Wilder vs. Chandler

Extraído da edição 68 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Pacto de sangue (Double Indemnity, 1944).

O filme Pacto de sangue (Double Indemnity, 1944), adaptação de uma excelente novela de James M. Cain (1943), marcou o cinema tão logo foi lançado. Ali se consagrava a estética do noir americano, levantando o sarrafo para inúmeros filmes que viriam a copiá-lo.

Pacto de sangue dispunha de uma colaboração estelar por trás das câmeras: ao diretor Billy Wilder, juntou-se ninguém menos que Raymond Chandler como roteirista. E se a qualidade do resultado era indiscutível, a produção contou com um entrave: Wilder e Chandler não poderiam ser mais diferentes um do outro.

Simplificando (talvez demais), a relação entre os dois parece representar o desconforto que emerge quando um extrovertido e um introvertido não se batem.

Wilder, nascido (Samuel) na Áustria-Hungria, era 18 anos mais novo e havia escapado da Segunda Guerra (sua família – de judeus poloneses –, não). Chandler havia lutado na Primeira Guerra e, apesar de nascido nos Estados Unidos, tinha formação (e personalidade tipicamente) inglesa, afinal havia vivido da infância até o início da vida adulta na Inglaterra.

Wilder afirmou que Chandler parecia um contador – e que o escritor carregava a acidez típica dos alcoólatras. O diretor era adepto de um certo antagonismo entre colaboradores. Segundo ele, “se duas pessoas pensam parecido, é como se dois homens puxassem o mesmo lado da corda. Se você vai colaborar, precisa de um oponente para equilibrar as coisas”.

Chandler, novo em Hollywood, detestava Wilder. Já respeitado pelo romance Sono eterno (1939) quando foi contratado pela Paramount, o escritor chegou a se demitir da produção, relatando uma série de reclamações à produtora a respeito do diretor. A mais curiosa certamente se referia ao fato de Billy Wilder usar uma bengala e apontá-la para o roteirista enquanto conversavam.

Em carta de 1950 a seu editor inglês, Jamie Hamilton, Chandler escreveu: “Fui para Hollywood em 1943 para trabalhar com Billy Wilder em Pacto de sangue. Foi uma verdadeira tortura, e provavelmente encurtou a minha vida, mas com essa experiência aprendi, sobre a arte de escrever para o cinema, tudo que eu era capaz de aprender, e que não é grande coisa.”

No romance A irmã mais nova (1949), Chandler claramente se utilizou da experiência para descrever o momento em que seu notável protagonista, Philip Marlowe, interage com um produtor de Hollywood:

Ele caminhou até um vaso alto e cilíndrico no canto da sala. Dali, tirou uma bengala de malaca, entre várias que havia. Começou a ir e voltar pelo tapete, balançando com habilidade a bengala, paralela ao pé direito.

Fiquei sentado, terminei meu cigarro e respirei fundo: ‘Tem coisas que só podem acontecer em Hollywood’, resmunguei.

Ele deu uma elegante meia-volta e me olhou. ‘Perdão?’…

‘Por exemplo: um homem aparentemente dotado de sanidade mental andando para lá e para cá dentro de casa, imitando o andar das pessoas de Piccadilly e segurando uma vara de domar macacos.’

Ele assentiu.

James M. Cain adorou a adaptação de seu romance. Público e crítica também: Pacto de sangue foi indicado em sete categorias do Oscar de 1945 e, muito mais importante que isso, consagrou-se na estética cinematográfica. Naquele mesmo ano, Chandler escreveu o ensaio “Writers in Hollywood“, no qual reclamou de sequer ter sido convidado para uma coletiva de imprensa sobre a produção.

Wilder respondeu “não o convidamos? Como poderíamos? Ele estava bêbado embaixo da mesa do [bar] Lucy’s”. Farrapo humano (The Lost Weekend, 1945), o filme seguinte do diretor, contou com Ray Milland interpretando o protagonista Don Birnam, um escritor alcoólatra.

HMS Dreadnought, chacota a estibordo

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Em 1910, a Marinha Real Britânica virou piada. Isso porque seu maior encouraçado teve a honra de receber o príncipe da Abissínia, o Império Etíope. A bordo do HMS Dreadnought, com toda a pomposidade que lhe era reservada, deleitavam-se quatro membros da realeza, guiados por dois funcionários do Ministério das Relações Exteriores. Nada de errado até então, exceto pelo fato de que a suposta delegação era apenas um grupo de amigos de rosto pintado, barba falsa, proferindo uma língua desprovida de sentido.

“Eu tive a ideia, mas a execução foi trabalho dos seis”, contou posteriormente Horace de Vere Cole, poeta que entraria para a história com suas brincadeiras arriscadas — ele já havia visitado Cambridge como um sultão de Zanzibar. Além de Cole, o grupo contava com Virginia Woolf, o pintor Duncan Grant e outros entes próximos ao famoso Bloomsbury Group.

Um telegrama previamente enviado avisava que os abissínios chegariam acompanhados por um secretário do governo. Apesar das barbas falsas e da pintura facial, o grupo — aceito como uma família real — só correu riscos mesmo quando teve que negar um banquete de luxo, pois parte da maquiagem já se apagava, ou, no caso das barbas, descolava.

Para se comunicar, eles falavam uma língua completamente improvisada, o que também gerou momentos de tensão. Nada que riscasse a credibilidade da delegação de brincalhões: eles passaram o dia no encouraçado e voltaram para casa vitoriosos. O mesmo não pode ser dito da Marinha Real Britânica, que se tornou motivo de chacota.

O grupo havia prometido não contar nada aos jornais, mas Cole, o fanfarrão-mor, contatou o Daily Mirror, enviando inclusive a foto que haviam tirado no Dreadnought. “Quando vi a foto no Mirror, não tive a menor dúvida de que ele havia repassado a história”, relatou Adrian Stephen, irmão de Woolf. Que rolê!

[Publicado originalmente na edição #17, em agosto de 2015]

Baú: Bertrand Russell

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Mas num homem idoso que conheceu as alegrias e mágoas humanas, e que atingiu alguma obra que estivesse propenso a realizar, o medo da morte é algo abjeto e ignóbil. A melhor maneira de superá-lo – ao menos assim me parece ser – é tornar seus interesses gradualmente cada vez mais amplos e mais impessoais, até que pouco a pouco os muros do ego se afastem, e sua vida se torne crescentemente fundida à vida universal.

A existência de um indivíduo deve ser como um rio – pequeno no começo, estreitamente contido em suas margens, e correndo apaixonadamente através de pedregulhos e quedas. Gradualmente o rio se alarga, as margens se afastam, as águas correm mais calmas, e no fim, sem uma quebra visível, as águas misturam-se com o mar; e sem dor perdem sua individualidade. O homem que, na idade avançada, pode ver sua vida dessa forma, não sofrerá com o medo da morte, pois o que é importante para ele continuará.

Bertrand Russell, Como envelhecer (em Retratos da memória e outros ensaios, 1956).

Sandro Moser: Uma dieta para perder assinantes

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Convido-os a deambular em retrospectiva nos três últimos meses deste RelevO. Neste setembro, na contramão de grande parte das publicações lítero-culturais do país, o jornal celebra uma década de circulação mostrando improvável vitalidade. A carteira de assinantes está em ascensão e, a partir desta edição, o jornal passará a remunerar seus colaboradores. 

Espertamente divulgado no final da edição de agosto, o jeton representa 10% do valor de uma bolsa emergencial da pandemia e terá como efeito imediato a melhora na qualidade dos textos, pois minha experiência mostra que um trabalho pago é pelo menos três vezes mais revisado do que um gratuito. Na edição de agosto, o ponto alto foi a reprodução, na página 6, da ótima HQ de Arnaldo Branco que escracha o papel infame da imprensa em nosso tempo, além de um bom conjunto de poemas e textos de reflexão sobre teoria literária, videogames e miséria existencial.

Ouvi críticas à página de humor. Alguns leitores a consideraram de “mau gosto adolescente” e “preconceituosa”. O texto não assinado, mas pleno das impressões digitais do autor, está mesmo situado antes da sobreloja na torre do humor, mas confesso, abestalhado, que gostei, justamente pelo tom velhaco e absurdo. 

Chegamos, pois, ao mês de julho quando um dos textos fez o RelevO perder um assinante. Para um jornal literário que destaca o nome dos apoiadores na página 1, é tão triste quanto ver fechar um bar centenário ou ver morrer um amigo. O agora ex-assinante pediu anonimato, mas explicou que desistiu do jornal em razão de um texto de “direita-fascista” da autora Greicy Bellin. Antes da despedida, ele declinou da oferta de uma possível réplica. 

Para quem não lembra, o texto de alguma forma exalta a capacidade de comunicação popular de um modelo de pensamento ideológico que não é nem o liberalismo juspositivista, nem o marxismo e suas derivações. 

Os editores reconhecem que o texto em questão está “fora da curva do jornal”, mas que a consequência de sua publicação parece sintoma da cosmovisão das redes sociais, onde há uma luta em andamento “entre o exercício de dissenso e o exercício de apagamento do diferente entre os iguais” e que, enfim, o RelevO é a “favor da dieta intelectual variada, mesmo quando não gosta de alguns alimentos”.

Em princípio, eu também sou. E acho que o texto em questão até faz boas reflexões sobre o “continente perdido” da filosofia contemporânea, mas entendo a aflição do leitor — que foi também a minha —, pois é uma chocante inversão de expectativa ler escrito a sério o nome de um autor nacional cuja a simples menção conspurca o apanágio que o RelevO construiu nesta década. 

Entendo que a casa tenha a coragem de servir conteúdo variado. Entre os leitores, quem tem estômago mais forte, come com farinha. Quem não tem, pode separar no canto do prato. Se vier sempre, os clientes podem não vir mais. É o preço de se estar em movimento neste tempo estranho e perigoso. E que venham dez anos mais. 

Economista e artista entram num bar…

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Marcos Vasconcellos, Roniquito Chevalier, Nelson Motta, Chico Buarque e Lucio Rangel. Foto/Arquivo Notibras.

Uma parte significativa do cânone artístico brasileiro foi produzida entre as décadas de 1950 e 1970, golpes e “milagres econômicos” concomitantes. Por sua vez, grande parte desse cânone foi produzida em um espaço geográfico bem delimitado: a zona sul da cidade do Rio de Janeiro (que, convém lembrar, foi a capital do Brasil até 1960).

Antes da comunicação digital e num Rio já segregado, mas ainda não tão populoso, nada mais natural que todo mundo se encontrasse em algum bar no fim da tarde pra tomar um chope porque, afinal, você está no Rio de Janeiro.

E é, de fato, o que acontecia: numa espécie de Friends da bossa nova, era bastante provável encontrar num bar como o Antonio’s, num happy hour de quinta ou sexta-feira, figuras como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos batendo ponto.

Um dos baluartes dessa boemia carioca dos bons tempos é uma figura que ficou menos conhecida que os artistas produtivos do entorno, mas que certamente deve tê-los inspirado (ou provocado, ao menos) com sua erudição e sua natureza absolutamente caótica: Ronald Russell Wallace de Chevalier, o Roniquito.

Economista de formação e talvez um dos intelectuais mais brilhantes de uma geração, Roniquito coleciona anedotas e é conhecido pela natureza dual expressada na comparação com o médico e o monstro de Stevenson: sóbrio, era Dr. Roni, um homem muito culto e gentilíssimo. Uma ou duas doses depois – e a biografia póstuma, mesmo comumente aliviando pro lado do alcoolista, dá conta de que ele bebia muito e todo dia –, transformava-se em Mr. Quito.

Daí em diante, era na base do berro: Roniquito apontava o queixo para alguma vítima incauta e abria fogo, ácido, um agente do caos, a voz embriagada no coro da tragédia carioca. Para Fernando Sabino, de certa feita, perguntou quem ele achava que fosse melhor: Sabino ou Nelson Rodrigues.

Sabino, querendo escapar de qualquer discussão, logo respondeu que Rodrigues era muito melhor que ele, naturalmente, ao que Roniquito respondeu: “Larga de ser bobo, Fernando. Quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”.

Como bêbado, também apanhou muito. Outra de suas histórias é a de estar apanhando de um brutamontes que, em cima dele caído, perguntou “Basta ou quer mais?” e recebeu a resposta “É claro que basta, imbecil!”.

Pelas anedotas, dá pra pensar que ele era só um bebum mala como os que frequentavam o finado Condor Bar e Lanches com o pessoal do RelevO. A diferença é que Roniquito leu tudo no original e sabia demais, embora não tenha escrito nada (ou talvez justamente por isso).

Paulo Francis, um de seus célebres amigos, conjectura que, talvez, uma pessoa com tanto talento e instrução passar a vida enchendo o rabo de álcool e criando situações das quais poderia sair muito injuriado fisicamente fosse uma viração de mesa desejada, em algum nível, por toda a intelligentsia brasileira: “nosso horror é de tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro seja mais adequada que ‘análises’.”

Roniquito trabalhou no Cepal, no BNH (onde não conseguiu se efetivar porque, em sua banca, demonstrou que a instituição iria falir em 15 anos se o modelo não fosse revisto; o tempo passou e o BNH continua vivo apenas na letra de uma música do Charlie Brown Jr.) e na Rede Globo, onde foi assessor de Walter Clark e cunhou a expressão aspone (uma sigla para ‘assessor de porra nenhuma‘).

Contundente e meio mala, Roniquito não passou incólume pela repressão do período ditatorial, mas conta-se que, bêbado, ele era tão eloquente que, certa vez, levado à 13ª DP, foi liberado mais rápido porque, além da ajuda de um tio, o delegado não aguentava mais seu discurso inflamado. Foi conselheiro de Carlos Lacerda e de Mário Henrique Simonsen, não sem antes debochar deles, o que fez com que fossem grandes amigos.

Na biografia escrita por sua irmã, Scarlet Moon de Chevalier, dedicada ao pessoal da comunidade do Orkut ‘Roniquito vive!’, outras tantas histórias e nomes dão corpo à lenda. Roniquito morreu em 1983, aos 46 anos, após alguns meses debilitado fisicamente por ter sido atropelado no caminho entre um bar e outro.

Algumas cirurgias depois, ele ainda se reuniu com arquitetos e urbanistas para reclamar da localização do Antonio’s, onde não conseguia entrar de cadeira de rodas: fosse do outro lado da rua, ele não teria sido atropelado.

[por Marceli Mengarda]

Experimento de Rosenhan: louco, eu?

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O experimento de Rosenhan, de David Rosenhan, é certamente um dos mais curiosos estudos entre publicações científicas sérias. Isso porque o trabalho, divulgado em 1973 sob o título Sobre ser são em ambientes insanos, apresentou um método bastante direto de questionar a própria validade do diagnóstico psiquiátrico.

Para tanto, oito pessoas – Rosenhan incluso –, foram aceitas em 12 manicômios diferentes nos Estados Unidos após simularem alucinações auditivas de vozes que proferiam palavras vagas. Entre profissionais da área e gente nada relacionada, nenhum continha histórico de distúrbios mentais, e todos usaram pseudônimos. A instrução para o experimento era clara: uma vez dentro, todos se comportariam da maneira mais normal, saudável possível, desde cedo alegando não ouvir mais voz alguma. O diagnóstico caberia às instituições.

Essas instituições, demograficamente variadas, levaram de sete a 52 dias para liberar todos os pseudopacientes, gerando média de 19 dias de estada. Todos foram devolvidos à sociedade com o diagnóstico de esquizofrenia em remissão, fato utilizado para Rosenhan argumentar como doenças mentais são tratadas como irreversíveis e estigmatizantes. Nenhum dos infiltrados foi descoberto, ainda que tenha havido suspeitas (por parte de outros pacientes, e não de funcionários). O autor não poupou críticas ao tratamento recebido pelos internados.

No ambiente do manicômio, segundo Rosenhan, é impossível distinguir o são do insano. Verdade ou não, a relação do ser humano com a validação subjetiva certamente ficou um pouco mais exposta.

(O artigo inteiro, em inglês.)

[Publicado originalmente na edição #21, em outubro de 2015]

Baú: Megan Abbott

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O hardboiled é diferente do noir, embora ambos sejam usados de maneira intercambiável. O argumento comum é de que os romances hardboiled são uma extensão do wild west e das narrativas pioneiras do século 19. A vastidão dá lugar à cidade, e o herói é geralmente um tipo de personagem derrubado, um detetive ou policial. No fim, tudo é uma bagunça e pessoas morreram, mas o herói fez a coisa certa ou algo próximo disso – e a ordem foi, até certo ponto, restabelecida. Law and Order é um ótimo exemplo da fórmula hardboiled em uma montagem contemporânea.

O noir é diferente. No noir, todo mundo é derrubado, e certo e errado não são claramente definidos – talvez nem mesmo atingíveis. Nesse sentido, o noir dialoga poderosamente conosco agora, quando certas estruturas de autoridade não fazem mais sentido e nos perguntamos: ‘por que nós deveríamos obedecê-las?’. O noir prosperou nos anos 1940, depois da Depressão e da Segunda Guerra, e nos anos 1970, com Watergate e o Vietnã, por razões similares.

Megan Abbott, LitHub, 2018.

Paga que dá tempo

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O RelevO começará a pagar seus escritores e escritoras a partir da edição de setembro. 135 edições depois, mais de 2000 pessoas publicadas, a uma edição de completar dez anos de existência, circulando mensalmente e de modo ininterrupto, finalmente começaremos a pagar os autores e autoras que publicarem no RelevO.

Não é uma remuneração de porte: R$ 60 por publicação, o equivalente a um ano de assinatura do jornal ou a uma boa oferta no Ifood. Contudo, esse é um passo importante na direção de valorizarmos mais a produção intelectual e fugirmos do regime de gratuidade, colaboracionismo e desvalorização da categoria. Passamos quase dez anos tendo o escritor, aquele que dá sentido ao nosso trabalho, como um colaborador, mandando muitos e-mails de negativas de publicação sem sequer oferecermos algo quando publicamos.

Agora vamos pagar quem publica conosco. Não vamos ter qualquer direito sobre o material do autor – vamos apenas pagar pelo direito de usá-lo – e não vamos aceitamos mais chamar quem publica conosco de colaborador.

Nossos passos sempre foram lentos e medidos. Acredito que a nossa estrutura conseguirá absorver os novos custos, em torno de 600 reais a mais por edição, principalmente por conhecermos tão bem quem nos financia e acredita em nosso projeto editorial. É um risco em tempos de crise sanitária e do setor cultural? Certamente. Mas tenha certeza de que para mim sempre foi difícil dormir sob um negócio que vem crescendo aos poucos e que sempre dependeu de quem escreve. É impossível não pensar no absurdo que é o negócio de escrever no Brasil. A lógica compulsória da gratuidade é terrível.

(E, bem, há projetos e projetos. O RelevO não remunerava antes porque realmente não conseguia: temos contas públicas na página 2 a comprovar isso, mas sei que tá cheio de tubarão do meio cultural que se especializa em precarizar o capital intelectual e constrói patrimônio assim, arregimentando colaboradores que trabalham de graça. Lembrando que não somos bancados por ninguém além de nossos próprios assinantes.)

Entramos, portanto, para a categoria das instituições que remuneram mal todo o seu capital intelectual envolvido. De acordo com nosso crescimento, vamos melhorar as remunerações. Obrigado a todos que nos proporcionaram isso tudo. Não teremos festa de comemoração, mas sou imensamente grato por estarmos aqui, vivos e contemporâneos. Considero este o passo mais importante da nossa trajetória de dez anos. Estou muito feliz mesmo.

Em tempo: quem quiser publicar conosco ou nos assinar pode entrar em contato respondendo a este e-mail. Mesmo com o site fora do ar, ainda temos acesso aos mais variados meios de pagamento.

por Daniel Zanella

Baú: Antonio Paim

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Em síntese, o Estado brasileiro é uma realidade extremamente complexa para esgotar-se em termos dicotômicos e admitir soluções simplistas.

A elite técnica, constituída no seio do Estado, corresponde a uma aspiração secular de nossa civilização. Tudo leva a crer, por isto mesmo, que não se trate de uma criação transitória.

É provável que seu conflito com a máquina patrimonialista tradicional não possa ser solucionado antes que sejam eliminados os múltiplos focos de pobreza ainda subsistente em nossa realidade social. Essa situação de carência, não se deve perder de vista, é que tem facultado uma sólida base social ao patrimonialismo brasileiro. Assim, o conflito e a tensão entre os técnicos e a burocracia estatal tampouco podem ser encarados como fenômenos transitórios.

Antonio Paim, A Querela do Estatismo, 1998, p. 157 (Senado Federal).

 

Não creio em mais nada

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Minha mãe provavelmente se envergonharia, mas apenas no último fim de semana conheci quem foi Paulo Sérgio (1944-1980) – o músico, não o atacante. (O atacante jogou com o Totti.)

A Enclave, como já reconhecemos, não escapa à sua natureza millennial. Há vantagens, como saber desinstalar tudo o que desacelera um Windows praticamente por instinto. E há desvantagens, como a falta de contato direto com elementos culturais renegados pela crítica.

Volta e meia, elementos assim – como o cantor Paulo Sérgio – são redescobertos pela internet, e então novas gerações se surpreendem, resgatam e reinterpretam o adormecido. Tratamos de algo parecido quando escrevemos sobre o city pop.

Em uma dessas mixtapes difíceis de mapear por que exatamente surgem nas recomendações do YouTube, conheci Paulo Sérgio, o cantor. Brega, romântico, popular. Morreu precocemente, aos 36, vítima de um derrame cerebral – há exatos 40 anos e 10 dias de quando escrevemos este texto. Tinha lá suas polêmicas.

Inegavelmente parecido com Roberto Carlos, foi comparado com o rei e tachado de imitador. Quando finalmente se conheceram, em 1973, deram-se muito bem – ao menos na frente das câmeras.

Mas o que impactou foi ‘Não creio em mais nada‘, do disco Paulo Sérgio Vol. 4 (1970, Spotify). Arranjos, batida, letra, melodia e até um certo groove: esse manifesto de fatalismo, aparentemente composto por Totó, é uma bomba da mais atemporal resignação.

Não sei o que faço
Se volto agora ou continuo a seguir
Eu sinto cansaço
E já não sei se vale a pena insistir
(…)

Não creio em mais nada
Já me perdi na estrada
Já não procuro carinho
Me acostumei na caminhada sozinho
A vida toda só pisei em espinho
Já descobri que o meu destino é sofrer

Os remixes contemporâneos já começaram a pipocar – aqui e aqui, por exemplo –, e Fernanda Takai, pescando o zeitgeist, lançou uma versão da música em junho.

Para você que está desanimado, soque o play e complemente seu drama existencial com esses 140 segundos de cinismo: hoje não será melhor do que ontem, e sigamos em frente! Boa segunda-feira e uma grande semana para todos nós.

Baú: Richard Yates

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E ela jamais conseguira explicar, nem mesmo compreender, que o que adorava não era o emprego – qualquer emprego serviria –, nem mesmo a independência que o emprego lhe propiciava (embora isso fosse importante para uma mulher sempre à beira do divórcio). No fundo, o que ela adorava e precisava era do trabalho em si. “Trabalho duro”, seu pai sempre dissera, “é o melhor remédio para todos os males do homem… e da mulher”, e ela sempre acreditara nisso. A pressão, a agitação e as luzes do escritório, o almoço rápido entregue numa bandeja, o despacho de papeis, e o atendimento de chamadas telefônicas, o cansaço das horas extras e o grande alívio de tirar os sapatos à noite, num cansaço que sempre a deixava inerte, com força apenas para tomar duas aspirinas, um banho quente, comer um jantar leve e cair na cama – eis a essência do que ela adorava; era isso que a fortificava contra as pressões do casamento e da maternidade. Sem isso, conforme costumava dizer, teria enlouquecido.

Richard Yates, Foi Apenas um Sonho (Rua da Revolução), 1961. Edição brasileira da Alfaguara, 2009.

Walking tours

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Viajar (do Brasil) ao Japão é caro, muito caro. Passagem, hospedagem, câmbio, escalas, comida: há diversos estímulos ao desestímulo. Àqueles que não dispõem do orçamento necessário para essa locomoção resta o YouTube, onde é possível vivenciar as ruas de alhures com imagem, som e movimento em alta definição.

Refiro-me à quantidade crescente de walking tours disponível no YouTube. Neles, alguém caminha pela cidade portando uma câmera e captura o som ambiente do trajeto. Ao longo do caminho, não há qualquer intervenção, interação ou interatividade em geral: o transeunte anda; nós assistimos.

Deixar esse tipo de vídeo na televisão se tornou um hábito pessoal há tempos. Descobri a prática com o canal hongkongmap, em que um sujeito munido de boa vontade trafega por Hong Kong. Não há imersão maior para um vídeo, e os walking tours – espalhados pelo mundo inteiro – permitem sentir uma cidade distante com o encanto de seu movimento orgânico.

Rambalac talvez seja o mais conhecido em relação ao Japão, onde também vale acompanhar o Nippon Wandering TV (por exemplo, no popular Kabukicho). São diversos os contextos, mas me apetecem particularmente as caminhadas noturnas. A imagem de abertura foi retirada deste vídeo aqui, em Shibuya (Tóquio).

Em Singapura, há o Discovery Walking Tours TV. Por sua vez, o POPtravel surge em diversos países europeus, bem como o LivingWalks. De Nova York, conheço o IURETA e. O Nomadic Ambience acumula material (muito bem gravado) do mundo inteiro.

Como um irmão do ASMR, esse gênero de vídeo oferece uma contemplação relaxante; a passividade agradável de acompanhar com os olhos, converter a falta de letramento (de ideogramas, por exemplo) em recepção estética e escutar aquilo que a distância – com ou sem quarentena – não deixa alcançar.

Baú: John Updike sobre Dostoiévski

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Ele estava sempre escrevendo por dinheiro, não apenas pelo dinheiro, mas porque estava desesperado para pagar dívidas. E ele escrevia rápido. E colocava sua dor nas páginas, sua necessidade de respostas, a busca por esperança e a tentativa de obter sentido nas coisas. Sua raiva, sua amargura, suas recriminações. Você não saberia dizer se ele lutava com suas forças ou fraquezas. Ele não escrevia como alguém que tenta criar um grande romance. Ele escrevia como alguém que tenta sobreviver.

John Updike sobre Dostoiévski. Extraído do perfil do escritor André Balaio, que traduziu o trecho do podcast The History of Literature. Obrigado, André!

Sandro Moser: Cachoeira de aguardente

Coluna de ombudsman extraída da edição de agosto de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Há coisas boas e coisas novas para contar. Nosso problema é que as coisas boas não são novas e as coisas novas não são boas, como na anedota. Deste último grupo de notícias, cabe dizer que a partir de hoje me cabe ocupar este excelso espaço. Uma responsabilidade mais pesada do que meus joelhos podem aguentar. 

Há apenas dois outros colegas na mesma função no país e, diante da contramarcha dos acontecimentos, não será surpresa se um ou dois de nós formos extintos em breve. Aquele que escapar será guardião de uma língua morta, o “papagaio de Humboldt” dos suplementos literários. 

A parte em que a coisa melhora — e aposto uma garrafa — é que o sobrevivente será o titular deste espaço, visto que a crise não nos alcança, pois estamos duas jogadas à sua frente, e meu ombudsmanato dura o tempo máximo de uma gestação humana saudável. 

Meu publisher pede que me apresente, me fazendo encarar, aos calafrios, minha medíocre pusilanimidade. Hoje quando me acusam da minha antiga profissão, devolvo o insulto: “Jornalista é você!” e como não quero que minha outra ocupação indefensável se espalhe por aí, me calo.

Me parece mais importante contar que nasci numa minúscula cidade no extremo-sul do Paraná, Porto Vitória, local mágico onde a principal atividade é beber aguardente de Juniperus admirando a cachoeira. Este torpor contemplativo é o sentimento de plenitude utópica que busco em todas as coisas desde que fui arrancado daquele paraíso pelas forças do capitalismo tardio e que, às vezes, a leitura poética me devolve. 

Neste sentido, apenas, talvez reúna as condições objetivas para representar os leitores invulgares deste RelevO que se espalham pelo país todo como uma mancha epidemiológica, mas que, na verdade, são zés-pilintras usando as frestas de luz desta treva hirsuta para tentar seus dribles. 

Gastei tanto espaço falando de meu medos e quase não sobrou tempo para dizer que me emocionou ver na página central do nosso caderno a marquise derrubada do velho Maracanã e, como bom argentinófilo, afirmo que toda poesia platense ou patagónia me comove como o diabo. 

Hoje vou assoprar e assim dizer que morte, izakayas e alucinações são temas que pedem mesmo grave reflexão. Prometo também morder e, afinal, a montanha dará à luz uma ninhada de ratos albinos.