Autor: Jornal RelevO
Panetone!
Extraído da edição 26 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Se já é quase Natal (!), falemos do panetone. Em uma noite fria do século 15, Ludovico il Moro, duque de Milão, ofertou um banquete de Natal para toda a realeza da região. Porém seu chef responsável exclusivamente pela sobremesa estava tendo um caso com a esposa de um dos convidados nos corredores escondidos do castelo enquanto a sobremesa que preparou queimava no forno. O jovem assistente de cozinha Toni então utilizou os poucos ingredientes que sobraram como açúcar, manteiga, cascas de laranja e passas para misturar à massa que ele havia preparado para levar pra casa e que já descansava havia três dias.
Sem opções, o chef teve que aceitar a sugestão do esforçado garoto e levou ao forno porções arredondadas da mistura para enfim servir a sobremesa do banquete. Temente, o chef logo se retirou do salão após apresentar a receita, mas a recepção foi um sucesso entre a realeza — o duque teve de chamá-lo novamente para agradecer publicamente. O chef, constrangido com os aplausos, confessou o verdadeiro autor da receita e a chamou de pane di Toni (pt: pão do Toni), posteriormente alterado para panetone.
A forma do panetone como conhecemos hoje, no entanto, data apenas da década de 1920, quando imigrantes russos de Milão encomendaram 200 unidades de Kulich (pão tradicional consumido na Páscoa pelos ortodoxos cristãos) a Angelo Motta, fundador da empresa alimentícia Motta. Eles serviram de inspiração para Motta acrescentar nata e moldar os panetones em papel palha para que finalmente se transformassem nestes cogumelos de forno.
Mas se você é um daqueles céticos irredutíveis que desconfia até do próprio parto, certamente não se convenceu com essa historinha pra italiano dormir. Nesse caso, sua ceia de Natal terá o pandoro (pão de ouro), esse sim com “certidão de nascimento”. No dia 14 de outubro de 1894 em Verona, Domenico Melegatti patenteou a receita, a forma e claro, o nome.
Melegatti se inspirou no Pão de Viena para aprimorar a receita do nadalin, essa espécie de colomba pascal em forma de estrela que foi concebido durante o século 13 para comemoração do primeiro Natal em que a família Scala governou Verona. Para obter a forma desejada, Melegatti modificou a receita, aumentando a quantidade de ovos, nata e fermento e retirando todos os ingredientes que impediam a massa de crescer, como cobertura, passas e pinhão. O nome teve como base o costume de cobrir pães com folhas de ouro, esses servidos em banquetes da realeza.
[por Gabriel Mussiat]
MacGuffin
Extraído da edição 26 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

MacGuffin, MacGuffin, MacGuffin. Eis um termo utilizado a rodo ao se construir uma narrativa, principalmente cinematográfica. Sua maior característica é não ter grandes características a não ser a possibilidade de levar o enredo adiante. Costuma ser um objeto, e um objeto totalmente substituível, que logo perde importância na trama. O termo foi popularizado por Alfred Hitchcock, que se valeu do MacGuffin diversas vezes.
Em Psicose (1960), por exemplo, o enredo avança por conta de um furto que permite a personagem Marion fugir. O dinheiro em si logo abandona qualquer relevância, e assim o filme se move. A quantia poderia ser um cheque, cédulas, barras de ouro; ao invés de dinheiro, poderíamos ver um amuleto, uma safira, uma declaração importante.
Se ampliamos a definição, atribuímos uma importância maior ao MacGuffin. Isto é, ao contrário de um objeto substituível, sem efeito algum na narrativa (além do próprio efeito na narrativa), teríamos também elementos poderosos, que interferem na trama. Como o anel de Tolkien.
Nas palavras – e na voz – do próprio Hitchcock, um MacGuffin é comumente encontrado em filmes de espiões. “É a coisa de que os espiões estão atrás”. Elaborando anedoticamente, ele o exemplifica com o cenário de dois homens em um trem que se dirige à Escócia.
— O que é esse pacote sobre sua cabeça?
— É um MacGuffin.
— E o que é um MacGuffin?
— É um aparato para caçar leões nas Terras Altas escocesas.
— Mas não há leões nas Terras Altas escocesas.
— Então não há MacGuffin.
Muito além do diretor inglês, que, por sinal, atribuiu a seu colega roteirista Angus MacPhail o nome e o aperfeiçoamento do MacGuffin, a ideia era similarmente utilizada nos filmes mudos com a atriz Pearl White, no início do século passado (vide o pôster de The Perils of Pauline, 1914, no início deste texto).
Neles, os personagens costumavam perseguir algum ornamento, definido por White como weenie. O termo ainda retoma o mito grego de Jasão e os Argonautas, que navegaram em uma nau em busca do velo de ouro, a lã dourada de Crisómalo, um carneiro alado. A árdua perseguição ao velo é um baita MacGuffin, cuja origem cabe provavelmente ao poeta Simônides de Ceos.
Duquesa Feia
Extraído da edição 25 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A Duquesa Feia (~1513), ou Idosa Grotesca, do holandês Quentin Matsys, é uma alegoria sobre luta contra passagem do tempo e o desencontro com os hábitos de sua época. Uma senhora de idade posa adornada com vestimentas da juventude – já fora de moda –, um pitoresco chapéu e seios tão voluptuosos quanto enrugados à mostra, sugerindo uma vaidade talvez excessiva.
Essa temática aparece também no ensaio Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, publicado dois anos antes do quadro. No livro, Erasmo se refere a senhoras que “não conseguem sair de perto do espelho” e “não hesitam em expor seus repulsivos seios”.
O que mais chama a atenção é o contraste da indumentária da personagem com o seu rosto grotesco. Por muito tempo, a origem dessas feições aberrantes foi objeto de debate, até a clamorosa sugestão de que a modelo, na verdade, sofria da Doença de Paget, a qual só seria descrita trezentos anos mais tarde. Essa condição envolve um crescimento desenfreado de alguns ossos. Tal crescimento provoca deformações como as da pintura.

Ben-Hur Demeneck: Uma peça de museu
Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Walter Bach publicou um belo texto sobre este periódico no portal Escotilha (“A persistência do Jornal RelevO”, 22/10/2015). No entanto, dormiu quando falou do ombudsman. Escreveu que o jornal tem “até um ombudsman, quase peça de museu em nosso tempo”. Antes fosse, meu caro. Antes fosse! Parece até que falava de copidesques ou de tipógrafos. Embora, convenhamos, os copidesques têm feito muito falta nessa terra desrespeitosa à língua portuguesa que se tornou a imprensa nacional. Pensar que faz pouco mais de 25 anos que surgiu o primeiro ombudsman no Brasil e de lá para cá a moda não pegou. A Gazeta do Povo teve ombudsman? Quando a Globo teve ombudsman? A Record? A Folha de Londrina, talvez? Aliás, em que mundo do futuro a Rede Massa terá um ombudsman? No interior do Brasil, só conheci o caso do Jornal da Manhã (de Ponta Grossa) e de jornais-laboratório. De capitais, sei que Fortaleza tem (O Povo), São Paulo tem (Folha de S.Paulo), Nova York tem. Sonhemos com o dia em que “representantes de leitores” se tornem coisas antigas no Brasil, pois, por enquanto, correm o risco de nem entrar no catálogo de uma mostra experimental. Recomendo a leitura do artigo e do portal. Ambos são muito bons.
Sobre o humor
O humor e liberdade de expressão são parceiros. Humor fajuto e tédio são irmãos siameses. Talvez o único limite do humor seja o de ser verdadeiro e, claro, passear pelas ideias, não escolher pessoas e tipos por alvo de humilhações, por exemplo. Não estamos falando de agressões, estamos falando do que dá aquele nó lógico na cabeça e nos faz pensar “bem bolado”. O Editor-assistente achou a edição de humor muito fraca e adolescente. Segundo ele, perde-se espaço para literatura boa quando apostamos demais em humor. A crítica dele é válida e deve ser considerada. Se algum texto ficou devendo na sua autenticidade, merece o selo de canastrice. Mas humor deve ser considerado, só é preciso achar a mão.
O brasileiro médio em geral não é de lotar peças de teatro dramáticas, nem de dar audiência a tragédias. Há certo consenso que o humor lubrifica as relações sociais. É como se o brasileiro já não fosse por demais sociável e não precisasse ficar um pouco mais calado e observador, de vez em quando. Que participa ou testemunha do humor escrachado ou do melodrama. Um texto como “Menino Lobo”, de Marco Aurélio de Souza dá uma dissertação de mestrado. Saber como o jornalismo cultural hoje não só vira o domínio do Ctrl C + Ctr V, mas que simula entrevistas cuja matéria-prima são mentiras deslavadas. Ou seja, será que é preciso fazer piada quando até o mais provinciano jornal coloca o absurdo sob holofotes? Os humoristas precisam ser bons, é só isso que devemos cobrar deles. Porque a realidade não está dando trégua.
Sabedoria krenak
Aílton Krenak vive num outro tempo. Aílton é multidialetal, poliglota, politizado e ainda sabe contar uma história por muitas horas – e quem sair dali vira lobisomem. O Aílton realmente sabe fazer chorar. Quem não aspira a sabedoria desse líder que canta para o céu subir e consegue o que quer? Como a gente pode se tornar um dele? Como seria possível assimilar a sua cultura numa velocidade como as atléticas de engenharia assimilaram o rúgbi? Como? Perguntas que não sabemos responder. Graças à nossa incapacidade de entender os “povos originários”, a gente fica falando bobagens em vez de chama-los para a conversa e ouvi-los. Quantos desses a gente vê em feiras literárias, lançamentos, palestras ou compartilhados em nossas timelines? Vejamos: Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Cristino Wapichana, Kaká Verá, Eliane Potiguara, Aurilene Tabajara, Edson Kayapó, Edson Krenak, Tiago Hakiy. As ilustrações de Denilson Baniwa? Quantos irão aparecer em nossas recordações do Facebook e nos presentes de amigo secreto? Não basta a gente achar o máximo ouvir “Koangagua”, dos Brô MC´s. Nem Curtir e Compartilhar o videoclipe deles feito nas aldeias Jaguapiru e Bororó, lá em Dourados (MS). Não basta descobrir que “Koangagua” significa “Nos dias de hoje” e que para um rap cantado em guarani não tem nada melhor mesmo que ler a legenda. Não basta achar cult, tem que entender.
RelevO Capital
Se a CartaCapital tivesse um assinante para cada cem replicadores dos seus conteúdos, ela seria (de longe) a revista mais estável do país. Moral da história: todo mundo quer “mudar a comunicação”, mas apoiar o que já está fazendo a diferença não dá lá muito ibope. O mesmo pode ser dito do RelevO.
INSS
O ISSN por enquanto não saiu. O ombudsman continua cobrando a equipe editorial para que o RelevO seja lido em cada canto do mundo a partir do momento em que for impresso o código de barras mágico. O editor disse que está correndo atrás da papelada. #EstamosdeOlho
Edição de novembro de 2015
Ben-Hur Demeneck: Oito dígitos para atravessar mares
Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
A “0028-792X” publicou Hiroshima, de John Hersey. A “0014-0791” veiculou Frank Sinatra está resfriado, opera magna do Novo Jornalismo de Gay Talese. Na França, os leitores da “0298-3788” a chamam pelo diminutivo Les Inrocks. O satírico “1240-0068” virou alvo de um atentado que vitimou os cartunistas Charb e Wolinski, gerando manifestações globais pela liberdade de expressão.
Embora tenha comemorado cinco anos de circulação, o jornal RelevO ainda não possui ISSN. Sigla de “International Standard Serial Number”, em português o termo se traduz para “Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas”. A partir desse código de oito caracteres, pode-se recuperar muitas histórias da literatura, do jornalismo cultural e do cartunismo.
A crítica da Europa deve muito a suplementos de jornalões, como o do alemão “0174-4909” e do espanhol “0213-4608”. Na América Latina, a imprensa nanica encanta pela ousadia, caso do “0327-1706”. Por 25 anos, o título se espalhou desde Buenos Aires e Rosário sob a edição de Daniel Samoilovich. De três em três meses dedicava umas 40 páginas a obras de poetas.
A brincadeira com algarismos ilustra o quanto o ISSN aparece em todo lugar. Em sequência, citamos as revistas The New Yorker, Esquire, Les Inrockuptibles, os jornais Charlie Hebdo, Frankfurter Allgemeine Zeitung, El País e o Diario de Poesía. O motivo de essas produções se curvarem a um código de barras tem a ver com documentação, expansão da distribuição e, sobretudo, porque elas almejaram ter impacto cultural em terras distantes.
O ISSN identifica e individualiza mais de 1 milhão de títulos de publicações seriadas ao redor do mundo. Não importa o idioma, não importa qual seja o suporte físico. A partir de Paris, a rede de certificação integra cerca de 88 centros nacionais e regionais. No Brasil, desde 1980, quem se responsabiliza pela concessão do número é o IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – http://www.ibict.br/).
Por sobrarem motivos para singularizar qualquer publicação diante da comunidade internacional, questionamos por que este jornal literário não estampa um ISSN. A resposta foi animadora. “Nós não temos ISSN ainda, mas estamos providenciando a documentação toda para este mês de novembro”, respondeu o editor-chefe Daniel Zanella. “A edição de dezembro deverá ter esses dados no expediente”, prometeu. É uma ótima notícia para nós que queremos atravessar mares.
Perigo dos medalhões
Em carta à redação, um autor reclamou do novo projeto gráfico e da diminuição em 25% da quantidade de páginas. Para ele, o RelevO “deixará de publicar novos autores e passará a dar espaço somente para medalhões, como todos os outros jornais do segmento”. O autor-leitor tem uma preocupação válida e deve permanecer atento. Quanto ao corpo editorial, ainda precisará de um tempo para convencer o leitorado e os colaboradores de que acertou.
Na contramão dos receios, a última edição manteve experimentações que caracterizam o impresso – ficção, poemas eróticos, respostas espirituosas a leitores, artigo acadêmico, texto cujo fluxo manda os sinais de pontuação às favas, diálogo epistolar com aquele vagar das diligências confiadas a carteiros, humor anarquizando até referências literárias com piadas de salão e traumas históricos etc.
Ainda que (no país do pistolão) sempre caia bem chamar um medalhão para reconhecer a firma alheia e (em qualquer lugar do mundo) o “ibope” tenda a seduzir publishers, o RelevO tem descumprido tais estratégias de alpinismo. Isso não significa que você, prezado leitor, vá deixar de enviar sugestões para que o jornal continue comprometido com o experimentalismo e a pluralidade. Mande já o seu recado.
Assinantes e mecenas
Os produtores do RelevO abriram uma questão interna com este ouvidor – “os assinantes devem receber o jornal antes dos leitores que têm acesso aos pontos de distribuição, considerando que o jornal circula gratuitamente? ” As alternativas dividem o grupo.
Meios de comunicação sem fins lucrativos vivem diante do impasse de conceder ou não privilégios a apoiadores. Numa época tiranizada pelos valores do mercado, eles se ocupam em alcançar a independência econômica e sabem que a globalização pós-1989 totalizou a figura do consumidor e esmoreceu a do cidadão.
Hoje, o indivíduo que paga cinquenta reais para blindar e personalizar seu smartphone, pode considerar um desaforo bancar uma publicação cultural pelo valor equivalente. Em compensação, ainda existem os protetores dos periódicos literários.
Os assinantes apostam na preservação dos espaços de artifício e fantasia, e acorrem à mídia certa. Um jornal gratuito é o canal por excelência para promover hábitos em desuso (ex.: esmiuçar ideias, cultivar laços de solidariedade, democratizar conhecimentos sem fazer demagogia). O difícil é descobrir como expandir essa rede de mecenato.
Letras negras
Recomendo o livro A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica (1960-2000), de Mário Augusto Medeiros da Silva (Editora Aeroplano, 2013, 688 p.). Além de ser uma aula de metodologia científica e um retrato de paixão acadêmica, apresenta e contextualiza autores fundamentais para pensarmos o Brasil em que vivemos. A obra recebeu algumas honras, entre elas o “Prêmio para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa”, concedido pela Universidade de Coimbra. A tese que deu origem ao trabalho pode ser baixada gratuitamente pela Biblioteca Digital da Unicamp (http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/), desde que se faça um cadastro com e-mail. Para facilitar o acesso, fizemos um link direto –http://bit.ly/ombudsman_bhd. Um alerta: A descoberta do insólito é livro para se ter um exemplar em cada biblioteca do país.
Por que não fico famoso
“Eu não gosto de ler. Só gosto de escrever” (Anônimo).
Edição de outubro de 2015
Anna Coleman Ladd
Extraído da edição 22 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Argila e massa de modelar eram os principais materiais utilizados por Anna Coleman Ladd na tentativa de restaurar rostos desfigurados na Primeira Guerra Mundial. A escultora, nascida nos Estados Unidos e educada na Europa, usava seu estúdio em Paris para reconstruir as faces de quem havia sido injuriado em combate. A partir dos moldes de argila e massa, Ladd criava uma prótese de cobre galvanizado e a pintava conforme a pele do atendido.
Antes da guerra, Anna Coleman já havia se envolvido com fotografia, dramaturgia e literatura, além das próprias peças que esculpia – geralmente aplicadas na decoração de fontes. O casamento com Maynard Ladd, médico da Cruz Vermelha, ajudou a conectar seu enorme talento com uma causa interessantíssima. Em Paris, cada máscara levava cerca de um mês para ficar pronta, tendo vida útil de alguns anos. Estima-se que Ladd tenha produzido mais de 185 peças.
Todas as informações foram extraídas desta matéria na Smithsonian, ainda mais recomendada pela galeria de fotos. Interessados também podem assistir a este curto vídeo do estúdio, que oferece uma dimensão maior do trabalho de Ladd.
Pátio Belvedere
Extraído da edição 21 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.
O Pátio Belvedere, nos museus do Vaticano, abriga algumas das esculturas mais importantes da história da arte ocidental. O Torso Belvedere, o Apollo Belvedere e o grupo Laocoon são exemplos notáveis de obras da antiguidade que foras redescobertas durante a renascença, momento no qual os artistas estavam especialmente dispostos a beber da fonte greco-romana.

Comecemos pelo espetacular Laocoon: esse grupo mostra um pai e seus dois filhos sendo atacados por serpentes enviadas pelos deuses, em cena derivada de um episódio da Guerra de Troia. Redescoberta em 1506, a obra teve grande impacto na arte da época pelo seu dinamismo e tratamento intenso e dramático dos rostos do personagens em sofrimento, além da rendição perfeita da anatomia humana.
Michelangelo foi um dos primeiros a fazer referência à escultura em seu trabalho: os escravos talhados para a tumba do papa Júlio II, a figura do crucificado Hamã e vários ignudi na Capela Sistina, são alguns exemplos. Laocoon também aparece na obra de Rafael, como o cego Homero no afresco Parnaso, nessa caricatura feita por Ticiano, nessa tela de El Greco, enfim, em muitos lugares.
Várias cópias do grupo foram encomendadas desde o século 16 e hoje figuram em sítios como os museus Uffizi, em Florença, e o Louvre, em Paris; no jardim de Versalhes e na ilha de Rodes, para citar alguns.

O Torso Belvedere é um fragmento de nu masculino que impressiona pela robustez. A figura representava Ajax – ou Héracles. Ou Hércules, Polifemo ou Marsias, ninguém sabe ao certo – sentado sobre um couro de animal ponderando sobre seu suicídio (ok, essa é apenas uma de tantas teorias).
A posição das pernas e os grandes traços musculosos foram grandes inspirações para – adivinha – Michelangelo, que deles se utilizou para montar boa parte das figuras do teto da Capela Sistina, incluindo São Bartolomeu, Jesus e os ignudi que emolduram as cenas principais. Pigalle, representante do Rococó francês, cita o torso em seu Mercurio.

Finalmente chegamos ao Apollo Belvedere, ou o Apollo Arqueiro. Com seus traços doces, contrapposto sutil e postura heroica, esse rapaz foi considerado a epítome da beleza ideal segundo os neoclacissistas. É interessante notar as diferenças entre ele e os dois outros exemplos acima citados.
Apollo faz parte da escultura antiga clássica: mais sóbria, estática e “magra”, enquanto os outros dois são esculturas helenísticas, algo como um barroco antigo, que valoriza o movimento e a instensidade dramática dos seus temas.
Desde a sua redescoberta, no final do século 15, foram muitos os que se inspiraram no Apollo: Albrecht Dürer o usou como modelo para seu Adão, Antonio Canova fez de seu Perseu e de seu Napoleão como Marte homenagens diretas à pose do arqueiro, e até a NASA prestou seu tributo, incluindo a estátua na insígnia da missão lunar Apollo 17.
Ben-Hur Demeneck: A prestação de contras
Coluna de ombudsman extraída da edição de outubro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
O ombudsman é o cosplayer do leitor. Afinal de contas, o leitor é o herói do ombudsman. Primeiro, porque ele devora páginas rodeado por uma massa de uns 88 milhões de brasileiros não leitores. Segundo, porque nosso personagem se interessa por textos deliciosamente inúteis numa sociedade viciada pela informação. Portanto, esta coluna sempre se escreve em tributo ao leitor desconhecido.
O ombudsman é tão adorável quanto qualquer figura que faça mediação de disputas. É tão querido quanto um árbitro de futebol que, embora honesto e experiente, perdeu o condicionamento físico para correr um clássico. Apenas não pense que, diante de tais contingências, ele vá deixar de intervir quando possa. Faz parte do jogo.
Arrolar deslizes e reclamações exige cautela. Muito assunto de interesse público ainda se converte em discussões pessoais ou em fantasias de conspiração graças ao fato de que, no Brasil, o espírito da Inquisição tenha chegado antes do espírito da imprensa. Tradição que foi renovada a cada geração, como na época em que era aberto concurso público para contratação de censores de jornal.
Um ombudsman deve ignorar fuxicos, picuinhas, solilóquios e experiências catárticas alheias a fins estéticos. A sua missão passa por sugerir a autocrítica e por destacar o papel dos leitores em uma publicação – mostrar que eles são tão importantes quanto quem produz o meio e a mensagem. Sem mais rodeios, vamos começar nossa prestação de contras.
Oito páginas a menos
Uma em cada quatro páginas do RelevO desaparece. Em números absolutos: cortam-se oito páginas em favor de 500 exemplares extras (aumento de tiragem de 16%). Segundo os produtores do jornal, a perda de espaço será compensada com maior qualidade dos textos.
Uma diminuição de 25% do tamanho do jornal implica necessariamente em: (a) menor quantidade de autores; (b) menor tamanho de textos; (c) as duas opções anteriores. Ao recuperar a trajetória do jornal, constata-se que ele começou com 8 páginas, em outubro de 2010. Lá por 2013, ele teve 12 e, depois, 24 páginas. Em 2014, no período em que o Brasil comentava a queda do avião do candidato presidencial Eduardo Campos, o RelevO circulava com 32 páginas.
“Promover novos autores, abrir espaço aos cronistas sem jornal, aos cronistas que, cada vez menos, detêm espaço nas linhas editorais modernas” – destaco esse trecho do editorial da primeira edição para dialogar com você, leitor. A pergunta é: se os gastos em gráfica permanecem os mesmos, cortar oito páginas lhe parece uma escolha editorial acertada? Aumentar a relação “texto enviado / texto publicado” reforça ou fragiliza o compromisso de divulgação dos “cronistas sem jornal”?
A perda de diversidade pode ser compensada por maior qualidade? Vinte e quatro páginas são suficientes para dar vazão aos autores que merecem publicação no jornal? Leitor, mande a sua resposta. Ainda que ninguém duvide que o RelevO inscreva a literatura na rotina de milhares de brasileiros, quero saber qual é a sua avaliação quanto ao novo horizonte de trabalho (Menos Espaço, Mais Qualidade).
O leitor quer saber
ENTREGA: cinco assinantes reclamaram de atraso nas entregas dos exemplares. A equipe responsável pelos despachos postais admite o erro; lentidão que foi agravada pelo indicativo de greve dos Correios. Protesto devidamente registrado, pois a leitura urge!
ERRATA: a pedido do colaborador Tiago Jonas, a nova edição publicará uma errata contendo o endereço da página Interzona. Motivo: indicar que houve republicação de conteúdo.
FALTA DE SITE: um leitor questionou a ausência de site e de opções online para fazer a assinatura do RelevO. Embora não haja porque ser contra a criação de um site, não se pode subestimar os gastos de manutenção de um portal. Já fui editor de publicação independente e esse tipo de pergunta me era comum. Porém, nem sempre o leitor observa que uma página virtual exige um excedente de capital e de trabalho – os quais já custam muito para o impresso chegar às ruas. Enquanto aguardamos novidades, o jeito é se contentar com os PDFs do Issuu. Quanto às opções de assinatura online, elas merecem atenção imediata. A partir de PayPal e sistemas semelhantes, muitas publicações e eventos têm conseguido maior sustentabilidade.
Evento “Literatura de confronto”
Uma vez que a visibilidade de novos autores importa ao RelevO, vale a pena conferir manifestações como o ciclo Literatura de Confronto. O evento foi sediado no Centro Cultural São Paulo durante os dias 18 e 20 de setembro. A convite dos escritores Márcia Denser e Ricardo Soares, cerca de 15 debatedores fizeram um diagnóstico crítico do circuito literário.
Os títulos das mesas-redondas dispensam comentários e deram o tom das discussões: (a) “Literatura de Confronto vs Literatura de Conforto: mercantilização, mediocrização e curriolização da literatura nos dias atuais”, (b) “O Vazio Crítico (A renovação da crítica – espaços vazios – ficção científica & outras) e (c) “Obra Aberta – Caminhos (Editores Independentes, Internet e Poesia Sempre)”.
“Não queremos excluir quem está em atividade. O que questionamos é a representatividade de quem fala em nome da literatura brasileira atualmente”, resumiu Ricardo Soares em sua fala de abertura. Para quem quiser saber mais do ciclo, os textos das palestras estão disponíveis no blog Escrita (escritablog.blogspot.com.br, no post do dia 02 de outubro).
Edição de setembro de 2015
Peter Jansz. Saenredam
Extraído da edição 20 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Peter Jansz. Saenredam – esse ponto no meio do nome não está errado –, foi um artista competentíssimo. Suas pinturas, via de regra interiores de igrejas, sobrevivem com fôlego desde o século 17, em boa parte graças à incrível perspectiva que o holandês conseguia ilustrar. Contribuem para a beleza de suas obras a redução das figuras humanas, meros figurantes de estruturas colossais, e a própria nudez de algumas igrejas já reorganizadas pelo protestantismo.
Filho de artista – as obras bíblicas de seu pai em nada se assemelham às de Pieter –, Saenredam vingou em Haarlem, onde estudou e desenvolveu sua aptidão arquitetônica na aquarela. (Em Assendelft, cidade natal, ele até pintou uma igreja com o túmulo do pai). Em seus quadros, nota-se uma exposição do espaço tão peculiar quanto encantadora: é possível se ver sentado ali, outro coadjuvante vivendo discretamente.
Dessa forma, torna-se um interessante exercício de comparação colocá-lo ao lado do conterrâneo Emanuel de Witte, cujas pinturas de interiores, também belíssimas, expressam (na luz, nas cores, nas pessoas) uma força totalmente diferente daquela demonstrada por Peter Jansz. Saenredam.
Para mais obras de Saenredam, clique aqui, ou aqui, ou aqui.
RelevO 5 anos: The best of ombudsman
Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.
Critérios de seleção: nenhum
Osny Tavares: março de 2014
É um tempo interessante para ser jovem. Tudo parece aberto à refundação e cada pequeno setor da vida abriga um comitê repleto de delegados a discutir até as cláusulas pétreas da vida. O que era automático, uma imposição da cultura sobre a qual não se refletia, torna-se um ato político. De mastigar um bife a torcer pela seleção brasileira na Copa, o indivíduo é desafiado pelos significados sociais de seus atos. O que é ótimo, pois parece um caminho necessário à lucidez.
Penso que a literatura, e principalmente do tipo que fazemos aqui, tenha um papel importante em estabelecer um conhecimento mútuo entre os atores. Por dois motivos: primeiro, o imediatismo do periódico mensal dedicado ao texto curto permite uma reflexão quente, mas já com certo arrefecimento de ânimos. Por vezes, a contagem de dez segundos é insuficiente para recuperar a ponderação. Em um mês, entretanto, é possível contar até 2,6 milhões.
Não defendo, claro, que o jornal se torne refém de uma pauta de acontecimentos imediatos e se preocupe em caricaturar o real em pseudoliteratura. Mas é inegável que os fenômenos que presenciamos atualmente representarão parte significativa de nossa identidade de época.
Lourenço Pinto: julho de 2014
Não há literatura sem leitores, assim como não há idolatria a David Luiz sem sérios problemas gerais de interpretação. Os textos, enfim, também melhoraram muito, sustentados por uma base maior de colaboradores, interessados e curiosos. O que começou como mezzo belo projeto, mezzo belíssimo pretexto para o editor enviar e receber poesia de belas mulheres, já se transformou em mezzo belo projeto, mezzo belíssimo pretexto para o editor enviar e receber poesia de belas mulheres, porém com maior qualidade no texto e, suponho, das mulheres (carece de fonte).
Whisner Fraga: dezembro de 2014
A questão que se levanta e que deve ter assustado todos os resenhistas de jornais literários é: até que ponto o crítico pode escrever o que bem entende de uma obra? Até que ponto o escritor pode se melindrar com uma resenha negativa? Bom, responder estas perguntas, quando ficam no âmbito pessoal, é fácil. Cada um faz o que quer quando o assunto se restringe a questões de frivolidade. O complicado fica para quando o autor decide levar a questão à justiça.
O escritor pode processar um resenhista que escreveu uma crítica depreciativa, mesmo que feita com argumentos razoáveis, dentro de parâmetros e pressupostos praticamente científicos? A resposta é sim. Existe advogado é para isso mesmo. E o juiz, como se portaria diante de uma demanda desse naipe? Como não tenho conhecimento de caso semelhante que tenha sido julgado em qualquer instância, não posso defender nenhum tipo de questionamento, a não ser que me causa muito estranhamento que um ficcionista ou poeta se posicione desta maneira.
Como, todavia, se trata de um caso fictício e como o jornal RelevO jamais passou por situação semelhante, venho publicamente me desculpar por esse texto completamente desconexo e inútil e pedir a todos os leitores e contribuintes deste conceituado periódico, que não deixem a literatura nunca chegar a este nível e que rechacem com veemência qualquer tentativa de ridicularizar uma arte que já deu ao mundo presentes como “Grande Sertão: veredas” e “Dom Casmurro”.
Carla Dias: junho de 2015
Compartilhar discos, filmes e livros com os amigos, não somente por meio de indicação ou empréstimo, mas também os presenteando com esses itens, faz parte da minha realidade desde que comecei a trabalhar.
Sim, faz tempo.
Independente do meio ou da linguagem, compartilhar gosto pode ser ação catedrática. Durante o processo, aprendemos que o que nos agrada pode ou não agradar ao outro. Ainda assim, é um processo que nos oferece a chance de conhecermos algo novo, como doador ou receptor do conhecimento.
A cada edição do RelevO, conheço alguém novo capaz de me fascinar, o que sempre é um prazer. Dessa forma, tenho dialogado com universos díspares e interessantes. É pessoal a tarefa de passar adiante aquilo que verdadeiramente nos toca e julgamos merecedor de um amigo conhecer. Em uma época em que falar mal é praticamente rotina, passar um gosto adiante pode trazer frescor ao espírito de muitos.
Deposição de Cristo, Pontormo
Extraído da edição 18 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A Deposição de Cristo, de Pontormo, sem dúvida figura entre as pinturas mais importantes do Cinquecento Italiano. Finalizada em 1528, ela apresenta basicamente tudo que uma pintura maneirista deve ter:
- Corpos flutuantes. As leis da física não interessam aos maneiristas. A Renascença teve seu pico na virada do século com Da Vinci — a natureza já havia sido domada, estudada, reproduzida e o celestial volta a ter seu lugar. Poses e cenas impossíveis são o charme da obra. O que dizer do moço segurando Jesus enquanto se apoia em três dedos do pé?
- Emoção, intensidade. Após a serenidade da Alta Renascença, há um movimento em direção a cenas mais dramáticas. Os rostos são altamente detalhados e os olhares de cada personagem encaminham a visão para uma foco distinto.
- Cores. A liberdade artística também se traduz em cores mais experimentais. Tons de rosa, verde e azul são usados quase como uma segunda pele, com um objetivo mais decorativo que descritivo. Mesmo em quadros mais formais, pode-se observar um protagonismo de cores fortes, ou simplesmente fora do padrão.
- Corpos retorcidos (e distorcidos). Mesmo caso do primeiro item. A beleza é mais importante que a precisão. Com isso vêm os pescoços e dedos compridos, as colunas tortas, os corpos alongados e a confusão de mãos da Deposição.
- Organização. Apesar de o Maneirismo ser um movimento de quebra, algo da formalidade das composições foi mantido. Analisando a Deposição, é fácil se perder em meio a tanto movimento e tantos personagens, mas ainda assim é possível identificar um triângulo, formado pelos rostos da Virgem e dos dois seres que levantam Jesus. Além de enquadrar o personagem principal, essa disposição traz equilíbrio e rigor à tela. Outro exemplo – do mesmo Pontormo – é a Ceia em Emmaus.
- Por último, mas não menos importante: um Jesus ruivo.
