance Coração das Trevas (1899), de Joseph Conrad, ao contexto da Guerra no Vietnã).

Visto que sequer teríamos tempo para relatar muitos perrengues – que vão de incêndio a ataque cardíaco –, destaquemos Marlon Brando, sobre quem já escrevemos na Enclave #6 (especialmente diagramada aqui, p. 14). Brando, afinal, não participou dos 16 meses de filmagem de Apocalypse Now. Para o astro, foram reservadas apenas seis semanas no set construído nas Filipinas, de 2 de setembro a a 11 de outubro de 1976.

Se sua obrigação era chegar em forma, com a leitura de Coração das Trevas realizada e suas falas na ponta da língua, o Corleone sênior encontrou Coppola já surpreendentemente gordo, sem ter lido o romance de Conrad e tampouco o roteiro — isso segundo o diretor.

No papel do Coronel Kurtz, enigmático personagem que o protagonista tanto persegue, Marlon Brando dá as caras em apenas 15 dos 153 minutos de filme. O que não evitou problemas. Ah, não mesmo. Ele, que havia recebido um milhão de dólares antecipadamente, negou-se a seguir o roteiro, ameaçou deixar a produção e ficar com o dinheiro.

No fim das contas, improvisou boa parte de seu diálogo, além de um falatório magistral de dezoito minutos, dois dos quais sobreviveram à versão final. Coppola estava tão farto de lidar com a situação que entregou as cenas do ator a Jerry Ziesmer, assistente de direção. Brando também detestava Dennis Hopper, rejeitando compartilhar o set com o colega em questão.

As “brandices” geraram outras consequências técnicas: para não expor sua forma física distante do que se imaginaria para Coronel Kurtz, Marlon Brando foi filmado no escuro, escondido entre sombras, raras partes de seu corpo à mostra. Sua recusa ao sobrenome Kurtz – “não soa americano” – fez com que o personagem tivesse o nome alterado.

Essa recusa, porém, foi reconsiderada por ele mesmo após finalmente ler Coração das Trevas. Entretanto, menções ao personagem já haviam sido gravadas por outros atores, o que exigiu redublagem na pós-produção. (Isso pode ser verificado claramente na cena em que Harrison Ford interage com Martin Sheen, ainda no início da película).

No fim das contas, todas as cenas com o ator são inegavelmente marcantes, e se tornam ainda mais curiosas quando sabemos de todos os problemas que as circundam. Mas recentemente, como um Deus ex machina, acrescentamos que Susan Mizruchi, autora de uma biografia sobre Brando, defende como as afirmações de Coppola sobre o descompromisso de Marlon Brando são redondamente falsas.

Segundo ela, as cartas entre diretor e astro deixam claro como Brando não só foi às Filipinas completamente preparado como ajudou no roteiro por pura dedicação à sua arte.

Palais Idéal du Facteur Cheval

Extraído da edição 13 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Enquanto percorria sua rota diária em uma tarde de abril de 1879, o carteiro Ferdinand Cheval tropeçou em uma pedra de aspecto curioso e se encantou por sua beleza. Decidiu levá-la para casa, mesmo sem ter muita ideia do que faria com ela.

A partir do dia seguinte, ele passou a notar no seu caminho as diversas rochas e formas esculpidas pela natureza, decidindo coletar o que lhe chamasse a atenção para construir, no terreno ao lado de sua casa, no sudeste da França, um palácio: o Palais Idéal du Facteur Cheval.

Idealizado primeiro como um templo à natureza, depois como seu local de sepultura, a obra é o resultado de 33 anos – 10 mil dias – de trabalho quase cotidiano e de aperfeiçoamento contínuo. É, segundo o próprio artista, o “Panteão de um herói obscuro”.

Embora alguns desenhos tenham sido idealizados, não há um projeto definido. A expansão da construção acontecia de forma desordenada e orgânica, seguindo a imaginação de seu criador e os diferentes materiais encontrados a cada dia.

O simbolismo e as referências das esculturas e estruturas vêm da Bíblia (da qual Cheval era leitor ávido), das tradições hindu e egípcia e dos numerosos cartões postais e revistas aos quais ele tinha acesso por sua profissão de carteiro.

Entre os elementos mais marcantes estão Os Três Gigantes (simbolizando Arquimedes, Júlio César e o líder militar gaulês Vercingetorix); a Mesquita; o Pecado Original e o Templo Egípcio, inicialmente previsto como o local de seu enterro.

O palácio sempre chamou a atenção do público. Já nos primeiros anos de trabalho, vizinhos visitavam Cheval e achavam graça da ideia maluca de construir de pedregulhos e argamassa. Mas isso apenas o deixou mais motivado e certo de que sua obra era única.

Entre seus admiradores, figuravam os surrealistas André Breton e Max Ernst (que pintou o quadro O Carteiro Cheval em 1932), além de Picasso e, claro, os milhares de turistas que vão todos os anos à cidade de Hauterives para testemunhar esse exemplo único de Arte Bruta e arquitetura Naïve.

Carla Dias: Mais prazer, por favor

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Compartilhar discos, filmes e livros com os amigos, não somente por meio de indicação ou empréstimo, mas também os presenteando com esses itens, faz parte da minha realidade desde que comecei a trabalhar. 

Sim, faz tempo. 

Independente do meio ou da linguagem, compartilhar gosto pode ser ação catedrática. Durante o processo, aprendemos que o que nos agrada pode ou não agradar ao outro. Ainda assim, é um processo que nos oferece a chance de conhecermos algo novo, como doador ou receptor do conhecimento.

A cada edição do RelevO, conheço alguém novo capaz de me fascinar, o que sempre é um prazer. Dessa forma, tenho dialogado com universos díspares e interessantes. É pessoal a tarefa de passar adiante aquilo que verdadeiramente nos toca e julgamos merecedor de um amigo conhecer. Em uma época em que falar mal é praticamente rotina, passar um gosto adiante pode trazer frescor ao espírito de muitos.

A ilustração de capa de maio estava uma lindeza. Obrigada ao Daniel Imaeda por isso, quem deu cara à coleção de excelente material. Durante a jornada da edição passada, Adriana Sydor me inspirou a me apaixonar pela sua casa que ainda será, mas que também já é. Em “Sonhos de arquitetar”, Sydor nos mostra sua casa interior em busca do espaço externo, espalhando-se por código postal equivalente aos devaneios da autora. “O que não for janela, bem pode ser vidro, o que não for porta, transparência.” Belo texto para a sala de estar de qualquer espírito inclinado ao aconchego.

De personagens da Warner, passando pela frequente incoerência do animal-humano, Bolívar Escobar fala sobre uma curiosidade coletiva: quem come quem? Por quê? Como chegamos a isso? “Um abraço é um ato solipsista não importa em quais deuses você não acredite” se debruça na cadeia alimentar, questionamentos e nas declarações de cientistas, assim como no devaneio sobre a função deles, claro. “Os cientistas só devem estudar aquilo que faz parte do universo. O que não faz deve ser estudado pelos artistas e pelos malucos.”

Sou apreciadora dos oráculos. Posso até me relacionar com os tais ligeiramente com o pé no imaginário, mas tenho sincero respeito por eles. Em “Dizem que os orientais”, Julia Raiz fala sobre a forma como os orientais embrulhavam os livros sagrados – dos oráculos aos obscuros – em tecidos ricos. Então, ela menciona como uma tribo africana lida com seus mortos. Dos oráculos aos rituais, passando por uma reflexão profunda inspirada por um corte na mão, ela chega ao que lhe inquieta: a morte de um ente querido. Um texto delicado, com quê de desamparo. “Bom, dizem que os orientais embrulham tais livros em tecido rico como a seda ou o veludo ou com outros tecidos ricos dos quais não conheço o nome.”

Quem nunca tentou explicar a saudade, prepare- se, porque isso um dia vai acontecer. Alguns dos que já tentaram, acabaram por criar primorosos poemas, como o “para falantes doutras línguas”, de Ricardo Escudeiro: “atadura que não estanca nada/ essa foto na palma/ há espaços ainda/ em tempo de serem jamais/ uma derradeira vez habitados”.

Ainda sobre desnudar-se em poesia, “Ode à mulher que não goza”, de Sissa Stecanella, expõe verdades sobre mulheres que se submetem ao falseado prazer como se estivessem a se esbaldar no verdadeiro: “Ode à mulher que não goza/ Que toda orgulhosa se diz importante/ Deita-se na cama, faz cara de freira, se finge de morta/ Abre as pernas, gemidos alheios,/ Dá-se por contente, com seu amante precoce”. Minhas caras – e meus caros –, como dizem por aí, a vida é muito, mas muito curta para gastarmos a dita no faz de conta. Sendo assim, por favor, gozem na maior veracidade. Caso não dê certo, não perca a vida, mude de parceiro. 

Não tenho qualquer talento para colorir. Pense em alguém incapaz de combinar cores decentemente, ou em uma indecência com certo grau de coerência. Eu mesma. E se era o _ m do mundo quando criança, a versão adulta só piorou a falta de talento. Então, para que insistir? Ainda assim, fiquei tentada a encarar o “RelevO de Colorir para Adultos”. Definitivamente, colorir não é comigo. Alguém coloriu e se sentiu mais feliz?

Maio trouxe uma edição muito interessante do periódico, daquelas que inspiram mergulhos mais profundos e há humor envolvido. Pacha Urbano trouxe aos nossos leitores as tirinhas de “As Fantásticas Traumáticas Aventuras do Filho do Freud”, revigorando aquela máxima de que o humor tem o poder de explicitar seriedade com a maior graça e entendimento. Quem não conhece essa vertente do trabalho do Pacha Urbano, sugiro uma pesquisa. É material bom e que vale o tempo do leitor.

Não há como comentar tudo o que apreciei na edição passada. Sendo assim, finalizo com as palavras de Gigi Godoi em “velha queda”, que tocou em assunto que me pega sempre de jeito, a paixão por determinadas palavras, que às vezes me leva a ter de evitá-las para que os textos não soem como reprise: “tenho velha queda por certas palavras/ elas preenchem o buraco da minha expectativa…”.

Neuromancer: o game não realizado

Extraído da edição 10 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

No rol de grandes projetos que nunca saíram do papel, um game chama atenção. Trata-se de uma adaptação do romance Neuromancer cheia de peculiaridades, a primeira delas cabendo ao envolvimento de Timothy Leary, psicólogo famoso por pesquisar potenciais efeitos do LSD. Professor em Harvard, Leary foi um dos responsáveis pelo experimento que possibilitou um grupo de controle a utilizar psilocibina (dos cogumelos alucinógenos) em uma capela, visando à resposta para a possibilidade de enteógenos favorecerem experiências religiosas (aparentemente… Sim).

Pioneiro em estudos de cibernética, trans-humanismo, experiências místicas e podendo influenciar diretamente de Aldous Huxley a John Lennon, o gênio-doidão já se aventurava no terreno da criação de games nos anos 1980, tendo desenvolvido o curioso Mind Mirror em 1985. Com os direitos de Neuromancer comprados, sua adaptação contaria com a ajuda de nada menos que William S. Burroughs para o roteiro.

Além dele, Keith Haring se responsabilizaria pela parte visual, enquanto a banda Devo, famosa por suas ideias ousadas no pós-punk, cuidaria da trilha sonora. Por sua vez, Helmut Newton contribuiria com a fotografia. Diz-se ainda que haveria várias participações especiais, como a de David Byrne, retratado na imagem de abertura, uma das poucas desenvolvidas.

O projeto, descoberto tão somente após os arquivos de Leary serem abertos, poucos anos atrás, tinha tudo para se encaixar com o romance de William Gibson, obra responsável pela introdução do cyberpunk na cultura popular (e inspiração inegável para um colosso de derivadas, vide Matrix). Sem sair do papel, o game possibilitaria caminhos diferentes em sua narrativa. Eventualmente, Leary repassaria os direitos para a Interplay, que de fato lançou um jogo inspirado no livro, no final da década de 80. As semelhanças, no entanto, limitam-se à trilha sonora do Devo – esse você pode jogar clicando aqui.

Baú: T. S. Eliot

Extraído da edição 10 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Você tem que olhar tantas coisas inferiores o tempo todo que, como um degustador de chá ou fabricante de chocolate, pode perder seu apetite pela literatura como um todo. O público raramente se dá conta de que nove décimos do tempo de um editor são utilizados com o trabalho de manuscritos rejeitados, projetos que não se concretizam e aqueles terríveis casos incertos de escritores que são quase, mas não definitivamente bons o bastante.

T. S. Eliot, 1953.

Carla Dias: Espalhando palavras e poesia

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Em uma época permeada por urgências, atenção faz significativa diferença. As redes sociais são vedetes dessas urgências. Tudo é rápido e contínuo para abastecer o espectador, desculpem-me, o internauta com todas as informações possíveis. Dá trabalho desviar das informações que não fazem mais do que nos levar a gastar tempo. Mas quem não gosta de preguiçar o pensamento, vez ou outra?

Recebemos uma mensagem de um leitor justamente sobre a falta de presença nas redes sociais. Porém, é preciso compreender que alimentar as redes sociais, a fim de atender à voracidade contemporânea, é trabalho que exige tempo que muitos de nós preferimos dedicar à criação, seja do poema, do conto, da crônica, da ilustração.

Veja bem, eu acho bem coerente o posicionamento do leitor; é a realidade que vivemos. Porém, acredito que o RelevO é, primeiramente, um jornal literário, mensal, que você pode adquirir impresso ao se tornar assinante ou se tiver a sorte de frequentar um dos pontos de distribuição gratuita, além da opção da leitura online. Além do mais, foi lançada a newsletter semanal Enclave, que tenho certeza, deixará o leitor mais feliz com a presença do periódico nas redes sociais.

Sendo assim, se você é apreciador do produto, não se intimide: assuma seu apreço, assine a versão impressa, compartilhe o jornal e a newsletter nas redes sociais. Colabore para que mais pessoas tenham acesso a esse trabalho que é feito com o maior prazer pela equipe do jornal. Ajude-nos a fazer como o leitor que nos escreveu sugeriu: espalhe-o.

A edição de abril chegou com as ótimas ilustrações de Anderson Resende, criaturas que se embrenham pelas palavras alheias e pontuaram com questionamento o olhar do leitor. Adorei a capa.

Gosto muito de Daniel Mazza. “Os ossos” apenas endossa esse minha benquerença. Para mim, o autor reduz a todos aos ossos, aos quais creditamos o final de quem somos, mas mostrando que são eles que carregam nossa história. É antropológico e emocional: “A eloquência dos ossos, silenciosa/ Traz muito mais verdades do que provérbios/E salmos. Sábia é a voz dos ossos mudos”.

Após ler o texto “Her e As Ficções Homogêneas – ensaio em narrativa capitalista, gênero e cinema”, de Rubens Akira Kuana, tive de repensar não somente a minha impressão sobre o filme, mas aspectos da minha própria existência. Coerente, Kuana aborda a distância que alimentamos de nós mesmos a troco do que nem sempre sabemos nos será útil.

Em “Menos, por favor”, Marianna Moraes Faria cita muitas formas de sermos preconceituosos ao fazermos de conta que não: “Olha só esse cara, a mulher dele tem quase a idade da minha tia, parecem mãe e filho. Olha lá, que merda, vão casar. Ele só quer o dinheiro dela, lógico”. Trata-se da lógica dos intolerantes, que também se apresenta no “Agora que sou escritor”, de Mateus Ribeirete: “Quanto às dedicatórias, dos contos dos outros 15 participantes, escrevi “não li”. Sobre o conto de um Mateus Senna, escrevi “não li e não gostei”.

No trecho publicado do livro “Poesia Brasileira Contemporânea – Crítica e Política”, Renato Rezende aborda a crítica de poesia brasileira, baseando-se também em questões voltadas à resistência da linguagem, que saiu da clareza da sua definição para navegar em outras formas de arte, como a canção. A poesia na música. “É preciso, portanto, enfrentar a escuridão e as contradições do nosso tempo, identificar outras chaves de leitura e novas brechas e bordas para pensar a nossa poesia.”

Obviamente, esse passeio não incita o fim da poesia, mas pede por mais atenção. São para poucos os escassos espaços dedicados a tal linguagem, e quase sempre relegados aos poetas que movimentam o mercado. Aliás, é esse mercado que carece de ser ampliado; a poesia pode até não ter lugar definido no atual cenário literário, mas definitivamente continua a dar origem a grandes poetas e a gerar significativas e inspiradoras obras.

Prosa e poesia primorosas – e capazes de atiçar questionamento – estavam estampadas nas páginas do RelevO de abril. Foram tantas de uma e de outra que me encantaram, que tive trabalho para selecionar algumas para falar a respeito. Eu gosto de ter trabalho.

Porém, devo confessar que a presença marcante da poesia – ainda que lembrada na prosa –, pela qual tenho profundo apreço, e que me acompanha desde o primeiro questionamento, fez a edição passada entrar para o hall das mais queridas. Ouso dizer, meu caro Renato Rezende, que, talvez, não sejamos nós – leitores, escritores e críticos – os responsáveis por definir onde cabe a poesia. Ela mesma se apodera dos espaços. Sendo assim, investigá-la pode ser tão interessante quanto consumi-la, a alma entregue a esse compromisso.

Não poderia deixar de mencionar a parceria entre o blog Obscenidade Digital e o RelevO, divulgada na edição passada e estreando nesta, com texto de Gabriel Protski. A cada edição, um texto da equipe do coletivo curitibano. Que essa parceria nos renda ótimas leituras.