Baú: Ben Macintyre

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Abwehr (que literalmente significa “defesa”) tinha reputação de ser o mais eficiente serviço de inteligência da Europa. Uma primeira avaliação do MI5, o serviço de segurança que controlava a contraespionagem no Reino Unido e em todo o império britânico, descreveu a Abwehr como “organização de primeira classe em treinamento e em pessoal”. Essa estimativa era claramente lisonjeira. Um dos aspectos mais importantes do serviços da inteligência nos países era como cada lado sabia pouco sobre o outro. Em 1939, o SIS, serviço secreto de inteligência britânico (também conhecido como MI6 e que opera em todas as áreas fora do território britânico), não sabia como o serviço de inteligência militar alemão se chamava e nem quem o dirigia. Em uma autoavaliação franca, escrita depois do fim da Segunda Guerra, o MI5 reconheceu que “na época da queda da França, a organização do serviço de segurança como um todo estava num estado que pode ser descrito apenas como caótico (…) tentando desenvolver meios de detectar agentes inimigos sem qualquer conhecimento interno de organização alemã”.

A Abwehr se encontrava igualmente mal preparada. Hitler não havia esperado ou desejado entrar em guerra com a Inglaterra, e a maioria das operações de inteligência dos nazistas era dirigida para o leste. A rede de espionagem da Abwehr na Inglaterra era virtualmente inexistente. Quando os dois países se enquadraram para o conflito, uma estranha dança de sombras se iniciou entre os serviços de inteligência rivais: ambos começaram a construir freneticamente redes de espiões, quase que do zero, para uso imediato. Cada um atribuía ao outro extrema eficiência e preparativos bem adiantados, e ambos estavam errados.

Ben Macintyre, Agente Zigzag, 2007 (Ed. Record, 2010).

Baú: hippies em Woodstock (Ayn Rand)

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Antimaterialistas declarados cuja única manifestação de rebelião e individualismo toma a forma material das roupas que escolhem vestir são um espetáculo ridículo. De todo tipo de inconformismo, esse é o mais fácil de praticar – e o mais seguro.

Mas mesmo nessa questão, existe um componente psicológico especial: observe as roupas dos hippies. Não têm o objetivo de deixá-los atraentes, mas sim grotescos. Não têm o objetivo de despertar admiração, mas sim escárnio e pena. Ninguém se faz parecer uma caricatura a não ser que queira que sua aparência implore: “por favor, não me leve a sério”.

(…)

Seus encantamentos histéricos de adoração do “agora” eram sinceros: o momento imediato é tudo o que existe para a mentalidade de nível perceptivo, vinculada ao concreto, animalesca: compreender “amanhã” é uma enorme abstração, uma façanha intelectual disponível apenas ao nível conceitual (ou seja, racional) da consciência.

Ayn Rand, palestra “Apolo e Dionísio”, 1969. Tradução nossa.

Baú: economia budista (E.F. Schumacher)

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Enquanto o materialista está fundamentalmente interessado em bens, o budista está interessado em liberação. Mas o budismo é “caminho do meio”, portanto de maneira nenhuma antagônico ao bem-estar físico. Não é a riqueza que se antepõe à liberação, e sim o apego à riqueza; não a fruição das coisas agradáveis, e sim a “fissura” por elas. A chave da economia budista, portanto, é a simplicidade e a não violência. De uma perspectiva econômica, a maravilha do modo budista de viver é a racionalidade última do seu padrão – o agradavelmente menor levando a resultados extraordinariamente satisfatórios.

Para um economista moderno isso é uma coisa muito difícil de entender. Ele está acostumado a medir o “padrão de vida” por quantidades de consumo anual, tendo como certeza indiscutível que o homem que consome mais “é superior” ao homem que consome menos. Um economista budista consideraria esse enfoque excessivamente irracional: desde que o consumo é apenas um meio para o bem-estar do ser humano, o objetivo deveria ser obter o máximo de bem-estar com o mínimo de consumo. Portanto, se o propósito da roupa é obter uma certa quantidade de calor e uma aparência atraente, o desafio é conseguir isto com o mínimo de esforço possível, isto é, com a menor destruição anual de roupas possível e com o auxílio de um design que envolva a menor destruição possível. Quanto menos destruição tiver provocado, mais está liberado para o esforço da criatividade artística. (…) O que acaba de ser dito sobre roupas se aplica igualmente a qualquer uma das necessidades humanas. A propriedade e o consumo de bens são um meio para atingir um fim específico, e a economia budista é o estudo sistemático de como atingir determinados fins com a menor utilização de recursos. O agradavelmente menor levando a resultados extraordinariamente satisfatórios.

A economia moderna, por sua vez, considera o consumo como o único e válido objetivo de toda a atividade econômica, tomando os fatores de produção – terra, capital e trabalho – como meros meios. A primeira, em resumo, tenta maximizar as satisfações humanas pelo padrão ótimo de consumo, enquanto a última tenta maximizar o consumo pelo padrão ótimo do esforço produtivo. É fácil perceber que o esforço necessário para sustentar um modo de vida que busca atingir o padrão ótimo de esforço produtivo é obviamente muito menor do que aquele dispendido para sustentar um sistema que quer atingir o máximo de consumo. Não devemos ficar surpresos, pois, que a pressão e a tensão da vida sejam muito menores, digamos, em Burma do que nos USA, a despeito do fato de que a quantidade de máquinas poupadoras de trabalho usadas no primeiro país seja infinitamente menor do que no segundo.

Simplicidade e não violência estão obviamente ligadas bem de perto. O padrão ótimo de esforço produtivo, que é produzir um alto grau de satisfação humana com uma taxa relativamente baixa de consumo, permite às pessoas viver sem grandes pressões e tensões, e as possibilita preencher a injunção básica do ensinamento budista: “pare de fazer infernizações, tente fazer o bom”. Uma vez que os recursos naturais são limitados em todas as partes do mundo, as pessoas usando esses recursos para satisfazer suas necessidades de forma modesta com certeza estarão menos propensas a agarrar as gargantas uns dos outros do que aquelas que dependem de uma maior taxa de utilização desses recursos. Igualmente, as pessoas que vivem em comunidades locais altamente suficientes estão muito menos propensas a se meter em violência em larga escala do que aquelas pessoas cuja existência depende de sistemas mundiais de comércio.

E.F. Schumacher, Economia budista, 1966. Tradução: Luiz de Rezende Puech, 2006.

O escritório onde gostaríamos de procrastinar…

…ou até trabalhar. Elegantemente.

Extraído da edição 77 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A essa altura de 2020, qualquer comentário sobre 2020 é redundante, repetitivo; uma retroalimentação entre cansativo e cansado. A Enclave te poupará (mas, principalmente, se poupará) de qualquer análise.

Mas houve bons momentos em 2020, naturalmente. Entre aqueles agradáveis e singelos na vida do editor, consta a descoberta acidental de um livro sobre o arquiteto Frank Lloyd Wright (Wright, 2006) escrito por seu aprendiz Bruce Books Pfeiffer (1930-2017) e editado pela Taschen.

O livro foi traduzido para o português (de Portugal), então distribuído no Brasil pela Paisagem. Não sei como foi parar no canto escuro de um sebo pouco charmoso do centro de Curitiba, onde eu havia entrado para buscar outra encomenda e, com a adição de 18 reais, saí com duas. (Aparentemente, ainda há opções baratas no mercado.)

De acordo com a folha de rosto, Wright: construir para a democracia foi impresso em Singapura, o que, em outra descoberta acidental, nos liga à última Enclave. Pois bem, se semana passada sonhamos com coquetéis no Atlas Bar, hoje trazemos a matriz da SC Johnson em Racine, Wisconsin (EUA).

Finalizado em 1939, o edifício contém esse escritório que você vê na abertura do nosso texto. Mas a criação de Wright vai muito além do escritório (embora este nos cative mais no atual momento): o edifício, complementado por uma torre de pesquisa em 1950, é tão singular como encantador, interna e externamente.

Segundo Pfeiffer (p. 57), “Na sala de trabalho principal, uma floresta de finas colunas brancas de betão eleva-se para se abrir em cima e formar o tecto, sendo os espaços entre os círculos cheios de clarabóias feitas de tubos de vidro. Nos cantos, onde as paredes normalmente encontram o tecto, estas param um pouco mais abaixo, sendo continuadas por tubos de vidro que se ligam às clarabóias”.

O Arch Daily descreve o Johnson Wax da seguinte forma:
  • “Estar no edifício é um pouco como estar em uma floresta. Um estacionamento mais baixo, com colunas menores, leva ao saguão. Quando alcança-se a Grande Sala, o céu se abre e você está cercado por esbeltas colunas cogumelos e raios de luz. (…) Wright forneceu espaço de trabalho quase utópico, auto-suficiente e um tanto quanto futurista. A atmosfera moderna e racional foi comunicada através de uma linguagem circular consistente, perfis de canto curvos, formas arredondadas em peças de mobiliários e o uso do vidro Pyrex, que se estendem além dos materiais de cobertura para divisórias de paredes e substituem as janelas convencionais.”

Tal como o bar em Singapura, as fotografias são autoexplicativas. Nesse escritório, gostaríamos de usar o YouTube, reclamar da falta ou do excesso de ar-condicionado, decidir onde almoçar, ouvir fofocas sobre o alto escalão corporativo (sem fomentá-las!), isto é, tudo aquilo que se faz num escritório.

Esta página institucional da SC Johnson contém um histórico e mais fotos, algumas bastante preciosas. O Atlas of Space, por sua vez, dispõe imagens inestimáveis aos interessados – em alta resolução. Dele, extraímos as fotografias no miolo deste texto. Outra página do Arch Daily (aqui, em inglês) apresenta mais imagens e mais detalhes da construção.

Baú: H.P. Lovecraft por Houellebecq

Extraído da edição 77 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Incapaz de deixar uma carta sem resposta, [H.P. Lovecraft] evitava seus devedores quando seus trabalhos de revisão literária não lhe eram pagos. Subestimando sistematicamente sua contribuição a novelas que, sem ele, nem sequer teriam sido publicadas, Lovecraft se comportará durante toda a sua vida como um autêntico gentleman.

De certo ele gostaria de se tornar escritor. Mas não se além a isso. Em 1925, num momento de desânimo, ele observa: “Estou quase decidido a não escrever mais contos, mas simplesmente sonhar quando estiver disposto a isso, sem me ater a uma coisa tão vulgar como transcrever meu sonho para um público de porcos. Concluí que a literatura não é um objetivo conveniente para um cavalheiro; e que a escrita deve sempre ser considerada uma arte elegante à qual devemos nos dedicar sem regularidade e com discernimento.”

Felizmente, ele continuará seus escritos, e seus melhores contos são posteriores a essa carta. Mas, até o fim, continuará sendo sobretudo um “velho gentleman benevolente, nativo de Providence (Rhode Island)”. E jamais, em tempo algum, escritor profissional.

Michel Houellebecq, H.P. Lovecraft: contra o mundo, contra a vida, 1991 (Ed. Nova Fronteira, 2020).

Atlas Bar, onde gostaríamos de encher a cara

Extraído da edição 76 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Fechamos este texto na sexta-feira à tarde, portanto não estranhem o conteúdo na segunda pela manhã.

Até porque 9h da manhã em Brasília são 20h em Singapura (com s), onde gostaríamos de estar – com ou sem chiclete – neste momento. Mais especificamente no imponente Parkview Square, mais especificamente no Atlas Bar.

Primeiro, o edifício. Inspirado no Chanin Building – este construído no fim da década de 1920 em Nova York –, o Parkview exala uma sofisticação art déco parte Gatsby, parte Gotham City, parte banda de jazz, parte Bioshock, parte possível excesso brega porém saudável.

Com 144 metros de altura, é apenas o 80º prédio mais alto de Singapura, mas certamente um dos mais fascinantes. Fica pertinho (5 minutos de carro, segundo o Google) do megalomaníaco Marina Bay Sands, um complexo difícil de resumir, fácil de enxergar e propício a gastar dinheiro – isto é, se você tem algum. O Parkview Square ficou pronto em 2002.

Nele, brilha o Atlas Bar, mais bem representado por imagens do que por palavras (aliás, mais fotos no Cool Hunter, de onde tiramos a primeira). Ele é, enfim, o bar onde gostaríamos de encher a cara elegantemente.

E é isso aí. A Enclave de hoje é bastante autoexplicativa.

Ok, é claro que dinheiro não traz necessariamente elegância (“a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”, Paul Valéry), o que não significa que ele a impeça. O Atlas Bar é o tipo de ambiente que faz você querer se vestir como um personagem de Mad Men; sua imponência intimida com reverência, não desdém.

E aquele acervo…

O bar dispõe de um dos maiores acervos de gin (com n ou m) do mundo, talvez o maior. É tão grande que os funcionários têm que basicamente voar para pegar certas garrafas (ou tinham, não sei confirmar se essa logística permanece). Entre as raridades, há até champanhe resgatado de naufrágio (e servido no Titanic, mas não resgatado de lá – aliás, eis aqui um belo vídeo do acervo do Atlas).

Mas esses materiais estupidamente caros nos interessam menos. Os apenas muito caros nos cativam mais, então quem dera sentar-se nesse salão espaçoso, sentir-se um espião na Guerra Fria (em plena “Disneylândia com pena de morte“) e saborear um lindo, refrescante e inflacionado whisky sour sob a meia-luz dos desejos – caros demais, distantes demais, inconvenientes demais – materializados.

Ah, segundo o site oficial, é proibido entrar de bermuda e/ou chinelo.

Baú: Sérgio Cabral

Extraído da edição 76 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

(…) Assim, no dia 10 de julho de 1958, João Gilberto estava no estúdio gravando Bim-bom e Chega de saudade. Ou melhor, terminava, finalmente, a gravação, pois os depoimentos do pessoal envolvido no disco só discordavam sobre o número de dias que os músicos tiveram de voltar ao estúdio para que tudo saísse exatamente como João Gilberto queria. Para o baterista Juquinha, a gravação durou um mês. Começou pela insólita (para os padrões da época) exigência de ter um microfone para a voz e outro para o violão. O arranjo de Tom Jobim para Chega de saudade, embora bem mais leve do que o que escrevera para o disco de Elizeth Cardoso (a partir da introdução, com o predomínio da magistral flauta de Copinha), foi “aparado” diariamente por João Gilberto. Vários compassos de violino, viola e celo desapareceram do arranjo. Mas João não ficou satisfeito nem com o pouco que restou: quando entravam as cordas, ele fazia aquela cara típica de quem ouve, por exemplo, o som de uma faca afiada tentando cortar uma pedra. Tudo indicava que se arrepiava todo. Para Tom Jobim foi um exercício de paciência muito importante para as gravações que estavam por vir. Mas, para João Gilberto, o que ficou foi uma lembrança cheia de ternura, como revelaria à revista Veja, logo depois da morte de Tom: “Lembro-me dele na gravação de Chega de saudade. Ele estava na cabine e eu no estúdio. Tom estava olhando. Tinha os olhos emocionados, entusiasmados”.
O disco foi lançado pela Odeon no suplemento de agosto de 1958. Algumas versões do lançamento são bastante conhecidas, como a reação de Osvaldo Guzonni, chefe de vendas de São Paulo, que convocou os demais vendedores para ouvir o disco de maneira pouco ortodoxa: “Ouçam a merda que o Rio de Janeiro nos manda”. Depois da audição, espatifou o disco no chão. O curioso é que foram feitas tentativas para desmentir o fato, mas o próprio Guzonni se encarregou de confirmá-lo inúmeras vezes, sempre rindo muito da gafe que cometera.

Sérgio Cabral, Antonio Carlos Jobim: uma biografia, 2008 (Ed. Lazuli; Companhia Editora Nacional).

Sandro Moser: Cartas na rua

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


No começo da carreira convivi com um jornalista da antiga que tinha fama (exagerada) de polemista e vivia em guerra aos leitores que escreviam cartas à redação. “Escrever para um jornal é a pior forma de solidão”, repetia. Sua rotina sadomasoquista começava com desaforos matinais aos críticos até o dia em que desafinou com a pessoa errada (“vá chupar o pau do Felipão”), o que lhe custou o emprego.

Em geral, os leitores são odiados pelas publicações. Em especial, quando cobram erros e posições. Não acontece neste RelevO, que, se pudesse, levava cada um de seus leitores para jantar fora. Aqui, não há a figura do editor que responde as reprimendas com ironia arrogante. A maioria das publicações que precisam de assinantes mantém um.

Em revistas como Mad, Placar e Piauí — para falar de tempos e públicos diferentes —, a voz que confrontava os leitores era uma das mais lidas. No Pasquim, Henfil e Jaguar, estrelas da companhia, faziam este trabalho.

O RelevO terceiriza a função ao seu ombudsman, órgão impessoal e transitório, que deveria fazer a defesa dos interesses dos leitores expressos principalmente em suas cartas, mas hoje falha por inépcia e preguiça. 

Na edição de novembro, porém, uma carta se destaca. A leitora Rosilene Gomes, com a gravidade de sua prosódia lusófona, faz a pergunta fatal: “Boa tarde !! podes me dizer o que é o Relevo ?”

Que grande questão. Existencialismo no Estácio. Não pode ficar sem resposta. 

Em parte, o editorial se ocupa de respondê-la: um jornal literário sem mecenas e que não encosta em dinheiro púbico. E que, portanto, não precisa lamber botas e puxar sacos. Nem se fazer de descolado para agradar ninguém. E que às vezes (pode, por que não?) é paneleiro, desagradável, pornochanchável. Abre páginas para quem não escreveria em nenhum outro lugar e fecha para quem mais queria aparecer. 

É uma amálgama desigual que mistura textos de hierarquia como os de Ranieri Carli, Racuel de Queiroz e do grande Rodrigo Madeira a outras prosas mais juvenis. Assim é que deve ser à “moda do lobo, sem amigos, sem mulher e filhos”. Termino destacando as páginas das duas poetas Julia Raiz e Maria Luiza Artese, que me foram apresentadas aqui e torcendo para que este ano de merda termine sem matar mais amigos meus.

Polvos!

Extraído da edição 75 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


I’d like to be under the sea
In an octopus’ garden in the shade

Quando alguém recomenda um documentário da Netflix, torcemos o nariz. Não é preconceito, é heurística defensiva. A Enclave abriu uma exceção para Professor Polvo (2020) por gostar muito de polvos, embora nunca tenha encostado em um (muito menos comido).

Polvos são animais absolutamente fantásticos. Adaptam-se de maneira inacreditável, pois mudam de forma e de cor; regeneram-se; produzem e soltam tinta; movem-se com elegância (nadando ou caminhando); são discretos e mortais como um espião em plena guerra e dispõem de uma capacidade assustadora de aprendizado.

Em razão de todos esses atributos, nossos cefalópodes favoritos protagonizam fugas extraordinárias: basta fuçar o Youtube. Como o polvo Houdini; o que vai do balde à água; o que sai da garrafa de cerveja e o que surpreendeu os pesquisadores (olha só, existe uma Octolab TV…). Também podemos ver um polvo – a princípio – sonhando.

Tragicamente, polvos vivem muito pouco: machos sobrevivem poucos meses após o acasalamento; fêmeas morrem após os ovos chocarem – são dezenas de milhares, em um processo que leva meses, durante o qual ela se concentra em protegê-los e não se alimenta. Se o conhecimento passasse entre gerações, quem sabe hoje a humanidade louvasse apenas Cthulhu.

Enfim, o documentário. Chegamos atrasados a ele, mas isso não nos incomoda. Professor Polvo, afinal, acompanha um sujeito que ganha a confiança de um polvo, um ser notavelmente antissocial. Melancólico – e, agora, motivado –, Craig Foster passa a mergulhar diariamente na Baía Falsa, próximo à Cidade do Cabo, África do Sul, para visitar a nova amiga.

Uma resenha positiva com a qual compactuamos pode ser lida no Plano Crítico (e uma de espantosa má vontade, no Papo de Cinema). Da primeira, extrairemos este parágrafo:

A impressão que temos ao assistir Professor Polvo é a de que estamos mergulhando junto com ele. Sem cair no sensacionalismo típico das produções documentais voltadas ao desvendar da vida marinha e suas espécies, o documentário é pura poesia e se aproxima muito do trabalho realizado em Oceanos. Não há momentos frenéticos, tampouco ferrões musicais para acompanhar a passagem dos tubarões que ocasionalmente aparecem para os seus rituais de caça. Aqui, a beleza está na observação do polvo, suas estratégias de caça, numa narrativa que busca acompanhar o seu processo ainda ‘minúsculo’ até a fase adulta, com o desfecho de sua vida por causas naturais. Há momentos de tensão, principalmente quando uma espécie de tubarão decide escolher o tentacular animal como parte de sua dieta, mas não é preciso dizer que o nosso ‘protagonista’ sai vivo da situação e se permite ser parte da encenação desta produção audiovisual que é um primor em seus requisitos estéticos.

Entre uma ou outra pieguice (nada abusivo), contemplamos um documentário de imagens belíssimas e cenas tão impactantes que, não tivessem sido capturadas, poderiam soar como história de pescador (e não mergulhador). Além disso, o protagonista é bastante sóbrio. Isto é, o humano. Não posso falar pelo polvo.

O fato de Foster ser diretor de cinema (antes mesmo deste documentário, cuja direção nem é dele, mas de Pippa Ehrlich e James Reed) certamente o ajudou a manejar a câmera em contextos extraordinários. Aliás, ele começou a mergulhar na região em 2010: Professor Polvo levou dez anos para ficar pronto.

Eis um filme, enfim, capaz de aquecer corações machucados e despertar cabeças cansadas.

Aliás, a criatura esplêndida na imagem de abertura deste texto (alta resolução aqui) é um polvo-lençol. Neste vídeo podemos ver um em movimento: apesar da ausência de trilha sonora, ele parece dançar uma valsa de Strauss.

Baú: Nassim N. Taleb

Extraído da edição 75 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Há vezes em que gosto de ser enganado pelo acaso. Minha alergia à tolice e à verborragia se dissipa quando se trata de arte e poesia. Por um lado, tento me definir e me comportar oficialmente como uma pessoa hiper-realista e direta esquadrinhando o papel do acaso; por outro, não tenho escrúpulos em condescender com todo tipo de superstição pessoal. Onde traço o limite? A resposta está na estética. Algumas formas estéticas apelam para algo genético em nós, quer se originem ou não de associações aleatórias ou de simples alucinações. Alguma coisa nos genes humanos é profundamente tocada pela nebulosidade e ambiguidade da linguagem; então, por que lutar contra isso?
(…)
Até mesmo os economistas, que em geral encontram meios abstrusos de escapar completamente da realidade, estão começando a compreender que o que nos faz pulsar não é, necessariamente, o contador que temos dentro de nós. Não precisamos ser racionais e científicos quando se trata da vida diária – apenas nas coisas que podem nos causar mal e ameaçar nossa sobrevivência. A vida moderna parece nos convidar a fazer o oposto: nos tornar extremamente realistas e intelectuais quando se trata de assuntos como religião e comportamento pessoal, e tão irracionais quanto possível quando se trata de mercados e assuntos comandados pelo acaso. Tenho encontrado colegas, gente “racional”, direta, que não compreende como adoro a poesia de Baudelaire e Saint-John Perse ou escritores obscuros (e muitas vezes impenetráveis) como Elias Canetti, Borges ou Walter Benjamin. Contudo, ficam vidrados ao ouvir as “análises” de algum guru na televisão, ou ao comprar ações de uma empresa sobre a qual não sabem absolutamente nada, com base em dicas de vizinhos que dirigem carros de luxo. O Círculo de Viena, ao destroçar a filosofia verborrágica estilo Hegel, explicava que do ponto de vista científico era puro lixo, e do ponto de vista artístico era inferior à música. Preciso dizer que acho Baudelaire muito mais agradável do que o noticiário da CNN ou George Will.
Há um ditado iídiche que diz: Se sou forçado a comer porco, que seja da melhor qualidade. Se vou ser enganado pelo acaso, melhor que seja do tipo mais belo (e inofensivo).
Nassim Nicholas Taleb, Iludidos pelo acaso, 2004 (Ed. Objetiva, 2019).

Os hiperlinks de Nabokov

Extraído da edição 74 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Fogo Pálido (1962), de Vladimir Nabokov, é um dos livros favoritos desta newsletter. Sua estrutura pode parecer pouco convidativa, mas sua leitura é proporcionalmente encantadora. Trata-se de um romance dividido em quatro partes: prefácio; poema (“Fogo pálido”) de 999 versos; comentário ao poema e índice remissivo.

O personagem John Francis Shade assina a obra poética; o personagem Charles Kinbote, as outras. Acontece que Shade foi assassinado logo antes de completar o milésimo e derradeiro verso de “Fogo Pálido”. Kinbote, seu autointitulado “amigo íntimo, consultor, editor e comentador literário”, responsabiliza-se por analisar a obra.

A partir disso, testemunhamos a epítome do narrador pouco confiável, uma constante carta na manga de Nabokov (vide O olho e A verdadeira vida de Sebastian Knight).

Afinal, Kinbote é um comentador histriônico. Oriundo da fictícia Zembla, ele enxerga no poema – apesar de “deliberadamente e drasticamente escoimado de minhas contribuições” – referências claras à sua terra natal, convicto de ter convencido um entediado Shade a incluí-las.

Esses elementos compõem as dores e delícias de Fogo Pálido, livro capaz de fornecer mais dúvidas do que certezas. Engraçado, trágico e cheio de detalhes (o índice remissivo não deve ser ignorado), o romance nos lega outra dúvida: como lê-lo? Afinal, versos levam a notas, que levam a outros versos ou notas, que etc. Dispomos de vários caminhos!

Fogo Pálido não é simplesmente “não linear” – o curso tradicional de leitura não é necessariamente menor que qualquer outra abordagem. Como bem definiu Espen Aarseth, o livro é muito mais multicursal – a exemplo da (hipertextual) navegação na internet.

Não por acaso, Ted Nelson, criador do termo “hipertexto”, tentou adaptar Fogo Pálido a um formato de hiperlinks em 1969, na busca por fornecer uma demonstração do fenômeno que ele havia registrado em 1965: “permita-me apresentar a palavra ‘hipertexto’ para significar um corpo de materiais escritos ou pictóricos interconectado em uma maneira tão complexa que não poderia ser convenientemente apresentada ou representada em papel”.

Hoje, existem pelo menos seis versões hipertextuais de Fogo Pálido, de acordo com Simon Rowberry, professor da Universidade de Stirling. Páginas na internet permitem navegar por meio de cliques entre as notas fornecidas por Nabokov (aqui um exemplo).

Rowberry também é responsável pelo gráfico na abertura deste texto (em alta resolução aqui), que salienta as conexões internas do romance. Segundo ele, há 504 referências explícitas na obra: 37% delas levam ao poema; 63%, a outras notas.

Nabokov costurou Fogo Pálido com engenhosidade abismal. Isso por si só não transformaria o romance em uma obra-prima: é necessário conteúdo para corresponder a essa forma. Mas este lado – que malemal pincelamos – ficará para outro dia. Adiantamos que, sem dúvidas, trata-se de uma obra-prima.

Baú: Nelson Gonçalves

Extraído da edição 74 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

PLAYBOY – Mas foi em São Paulo que você foi preso.
NELSON – Foi, mas a intenção era parar. Fui, primeiro, para um hotel. Depois, comprei uma casa no Parque Continental, em Osasco. Em seguida, comprei uma casa no Brooklin. Fui preso nessa casa, em 1965.
PLAYBOY – Como aconteceu?
NELSON – A pessoa de quem eu comprava o pó me denunciou. Deixei de comprar dele e ele então foi à polícia, dizendo que eu tinha um quilo de cocaína em casa e que estava vendendo, o que era mentira. Os policiais arrombaram minha porta e me algemaram. Fiquei uma noite na delegacia e no dia seguinte fui para o Presídio Tiradentes. Um ou dois meses depois fui a julgamento e ficou esclarecida a história. Pude provar que não era traficante. De lá fui fazer tratamento numa casa de saúde e depois fui para casa, onde fiquei me recuperando.
(…)
Aluguei uma casa na Rua João Moura, em Pinheiros, me tranquei no quarto e joguei a chave pra minha mulher. Recebia a comida por baixo da porta. Se não fosse assim, ia cheirar de novo. Com acompanhamento médico, ficava o tempo todo dopado, para o meu organismo reagir à abstinência da droga. Amarguei o inferno durante seis meses. Dormia, no máximo, uns 20 minutos por noite, e ainda assim sentado. Até que um dia comecei a melhorar. Cheguei a dormir três horas seguidas. Comuniquei ao médico, que veio em casa e me receitou outros calmantes. Aí dormi bem, pela primeira vez em muito tempo. Acordei umas 6 da manhã, fui até o quintal e vi um padeiro entregando o leite, uma mulher varrendo a calçada. Foi a visão mais linda que eu já tive. Comecei a chorar. Pensei: “A vida está aqui”. Ganhei uma alma nova. Passei a fazer uns 20 shows por mês. A música foi minha terapia.
Nelson Gonçalves, entrevista à revista Playboy, 1998.

Sandro Moser: Só dói quando eu rio

Coluna de ombudsman extraída da edição de novembro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Uma das prerrogativas da minha função neste RelevO é ler todas as letras publicadas em suas 24 páginas de papel-jornal. Uma espécie de tara, manifesta na infância, me faz começar sempre pela última. A edição de outubro, portanto, “abre” com o lindo rondó de Paulo Cesar Pinheiro, musicado por Breno Ruiz. Já vale o ingresso. E me lembrou de um episódio com o poeta há algumas encarnações. 

No fervor dos vinte anos, esperando a hora de embarcar em algum dos grandes aeroportos do país, avistei o PCP. Na época, sua música fazia a minha cabeça — e confesso que ainda hoje faz. Com a coragem do tigre moço (e bêbado), anunciei-lhe, grave: “Poeta, estou indo a Cuba me integrar à revolução”. Ele entrou na brincadeira e respondeu: “Vá, mas volte. Pois o Brasil ainda está por fazer”. 

Desde então, este sentimento me persegue. De que tudo ainda está por fazer e a gente nem começou. Como quando a mudança desce da Kombi. Seria a hora de descansar, mas ainda é o momento do trabalho pesado. Enfim, só o jornal de papel proporciona estes momentos proustianos. O fato de o RelevO seguir de pé, depois do tiroteio de agosto e setembro, é sinal que algo está sendo feito. Mas vamos lá!  

Um leitor (Luiz Cláudio Lins) reclama da qualidade do projeto gráfico, demasiado amadora para seu gosto. Concordo em partes. Em algumas momentos, a diagramação é brilhante. Em outros, claramente apressada e desleixada. Imagino que colaboradores amorais como eu, que retardam o fechamento da edição até o último segundo, sejam uma das causas. De resto, o caos não me incomoda, mas entendo o desconforto do leitor. 

Na página 6, há um oportuno perfil do grande Adão Iturrusgaray ilustrado por seu genial material. Ótimo gancho com a questão do Abaporu. Texto bem feito, nas regras da arte. Faz sentido a presença de um humorista de escol, pois notei que o periódico está cada vez mais aberto ao humor. Vocês também flagraram esta “pasquinização”? Ou sempre foi assim e eu que ando meio desatento? 

Mesmo que na última linha do editorial o jornal diga que “está difícil rir de 2020”, com a paciência do corno contei quase 30% da edição ocupada com textos satíricos. Não é pouca coisa em um jornal que, até onde me lembro, se orgulhava de seus ensaios literários e de publicar ficção e poesia. 

Quem sabe, nosso editores estejam usando a lógica invertida do grande Nelson Sargento que diz que o “samba é triste para que a gente não seja”. De resto, são merecidos os elogios dos leitores à Enclave, que está redondíssima. Me despeço dizendo que vale a pena procurar o material do Algum Lucas na internet e que queria ler mais poemas lúbricos de Jess Carvalho.